A Garota De Bronte
7 VI
Notas iniciais
Espero que goste!
VI
Mais uma pedra foi lançada e seguida de um “psiu” familiar. Tampei a boca para segurar o grito e deixei todo o ar sair pelo nariz. Eu tinha parado de respirar e não percebi. Ainda olhando para a janela, reconheci a pessoa. Era Nate.
Abri a janela.
– O que está fazendo aqui? Quase me matou de susto! – disse com a mão no coração.
– Preciso que você desça aqui. Pensei em umas coisas enquanto estava no dormitório e preciso te falar. Não tinha o seu número então resolvi arriscar e vir aqui.
– Não vou conseguir pular a janela. Vou quebrar uma perna. No mínimo.
– Ah que isso! Eu consegui pular a minha do meu dormitório. – Ele olhou para os lados, fez um sinal com as mãos e voltou para dentro dos arbustos. Dois guardas surgiram, virando a esquina do prédio, andavam com lanternas fortes. Escondi-me atrás das persianas para que não me vissem. Um deles, o mais magro, disse para o outro.
– Tem certeza de que ouviu algo, Benjamin?
– Sim, eu juro que ouvi vozes.
Benjamin mirou a lanterna para as árvores procurando por qualquer sinal de movimento. – Eu acho que se escondeu ali, ou fugiu.
– Isso é um dormitório, cheio de garotas. Elas conversam muito. Acho que deve ter ouvido alguma delas falando com uma amiga ou sei lá.
– Não custa nada checar, não é mesmo?
Fiquei com medo por Nate, mas a brilhante ideia de aparecer debaixo da minha janela foi dele. O guarda mirou a lanterna para o arbusto em que Nate se escondeu, mas ele desapareceu. Como? Não faço ideia.
– Viu? Não tem nada aí.
– Está bem, vamos dar a volta e comer alguma coisa.
Os dois guardas se afastaram com passos lentos, o som dos sapatos preguiçosos batendo no concreto sumia aos poucos até desaparecer de vez. Para a minha surpresa, Nate pulou de uma das árvores e caiu em pé no gramado, sem fazer muitos barulhos. – Essa foi por pouco.
– Você é louco. Como soube que essa era a janela do meu quarto?
– Vi você andando e depois vi você parada. Estou aqui faz poucos minutos. – Ele andou maia para longe do prédio. – Vai descer ou não?
– Os guardas não vão me deixar sair. Fala daí.
– O que eu quero te dizer, tem que ser dito em voz baixa. As pessoas não podem ouvir.
– Então sobe aqui, tem um cano ali do lado, eu te puxo se precisar de ajuda.
Grande péssima ideia ter sugerido isso. Pensei que Nate não fosse capaz de fazer essa besteira, mas ele já tinha começado a escalar a parede. Ele era ágil. Subia com tanta rapidez que parecia ter feito isso a vida toda.
Nate alcançou o parapeito da minha janela e eu o puxei para dentro do quarto. Pedi para que ele falasse baixo. As garotas dos outros quartos poderiam ouvir. – O que tem para me dizer?
O garoto alto se deitou na minha cama e colocou os abraços atrás da cabeça. E para completar bateu com a palma da mão três vezes no colchão para que eu me sentasse ao seu lado. Logicamente, puxei a cadeira da penteadeira e sentei. Havia uma folha de árvore presa em uma mecha do cabelo preto e encaracolado de Nate. Pensei rapidamente no tamanho do problema que arrumaria caso um dos guardas abrissem a porta e vissem Nate ali, dentro do meu quarto. Ele seria punido e eu também.
– Eu estava pensando que ninguém ouviu os gritos de Penny. E ela não estava usando o uniforme da escola.
– E o que isso tem a ver? Tem uma boa distância dos prédios até a praça. – Demorei um pouco para entender, Nate estava me encarando. – Espera. Se ela não estava usando o uniforme, quer dizer que ela não foi à aula.
– E ela foi assassinada dentro de algum dos prédios. E ninguém notou.
