A Fugitiva
1 Parte 1
Notas iniciais
Andrômeda despertou após um breve cochilo sem sonhos, desejando não atrasar-se para os preparativos daquela manhã. Arrastou-se cama a fora e ficou a olhar-se pelo espelho por um breve instante. Escovou seus longos cabelos negros com a ponta de seus dedos e por poucos segundos encarou a relíquia presa por uma corrente de ouro, pendurada entre seus seios. Uma relíquia a qual deveria manter escondida de olhos curiosos, tal missão sendo cumprida com perfeição ao longo dos anos. Após aquilo, cobriu o corpo nu com sua vestimenta diária: um manto lilás de algodão, longo e de perfeita medida para seu corpo alto. Puxou o capuz em seguida, cobrindo o topo de sua cabeça e deixando somente seu rosto a mostra. Sorriu, então, pela primeira vez naquele dia, encarando seu reflexo uma última vez antes de abandonar o conforto de seu quarto, com pensamentos lhe ferroando a mente.
Mais um dia para ser vivido no interior daquele templo. Suas paredes frias de rocha negra, o cheiro forte de rosas e outros aromas impregnados no ar, os sussurros e orações feitos por suas irmãs em alguns cantos afastados. Seus dias resumiam-se naquilo, e o costume e adoração obrigavam-na a adorar toda aquela calmaria e paz. Trabalhava na horta com as mais velhas, cumprindo suas orações habituais em nome da Deusa da Ternura em horários fixos e pontuais. Em seus dezoito anos, Andrômeda era nova demais para ser uma Irmã Andante e velha para tentar se tornar Oráculo. Preferia evitar aquilo, inclusive: algumas bocas comentavam que a punição por revelar segredos do oculto era o castigo do sexo, e seu corpo nunca seria tocado por homens impuros e pecadores. Pura e de mente limpa, tal qual Skarya uma vez fora.
O que mais a preocupava era aquele dia em específico. Talvez este seja o real motivo pela minha falta de sono, refletiu. O equinócio da primavera era o momento no qual Skarya era mais forte e presente no coração dos humanos; era quando seus reis casavam com suas rainhas, cavalheiros batalhavam pelo amor de uma bela donzela e bebês eram germinados e afloravam no útero de suas progenitoras. Também era época das Oráculos serem levadas à reinos distantes, levando consigo o conhecimento da Deusa e suas previsões para reinos distantes e esquecidos. Isso era o pior: para tal tradição acontecer, os portões eram abertos e qualquer pessoa com o dom da ternura pulsando em seu coração poderia adentrar em tais terras antes isoladas. Vários homens surgiam em busca da mulher de seus sonhos, e poucos confiavam que orações seriam uteis em tal requerimento. Skarya nunca nos abandonaria caso algo de errado fosse acontecer. Por isso nos deu o dom da proteção. Arrepios a domaram ao pensar no que poderia acontecer: nos olhares voltados para si, nas juras e gracejos soltados por guerreiros e velhos reis, o que poderia acontecer se alguém violento tentasse ultrapassar os limites da razão e bom senso. Juro que o primeiro abusado que pensar em besteiras irá arrepender-se por isso, ela pensou, obrigando-se a cruzar os braços numa tentativa de afugentar o frio e o temor.
