A Garota De Bronte
8 VII
Notas iniciais
Nate e eu estávamos parados na frente de um alçapão. Ele puxou a tampa de madeira disfarçada de tapete.
- Olha só. É uma passagem secreta.
Eu me surpreendia cada vez mais com aquela escola. – Nate, como você conseguiu achar isso?
Nate mirou os olhos castanhos bem escuros nos meus. – Eu segui os rastros. – ele ergueu o dedo indicador em direção ao chão empoeirado. Estava cheio de marcas de passagens, como se só aquele trecho fosse usado, e muitas vezes.
- Por que alguém faria isso? – perguntei.
- Alguém que quer andar sem ser visto. – Nate pulou dentro do alçapão. – Desça aqui.
Eu não entraria ali de jeito nenhum. Motivos:
a) Eu não sabia o que poderia ter ai dentro
b) Eu estaria em um lugar sozinha com Nate, longe de qualquer alcance de som, onde ninguém escutaria se eu gritasse.
c) Eu odiava o uniforme, mas era o único que eu tinha e não pretendo amarrotá-lo.
- De jeito nenhum. Deve ter duzentas espécies de ratos ai dentro. Sem contar as baratas voadoras, lagartixas e aranhas.
Nate revirou os olhos. – Para de ser fresca Jacey, desce logo.
- Eu não vou descer ai.
- Jacey, e se o assassino voltar e te encontrar aqui? Ele vai te matar porque alguém descobriu seu segredo. Ele já matou Penny, por que teria piedade de você?
Ta bom. Agora eu fiquei com medo. Nate era bom nisso. De jeito nenhum, eu queria acabar pendurada em uma árvore com uma faca cravada no peito. – Tá, eu desço. Só me ajuda por causa da saia.
Eu sentei na beirada no alçapão e Nate pegou a minha cintura para me ajudar a descer. O cheiro era de terra e as paredes não eram cimentadas. Havia poças de água e de barro no chão e o som das goteiras ecoava corredor adentro. Segurei um grito quando passou correndo por cima do meu pé.
O túnel era iluminado por lâmpadas fracas penduradas periodicamente de oito em oito metros. Nate estava andando ao meu lado, ele virava para trás muitas vezes para ver se estávamos sendo seguidos. O ar do túnel era úmido e em muitas partes, tinha cheiro de mofo.
- Onde será que isso leva?
- Não sei Jacey, por isso estamos aqui.
- Não seria melhor se chamássemos os guardinhas para checar? É perigoso.
- E eles perguntariam o que estávamos fazendo dentro dessa sala depois de terem me visto no seu dormitório. Hmmm eu acho que isso resultaria em mais problemas.
- Não quero mais problemas, mas com certeza é mais seguro que andar sozinha com você dentro de um túnel desconhecido.
E mais uma vez, Nate tinha razão. Não achei que encontraríamos realmente alguma coisa naquele corredor quando propus vasculhar. Na verdade pensei encontrar os gabaritos das provas ou coisas caretas de professor.
- Não quero mais problemas, mas com certeza é mais seguro que andar sozinha com você dentro de um túnel desconhecido.
Chegamos perto de uma goteira, água pingava de um cano e cheirava mal. Muito mal. Uma lâmpada na frente começou a balançar, Nate e eu continuamos andando pelo túnel.
- Sentiu isso? – Nate indagou.
- Senti o que?
- Essa corrente de ar.
- Não.
- Tem uma saída aqui perto.
Eu nunca teria pensado nisso. Odeio ter que admitir, mas Nate era muito esperto, muito ágil e muito corajoso. Eu parecia estar morrendo de medo enquanto ele agia normalmente, destemido. A conversa entre nós morria. As paredes daquele lugar queriam me engolir. Soterrar-me ali.
- Jacey, olha! – Ele gritou de repente e apontou para o fundo do túnel. Eu pulei com o aumento de voz repentino.
Eu me virei como em câmera lenta, senti o ar ao meu redor ficar diferente e a sensação me medo me dominou por completo. As luzes estavam se apagando. Uma por uma. Não era possível ver, mas sentir e ouvir que alguém se aproximava. Andando camuflado pelas sombras. Se misturando ao breu. Não esperei Nate mandar, corri na frente dele. Os passos do assassino se misturavam com o barulho dos nossos. Comecei a chorar e gritar para quem quer que possa ouvir que estava em perigo. Nathan corria atrás de mim, ele não gritava, não chorava, ele ficou apenas pálido. O pânico que sentia era tão grande que poderia correr uma maratona sem se cansar se fosse preciso. Eu não pensava. Eu só agia. Só sabia pensar no valor que a minha vida valia. Arrisquei olhar para trás, havia quatro luzes acesas de diferença entre o assassino e eu. Agora três. Eu não via Nate em lugar nenhum. Até ele gritar.
- Jacey! Aqui! – O rosto dele saiu de um vão no alto da parede do túnel. Era um retângulo cimentado. Um pouco de luz e ar puro escapavam de lá.
Duas lâmpadas.
Eu voltei correndo e cheguei ao vão assim que mais uma se apagou.
Uma lâmpada.
- Sobe! – Nate desceu para me ajudar a subir no buraco, alto demais para que eu alcançasse sozinha. Ele me empurrou para cima de qualquer jeito e eu consegui subir. Entrei rapidamente e estiquei o braço para pegar o dele, e ajudá-lo a subir. Ele apertou a minha mão com força.
A última lâmpada se apagou.
