Notas iniciais
Augustus... ai ai ♥

IX

Acordei com o hino da escola. Eram seis da manhã. Eu dormi apenas duas horas. Esperei a maldita música acabar para poder cair no sono mais uma vez e quando finalmente terminou, as garotas estavam fazendo barulho no corredor. O sol nem tinha nascido ainda! Levantei da cama e abri a porta. Dois guardas estavam parados, um de cada lado, garantido a minha segurança ou impedindo que eu fuja. Eu era Jacey Sparks, uma assassina em fuga. Logo fechei a porta e entrei novamente no meu quarto. Procurei pela bateria do meu celular que saiu pulando para algum lugar na noite de ontem. James deveria estar louco de preocupação.
Demorei minutos para achar a bateria que estava dentro de um dos meus sapatos. O celular estava jogado perto da janela e a capinha não estava muito longe. Esperei o aparelho ligar e vi as vinte e quatro mensagens de texto e as treze ligações perdidas. Eu queria ligar para ele, mas eram seis da manhã e não queria acorda-lo. Jamie estudava de tarde então ele dormia até às 10h. Assim como Laila e Amanda, as minhas outras amigas. Sentia saudades delas. Não tinha o que fazer então voltei a dormir. Os guardas ainda estavam na porta do meu quarto, estava segura.

~~*~~

Abri os olhos, o sol estava batendo no meu rosto e me irritando. Levantei e vi as horas, 11h40min. Era a hora do almoço e eu estava completamente faminta. Eu tinha que ir visitar Nate, mas esperaria Libby voltar das aulas. Procurei por uma roupa dentro do armário mas notei que um uniforme novo estava dobrado em cima da cômoda. Eu gelei só de pensar que alguém entrou no meu quarto enquanto eu permanecia dormindo, indefesa. Caminhei até ele, um papel sobrado estava em cima da saia vermelha.

“Entregamos o novo uniforme. mesmo você estando suspensa das aulas, deverá usá-lo todos os dias.
Com toda a atenção, Diretora Ross.”

Ta de brincadeira né? Eu fui furada por cacos de vidro, perseguida por um assassino, vi uma garota pendurada em uma árvore, assisti o meu amigo levar uma facada nas costas, estou sendo seguida por guardas até dentro do banheiro e ainda tenho que usar o uniforme cafona? Não acredito nisso. Vesti o a blusa branca e depois a saia. Coloquei os sapatos pretos da escola. O nome “Bronte” se destacava em vermelho no brasão costurado na camisa. Meu cabelo estava tão bagunçado, que não havia solução a não ser amarrar em um rabo de cavalo. Estava distraída passando rímel nos meus cílios quando alguém bateu na porta.

- Jacey Sparks? Vim a pedido para avisar-lhe que o almoço será servido em cinco minutos e que você precisa se alimentar. Ordens da Sra. Ross. – Era a voz sem emoção de Augustus do outro lado.

- Eu já estou indo. – Disse alto para que ele ouvisse. Terminei de passar o rímel no outro cílio, peguei a chave, abri a porta e a tranquei. Pendurei o pedaço frio de metal em uma corrente no pescoço.

Augustus me esperava no corredor vazio. Na luz do dia, ele parecia ainda mais bonito. Ele tinha umas poucas olheiras, mas isso o tornava ainda melhor. O sol lá fora turvava a visão do horizonte. Deveria estar um calor infernal, até mesmo porque Augustus usava uma camisa branca bem colada ao corpo, deixando saliente os seus músculos do peito e braços. Ai meu deus, onde está o ar? Augustus era de tirar o fôlego.

- Jacey? – Ele perguntou.

- O que?

- Eu disse que precisamos ir senão vai perder o horário do almoço.

- Ah, sim. Claro.

Augustus me acompanhou até o refeitório e ficou servindo de sombra na fila. As garotas do terceiro ano olhavam para ele e depois cochichavam coisas para as amigas ao lado. Alguns olhavam para mim. Augustus chamava muito mais atenção. Bom, assim manteriam as conversas nele, não em mim. Procurei por uma cabeleira ruiva encaracolada na multidão. Libby estava sentada sozinha na mesma mesa que estávamos ontem. Eu, Nate e ela. Senti aquele aperto no coração. Queria saber se Nate estava bem. Nunca pensei que sentiria falta dele me chamando de “Fiona, a ogra”. Eu havia me apegado a Libby e a Nate em apenas um dia? Como isso era possível? Eu mal sei a história deles, mal os conheço e já os considero como amigos.

