A Fugitiva
2 Parte 2
Notas iniciais
As escadarias terminaram em um corredor rochoso de piso arenoso. Suas mãos tatearam pelas paredes, buscando alguma tocha ou algo que pudesse lhe ser útil em meio a toda aquela escuridão. Talvez seja melhor continuar assim, refletiu. Podem notar alguma luz vinda detrás do tapete, e toda a minha fuga será em vão. Encontrou a saída daquele claustrofóbico local após alguns instantes, logo depois do sentimento de estar perdida ter abandonado seus sentidos. Folhas, galhos e arbustos encobriam a passagem pelo lado externo, amontoados de modo que nenhum estranho pudesse localiza-la e invadir o templo. Creio que esconder não faz nenhum sentido agora.
Olhou para o céu, logo localizando as estrelas lilás e as usando como ponto guia. Puxou o máximo de ar por suas narinas e voltou a correr o que pode, sentindo suas panturrilhas queimarem após cada passada. Soltou frases de conforto para sua pequena protegida por algumas vezes, embora soubesse que nada daquilo acalmaria seu acelerado coração. O calor do fogo e os gritos por ajuda foram logo desaparecendo, trazendo em seu lugar a mais silenciosa e vazia floresta.
Graças a um resmungo soltado pela criança, Andrômeda virou o rosto e encarou com horror o que havia se transformado sua antiga morada; o fez quando estava bem afastada, segura de que nenhum inimigo escondido pudesse ataca-la de surpresa. Tudo o que viu tratava-se de destroços e chamas, que consumiam os andares superiores e boa parte do inferior. Criaturas estranhas rondavam e invadiam a entrada principal, alguns pequenos o suficiente para adentrar pelos portais e dilacerar inimigos. Homens bárbaros urravam em vitória, soltando ataques contra aqueles que conseguiam, por sorte, escapar das investidas animalescas. A jovem desejou não pensar a fundo naquilo, ou seus sentimentos voltariam a surgir e incomodá-la. Sua última vista foi de um enorme e colossal dragão rubro, sobrevoando pela noite e soltando labaredas por suas presas. Ninguém sobreviveu, pensou, sentindo uma tímida lágrima escorrer por seu rosto. Não agora. Não irei chorar.
Sua atenção voltou-se mais uma vez para frente. Graças ao incêndio, lhe era possível enxergar mata adentro com facilidade por vários quilômetros. Os pés nus eram dominados pela terra virgem, encontrando pelo caminho pedras e galhos que lhe machucavam, mas não impediam o seu avançar. Olhou vez ou outra para o céu em busca dos olhos, vendo-se na trajetória errada e logo retornando ao seu foco. Ouviu gritos humanos e urros animalescos de seus agressores ao longe, o que a fez apressar seu passo. Evitava o máximo possível olhar para trás, focando seus olhos somente em onde pisava e nada mais. Talvez tenham visto minha fuga, ou achem que alguém sobreviveu e se escondeu pela mata. Estão me caçando. Droga... Preciso me esconder, mas onde?
A vida animal era quase inexistente; encontrou uma família de cervos dormindo e morcegos presos em galhos altos e distantes. Vez ou outra passou por restos mortais de animais de grande porte, sinal de que os bárbaros vieram por lá. Nada surgiu que lhe parecesse ameaça; nenhum animal, além daqueles homens que a caçavam. Jym estava silenciosa e calma, talvez adormecida ou ajudando sua mestra a manter-se oculta na noite. A criança era extremamente leve, de modo que o único problema de Andrômeda seria, de fato, fugir e correr o máximo que aguentasse. Atravessou rochedos e um riacho de águas calmas, sentindo o suor dominar seu corpo. Não queria parar, e nem o poderia; todas as vezes que descansava, um barulho perdido na mata a alertava de não estar sozinha e segura.
