A Garota De Bronte
5 IV
Notas iniciais
Espero que gostem!
Eu acordei com o sinal do fim da segunda aula. Tombei a cabeça da mão e bati o rosto nos livros em cima da mesa. Para ser realmente sincera, não estava dormindo e sim naquela de “dormindo acordado”. O professor era um homem de seus quarenta anos e que parecia estar bem conservado. Ele andava de um lado para o outro, ajeitando os papéis espalhados. Os alunos se aglomeravam em volta da mesa dele, entregando os relatórios. Peguei a minha folha praticamente em branco e joguei na mesa do professor. Virei as costas, abri a porta e fui tomada pelo barulho maior do corredor. Busquei a folha de papel vegetal dentro do bolso da saia. Geografia 01. Nem precisei procurar direito, a sala ficava do outro lado do corredor e a porta estava aberta. Ótimo, pelo menos não teria que descer ou subir escadas.
Algumas mesas já estavam ocupadas, sentei-me na cadeira do canto. Os lugares ao meu redor estavam vagos. O professor estava mexendo em alguns papéis. Ele tinha o nariz alongado e o cabelo tão preto e lustroso quanto petróleo. Ele usava um sobretudo preto e um lenço branco por cima. Assustador.
O sinal tocou e o restante dos alunos entrou na sala, os outros que estavam em pé se sentaram. Vi um vulto se aproximando e o garoto do refeitório sentou na cadeira da minha frente. Ele se virou e olhou para mim. Não disse nada por um bom tempo.
O professor começou a fazer algumas anotações na lousa. Puxei um caderno e comecei a escrever. O garoto continuava olhando para mim. Desviei os olhos e encontrei os dele. – Você pode se virar? Não está vendo que o professor está fazendo anotações?
- Sim. Eu já vou copiar. Você poderia me dar uma folha?
- Se eu te emprestar uma folha você vira para frente e cala essa boca?
- Anda logo, para de ser fresca. – ele estendeu a mão.
Eu arranquei uma folha, amassei em uma bolinha e joguei no rosto dele. – Ta aí a sua folha.
- Engraçadinha. – ele se virou e abriu o caderno.
O professor parou de anotar e fitou alguns alunos nos olhos. Inclusive eu e o estranho na cadeira da frente. Ele deu a volta na mesa e apertou as mãos atrás do corpo. A sala ficou em silencio. Eu até conseguia ouvir o meu batimento cardíaco.
— Quero que vocês me tragam uma pesquisa, nada muito grande. Uma folha já basta. Têm na biblioteca todos os livros que vão precisar. – ele apontou para o quadro, com os tópicos escritos — Já assinaram a lista de presença?
Ele tirou um embrulho do bolso e deixou na mesa. O que era aquilo? Estiquei o pescoço para tentar identificar, mas um garoto descabelado estava tampando a minha visão. Será que ele precisa de uma tesoura de jardinagem para podar aquele desastre da natureza que chama de cabelo? – Alguns aqui eu conheço de corredor, outros nunca vi na minha vida, e também há aqueles que já tiveram aula comigo no ano anterior. – Ele apoiou uma das mãos na mesa. – Eu me chamo Johnatan Richard. Mas podem me chamar apenas de Richard.
Todos na classe assentiram e um silêncio desconfortável assolou a turma. O Sr. Richard recolheu o embrulho da mesa e guardou dentro de uma gaveta. – Abram os livros na primeira página e comecem a leitura. Façam um pequeno relatório e me entreguem no fim da aula.
O tempo foi passando, eu escrevi o relatório rapidamente, copiando só as partes mais importantes do livro. O texto falava sobre astros ou algo do tipo. A verdade é que eu não estava interessada. A aula estava quase no fim quando deixei o pedaço de papel na mesa do professor. Quando voltei para o meu lugar, o garoto do refeitório girou na carteira. – Foi bem?
- Na verdade eu só grifei o que achei mais importante e copiei. Duvido que ele vá ler todos os trabalhos. São vinte alunos.
- Talvez.
- Posso te fazer uma pergunta? – comecei. – primeiro: qual é o seu nome?
Ele piscou. – Nathan. Mas as pessoas me chamam de Nate. E eu também prefiro Nate. – Ele deu um sorriso metido (mais uma vez) – Eu sabia que uma hora você perguntaria.
- Cale a boca. Eu perguntei apenas por curiosidade. Bom saber o seu nome para falar mal de você depois.
Nate se inclinou para trás. – Falar mal de mim para quem?
Droga. Ele era bom. Eu não tinha realmente amigos lá, bem, tinha a Libby, mas não queria ser amiga dela. A criatura era um poço de azar. – Eu tenho outros amigos.
- Duvido.
— Pelo menos não estou aqui há seis meses e não conheço ninguém. – O sinal bateu. – E para a sua informação. – Ajeitei os livros – eu já fiz uma amiga. – Levantei e sai da sala.
O corredor estava um caos. Chequei o horário mais uma vez. Linguística e redação 02. Eca. As quatro salas ficavam no terceiro andar. Dois lances de escadas. Minha mochila estava me incomodando então resolvi guardar alguns livros no armário. O número do meu era fileira B e armário 26. Os armários ficavam no segundo andar, era caminho.