– Mas não faz sentido. Os amigos sentiriam falta dela.
– Eu ouvi um garoto do meu dormitório dizer que Taylor, a amiga que foi a ultima pessoa que viu Penny antes de morrer, disse que ela tinha dormido demais e não acordou com o hino. Quando ela desceu para tomar café, Penny estava andando até os chuveiros.
– O dormitório inteiro estava vazio. E o banheiro foi o lugar perfeito para matá-la. O assassino pendurou na praça quando estávamos no auditório, mas por quê pendurar ela lá?
– Pode ser algum tipo de aviso. De que vai matar mais gente.
– A polícia já sabe disso?
– Já, os garotos deram esse depoimento.
Ouvi batidas na porta e o meu coração parou.
Nate olhou para mim com uma pergunta no olhar “o que eu faço?”. Apontei o guarda-roupa para ele. Uma voz saiu do outro lado da porta.
– Jacey? Sou eu, Libby. Alyss está comigo.
Elas tinham mesmo que aparecer por lá justo agora?
– Já vai. – fechei a janela e ajeitei a cama.
Abri a porta.
Alyss e Libby ainda vestiam os uniformes e a reitora do dormitório estava logo atrás delas, que começou a falar. – Elas disseram que ouviram vozes vindas do seu quarto e um grito. Você viu alguma coisa suspeita?
– Não, eu estava falando eu telefone e gritei por que ele caiu em cima do meu pé. – improvisei e apontei o celular espatifado no chão.
– Está certo...
– Nossa que cheiro é esse? – Libby farejou o ar. – Eu conheço esse perfume.
– Eu também. É perfume de garoto. – A reitora abriu espaço entre as duas garotas e entrou no meu quarto. Ela se abaixou e olhou debaixo da minha cama, vasculhou atrás da porta e abriu o guarda-roupa. Nate encarou a reitora e saiu de dentro do armário. – Vocês dois, podem me acompanhar. Agora!
~~*~~
Quando chegamos ao prédio da administração, a reitora nos deixou nas mãos do recepcionista George. O mesmo que me impediu de entrar naquele corredor horas antes. A sala estava com cheiro de café e também muito abafada. O telefone não parava de tocar e George não estava dando conta.
– Vão pensar que nós estávamos nos pegando ou sei lá. – “coisa que eu não faria, jamais” pensei – a vice-diretora vai ficar feliz em me ver duas vezes no sala dela no mesmo dia.
Nate sorriu do seu jeito metido, mas logo ficou sério. Eu estava tentando descontrair um pouco antes de levar uma bronca daquelas. Mas o dia foi grande demais.
George, o recepcionista abriu uma porta e pediu para que eu e Nate entrássemos – sigam esse corredor até o fim e entrem na ultima porta a direita. A vice-diretora Ross não vai poder atender vocês porque ela está em reunião. – ele voltou a se sentar atrás do balcão.
Eu estava novamente dentro dos corredores brancos e apertados do prédio administrativo. Seguimos a rota que George mandou, na porta lia-se “Conselheira Sarah Green”, Nate abriu a porta e nós entramos.
– Sentem-se. – a moça era magra e o tinha os cabelos curtos até a altura das orelhas. – Seus nomes?
– Nathan Glantz.
– Jacey Sparks.
Ela anotou na planilha. – Primeiro ano, não é? – olhou para nós e confirmamos. – O que você estava fazendo no dormitório das garotas?
– Eu fui... – Nate olhou para mim – fui ver Jacey.
Sarah levantou a sobrancelha castanha perfeita. – Ver por quê? Não ficaram o dia inteiro estudando juntos, isso não é o bastante?
– Eu fiquei preocupado por causa dos acontecimentos de hoje.
– Você sabe que isso é contra as regras da escola, não é? – Ela dirigiu os olhos frios para mim. – Jacey, foi por esse motivo que ele entrou no seu quarto?
Nate estava mentindo e precisava de apoio. – Sim.