Vagou por corredores infinitos, iluminados por tochas presas nas paredes e piras postadas em ambientes maiores e naturalmente mais sombrios. Encontrou, volta e meia, Irmãs Andantes retornando de suas peregrinações em meio à madrugada. Reconheceu rostos amigos e travou conversas sobre o que lhe era desconhecido: o mundo. Nenhuma lhe contou o que era desejado, no entanto. Andrômeda esperava ouvir sobre povoados, reinos e outras coisas que conhecia a partir de livros e ilustrações, nada próximo ao que poderia ser realidade. Tudo o que foi ouvido agrediu seus pensamentos. Falavam sobre Guerras Santas e Dias Negros aproximando-se em plena velocidade, chegando para punir os desonrados e elevar em glória os vitoriosos. Sangue havia sido derramado pelos filhos da Tormenta, e os seguidores da Justiça mostravam-se prontos para contra-atacar e vingar seus irmãos derrotados. Eram batalhas de razões desconhecidas para aqueles de fora; nunca soubesse quem começará tal guerra e provavelmente nunca se descobriria. O destino do mundo era levando a caminhos cruéis e nebulosos, e um fim aparentava estar longe de se aproximar. Por sorte não nos envolveremos. Somos sacerdotisas da Deusa mais pura e inocente. Os debates entre Tormenta e Justiça sempre foram de conhecimento de todos. Será que os Deuses que eles representam sabem do horror que estão fazendo aqui em terra? Não me importa. O mal nunca nos alcançará.
Os seus pés vagaram pelos corredores do terceiro andar, onde encontrou algumas irmãs conversando em sussurros. Elas patrulhavam aqueles corredores fielmente, atentas a qualquer som que chamasse suas atenções. A ala das crianças, o futuro do templo. O seu caminhar terminou frente a portas de madeira recentemente pintadas. Apertou a relíquia com os dedos, sentindo o sorriso nascer em seu rosto em seguida. Empurrou o portal e entrou num quarto tomado pela penumbra, esgueirando-se e permitindo seus pés a guiarem até o lado da cama. Ajoelhou-se e forçou a visão, logo acostumando os olhos e podendo, enfim, encarar aquele lindo rosto adormecido e perdido em sonhos. Sorriu por mais uma vez, admirando a calma que aquela criança aparentava estar. Permitiu-se brincar um pouco com seus fios ruivos antes de falar no tom mais carinhoso possível:
– Coração? Acorde! Já está no horário!
Eu a vi crescer. Andrômeda recordava quase que diariamente do dia em que aquele simples e faminto bebê fora abandonado em frente aos portões; seus choros obrigaram Veroma a mudar a tradição somente naquela única vez, abrindo-os e a acolhendo em seus braços. Recebeu o nome Jym, por ser algo fácil e agradável de falar e ouvir. Andrômeda, ainda beirando seus treze na época, viu-se afetada pela pequena criatura, começando a agir como se fosse uma irmã perdida, uma indefesa que precisava de sua proteção. Jym somente dormia em seus braços, alimentava-se do que a jovem lhe entregava e aprendeu a andar somente para segui-la. Nunca falou ao longo de seus cinco anos, mas ouvia e obedecia tudo o que lhe era dito. Amadureceu bem com o passar dos anos, o que causava sempre felicidade em sua protetora. Veroma diz que talvez vire Oráculo. Espero que não, sinceramente. Como poderei viver sabendo das atrocidades que a minha pequena e doce Jym poderá estar passando?
Teve que chamá-la por três vezes antes da menor enfim despertar. Jym a abraçou com carinho, beijando seu rosto e olhando para os cantos mais escuros de seu quarto. Talvez algum pesadelo tenha surgido, pensou Andrômeda enquanto a ajudava com suas vestes. Domou a pequena mão na sua e partiram para a Grande Sala. O local, escondido no mais profundo subsolo, servia em sua maior parte como local de vigílias de oração, onde as Irmãs ficavam isoladas por semanas em busca de algum contato da grande Deusa. Em outros períodos, como aquele em específico, era usado para a líder Veroma instruir suas discípulas em momentos oportunos. Sua ida serviria naquele intuito, embora soubesse perfeitamente como funcionariam as coisas durante a abertura do portão. As filhas das Irmãs Andantes tem idade o suficiente para aprender o que se deve fazer. Espero que isso seja rápido...