Subi um lance de escadas e logo cheguei ao segundo piso. Os corredores estavam abarrotados de gente. Indo e vindo. Algumas pessoas já estavam dentro de suas respectivas salas. Procurei pelo meu armário e quando o encontrei, não pude deixar de ficar frustrada. Era o primeiro ao lado do banheiro dos garotos. O cheiro era insuportável e os garotos que passavam olhavam para mim. No papel estava escrito que a senha era 5-8-4-, girei rápido a e o armário não queria abrir. Dei um soco, dois, três e nada. Estava emperrado.
- Abre! Maldito! – forcei o puxador e um parafuso caiu e saiu rolando pelo corredor. – Ta de brincadeira.
- Você tem que pressionar depois de colocar os números. Ai ele destrava. – uma garota loira explicou. Ela fez o mesmo e o armário dela se abriu.
Eu tentei e deu certo. – Obrigada.
- Por nada. Eu me chamo Alyss. – ela estendeu a mão. – Prazer em conhecê-la...
- Jacey. – Joguei os livros dentro do armário e estendi a mão livre. – Jacey Sparks.
- Você não é a garota do uniforme? – Ela pegou um livro encapado com papel colorido azul e rosa. – Acho que estávamos na mesma sala de história hoje.
- Sim. Sou eu mesma. – Não me lembro de ter estado na mesma sala que ela. – Eu estava dormindo na aula de história então... Não vou me lembrar.
- Você é corajosa, Jacey. – Ela fechou o armário e saiu. – Até mais.
Assustei-me com o sinal e subi correndo as escadas mais uma vez.
A professora estava quase fechando a porta quando me esgueirei por ela.
- Não costumo perdoar atrasos, senhorita. – A mulher de meia idade advertiu. – Sente-se.
O único lugar vago era uma cadeira com uma das pernas menor que as outras. Ela estava meio bamba e o risco de alguém acima do peso sentar-se nela era relativamente grande. Por sorte, eu era magra. A cadeira oscilou quando me sentei e por um segundo, achei que fosse quebrar sob mim.
A aula de linguística passou muito devagar, estava anotando todas as coisas que a professora falava. Ela dizia tudo muito detalhado e acabava extrapolando nos exemplos. Senti vontade de atirar uma caneta nela toda vez que tentava citar Shakespeare.
Quando finalmente o sinal bateu, a minha barriga começou a roncar de fome. Faltava só mais uma aula para o intervalo: física. O pesadelo da minha vida. Se não me engano, estaria na mesma sala que Libby.
Atravessei o corredor e desci as escadas. A sala de física ficava no térreo junto com matemática. Passei no segundo andar, joguei o livro de linguística no armário e peguei o de física.
A sala estava vazia, a não ser por Libby que acenava como uma idiota para que eu sentasse do seu lado. A sala retangular era decorada com pequenas maquetes de átomos e cartazes com fotos de físicos famosos. As lâmpadas eram planetas do sistema solar.
- Ai eu odeio física. Ano passado quase reprovei por causa disso. Na minha antiga escola, todos os meus amigos amavam física, mas eu sou um desastre. – “Sim, um desastre nos dois sentidos, parece que não entende a lei da gravidade” – Mas esse ano eu vou tentar gostar para ir bem nessa matéria... – Parei de ouvir Libby. Ela não parava de falar? Apenas sorri e balancei a cabeça.
O professor de física era baixinho e eu podia jurar que ele tinha sessenta anos. – Bom dia turma! Vamos que temos muito que aprender hoje!
Assim como na aula de história, abri o caderno, fiz anotações, ignorei o blá-blá-blá de Libby. Eu estava com tanta fome que as paredes do meu estômago começaram a se auto digerir. O Professor de física era um velhinho com olhos muito azuis e cabelos prateados. Ele era baixinho e vestia suéter. Libby dizia ao meu lado o quanto lembrava o seu avô, que vivia na Irlanda. Pela graça divina, o sinal FINALMENTE tocou. Libby me acompanhou até o segundo andar para guardar os livros e então descemos juntas para o refeitório.
No caminho, esbarrei com Nate e ele nos acompanhou.
- Olá. Eu sou Libby. – Libby ajeitou os óculos e beijou a maçã do rosto de Nate, que teve que se abaixar para chegar a altura dela.
- Nate. – ele disse sorrindo.
Libby começou a tagarelar com Nate sobre a aula de biologia. Parece que os dois já se conheciam, Nate ria das piadas sem graça de Libby e ela contava mais piadas. Uma pior que a outra. Quando saímos do prédio, vi uma aglomeração de pessoas em volta da praça que ficava entre o prédio refeitório e o prédio administrativo.
- O que está acontecendo ali? – Nathan indagou.
Libby apoiou uma das mãos nos meus ombros e se esticou para tentar ver por cima dos meus ombros. – Não consigo enxergar.
- Vamos dar uma olhada. – Sai na frente, os dois me seguiam.
Achei que o meu dia não poderia ficar pior. Achei que aquela escola não poderia ficar pior. Não depois do que acabara de ver. A turma do terceiro ensino médio estava em prantos. Alguém vomitara perto do lixo e havia muita gritaria. Quanto mais perto chegássemos da multidão, mais horrorizados e desesperados estavam os estudantes.
Quando olhei diretamente para o foco, onde todos estavam olhando. Senti três coisas. Primeiramente, fiquei com pena. Depois, senti vontade de vomitar. E, por último, medo. Medo de acabar do mesmo jeito que aquela garota acabou.
Notas finais
Espero que tenham gostado
~Verônica.
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