Notas iniciais
Por que a amizade é uma coisa tão perfeita?

X

Libby, Augustus e eu estávamos subindo as escadas do dormitório das meninas para pegar algumas coisas e deixar os materiais de Libby. Ela abriu a porta de número 19 e entrou, eu fui até o fim do corredor e esperei sentada no banco perto da janela. Augustus como sempre ficou parado em pé de braços cruzados, investigando qual quer movimento.
A porta do quarto de Libby se abriu novamente e ela saltitou até nós, os cachos pulando na altura do pescoço. – Prontos?

~~*~~

Augustus empurrou as portas de vidro da enfermaria, me dirigi à recepção. – Boa tarde, nós queríamos visitar o nosso amigo Nathan Glantz.

- Vocês uma hora, falem com a doutora que está tomando conta dele se podem entrar.

- Ta legal. – Libby respondeu.

Nós três subimos as escadas e chegamos no corredor onde ficavam as pessoas com ferimentos graves. O único quarto ocupado era do de Nate, que era facilmente reconhecível por causa dos dois guardas parados na porta. A mesma enfermeira da noite anterior estava sentada em atrás de uma pequena mesa. Ela arrumava os papéis bagunçados. – Querem visitar o garoto?

- Sim. – Respondi. – Podemos entrar?

- Esse garoto é o seu guarda-costas pessoal?

- É, ele vai me impedir de tentar qualquer coisa, se é o que está pensando. – Hostilidade? Sempre.

- Ótimo. Podem entrar. – Ela não abaixou a cabeça para mexer nos papéis.

Libby girou a maçaneta e entramos no quarto. As cortinas estavam fechadas e a luz do sol poente coloria o quarto de laranja e dourado. Nate estava acordado, assistindo TV. Um filme de romance. Fala sério. Ele estava com algumas faixas enroladas nas costas e coberto por um lençol branco fino. Ele estava pálido, quase transparente. Havia alguns cortes no rosto dele e nos braços. Os olhos cansados se voltaram para mim.

- Oi Nate! – Libby correu para beijar-lhe o rosto. – Estou muito feliz que você esteja bem. – Ela ficou parada do outro lado da cama.

- Bem? Libby, respirar dói. Eu tô com medo do assassino voltar para me matar.

– Eu sinto muito Nate.

- Tudo bem Jacey. Eu agradeço por você ter me arrastado. Eu teria morrido.

- Você salvou a minha vida primeiro. Eu é que teria morrido. – Ao lado da cama, havia um pequeno sofá para as visitas. Eu me sentei nele e peguei a mão de Nate, que estava muito fria.

- Quem é esse? – ele perguntou, notando Augustus pela primeira vez.

Deixamos que ele mesmo se apresentasse. – Eu sou Augustus Frey. Guarda pessoal de Jacey. Vou protegê-la e vigiá-la todos os dias.

- Viu só o que eu fui arrumar? – sussurrei para que só Nate pudesse ouvir.

- Interessante... Vocês têm alguma ideia de quando eu vou sair daqui? Quero voltar para o meu dormitório. Sinto-me vulnerável deitado nessa cama maldita assistindo o mesmo filme trocentas vezes por dia.

Mesmo levando uma facada nas costas, Nate continuava com o seu gênero resmungão e irônico. O que era uma coisa que eu odiava e gostava ao mesmo tempo. O incrível nele era o seu senso de humor onde tudo parecia estar entrando em caos. Enquanto eu ainda estava me recuperando da morte de Penny, Nate fazia desaparecer temporariamente qualquer medo.

- Nate, cale a boca. Dê graças a Deus por seu único DVD ser de Diários de uma paixão e não de A Lagoa Azul.

Dessa vez, pela minha surpresa, Augustus também acompanhou as risadas de Libby e de Nate, que fez cara feia. – Eu não posso rir Jacey. Pare de contar piadas ruins. – Ele apertou a minha mão.

- Você tá horrível, Nate. – Libby disse. – Parece que você não toma sol há dias.

- Verdade. Parece que você está com anemia ou algo do tipo.