Libby acenou para mim, do outro lado do refeitório. Os cachos cor de cenoura balançando com o movimento a deixavam com cara de criança. Os grandes olhos castanhos também. – Jacey! Aqui!

Paguei qualquer coisa no refeitório. A cozinheira jogou as coisas rapidamente na minha bandeja e eu saí andando até Libby. Augustus me seguiu. Eu sentei no banco, em frente a Libby. A minha segunda sombra ficou em pé, me vendo comer.

- Oi, eu sou Libby. – ela estendeu a mão para cumprimentar Augustus.

- Augustus – Ele apenas assentiu com a cabeça e sorriu de lado. Libby não se importou e continuou comendo suas batatas fritas. – Ele é esquisito. Por que está te seguindo?

- Eles mandaram Augustus para me vigiar e me proteger ou algo do tipo. – mordi um pedaço de bife. – Ele é um pouco calado, mas eu tô me acostumando. – falei de boca cheia.

- Você não quer se sentar, Augustus? – Libby foi educada.

- Não. – Ele ajeitou os braços.

- Ok.

- Libby, que horas nós vamos visitar o Nate?

- Assim, eu vou sair do colégio lá pelas 16h. A gente pode ir assim que der o sinal, sei lá.

- Combinado.

Terminei de engolir o meu almoço e tagarelei um pouco com Libby sobre sapatos. A garota não tinha o menor senso de moda. Quando essa história toda de assassinato passar, eu prometi que a levaria às compras. O sinal tocou e Libby se levantou para ir à aula. Eu me levantei também e a caminho da saída, senti alguém esbarrar no meu ombro. Virei-me e o garoto dos fones de ouvido do dia anterior estava olhando para mim com os olhos vidrados nos meus.

- Com licença. Você é a Jacey Sparks, né?

Uau, eu nunca tinha ficado famosa assim de um dia para o outro. Na antiga escola todos sabiam o meu nome e a minha ficha completa. Era a melhor coisa do mundo passear pelos corredores e ver que todos os garotos viravam para olhar para mim e que todas as garotas queriam ser como eu. Algumas até nutriam paixões lésbicas por mim. Não quero nem pensar. Nada contra, mas botar aranha pra brigar não é o tipo de coisa que eu faço no fim de semana.

- Eu mesma. Por que?

- É verdade que você cravou uma faca em Nathan Glantz enquanto... você sabe... – ele fez um sinal com os dedos.

- Em primeiro lugar, — comecei. Não acredito que estavam espalhando por aí que Nate e eu tivemos relações mais íntimas. Qual era o problema daqueles alunos dementes? – Eu nunca enfiaria uma faca nas costas de ninguém, a menos que essa pessoa viesse a fazer perguntas idiotas. E em segundo, eu nunca faria nada desse tipo com Nate. O que está pensando!?

- Bom, as garotas disseram que o viram saindo do seu quarto ontem.

Eu não conseguia inventar uma mentira totalmente boa para cobrir aquela situação. – Olha, não é da sua conta o que Nate estava fazendo dentro do meu quarto.

- Então é verdade? Vocês estão ficando?!

- Não!

Ele saiu correndo para uma rodinha de garotos que fizeram um grande “uuuh” enquanto ele contava a história. Mudei de ideia. Acho que seria capaz de enfiar uma faca nas costas de alguém.

- Não fique irritada. Ainda está sendo observada. Comporte-se. – Augustus disse no pé do meu ouvido. Ele teve que se abaixar um pouco para fazer isso. Os pelos do meu braço se eriçaram e eu pude sentir seu hálito quente de menta no meu pescoço. Se ele continuasse a fazer isso, eu poderia enlouquecer. Fingi que nada tinha acontecido e cruzei os braços sob o peito. Continuei a andar, Augustus atrás de mim.