Horas, então, avançaram – poucas, o suficiente para todos compreenderem o que deveria ser feito naquele dia em especial. Andrômeda permitiu-se escapar dos olhares de suas irmãs por alguns minutos, com intenção de se isolar e ter como companhia sua solidão e a pequena Jym. Alcançou uma pequena varanda aberta e virada ao leste, onde adorava ficar e observar as estrelas. Era possível se admirar a floresta escura que rodeava aquela construção, o riacho correndo num ponto ao norte e vida animal trilhando calmamente. Para ela, nada disso importava. Nada além do céu. A prova de Skarya estar desperta era visível no céu negro: duas estrelas lilás brilhavam isoladas das normais, como que vigiasse especificamente aquele templo abençoado, o cuidando e protegendo de qualquer mal. Ela nos cuida e fica mais forte com nossas preces.
A manhã avançou e os portões, enfim, foram abertos. Muitos surgiram – ricos e pobres, nobres e plebeus, jovens e idosos, homens e mulheres. Não importava o que eles eram: o importante tratava-se de sua devoção perante a Deusa da Ternura. Sua grande maioria permaneceu no grande salão, onde as Irmãs os guiavam e ajudavam no que fosse necessário. Alguns beijavam os pés da estátua central, fazendo desejos íntimos e logo partindo dali. Outros, os mais fiéis, adentravam pela capela para orações mais longas, repletas de desejos verdadeiros e puros. Os mais tímidos, aqueles envergonhados em admitir o motivo de estarem ali, deixavam seus pedidos mais sinceros entre os tijolos de uma das paredes. Andrômeda estava na antecâmara, local aonde homens importantes de reinos distantes vinham com pedidos à Veroma – sua grande maioria tratava-se de requerimentos por Oráculos e benções para suas terras infrutíferas.
Iniciaram-se tais procedimentos com a chegada de um rei nortenho, seguido por sua minúscula comitiva de seis pessoas; dentre elas, uma mulher grávida e de expressões graves de cansaço e dor. Andrômeda nunca antes viu tantos pedidos serem executados em tão pouco tempo. Julgou ser a primeira vez deles numa terra protegida por deuses até então desconhecidos para seu povo. Os olhares temerosos entregavam tal reação. Veroma foi simpática com os estrangeiros, falando em seu idioma, abençoando a grávida e lhes proporcionando uma de suas melhores Oráculos. Aquilo, Andrômeda julgou, serviria mais como um avançar de sua religião para terras bárbaras, embora desconhecesse como passaram tantos anos sem o conhecimento dos verdadeiros deuses.
No aproximar do entardecer, Andrômeda viu-se cansada. Horas em pé, servindo Veroma e sendo julgada e desejada por olhares arrogantes e indecentes. Não eram muitos que a notavam, mas aqueles que o faziam logo desejavam leva-la para longe dali. Tudo aquilo aumentava seu desejo de ver aquele dia terminado. Desejava correr de volta ao seu quarto, escovar os rebeldes fios de Jym enquanto lhe contava lendas sobre os Espíritos Sagrados. A pequena adorava aqueles que envolviam Isodak, embora aparentasse divertir-se ao ouvir algumas histórias sobre Umi e seu misterioso reino submerso. Tenho que aguentar só mais algumas horas e poderei fazer isso e tudo mais, além de ficar longe desses estranhos. A vida voltará ao seu normal ao anoitecer. Só falta mais um pouco.
A última pessoa a entrar no templo, já próximo ao anoitecer, chamou tanto a atenção de Andrômeda quanto das outras Irmãs. Sentiu Jym tremer, deixando a criança buscar conforto em sua mão. Tratava-se de um homem alto e forte, de postura perfeita e de traços sérios e maltratados pelo tempo. Usava calças negras, o peitoral e ombreiras de uma armadura rubra e segurava abaixo de seu braço esquerdo um elmo amassado em um dos lados. Não carregava armas, o que o deixava de certa forma desalinhado naquela vestimenta de guerra. Olhava fixamente para a velha Veroma, como que não houvesse outras pessoas no ambiente. Ajoelhou-se poucos metros distante da cadeira ocupada pela líder, molhando seus lábios finos com sua língua branca e mantendo um sorriso temeroso logo em seguida.