- Os médicos disseram que eu perdi muito sangue, fizeram transfusões hoje cedo. – ele olhou para uma bolsinha de sangue pendurada do lado direito dele com um A+ bem grande escrito em preto. – Não gosto de ter o sangue de outras pessoas correndo em minhas veias.

- Pelo menos tem sangue correndo. – Augustus disse.

Nate olhou para ele com certa hostilidade no olhar, depois ele deu aquele sorriso metidinho de novo. – Tome conta da Jacey, não quero que aconteça o mesmo com ela.

- Eu sei como fazer o meu trabalho.

O que foi isso?

- Não precisa se preocupar Nate. – eu disse.

- Não deixa ela fazer nenhuma coisa burra, ouviu Libby? E você trate de cuidar da Libby também. – ele dizia como se estivesse morrendo e dando ordens para que nós cumpríssemos. Meio que deixando seus últimos pedidos.

- Nate, você está bem?

- Estou.

- Tem certeza? Eu acho que você está preocupado demais. Tente relaxar. – Libby disse. – Ninguém vai tentar entrar aqui com dois armários armados na porta do seu quarto.

- Mas eu não tenho medo de morrer.

Uma coisa que eu aprendi, do pior jeito, é que quando você pensa no assunto, não tem mesmo medo de morrer. Mas na hora, no momento em que você sabe que vai morrer e que nada pode te salvar, você não pensa em mais nada a não ser salvar a sua vida. Custe o que custar. Nate provavelmente estava falando isso para provar a sua masculinidade na frente de Augustus. Se não for por esse motivo, ele estava tentando passar segurança para Libby e para mim. Era quase certeza que todos os alunos estavam com medo de serem assassinados nas esquinas, nos pátios ou nos becos mal iluminados da escola de noite. As pessoas estavam andando em grupos para todos os lugares, inclusive no banheiro. E alguns outros babacas ficavam se achando os machões e dizendo para todos que não têm o menor medo do assassino. Aposto metade do meu cabelo que estes seriam os primeiros a mijar nas calças se estivessem na mesma situação em que Nate e eu estivemos.

- Para de besteira Nate. Olha... Eu trouxe isso para você. – Libby procurou alguma coisa dentro do bolso da saia. Ela tirou um aparelho celular pequeno. – É o meu celular reserva. Caso você se sinta sozinho e queira conversar comigo ou com a Jacey... Falando nisso, não temos o seu número Jay.

Eu passei meu telefone para os dois. – É, caso você ache que alguma coisa estranha aconteceu também.

- Então, ele sempre tem créditos. Não se preocupe com isso. – Libby disse. – Mas não deixe nenhuma enfermeira ver porque não pode usar celular na escola, eu tenho o meu escondido e tal.

- É, eu também.

- Tudo bem. – Nate pegou o celular da mão de Libby e o colocou dentro das faixas amarradas no tórax.

- Por que essas faixas?

- Eu trinquei uma costela. Quando você me jogou da janela, eu bati a lateral em um estilhaço de madeira.

- Me desculpe, mais uma vez.

Nate sorriu. – Não se preocupe. Está tudo bem.

Ficamos ali com Nate até a noite cair e a enfermeira irritante nos expulsar do quarto dizendo que era a hora do jantar dele e que não deveríamos distraí-lo etc etc. Augustus acompanhou a gente até o refeitório onde jantamos os três juntos e com mais o colégio quase inteiro. Depois disso, seguimos para o saguão do dormitório e nos acomodamos no sofá, onde terminamos de assistir a um filme com umas garotas. Após isso, subimos para o segundo andar.

- Jacey, quer dormir no meu quarto? – Libby convidou.

- Não sei. E se o Augustus surtar pensando que eu vou te sufocar de noite com o travesseiro. – “Talvez eu fizesse, se ela falasse coisas muito idiotas”

- Acho que não vai dar nada. Não estava no formulário quando eu assinei que eu não poderia dormir no quarto de outra amiga ou vice-versa.

Libby me chamou de amiga? Por mais que tenha sido ela, me senti feliz. Não sei bem por quê. – Ah então tudo bem.