O sol do jardim bateu sobre os meus ombros, procurei algo para fazer que não me cansasse demais. Eu ainda tinha que escolher uma aula para preencher o campo opcional no horário. Resolvi que seria uma boa ideia escolher a aula recreativa para distrair a minha mente dos problemas. Comecei a tomar o rumo para os prédios onde ficavam as salas etc. Augustus sempre andando perto de mim, sem dizer uma palavra. Empurrei a porta de vidro e me dirigi a pena secretária que ficava no começo do corredor. Ela estava comendo um donut. Um donut. Pensei em pular o balcão e rolar no chão por aquele maldito doce delicioso, mas Augustus me imobilizaria.
A mulher tomou um susto ao me ver, enfiou o pedaço de donut que restava de volta à caixa e disse ainda com açúcar na boca: — O que posso ajudar?

- Eu queria saber as opções e me matricular em alguma coisa na aula extra.

- Ah. – Ela pegou um papel debaixo de uma pilha de livros e planilhas. – Aqui estão as suas opções.

Música
— Instrumental
— Coral
Marcenaria
Artes
Eletrônica
Informática
Dança
Teatro
Introdução à arquitetura
Libras
Literatura avançada

Descartei de primeira marcenaria, libras, literatura, artes, eletrônica, introdução à arquitetura, dança e informática. Restaram apenas música e teatro.

- Posso fazer duas aulas, não posso?

- Só depois do horário. Entre as 16h e 18h.

- Ok.

- Mas depois do horário só vamos ter os ensaios do coral.

— Pode ser. Quero me inscrever para fazer teatro e depois música.

Eu gostava muito de tocar piano. Desde pequena. Na antiga escola não tínhamos essa de aulas a mais e etc. Era tudo tão simples e tão fácil...

- Tá bom, qual é o seu nome?

- Jacey Sparks, do primeiro ano.

A mulher parou de digitar no computador e olhou para mim, desconfiada, depois afundou o rosto na tela do computador. – Está matriculada.

- Obrigada. – Ela colocou um pedaço de papel na mesa, indicando o horário da aula e as pessoas que estavam na minha turma.

Seguida por Augustus, saímos de dentro do prédio, busquei um livro dentro do meu dormitório e sentei no gramado da praça. Eles já tinham removido o corpo de Penny da árvore. Mas o sangue ainda estava lá e o furo da faca no casco da árvore também. As fitas amarelas permaneciam englobando a cena do crime, alguns policiais ainda trabalhavam por lá, recolhendo as menores pistas possíveis para encontrar o assassino. Encostei-me em uma árvore mais longe e comecei a ler. Por minha surpresa, Augustus sentou ao meu lado.

- Eu já li esse livro.

- Sério? E você gostou?

- Gostei.

- Como é o fim?

- O assassino é o faxineiro.

- Por que você me contou!? – Falei rindo.

Augustus também riu. – Por que você pediu.

- Era uma pergunta retórica! – Fechei o livro e o coloquei em cima das pernas dobradas. — Quanto tempo trabalha de guarda-costas? – perguntei, queria conhecê-lo melhor.

- Na verdade isso é um estágio.

- E o que leva uma pessoa a fazer um estágio em um lugar onde adolescentes estão morrendo e levando facadas a esmo?

- Eu quero ser policial. Quando soube que haviam matado uma garota por aqui, decidi que seria o lugar perfeito para investigar.

- Mas você não pode fazer isso.

- Por que não? Você fez.

- Sim, eu fiz e meu amigo está agora no hospital porque levou uma facada.

- Ele vai sobreviver.

- Mas ele quase morreu.

- Isso não vem ao caso. Quero ajudar a descobrir quem é esse maníaco. E você vai me dizer o que sabe.

- Sinto muito. Não quero falar.

- Está bem. Uma hora ou outra eu conseguirei tirar isso de você.

O que? – Isso é uma ameaça?

- Não.

- Então o que é?

- Um jeito de colher informações, aprendi com Okkie.

- Okkie é um idiota.

Augustus riu. As nossas conversas não eram muito longas. Ele dava as respostas “sim” e “não” e depois não se esforçava para puxar assunto. Era como se ele não quisesse conversar comigo, ou como se não pudesse. Qual era o problema de Augustus? Será que ele escondia alguma coisa? Em alguns pontos, ele me lembrava bastante Nate. Ambos eram misteriosos e intuitivos.
A tarde ao lado dele passou voando e o sol se escondia no horizonte. O sinal tocou e os alunos começaram a sair. Estava na hora de visitar Nathan

Notas finais
Espero que tenham gostado
~Verônica