A Garota De Bronte
4 III
Notas iniciais
Na porta do prédio, havia vários cartazes colados com letras imensas indicando qual seriam as matérias obrigatórias e o tempo de duração. Cada aula durava quarenta e cinco minutos e tínhamos um pequeno intervalo de cinco minutos cada vez que o sinal trocava para mudarmos de sala. O horário de duração do intervalo era de quarenta minutos e ia das 12h05min até 12h45. Tempo suficiente para almoçar. Eram nove aulas, todas iguais durante a semana. Menos educação física, teríamos que acordar mais cedo na quarta, quinta e sexta para realizar as aulas às 6h da manhã, mas era uma matéria extra, opcional.
A minha primeira aula de hoje seria reposta para comunicados no auditório. Um “ritual” de boas vindas e os recados desse novo ano letivo. A parte boa é que vou ter uma aula a menos. A seleção de alunos por classe em cada matéria varia de acordo com as notas do semestre passado. Ou seja, vou ficar em uma turma onde todos tem o mesmo nível que eu em determinada disciplina. Passei pela mini recepção na entrada do prédio e gesticulei para a moça do outro lado.
– Veio buscar o horário? – ela perguntou.
– Sim. Jacey Sparks. Do primeiro ano. – Estava com pressa, não esperei que ela perguntasse.
– Aqui. – ela imprimiu uma folha de papel vegetal e entregou na minha mão. Meu horário de hoje até o fim do semestre era:
Química Sala (laboratório) Q03 -
História Sala H02
Geografia Sala G01
Ling. e Redação Sala LR02
Física Sala F04
Intervalos
Matemática Sala M04
Inglês Sala I01
(aula opcional)
Biologia sala B02
Armário: B26
Minha próxima aula seria de história e eu nem sei onde fica a sala e o andar. Eu estava totalmente perdida dentro daquele lugar. A única coisa de que me recordo é que os laboratórios ficavam no último andar e que o auditório era um anexo no final do corredor do térreo. Mas era só seguir a multidão, todos estavam seguindo reto pelo corredor.
Uma garota esbarrou em mim, pisou no meu sapato e caiu de cara no chão. Não resisti e comecei a gargalhar. A garota tinha os cabelos cor de cenoura, e quando caiu, a saia levantou e deu para ver o short rosa bebê com flores desenhadas. Ela tateava no chão procurando os óculos. As pessoas passavam e pisavam nos seus livros. Decidi fazer a minha boa ação de hoje e ajudei a garota a pegar os livros. Quando finalmente pegou os óculos e os colocou na cara, tive que tampar a boca para não rir. Os olhos dela, castanhos, ficavam tão grandes que lembravam aquele lêmure bonitinho de Madagascar (http://i7.photobucket.com/albums/y276/katateh/mort.jpg) e contrastavam com as sardas pelo rosto inteiro. Eu conhecia aquela garota. Foi a mesma que escorregou horas antes no banheiro. Se eu fosse essa garota, começaria a andar com um kit de primeiros socorros dentro da mochila e pagaria seguro de vida com todo o prazer.
– Obrigada. – Ela disse pegando os livros da minha mão. – Isso sempre acontece comigo.
– Eu percebi. Você deveria andar com joelheiras e capacete.
Ela riu . – Eu quase te derrubei no banheiro também. Aquele lugar deveria ter piso antiderrapante para pessoas como eu. – “lesadas que não sabem andar?” Imagina essa criatura andando de salto alto! Um perigo para a sociedade.
– Você vai ter que aula depois da apresentação no auditório? – ela indagou.
Eu chequei meu horário que estava dentro do bolso da saia. – Vou ter história 02.
– Deixe-me ver o seu horário. – ela puxou o papel da minha mão antes mesmo que eu pudesse dizer “Não. Isso não é da sua conta” – Vamos ter aula de biologia, matemática e física na mesma sala e hora. Legal. Como você se chama?
Respirei fundo. – Jacey. Jacey Sparks.
– Bom, eu sou Libby. – Ela fez uma pausa. – Eu vi o que aconteceu no refeitório hoje cedo. Bem, para ser sincera, eu acho esse uniforme bem mais bonito que o da minha antiga escola. Nós usávamos calças tão coladas que dava para ver até a marca da calcinha. Era horrível sabe, e eu cansei de rasgar a calça nas aulas de ginástica. – “Eu nem devo imaginar por que” pensei. – Nós usávamos o mesmo modelo para as aulas de educação física. De qual escola você veio?
De todas as pessoas do mundo, eu tinha que ter ajudado justo aquela a se levantar? Da próxima vez que alguém cair no chão, eu simplesmente vou passar por cima. Ela tagarelava como se o sol não fosse brilhar nunca mais no céu. Encarei Libby e respondi. – Não quero falar da minha antiga escola, mas as pessoas de lá eram bem mais legais. Não existia uniforme.