- Vá pegar as suas coisas no seu quarto. Depois você bate lá na minha porta. – Libby entrou no quarto e eu segui até o de número 28, que era o meu.

Tirei a corda do meu pescoço com a chave pendurada e abri a porta. Meu quarto estava exatamente como eu havia deixado: bagunçado. Dobrei o cobertor fino e empilhei com o travesseiro. Já estava quase tirando a blusa para vestir o pijama quando notei que a porta do meu quarto estava entre aberta e Augustus poderia estar me olhando ou algo do tipo. Chutei a porta e me troquei.

Tranquei o quarto com a chave e a amarrei no pescoço. Augustus segurava as minhas coisas.

- Você não me disse para onde está indo. – Ele disse.

- Não preciso dizer. Você não é a minha mãe.

- Mas eu sou responsável pela sua vida. E não fale assim comigo.

- Você não é responsável se eu me suicidar.

- Não, mas eu falharei na missão.

- Ta.

Ficamos em silencio enquanto andávamos pelo corredor, as minhas pantufas cor-de-rosa ecoando no piso polido. – Você ainda não disse para onde vai.

- Ah eu vou dormir fora! Qual o problema? Você quer dormir junto comigo também? Já não basta me seguir por todos os cantos?!

Ele ficou em silencio por alguns segundos. – Não pode dormir fora do seu dormitório.

Cheguei até a porta 19 e bati três vezes na madeira. – Libby! Sou eu! – Virei-me para encarar os olhos azuis de Augustus. – Não está no regulamento que eu não posso dormir no quarto de outra amiga.

- Mas se fosse essa a intenção, vocês teriam companheiras de quarto.

A porta se abriu e uma ruiva baixa com óculos imensos surgiu. – Pode entrar.

- Ah, já vou indo, boa noite Augustus.

- Espere. Você não pode... – ele colocou a mão para impedir a porta de fechar.

- Não, você é que não pode entrar no quarto de uma garota. Boa noite, Augustus. – Bati a porta na cara dele.

Libby ficou me encarando com os olhos arregalados atrás dos óculos fundo de garrafa, o que ficava ainda mais bizarro toda vez que ela piscava. – Por que fez isso? Augustus é legal.

- Já ouviu aquela expressão... “pisa que eles correm atrás e corre atrás que eles pisam”?

- Jacey, você é muito má. Ele não merecia esse tipo de tratamento. É só o emprego dele.

Sim, depois de ouvir isso, eu senti uma leve ponta de arrependimento. Pensei em abrir a porta e pedir desculpas, mas ai eu não me chamaria Jacey Sparks. – Depois a gente se acerta de novo.

- Assim espero. Vamos dormir porque amanhã eu tenho que ir para a escola.

Arrumamos a cama, eu dormiria em uma metade e a Libby na outra. Era meio gay isso mas o medo era maior. Quando apagamos a luz, eu fiquei encarando a parede do quarto de Libby, decorada com borboletas de papel e fotografias. Ela tirou os óculos e os olhos voltaram ao tamanho normal de um ser humano.

- Jacey?

- O quê?

- Será que Nate vai demorar muito para sair do hospital?

- Acho que sim.

- Será que ele está bem?

- Mande uma mensagem.

- Boa ideia.

Libby pegou o celular em cima da mesinha ao lado da cama, para isso, ela se jogou por cima de mim e me esmagou sob ela. – Ai! Libby!

- Desculpe.

Ela digitou alguma coisa. Esperamos alguns minutos e Nate respondeu.

O que foi?
Nate. 23h14min P.M.

Libby digitou outra mensagem, perguntando se ele estaria bem. Ele respondeu quase que imediatamente.

Estou sim. Me acordou.
Nate. 23h18min P.M.

- Ele estava dormindo. Ops! – Libby disse. – Vou mandar boa noite e pedir desculpas.

- Podemos dormir agora, Libby?

- Tá bem.

Sem perceber, caí no sono. Em mais uma noite com pesadelos.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
~Verônica