O cansaço dominou após algumas horas de corrida e caminhada – ou seriam minutos? Não soube dizer, e de certa forma não mais se incomodava com aquilo. A pouca luz ambiente surgia graças à lua cheia, mas não brilhava o suficiente para continuar seu caminhar. Não ouvia mais os sons que tanto a atormentava, sentindo-se por uma vez segura. Estava sozinha. Permitiu cair de joelhos contra a terra úmida, encostando-se aos pés de uma raiz e relaxando seu corpo fatigado. Lagrimas rolavam compulsivamente por seu rosto, mas não se achava triste ou deprimida. Todos aqueles acontecimentos, embora lutassem para assombrá-la, tratavam-se de ser nada além de sombras de um passado distante; não adiantaria, pensou, lamentar-se das mortes de suas irmãs ou da destruição de seu lar. Precisava seguir o que fora ordenado por sua antiga líder. Iria seguir em frente, proteger a relíquia. Sua mão tateou entre os seios, sentindo a pequena pedra queimar ao seu contato. Acariciou a criança adormecida em seu colo por alguns minutos antes de, enfim, entregar seu cansaço ao mais atraente e merecido descanso.
Fechou os olhos e, quando os abriu, viu-se de pé. Não estava numa floresta, e o desespero a dominou ao não avistar Jym ao seu lado. Gritou por seu nome diversas vezes, ouvindo a própria voz ecoar e nada mais. Decidiu correr, avançando por corredores e belas salas de paredes douradas e mobílias impecáveis, ignorando-as e ocupando-se em gritar pelo nome da pequena, não ganhando respostas. Uma música surgiu num dado momento. Uma bela melodia, originária de uma harpa, soltando acordes relaxantes e encantadores. Sentindo-se atraída pela canção que se iniciou em seguida, Andrômeda viu-se entrar numa sala triangular, com uma fonte de mármore em seu centro; anjos e outras criaturas de beleza natural soltavam água em sincronia perfeita com a canção, transformando aquele ambiente no local mais calmo e pacifico imaginável.
Encontrou a origem da música após olhar atentamente em um canto. Estava sentada no chão uma linda mulher, com animais silvestres hipnotizados por seu canto. Os cachos louros caiam por seus ombros e escondiam um dos seios expostos. Estava nua, embora não aparentasse ser indecente ou vulgar. Era algo normal. Andrômeda tremeu e sentiu seu coração pulsar com força, notando o arco dourado caído ao lado da musa e as flechas rubras espalhadas pelo chão. Lutou para compreender o que estava acontecendo, beliscando o próprio braço para despertar daquilo. Devo ter morrido, pensou, não conseguindo esconder o sorriso. Um por um, os animais levantaram-se e desapareceram em fumaça. A cantora abriu seus olhos e encarou sua única ouvinte por míseros segundos, lhe entregando o sorriso mais honesto e belo possível.
Andrômeda, então, chorou. Igual uma criança, soluçando e não conseguindo controlar sua emoção. Nunca vivenciou algo tão forte igual aquilo. Deitou sua cabeça no colo daquela mulher ao ser chamada pela mesma, sentindo pela primeira vez o calor e carinho de alguém que tanto admirou e pediu por ajudas e conselhos. A loira nada falou, deixando as lágrimas desgastarem sua frágil filha. Acariciava os negros fios da garota, falando palavras tranquilizadoras e ouvindo o pranto voltar a aflorar.
Todas as mágoas e tristezas existentes em seu coração fugiram de seu ser junto com as lágrimas, e seu pranto deu-se por encerrado após alguns minutos. Andrômeda ajeitou-se, desconfortável e sem graça por ter feito aquilo frente àquela mulher. A loira nada falou por alguns segundos, acariciando o rosto da garota com ternura e afeto, molhando os finos lábios antes de soltar suas primeiras palavras.
– Todas as dores que tanto ocultou dos outros foram embora – disse, sem afastar seu carinho de Andrômeda. – Os sentimentos de solidão, os questionamentos de quem realmente é... Seus medos e sofrimentos. Todos esses sentimentos amontoados em seu coração foram lavados e carregados para longe, minha filha. Carregados e abandonados no passado. É chegado o momento de você lutar e sobreviver, cumprir o que lhe foi dado. Você não falhará. Eu sei perfeitamente disto, filha. Você sempre foi pura, sempre orou honestamente em meu nome... Tem amor verdadeiro em seu coração. Por isso sei que conseguirá cumprir sua missão.
