Notas iniciais
Demorei mas foi. Espero que gostem.

Uma faca mantinha o corpo preso à árvore. A faca, ou eu diria facão, abriu uma fissura na garota que ia do umbigo até o peito, onde a própria arma do crime jazia. Os cabelos e os pés dela balançavam de acordo com o vento, que trazia o cheiro de sangue e carne. Havia uma poça de líquido escarlate no gramado e as vísceras estavam tentando escapar pelo corte. Um bom motivo para as pessoas vomitarem. Ninguém ousou chegar perto, mas quando a vice-diretora chegou ao local, pediu para que todos se afastassem. Ela puxou um celular de dentro do bolso da saia e discou para a polícia com as mãos trêmulas. Libby ao meu lado, estava em prantos. Nate olhava para a ponta dos sapatos. Eu não conhecia a garota, mas isso não queria dizer que não fiquei emocionada ou até mesmo triste.
Os amigos dela, ou que provavelmente seriam, estavam jogados no chão, gritando mais que chorando e culpando Deus e o diabo pela morte da garota. Uma delas, que vestia saia azul marinho (do comitê de boas vindas), abraçava um jovem de seus dezessete anos. A amiga dizia palavras consoladoras enquanto chorava também, não tanto quanto ele, que estava chorando até pelo nariz.

A vice-diretora chamou a atenção de todos. – Quero que todos voltem até seus respectivos dormitórios. – Ela não sabia o que fazer. Não sabia como lidar com aquele tipo de situação. Isso era visível pelo jeito que estava tremendo e pela voz que falhava. – Ninguém entra ou sai dessa escola até a polícia chegar e interrogar cada aluno!

Um menino baixo de óculos estendeu o braço. – Mas e o almoço?

A vice-diretora ajeitou o terno feminino. – Sim, os alunos podem ir para o refeitório. Mas ninguém sairá da escola! E ninguém andará sem ser visto. A polícia vai chegar em alguns minutos, não entrem em pânico. – ela chamou Marietta e pediu para que levasse os alunos que estavam chorando para longe dali. A mulherzinha começou a empurrar todos para longe. Libby ainda estava chorando, pouco. Nate encostou o braço pelos ombros dela. Como se ele fosse amigo de anos, consolando a pobre Libby. Eca!

– Você a conhecia, Libby? – perguntei, de saco cheio de tanto chororô.

– Eu nunca a tinha visto na vida. – ela limpou o nariz.

Como assim? Hãn? Eu não entendi. – Você nunca viu a garota na vida e está ai chorando. Por quê?

– Desculpa se é a primeira vez que vi alguém dilacerando, pendurado em uma árvore. – Ela não chorava como antes. – Coitadinha... Morrer daquele jeito... Tão jovem...

– Não fique assim, Libby. Eu também fiquei emocionado. – Nate colocou o braço envolta dos ombros pequenos de Libby. – Seja mais delicada Jacey, é difícil para algumas pessoas. Eu conhecia a garota que morreu. Ela não era o tipo de gente legal, mas ninguém merece morrer no primeiro dia de aula.

– Eu estou com medo. – Libby disse. – Por que alguém mataria um aluno?

Nós começamos a caminhar para o refeitório. Marietta estava gritando para todos saírem de perto da cena do crime. Não era preciso porque muita gente nem aguentou ver. Alguns viram e voltaram correndo para dentro da escola.

– Eu não sei, mas a pessoa que matou deve ter os seus motivos, ninguém mata por matar. – Exceto psicopatas e aquelas pessoas masoquistas. O que não poderia ser o caso, Nate mesmo disse que a garota não era do tipo “legal”. Provavelmente algum aluno com transtornos mentais resolveu se vingar. Será?

– Eu também estou com medo. – Nate parecia preocupado. Ele não estava mais sorrindo do jeito metidinho dele. – Os pais vão tirar a maioria dos alunos da escola. Ninguém vai querer que os filhos estudem em um lugar cheio de psicopatas.

Discordei. – A diretora disse que ninguém sairia da escola por um bom tempo. A polícia não vai deixar ninguém sair daqui até acharem o assassino. – agora sim, estava praticamente cagando nas calças de tanto medo. – E se ele matar mais alguém?

– É isso que eu temo. O certo seria fechar a escola para investigações. – Nesse ponto, Nate tinha razão.

– Mas e se o assassino fugisse? – Libby perguntou. – Quer dizer, ele pode ser qualquer um de nós. Gente menor de idade também sabe matar.

Eles estavam me assustando. – Vamos parar de falar nesse assunto? Eu estou com fome.

– Não sei se quero almoçar depois de ver aquela cena. – Nate disse.

– Eu também não. – Libby concordou.

– Gente, a vida continua. Vamos logo, o refeitório está ali na frente.