– Minha senhora – ele falou alto, fazendo suas palavras ecoarem pelo silêncio. – Sou Ewagod, general das tropas sulistas da Grande Deusa Ariel. Vim até esta casa tão afastada e solitária com um pedido urgente de auxílio. Sabemos que vocês, filhas da Ternura, não possuem curiosidade ou até conhecimento sobre o quê ocorre longe de suas terras. Compreende que a nossa necessidade de ajuda é para imediato? Ajude-nos hoje, no dia de sua Deusa, que tanto os protegeu ao longo dos milênios, e posso garantir que meus irmãos enxergarão e tratarão Ternura com o merecido respeito.
Embora suas palavras demonstrassem necessidade de amparo, Andrômeda não confiou totalmente em tal general. Muito calmo para alguém tão pedinte. Palavras vazias de um coração tão vazio quanto.
– Não compreendo como poderei auxilia-lo – Veroma se pronunciou após poucos segundos em silêncio. O homem mal piscava, fixo na Líder e esperançoso em quais poderiam ser suas palavras. – Não criamos guerreiros ou temos conhecimento das artes campais. Tenho sim conhecimento de suas guerras, e sei que deves ter o coração pesado em tristeza e mágoa, por tantas perdas e sofrimento. Realmente não imagino em que possa ajuda-lo. Orações e preces para Skarya de nada serviriam. Acho que nenhuma guerra deve terminar com trocas de palavras bondosas de perdão após litros de sangue derramado. Não posso entregar-lhe uma Oráculo. Elas são para reinos que não possuem amor em seu coração, e uma garota em meio a soldados... Só haveria maldade nisto, não a resolução de um confronto.
– Desculpe interrompe-la, senhora, mas eu sei que há alguém em específico dentre suas discípulas que pode me ajudar. Uma única que poderá nos ajudar a vencer a guerra. Temos fontes e informantes que nos garantem que há uma pessoa aqui que possui uma crença e perseverança maior do que qualquer um. A maior relíquia existente no mundo dos humanos. – Andrômeda ouviu aquilo e prendeu a respiração, sentindo o contato da pedra em sua pele. O homem, aparentemente já guiado pelo desconforto da negativa, riu em desdém. – Que diferença fará em sua vida ao fazer isso? Entrega-la para mim? Ajude-nos a vencer, e Skarya será sempre lembrada por meu povo!
Ele postou-se de pé, cerrando os punhos e mantendo a postura fixa naquela pose, aguardando alguma resposta que fosse de seu agrado. Andrômeda, já ignorando o que seria concluído ali, abaixou-se e soltou promessas para a pequenina, soltando-a de sua perna e entregando-lhe um belo sorriso. Contou seus desejos e sussurrou o início de uma nova fábula a ser contada ao anoitecer. Jym sorriu tímida aparentando estar feliz, mesmo incomodada ainda com a presença daquele homem. A resposta de Veroma ecoou em algum momento. O homem havia partido naquele meio tempo, em silêncio, entregando para todas as Irmãs olhares violentos e maldosos.
Segura e em companhia de sua querida protegida, Andrômeda sentiu-se melhor ao ficar afastada de suas irmãs e isolada num simples quarto pequeno. Ajudou Jym a trocar suas vestes para uma camisola de algodão, própria para se dormir. Cobriu seu pequenino corpo e ameaçou lhe fazer cócegas, o que rendeu longas e gostosas gargalhadas – o único som produzido por sua voz. A mais velha ajoelhou-se ao seu lado, olhando-a com ternura e aproveitando aquele momento em paz antes de entregar o que lhe foi prometido.