Andrômeda demorou em responder.
– E caso eu falhe? Caso aconteça algo em minha jornada? E se os inimigos nos encontrarem? Eu... Eu não sou forte fisicamente, mãe. Não conseguirei batalhar caso tentem tomar a relíquia de mim.
– Alguém lutará por ti. Sua jornada não será solitária, filha. Existem pessoas com o coração tão cheio de amor quanto o seu. Existe alguém que olhará para você e encontrará necessidade em continuar vivendo. Naturalmente algo impedirá o nascer disto. Não se preocupe. O destino estará pregando-lhe peças, mas está tudo escrito e determinado.
– Eu tenho medo que algo aconteça com Jym. Somente isto. Não importo o que aconteça comigo... Ela é o que tenho. Não posso nem pensar em...
A loira a calou, sorrindo.
– Eu compreendo filha. Você a ama, e do amor nasce a esperança. Esta e a arma mais poderosa que existe. Graças a este amor, tudo seguirá conforme o planejado. Não tema o futuro, Andrômeda. Você aprenderá a enxergá-lo com mais precisão ao avançar de sua vida.
A dúvida e curiosidade ainda pulsavam em sua imaginativa mente. Andrômeda forçou questionar uma outra vez, mas logo os lábios da loira calaram os seus. Após o singelo e sepulcral beijo, a deusa pronunciou uma oração de proteção antes de permitir o retorno de sua filha para o mundo dos vivos. Embora sentisse segurança ao lado dela, Andrômeda suspeitava que Skarya estaria sempre em seu coração. Sempre esteve, sabia daquilo. Aquele pensamento a deixara feliz, pronta para continuar sua jornada. Encontrou motivos para não desejar acordar de seu sonho, mas quando o fez, sentiu-se pela primeira vez pura e leve para continuar sua vida. Estava pronta.
Despertou ao ouvir uma voz masculina cantando ao longe. Assustada, puxou Jym para perto de si, acordando a pequenina em um susto. Não identificou exatamente de onde vinha aquela voz: seu eco aparentava vir de todos os lados, sendo impossível de identificar sua origem. Decidiu manter-se rente a árvore que tanto a protegeu durante a noite. Silenciosa, como se não estivesse aqui. Quando passarem, fugirei. Não deveria ter dormido... Foi um erro brutal. Meus inimigos me encontraram.
Primeiro avistou um simples e pequeno garoto. Aparentava ter oito, no mínimo. Usava roupas humildes e maltrapilhas, com um chapéu de palha rudimentar protegendo sua cabeça do sol já erguido na imensidão azul. Um camponês, puxando um bruto e forte corcel negro. Então, notou aquele que cantarolava: o cavaleiro tinha um rosto difícil de imaginar qual seria sua idade – com sua barba rala aparentava ter por volta dos trinta, mas se a tirasse estaria na mesma faixa etária de Andrômeda. Usava peitoral e ombreiras de uma armadura prateada bem cuidada, sendo possível notar o capacete preso ao lado do animal. Em sua cintura, facas brilhavam ao lado da espada oculta em sua bainha. Um guerreiro, andando na companhia de uma criança. A garota esperou avistar mais pessoas os seguindo, não as encontrando. Estranho... Guerreiros de Ariel andam em bando, pelo que lembro.
A cantoria terminou e o homem, guiado por um instinto forte e perfeito, olhou diretamente para as duas caídas aos pés de um carvalho. Automaticamente pulou de sua sela e gritou:
– Tacho! Pegue os panos! Há duas senhoritas tremendo logo ali...
