A Fugitiva

1 Um Breve Início


Notas iniciais
Boa Leitura :)

Não me lembro. Mesmo que sempre me perguntem sobre eles, mesmo que eu me esforce, não tenho nenhuma lembrança de meus pais, nenhuma herança, exceto o sangue que corre em minhas veias. O que sei é que eles morreram pouco depois de meu nascimento, na verdade, é o que eu sabia, até aquele verão.

Para início de conversa, me chamo Hannah, tenho 15 anos e moro com minha mãe adotiva, Ilza, uma senhora de 45 anos, de pele escura, dona de uma voz doce, olhos severos e ótimos dotes culinários. Meu pai adotivo, assim como os meus pais biológicos, morreu pouco tempo depois de me ter em suas mãos, enfarto. Minha mãe evita falar sobre isso comigo e com qualquer um, talvez ela ainda não tenha superado, ao contrário de mim, o trânsito de pessoas na vida de Ilza era pouco intenso, e a dor da perda de Hans só era menor do que a dor de uma possível perda de mim mesma.

– Antes ele que você. Perder você seria uma perda irreparável, nunca iria me perdoar – Dizia ela, mesmo que eu não entendesse muito, eu não tive nenhuma relação com a morte de Hans, ou pelo menos acho que não.

É difícil precisar onde moro, já que mudamos, e muito, de endereço, Ilza nunca me diz o porquê, isso só faz com que seja cada vez mais difícil se enturmar, meus óculos fundo-de-garrafa e meu rosto cheio de espinhas também não ajudam muito. Nesses meus poucos anos de vida aprendi que aparência é sim importante, e também aprendi que não estou nem aí pra isso. Meus cabelos loiros, olhos castanhos e pele branca não revelam nenhuma ligação com Ilza, minha mãe adotiva, o que sempre é motivo de perguntas, perguntas essas que insistem em tocar em uma ferida que Ilza tenta esconder, um assunto que se torna a cada dia mais difícil de evitar, meus pais. Sempre discutimos quando eu toco no assunto, se ela ao menos explicasse a razão para isso, talvez conseguisse entender.

– Você é um presente de Deus, Hannah, seus pais eram boas pessoas, mas tiveram um fim trágico. – Ela sempre repetia.

– Que fim?

– Morreram em um acidente. – A conversa ficava por aí.

Ilza poderia ser boa em tudo, menos em mentir, ela sempre mudava algum detalhe na história, e eu sempre sentia que nenhuma das versões que ela contava era verdadeira. Na minha infância, os furos na história passavam despercebidos, mas não sou mais uma criança e mesmo sendo grata à Ilza, minha mãe de criação, não ter uma identidade, alguém para se espelhar, alguém onde meus traços, meu sangue estivessem presentes era desconfortante.

Tirando as dúvidas, mistérios e tudo o mais, minha vida era boa, muito boa, pra falar a verdade. Dinho, ou Diego, meu melhor amigo, e provavelmente meu único, mas que valia por vários e eu sempre, após a escola, íamos ao Parque andar de bicicleta, jogar videogame na casa dele ou até ficar andando à toa pela cidade, atitude perigosa para duas crianças.

– Adolescentes! – Respondia ele. Aquele guri realmente me tirava do sério.

– Com treze anos você não é um adolescente, eu que sou – Mas eu também sabia como irritá-lo.

– Dois anos! DOIS ANOS! – Berrava ele com os olhos esbugalhados e com o rosto vermelho como sangue. Para ele, o fato de eu ser dois anos mais velha não significava nada. E realmente não significava, mas deixar ele furioso era muito mais engraçado, e eu, meio que por intuição, estava aproveitando o tempo que ainda tinha para isso, já que como por um golpe do destino, aquilo seria tirado de mim como se tira doce de uma criança.

***

Naquela manhã acordei muito cedo, peguei minha mochila, calcei meu Converse surrado e vesti um moletom GAP vermelho que havia ganhado de aniversário no ano passado da minha professora, na época não me caia bem, mas hoje já estava mais que justo em mim. Havia combinado com o Dinho de passar o dia, meu dia, com ele na cidade, afinal, dezesseis anos não se faz todo dia. Pegamos nossas bicicletas e passamos pela ponte que separava o subúrbio da cidade do centro. O vento frio cortava como uma navalha, e a chuva fraca que caia nos encharcava e anunciava um resfriado, não no meu caso, já que praticamente nunca fico doente, o que é bom.

Não demorou muito para percebermos que nossa cidade não oferecia muito do que dois adolescentes chamariam de diversão, mas de qualquer maneira foi bom passar o dia à toa. À noite voltamos para casa, passando pela mesma ponte que havíamos cruzado mais cedo, mas a noite ela parecia muito mais bonita, as luzes que cobriam a estrutura metálica contrastavam com a escuridão da noite criavam um efeito magnifico. Ficamos por alguns minutos observando em silêncio o as casas baixas que surgiam à nossa frente enquanto de algum lugar saía o som do que parecia ser uma música antiga muito famosa, mas que não recordo o nome.

– Ainda vou sentir muita falta disso. – Disse Dinho, com o tom de voz mais sério que o habitual.

– Também vou – Respondi. Mas não fazia ideia do quanto.

Ao chegar em casa encontrei uma Ilza aflita, seu olhos sempre severos estavam agora transbordando desespero. Provavelmente não havia visto meu bilhete deixado sobre sua mesa de cabeceira. Quando seus olhos me encontraram parecia que um peso havia sido tirado de suas costas.

– Hannah! – Exclamou ela – Onde você se meteu garota?

– Ué, você não viu o bilhete?

– Qual bilhete? – Como imaginara, ela não havia visto. – Fiquei tão preocupada, minha filha.

– Sem neura mãe. Tô viva, tô inteira, tô bem.

– Linguajar mocinha – Advertiu ela, claramente aliviada por poder dar uma bronca em mim. – Alias, feliz aniversário!.

– Obrigada, te amo. – A abracei como nunca fiz e nunca mais faria.

Depois do jantar fui dormir, e aquela noite tive um sonho, um sonho extremamente nítido. Estava em uma maca, sendo carregada por pessoas com trajes brancos e máscaras cirúrgicas, me levantava e tentava fugir, mas era posta de volta na maca por militares que eram duas vezes maiores que eu. Uma voz gritava meu nome, parecia a Ilza, mas quando tentava procurar a origem da voz, fui acordada por ela batendo na porta.