– Nunca lhe contei algo sobre o Espírito da Floresta, não é mesmo? Como pude ser descuidada... – a pequena sorriu, aguardando. – Pois bem, há muitos anos atrás vagava um pica-pau travesso e aventureiro, vermelho igual ao seu cabelo. Ele costumava bicar todas as árvores da floresta, o que incomodava os moradores e animais. Eles prometeram envenenar sua água, mas aquilo não poderiam fazer. A água era a mesma para todos naquele bosque. Prometeram também mata-lo, mas o pica-pau era mais esperto e conseguia fugir tranquilamente de suas flechas e machados. Ele voava, voava e voava por entre as árvores, zombando e se vangloriando, embora não entendesse do por quê todos o odiarem tanto. Era sua natureza bicar árvores, era a única coisa que sabia fazer. Então, um dia, ele encontrou a árvore mais bela e antiga já vista em toda sua vida. Era gigantesca, do tamanho de nosso templo. Ele bateu suas asas, encarou-a e disse: “eu irei bicar em todos os seus cantos!”. – Andrômeda fez uma voz fina ao imitar o pássaro, trazendo gargalhadas por parte de sua atenta ouvinte. – E ele o fez. Bicou toda a madeira, feliz por ter encontrado aquela raridade...
Um forte e abafado som surgiu pelos corredores. As duas olharam para a porta ao mesmo tempo, num misto de susto e apreensão. Não deve ser nada, pensou. Talvez Morgana tenha derrubado outro quadro. Voltou, então, sua atenção para a outra, agora pegando em sua mão e buscando confortá-la.
– Num certo momento, ele notou um olho o encarando. Ele se assustou, pois nunca aconteceu aquilo antes em toda sua vida. Um olho em uma árvore! Ele, então, afastou-se poucos metros e notou um rosto talhado na árvore. Era Kaz, o Espírito da Floresta! O pica-pau ficou assustado, e começou a fugir. Ele estava nervoso, então não conseguiu voar em linha reta no começo. Rodeou o ar por alguns segundos, até ouvir o Espírito falando. O pica-pau trombou em seus galhos, ignorou as palavras e partiu dali, voando. Olhou para trás, para encarar o Espírito da Floresta, e viu uma flecha o seguindo. “Pelos Deuses!”, disse o pica-pau. “O Deus Madeira me atacou!”. Ele fugiu e fugiu, e sempre que olhava para trás a flecha ainda estava o caçando, distante poucos centímetros. Ele voou, cansou-se e...
Uma luz cruzou o céu, distante poucos metros de sua janela. Fogo; a maior e inimaginável bola de fogo, descendo e acertando alguma parte próxima do templo. Uma criatura cruzou a noite logo em seguida e, pelos poucos segundos em que foi visto, Andrômeda sentiu seus braços se arrepiarem em terror. O que era aquilo? Sons fortes surgiram em seguir, seguido de urros e gritos. A sacerdotisa postou-se de pé, sentindo suas pernas tremerem e o medo alojar-se em seu coração. Invadiram o templo, calculou, desejando que aquilo não fosse realidade. Quem atacaria nossa casa? Nós não... E recordou-se do final da reunião de Veroma com o general guiado pela Deusa da Tormenta. Para eles, não se há limites. Transformamo-nos em alvos de sua sede de destruição.
Passos foram ouvidos do lado de fora; apressados, mais de um, alguns batendo e invadindo quartos vizinhos. Andrômeda gritou alguma ordem para Jym, mas o terror e nervosismo impediram, pela primeira vez, da criança ouvir ordens dadas pela garota. Tateou o busto, encostando na relíquia ainda presa envolta de seu pescoço. As palavras ditas tanto pelo guerreiro quanto por sua líder martelaram seus pensamentos. Eles querem isso. Querem a mim. Não deixarei. Eu prometi. Não chegarão perto disto. A jovem abriu as mãos e esticou os braços ao lado de seu corpo. A tensão impedia o proclamar do feitiço correto, então teve que pronuncia-lo por mais três vezes seguidas. Preparava seu dom mais poderoso, aquele que aniquilaria qualquer adversário e que possivelmente fosse deixa-la incapacitada por algumas horas. Não importa! Ninguém tentará nos machucar! Ninguém!