Os dois avançaram em sua direção, com o menor remexendo em uma grande sacola antes oculta em suas costas. Jym escondeu seu rosto nos ombros da maior, temendo o pior. Estavam muito próximos agora, de modo que era impossível de se fugir; ao menos, fugir com vida. Controlada pelo ódio e raiva, Andrômeda esticou seu braço direito na direção do cavaleiro, mostrando a palma de sua mão e falando no maior tom de ameaça que conseguiu reproduzir:
– Parados! Os dois! Fiquem exatamente onde estão, antes que eu os mate! Não julguem meu sexo ou minha aparência como sinais de fraqueza! Peguem sua montaria e sumam de minha vista! Esqueçam que nos avistaram! Vão, antes que eu lance meu maior golpe e mate-os aí mesmo!
Tanto homem quanto garoto pararam seu aproximar, trocando olhares confusos.
– Senhor – disse aquele chamado Tacho. – Por que a moça nos aponta sua mão estendida? Será esta uma ameaça ou saudação?
– Realmente não sei – respondeu o de armadura, voltando sua atenção para a moça. Seus olhos encontraram os dela, e ele sorriu em alegria. – Desculpe se a assustei com minha cantoria infantil, minha doce princesa. Trilhávamos em direção de Eastriver... Estão sozinhas? Estas matas são perigosas para duas jovens e...
– Para trás! – gritou Andrômeda por mais uma vez. – Não quero nenhum seguidor sanguinário da deusa Ariel próximo a mim!
– Deusa Ariel? – ele estranhou, achando graça em seguida. – Uma deusa mulher... Que engraçado. Só há um Deus!
Andrômeda abaixou a guarda, estranhando tal comentário. O homem aproximou-se lentamente, com mãos erguidas e a mostra, chamando o jovem com o dedo num dado momento, sem olhá-lo. Ajoelhou-se a altura dos olhos de Andrômeda e falou, calmo e lentamente:
– Perdão, princesa... Fui rude em meus modos. Permita eu apresentar-me. Sou Lancel Coastbrave, cavaleiro do segundo círculo dos Protetores da Justiça. Este é meu pajem e fiel companheiro de diversas aventuras, Tacho. Seu real nome é Owen Goldfist, filho do grande e único rei Julius Goldfist. Ele não se importa de como prefira chama-lo. Vejo que passaram a noite perdidas na mata. Parecem estar com frio, e famintas. Tacho, por favor – num piscar de olhos, Andrômeda viu-se envolvida numa manta peluda e aconchegante, segurando grandes pedaços de pão e carne salgada. O homem continuou: — Para onde minha princesa está indo? Será nossa obrigação leva-las em segurança até lá.
– Não necessitamos de ajuda de nenhum homem – ela respondeu com boca cheia. Por mais que sua desconfiança em relação ao desconhecido fosse grandiosa, seu estômago implorava por alimento. Não pode negar que estava tudo delicioso, e o calor da manta aquecia seus ossos; não iria, no entanto, admitir ou deixar amostra o quanto adorava todo aquele cuidado. Engoliu em seco a carne antes de continuar: — Estamos muito bem sem ajudas. Por que deveríamos confiar em você? E se fossem inimigos?
– E que tipo de monstro ameaçaria atacar uma princesa e uma criança? Que absurdo! Estão querendo lhe fazer mal? Não permitirei! Essa será nossa missão agora, Tacho! Iremos levar ambas as donzelas até seu destino, e somente a morte nos impedirá de prosseguir!
Andrômeda lutou para responder, até notar a ausência de Jym em seus braços. O nervosismo e terror diante do que aquela possível ameaça pudesse fazer a fez esquecer-se por breves momentos de sua protegida. Droga! Onde... Então avistou a pequenina brincando e acariciando o cavalo negro. Soltava gargalhadas e abraçava a cara do bicho, que aparentava adorar toda aquela situação. Tacho aproximou-se do animal, mostrando para a criança os truques aprendidos ao longo dos anos. Voltou sua atenção para o cavaleiro e disse:
– Bem que o senhor falou que donzelas não gostam de cavalos brancos!
O cavaleiro sorriu, voltando-se para Andrômeda:
– Acho que a pequenina sabe e confia em nós. Sabe que não lhe faremos mal. Por que não enxerga o mesmo, minha doce princesa? Vamos! – e estendeu a mão. – Deixe-me guia-la para onde queira ir.
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