– Ele não tentou nada? – O que ela estava pensando? Se Nate tentasse algo, iria voltar para o dormitório cheio de hematomas.
– Não, ele foi apenas perguntar se eu estava bem.
– Certo. Vou anotar aqui, como não tenho provas, os dois serão punidos com uma hora de serviços por dia durante duas semanas. Acho que é o suficiente para nunca mais repetirem isso. Já podem ir, Marietta vai chamá-los para cumprir os deveres. Tomem cuidado, peçam para que algum guarda os acompanhe até os dormitórios.
Nate e eu nos levantamos e saímos da pequena sala. O corredor estava vazio.
– Nate? – sussurrei. – topa me ajudar em uma coisa? – lembrei daquele corredor que vi mais cedo.
– Ajudar no quê?
– Investigar um corredor suspeito.
– Vamos nos meter em mais problemas, Jacey.
– Vem. – Puxei Nate pelo braço. Seguimos em frente e viramos à direita. Andamos mais um pouco até o fim do corredor e saímos na bifurcação. – É aqui.
Nate e eu estávamos quase com os pés no inicio quando ouvimos vozes vindas de uma sala no fim do corredor. A porta da sala da vice-diretora Ross. Eram os pais de Penny. A mãe tinha os cabelos iguais ao da filha. Não pude ver mais porque Nate me puxou e abriu a porta do almoxarifado. Espremidos dentro da salinha, mal conseguíamos respirar. Eu estava com o nariz esmagado no peito de Nate e as minhas costas estavam pressionadas na estante coberta por pilhas e mais pilhas de papel sulfite. Aquele lugar tinha cheiro de naftalina, mas o perfume de Nate chegava primeiro ao meu nariz.
– Eu não consigo respirar...
Nate cobriu a minha boca com a mão. Não sei como ele teve espaço para fazer isso. As vozes foram ficando cada vez mais altas. A mãe de Penny falava com voz de choro.
– Eu quero esse assassino morto ou eu mesma o matarei com as próprias mãos!
– Acalme-se, Sra. Allen, venha beber um pouco de café. – a Sra. Ross tentava acalmá-la.
– Eu não quero café! Quero o direito de ter o corpo da minha filha! E poder enterrá-la!
– A perícia investigará o corpo para procurar pistas. Não podemos fazer nada quanto a isso. É só ter paciência.
As vozes foram diminuindo cada vez mais, conforme se afastavam. Quando desapareceram, Nate e eu pulamos de dentro do almoxarifado e respiramos ar puro. Puxei Nate para dentro do corredor e testei a primeira porta.
– Está trancada.
Nate girou a maçaneta de uma outra e ela se abriu. – Essa ta aberta.
A porta rangeu. Nós entramos e o quarto estava repleto de pilhas de papel, caixas de papelão, instrumentos musicais quebrados, pompons, bandeiras, cenários de teatros, troféus etc. Era um imenso salão que servia de depósito. Nate foi vasculhar para o outro lado. Apertei o interruptor e uma luz amarela fraca se acendeu. Um quadro dentro de uma caixa chamou minha atenção, estava um pouco empoeirada. Assoprei o pó e observei a imagem. Era uma antiga turma do colégio. Reconheci uma mulher alta com o cabelo preto da mesma cor que o meu e os mesmos olhos verdes vazios. Era a minha mãe.
– Nate, olha o que eu encontrei!
– Acho melhor você vir aqui Jay, é importante.
Segui a voz dele e o encontrei abaixado, ele se levantou e viu o quadro na minha mão.
– Olha, parece a Penny.
Nate apontou para uma garota de cabelos claros e os olhos castanhos grandes.
– É mesmo, será que é a mãe dela? Ou tia sei lá? Esta aqui é a minha mãe, veja.
– Interessante. Agora olhe isto aqui. – Nate saiu da frente e não acreditei no que vi. Faria aquilo parte do assassinado de Penny?
Notas finais
Espero que tenha gostado.
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