- NATE! – O braço dele ainda estava segurando o meu. Puxei-o para dentro com toda a força que tinha. Nate soltou um grito que conseguiu paralisar os meus pensamentos. Mas puxei ainda mais forte.
O corpo dele caiu sobre o meu. Empurrei o alçapão rapidamente para tentar escapar e saímos dentro de um pequeno cubículo com uma privada. No começo, a luz começou a incomodar os meus olhos, acostumados com falta dela no túnel. Coloquei as mãos nas costas de Nate e senti algo molhado. Quando estendi as mãos na luz, vi a cor vermelha de sangue. Ele estava acordado, mas não tinha fôlego. Saímos de dentro de um tubo de ventilação. O assassino até agora não nos seguiu.
- Nate? Você está bem?
Ele não conseguia falar, saía um pouco de sangue do furo nas costas dele. Ele sentia dor. E eu sentia medo. Medo de perdê-lo.
- Vai ficar tudo bem, Nate. Eu juro! Vamos sair daqui.
Arrastei Nate, que respirava com dificuldade. Abri a porta do banheiro, estava vazio. Vendo-me pelo espelho, notei que a camisa branca dele estava empapada de sangue, e a minha estava começando a ficar também. Minha saia e joelhos estavam sujos, mas não podia ficar me admirando enquanto Nate morria. Deixávamos um rastro de sujeira por onde andávamos. Quando finalmente chegamos à porta de saída de banheiro, uma rajada de vento frio congelou a minha alma. Estávamos em uma grande biblioteca. Que estava vazia.
A luz da lua invadia o grande salão, sendo a única fonte de luz. Todas as janelas estavam fechadas. Gritei por ajuda. Nada.
Arrastei Nate até a porta e tentei abri-la. Estava trancada. Ouvi a voz de Nate, muito fraca.
— Pegue um daqueles livros, ou uma cadeira. Quebre os vidros.
Deixei Nate em uma das cadeiras e arremessei um dicionário tão pesado quanto Nate na janela. O vidro se estilhaçou e ouvimos cachorros latindo. Busquei Nate na cadeira e tentei pular. Ele gemeu de dor. – Não vou conseguir. Deixe-me aqui e vá buscar ajuda.
- Não. Eu não posso deixar você aqui. O Assassino vai te matar. Nate, você vai ficar bem só tem que... – comecei a chorar. Que ótimo. – só tem que parar de sangrar!
A luz do banheiro se apagou. A sensação de pânico voltou. Puxei Nate rapidamente, ele gritou de dor. Corri o máximo que pude sustentando o meu corpo e o dele até a janela. Sem delongas, me joguei junto com ele. Nate chorava e gritava de dor, e isso partia o meu coração.
- SOCORRO! – Comecei a gritar – SOCORRO!
Mais cachorros latiram e vi relances de lanternas. Andei em direção aos guardas, gritando ainda mais. Virei-me para ver se estava sendo seguida e vi a silhueta de uma pessoa parada na janela da biblioteca. Um brilho metálico alongado reluzia em suas mãos. Era a faca que ele usou para apunhalar Nate. Era idêntica com a faca que ele usou para pendurar o corpo de Penny na árvore. Senti um bolo na garganta e fiz um escândalo. Estava gritando de medo. De pavor. Aquilo me traumatizou. Foi coisa demais para um dia só. Lágrimas escorriam lavando a sujeira do meu rosto. No momento não sabia se estava chorando de medo ou de alívio por ter sobrevivido. Não podia dizer o mesmo sobre Nate. O guarda mirou a lanterna no meu rosto.
- CHAMEM A AMBULÂNCIA! – Ele gritou.
~~*~~
Eu estava parada, sentada no banco do prédio da enfermaria da escola. Eles tinham um pequeno hospital dentro do campus. Libby estava ao meu lado. Eu bebericava um pouco de chocolate quente. Não queria comer nada, mas era só para não ficar parada. A tentativa de aquecer o meu corpo dominado pelo desespero falhou. Nem todo o chocolate quente do mundo poderia melhorar o meu dia. Libby mexia no meu cabelo enquanto dizia palavras confortantes. Tirando alguns ralados e uns cacos pequenos de vidro que entraram nas minhas costas, eu não estava gravemente ferida. Quando chegamos à enfermaria, levaram Nate em uma maca. Não vou esquecer a cara que a enfermeira fez ao ver o corte nas costas dele. Ela torceu o nariz, indicando que as chances de Nate sobreviver eram pouquíssimas. Até então, eu estava esperando que me chamassem para poder visitar Nate, caso ele sobrevivesse. E agradecê-lo por ter salvo a minha vida.
- Ele vai ficar bem, Jacey. Nate é forte. – Libby passava as mãos pelas minhas costas.
Eu estava com os olhos inchados e a cabeça doendo de tanta água que perdi no meu organismo. Virei meu rosto para ela e disse com voz fraca. – Eu devo a ele a minha vida, Libby.
- Se você quiser, pode dormir no meu quarto hoje. – Ela me encarou com aqueles grandes olhos castanhos – Ou eu posso ficar sem dormir. Se você quiser eu fico de guarda a noite toda para nada de ruim acontecer. Eu juro.
- Obrigada Libby. – abracei a garota com os cabelos cor de cenoura e soube daquele momento para frente, que uma amizade forte acabara de se formar.
A enfermeira olhou para nós. – Jacey e Libby?
Assentimos juntas.
Meu coração palpitava forte no peito, será que o de Nate estaria fazendo o mesmo?
Notas finais
~Veronica
Fale com o autor