– Glovko dolko avanaka tìo dovdul...
Rompeu o feitiço ao ter a porta aberta e Veroma adentrar, olhando espantada para ambas as garotas. A velha líder correu para Andrômeda, segurando-a pelos ombros e falando num tom assustada:
– O que faz aqui parada, filha? Pegue a criança e fuja!
– Fugir? Mas...
Veroma pegou a veste jogada no chão pertencente à Jym e vestiu a pequenina com presa, pegando-a no colo e entregando para Andrômeda. A jovem agora era guiada pelo horror e medo do que poderia estar, de fato, se acontecendo naquele lugar. Nunca vi a mestra tão nervosa... Ouviu ao longe gritos, grande parte era de suas Irmãs. Vozes masculinas ordenavam ataques e soltavam insultos e promessas de violência sexual contra suas vítimas. Urros assustadores e perturbadores surgiram por diversas vezes. Veroma os ignorou, puxando Andrômeda pelo braço e a guiando por corredores vazios e macabros, alguns nunca vistos pela jovem.
– Você precisa fugir, manter-se viva. Lute por você e pela garota. Vocês são importantes demais para ficarem aqui. Não tente brigar, Andrômeda! Sei de suas capacidades, mas não há o que se fazer. Eles matarão todos até encontrarem o que tanto desejam, e o farão se as pegarem com vida. Vocês serão as únicas a sobreviver de todas. Suas Irmãs estão lutando para atrasá-los. Somente vocês duas tem a permissão de fugir.
Antes de cogitar reclamações e até pensamentos pavorosos sobre o que ocorria, Andrômeda viu-se num corredor pouco visitado em todos os seus anos vividos ali. Era curto, pouco mais de dois metros, com alguns quadros e um grande tapete preso em sua parede final. Não havia portas ali, o que lhe era mais estranho. Ouviu Jym chorando em medo e Veroma puxando a tapeçaria, mostrando uma passagem estreita moldada por entre os tijolos de pedra.
– Não posso fugir – Andrômeda repetiu, apertando cuidadosamente a menor para si. – Por que não entregamos o que eles querem? Por que temos que lutar? Eu... Eu não sei como é o mundo lá fora, Veroma! Não sei o que fazer, para onde ir...
– Você ficará bem, filha. Você é forte, inteligente, raciocina rápido... Nós prometemos por nome de Skarya que protegeríamos o que nossos inimigos tanto desejam, recorda-se? Os segredos morrerão conosco. Eu quero que vá por este caminho. Ele levará você ao lado de fora. Corra, sem olhar para trás. Não chame as atenções para si. Você encontrará abrigo com nossas irmãs do leste. Siga os olhos de Skarya, e as encontrará. Será um caminho longo, filha, mas você conseguirá. Claro que irá! O andamento do mundo dependerá disto.
– Pelos Deuses, o que eles...?
Gritos bárbaros vieram ao longe, obrigando Veroma a empurrar a jovem com uma das mãos em direção a passagem. O medo guiou seus pés pelas escadarias. Estava escuro e o ar era pesado. Andrômeda ousou em olhar pelo ombro, desistindo da ideia ao notar que encontraria a mesma escuridão que havia a sua frente. Ouviu os gritos de sua antiga líder, e lágrimas escaparam por seus olhos. Sentiu-se inútil por não poder retornar, mas do que adiantaria? Eles causariam o mesmo mal a mim, sem falar de Jym...
Destinada a cumprir sua promessa, apressou o passo e rezou para não tropeçar. Não poderia sentir a dor de sua perda. Não aqui, não agora. Quando estiver longe e segura, talvez eu o faça. Não devo pensar nisso. Não posso... Tenho que fugir. Seus lábios beijaram o topo da criança trêmula em seus braços, e então ela concluiu. Nós temos que viver.
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