– Por um lado deve ser legal, você pode se vestir do jeito que quer.
Entramos no grande auditório e tentei despistar Libby, andando em zigue-zague. Entretanto, ela me seguiu e não me perdeu de vista. Sentei em uma das fileiras do fundo. Do lado esquerdo estava Libby, e do direito, ninguém.
– Estou muito ansiosa. E você? – Libby perguntou, eu apenas sorri e gesticulei. Se ela perguntasse se eu gosto de comer sola de sapato com molho barbecue, teria dado a mesma resposta só para não dar chance para ela começar a tagarelar.
O burburinho de gente diminuía a cada vez mais, o auditório estava quase lotado de alunos do primeiro ao terceiro ano. Na primeira fileira, de frente para o palco, estava o corpo de professores. Na segunda fileira, alguns alunos mais velhos, que vestiam uniformes de cores diferentes. Em vez de vermelho para a calça, gravata e saia, era azul marinho.
– Libby, você sabe por quê aqueles alunos estão com os uniformes diferentes?
– Eles são do comitê de boas vindas. Eles têm muitos méritos.
– Interessante.
– Olha, vai começar! – as luzes do auditório se apagaram e as do palco se acenderam. A Sra. Ross subiu e começou a falar.
– Quero dar boas vindas e desejar um ótimo ano de estudos para todos vocês. – ela ajeitou os óculos meia-lua – Quero também dizer, em especial para os alunos do primeiro ano que chegaram agora, que vocês todos vão se adaptar muito bem às regras e costumes. Quero também informar que temos muitas vagas nas aulas opcionais de artes, música, informática, marcenaria, curso de libras e literatura avançada. Nós também, pela petição da aluna Cecília que cursa agora o terceiro ano, autorizamos as aulas extracurriculares depois do horário de aula, das 16h até as 18h. – Sra. Ross abriu uma folha de papel. – Aviso-lhes que a Sra. Lotts ainda está internada e não voltará até o fim deste bimestre, tendo assim, eu no cargo de diretora até o seu retorno. Tivemos muitas alterações no corpo docente e chamo aqui os professores novos desse ano.
As pessoas da primeira fileira levantaram-se e subiram as escadas nas laterais do palco. A vice-diretora Ross começou a apresentá-los, dizer os nomes, as matérias blá-blá-blá. Libby estava sentada ao meu lado completamente empolgada, roendo as unhas.
– Ouvi um boato no refeitório, de que o professor Kaleb, marcenaria, já foi preso. – Libby sussurrou perto do meu ouvido. – E que a cicatriz que ele tem no rosto foi resultado de uma briga dentro da prisão. Outros disseram que ele tem cortes de facas pelo peito e nos ombros.
Olhei para Libby. Quanta besteira. A escola nunca aceitaria um professor que já foi preso. – São só boatos, Libby. A Sra. Ross não iria contratar um fora da lei para dar aula em um internato cheio de crianças.
– Eu não sei, pode ser que sim, pode ser que não. – ela tentou fazer mistério.
Depois de todo o corpo docente se apresentar e a Sra. Ross falar das conquistas do ano passado do time de futebol, saímos todos do auditório e seguimos para as salas de aula. Eu tinha cinco minutos para achar a sala de história 02, eu perguntei a Libby mas ela disse que não sabia. Andei pelo térreo inteiro e só encontrei as salas de matemática, física e química. Quando finalmente encontrei a escada, esbarrei com o garoto do refeitório. Ele estava usando a camisa do uniforme dobrada até os cotovelos, a gravata afrouxada e os cabelos pretos desgrenhados.
– Está perdida? – ele perguntou.
– Não. – menti.
Ele puxou o papel com os horários da minha mão, assim como Libby fez. – Sala de história. Segundo andar. Jacey não é? Nós teremos inglês, biologia e geografia na mesma turma.
O que irritava mais nele, era o fato de ser tão abusado em pensar que pode falar comigo e me esnobar daquele jeito. – Então saia da frente, retardado. – empurrei-o para o lado e subi quatro degraus, quando pisei no quinto, ele disse lá de baixo:
– Te vejo na próxima aula, Fiona.
Eu não ousei olhar para trás. Caso fizesse, voaria do pescoço dele. Eu nem sabia o nome para poder amaldiçoá-lo com as minhas palavras afiadas. E no fundo sentia um pouco de curiosidade. Talvez Libby soubesse, ou talvez pudesse esperar até a próxima aula, quem sabe, na chamada.
A porta de história 02 estava aberta quando entrei, o sinal tocou mais uma vez, indicando o início da aula. Coloquei os livros em cima de uma mesa vazia no fundo da classe e observei os alunos falando absurdamente alto até o professor chegar e começar a aula. Encostei a cabeça no punho e fingi estar prestando atenção.
Notas finais
~Verônica
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