Cumprimos a distancia que faltava até o prédio de dois andares, o mais baixo da escola e o mais colorido. Empurrei a porta e o barulho de conversa invadiu os meus ouvidos. Todos estavam falando da menina que foi assassinada. Peguei a fila do almoço e os dois estavam andando por perto. Libby começou a falar para Nate o quanto gostava de ser vegetariana e os maus que a carne bovina faz no organismo e etc. Não sei como Nate conseguia aguentar Libby. Eu me surpreendi por não ter a mandado ir pastar ainda. Talvez no fundo, eu gostasse um pouco dela, mas só um pouco. E bem lá no fundo mesmo.
A fila não estava tão grande, e por sorte as mesas também não estavam tão lotadas. Os alunos que estavam chorando foram enxotados para dentro do refeitório. Os olhos de muitos deles ainda pingavam lágrimas, outros com a cara inchada se recusavam a comer por simplesmente terem perdido a fome. Eu estava tentando não pensar no que tinha visto. Senti aflição em ver todo aquele sangue. Senti vontade de gritar, de me esconder, de me proteger de qualquer mal. Senti medo de ser a próxima. Senti pena, ódio daquela crueldade. Senti medo. Eu mal entrara na escola e no meu primeiro dia de aula, já quis pular os muros e fugir para nunca mais voltar. A desconfiança nas pessoas que andavam por mim crescia cada vez mais. Será que eu poderia estar ficando paranoica? Eu não confiava em ninguém. Depois do que vi na praça, não me arriscaria a tentar. Libby parecia ser inocente, ela não mataria ninguém. Seria mais capaz de se matar por acidente. Nate é misterioso. É muito cedo ainda para fazer julgamentos, porém nunca é cedo demais para tomar precauções.

Minha vez na fila chegou. – O que vai querer? – a cozinheira perguntou. – Você pode escolher um tipo de salada, um tipo de carne e uma fruta e um suco.

Em três meses eu estaria anoréxica. Eles regulavam o que eu comeria, não estava acostumada a comer pouca coisa. – Pode ser essa salada de tomates, uma maçã, frango e suco de melancia. – A mulher jogou as coisas na minha bandeja e mais uma porção de arroz. Eu escolhi frango porque se pedisse carne bovina provavelmente pensaria na carne da garota na árvore.

Esperei Libby e Nate, quando terminaram, sentamos-nos à mesa do canto. Nate sentou do meu lado e Libby na minha frente. O silêncio entre nós estava me incomodando. A ruiva não tocou na comida e Nate pegou um copo cheio de amoras.

***

O almoço foi quase como um jantar de velório. Depois, os policiais chegaram e cercaram a praça com fitas amarelas e avisos. Mandaram todos os alunos para os dormitórios, estavam chamando os alunos que faltaram às aulas. Eu me situava sentada no banco do andar térreo dormitório. Alyss, a garota loira que eu tinha visto hoje de manhã, estava lixando as unhas cumpridas. Ela se mantia tão tranquila que nem parecia ter visto uma garota empalada em uma árvore no começo da tarde. Libby mordia a ponta do lápis ao meu lado, enquanto esperava a sua vez, ela escrevia no seu diário.

– Você a conhecia? – perguntei.

– Eu sei quem é. Ela se chamava Penny. Líder de torcida, já sabe o tipo? Esnobe. Burra. – ela passou a mão no cabelo liso impecável. – Não vai fazer falta.

Alyss era quase tão cruel quanto eu. – Você viu a cena? Quer dizer... – Libby começou.

– Penny empalada na árvore? Sim, eu vi. Foi nojento. Nunca tinha visto tanto sangue.

O policial saiu da sala da reitora e chamou a próxima garota da lista.
– Alyss Scotts.
– Minha vez, até mais Jacey. – ela acenou com os dedos alongados.

Já estava escurecendo. O céu estava ficando cada vez mais azul e o sol já havia desaparecido há minutos quando o policial alto com óculos escuros me chamou para responder as perguntas. Ele abriu a porta para mim e me pediu para sentar na cadeira a frente dele.

– Você conhecia Penny Allen? – ele cruzou os dedos em cima da mesa.

– Não.

– Tem ideia de alguém que poderia ter a matado?

– Não.

– Onde estava entre as 10h e 12h?

– Na sala de aula.

– Há alguém que pode provar isso?

Fala sério. Vinte pessoas são o suficiente? – A minha turma e os professores. Assinei as listas de presença.

– Obrigada Jacey. Pode ficar em segurança, vamos encontrar esse assassino e vocês poderão dormir tranquilos. Há guardas por todos os lados. – Aquilo foi uma ameaça ou uma tentativa de me fazer sentir segura?

– Bom saber. – sorri. Ele abriu a porta e eu sai.

– Karen Blake. – o policial chamou a próxima garota.

Eu segui pelo corredor e entrei no meu quarto. A janela estava trancada mas a persiana estava aberta. A lua já estava saindo e mal escurecera ainda. Acendi as luzes do quarto e tranquei a porta com a chave. Sentei na cama fria e procurei pelo meu celular dentro da mala. Disquei o número de James, após quatro chamadas ele atendeu.

– Fala Jay. Tudo bem?

– Oi. Não exatamente.

– O que aconteceu? Você está com a voz estranha.

– Uma garota foi assassinada aqui hoje. – andei até a janela.

– Caraca! E ai? Deve estar um caos! Você está bem? Eu acho melhor você voltar.

– Não é necessário, tem policiais para todos os lados. Eles não vão deixar ninguém sair até acharem o assassino.

– Eu estou preocupado agora.

Ficamos em silêncio por um momento. James não era oficialmente meu namorado, eu gostava muito dele e ele também gostava de mim. Mas nunca namoramos.

– Está aí ainda?

– Eu estou com medo, Jamie.

– Calma, tem policiais por todos os lados. Eles não vão deixar que na... – James continuou falando, mas foquei minha atenção e ouvidos no movimento no jardim em frente a janela. Alguém estava ali. Alguém estava ali olhando para mim. As folhas da árvore se mexeram e alguma coisa fugiu correndo. Estava escuro.
Aproximei-me mais da janela para ver melhor, a persiana me camuflava. Identifiquei um vulto branco e gritei quando uma pedra atingiu a minha janela. Derrubei o telefone celular e a bateria saiu quicando pelo quarto. Me arrisquei a olhar pela janela mais uma vez.

Notas finais
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