A Foz das Carpas
3 Feridas em Primeiro Plano
Notas iniciais
Com um pouco de água que retirou daquela enorme lagoa, esfregou sua perna, limpando-a de todo o sangue de seu acidente, mas fazendo-a arder no processo. Cerrou a mandíbula, rangendo os dentes, fechou os olhos com força e apertou a pele ferida com ainda mais força, sentido a dor aumentar.
Esfregar água salgada para limpar suas feridas abertas, claro, genial.
Uma lágrima solitária escorreu em nome de sua genialidade.
Esticou a perna trêmula, sentido uma pontada maior a cada movimento. Agora que já não havia sangue esparramado era possível ver melhor o estrago que fora feito. Um único corte se estendia do centro de seu joelho até pouco acima de sua canela, e, orbitando este, inúmeros cortes menores e alguns hematomas.
Claramente não era pra tanto sangue, mas ele não era médico e este tipo de julgamento estava muito além de sua alçada. Amarrou o tecido de sua calça ao redor de sua coxa na esperança de que isto ajudasse.
Se as pontadas de dor fossem qualquer indicativo, diria que não estava funcionando.
Ergueu-se na curta ilhota de poeira sobre a qual se refugiava e gemeu ao sentir uma espécie de dor quase lasciva no ato.
Escorou-se no rochedo às suas costas para manter-se de pé e olhou para cima.
Não havia sido uma queda tão inacreditável quanto a queda de Koiko — "apenas" um Tori de altura -, mas ainda assim era uma queda e tanto, principalmente quando se aterrissa em cima do próprio joelho.
Surpreendia-se de que ainda conseguia se manter de pé.
Fosse seu irmão, não só não teria problemas para fazer essa descida, como faria do lugar uma atração à céu aberto para qualquer um morador da capital poder se divertir.
Um suspiro de decepção escapou-lhe pelos lábios. Eles eram como Sake, a diferença é que ele precisava ser aquecido.
Com um grunhido de dor, começou a recolher a corda que usara para descer, que de tão longa, recaiu sobre as águas, encharcando-se.
Havia superestimado a real altura do lugar, mas não é como se a realidade fosse irrisória. Valeu a pena gastar um koban pela palavra daquele comerciante duvidoso no porto Habu.
Minúsculas ondas se formavam a cada puxão que dava na corda que adentrava lagoa a dentro tal como uma serpente.
O som molhado dela sendo içada ecoava por toda a ravina a igual que as ondas se propagavam pela superfície d'água, fazendo mover também a vida que ali havia.
Viu como um par de carpas se aproximavam dali apenas para nadar para mais longe, espantadas pelo correr da corda, mosquitos pousavam e se afastavam da superfície aquática conforme ela aquietava e ondulava, dando pequenos voos rasantes aqui e ali.
Podia até mesmo jurar que tinha ouvido um coaxo tímido ecoar de algum lugar distante caverna a dentro.
Quando enfim terminou de enrolar a corda ensopada, se permitiu admirar um pouco mais o local em que estava.
A água levemente turva que os cercavam trazia consigo o cheiro agradável do mar numa espécie reduzida de maresia e era convidativamente fria ao toque.
Uma leve brisa passava por seu rosto quase que como uma carícia e um assobio atestava a passagem do vento que uivava pela mesma abertura que um pingo de luz invadia a gruta, na parede oposta da caverna.
Era um ambiente absolutamente pacífico.
Os fachos de luz que entravam pelos buracos do teto, juntamente do fragmento de luz que parecia sobreviver á um longo e acidentado túnel a frente, refletiam sobre a água e clareavam todo o local, dando um toque quase mágico.
Ergueu sua cabeça e se perdeu, admirando o show de luzes que os reflexos das ondas faziam sobre as raízes que ali haviam.
Enquanto admirava o dançar das luzes, entristeceu-se.
Uma terna melancolia o abraçou tal como se fosse uma velha amiga que já não o via a muito ás.
Sua morada desde o nascimento não poderia ser menos para ele do que um poço de decepções aberto bem na boca de seu estômago. As pessoas, as mentiras, o sussurro, as traições, as conspirações, as armações, o crime, o desprezo, o ódio, o sangue.
Esse país era um barril de pólvora cujo pavio já havia sido aceso e logo iria explodir.
Se tudo desse certo, ele estaria muito longe quando isso acontecesse, mas ele duvidava.
Não é nada fácil passar pela fronteira "aberta" de Wano. O controle dos Kouzuki sobre o porto Togura era forte demais para ser confrontado e vigiado demais para se poder passar despercebido por ali.
E haviam as patrulhas constantes nas bordas da cachoeira.
Sair do país não era tarefa fácil, em todos os sentidos. Também não era como se ele quisesse simplesmente desaparecer, sair pela porta dos fundos e nunca mais olhar para trás. Ele ainda tinha sua família. Seu coração já se partia só de pensar em abandonar seus pais, irmãos e irmãs.
Por mais que tivesse repulsa ao seu pai.
O simples pensamento de nunca mais ver sua família o deixava cabisbaixo. Estava entre a cruz e a espada. Por mais que amasse sua família, não conseguia se ver feliz ali e por mais que quisesse sair, não se sentia verdadeiramente capaz de ser feliz abandonando sua família.
Mesmo que conseguissem passar por todas as dificuldades que envolvem deixar o país, não sabia dizer o que seria deles no mundo do lado de fora. Não tinham um lugar para cair mortos ou dinheiro estrangeiro e teriam de roubar de suas próprias casas se quisessem ter posse que lhes valesse um prato de comida que seja.
E sequer saberia dizer se tudo isso que estavam fazendo nesse exato momento serviria para adicionar qualquer tostão aos seus bolsos.
Puxou de dentro de seu kimono uma bolsa de tecido surrado e a vasculhou por dentro, tirando de lá um pergaminho fino, porém longo. Desrosqueou da base de madeira do pergaminho um pincel e um pouco de tinta.
Sentou-se, sentindo as dores de suas perna, e, mesmo sem o devido apoio para tal, pôs-se a escrever o que havia feito até aquele ponto do dia e cada um de seus pensamentos.
Era uma surpresa que não tenham dado-lhes uma informação falsa.
Era uma surpresa ainda maior que alguém tenha ocasionalmente vindo parar nesta caverna após cair no mar e o local não tenha simplesmente se tornado uma atração turística.
Claro que eles ainda precisariam esperar para confirmar se as ovas estavam de fato lá embaixo ou não.
Depois ainda teriam descobrir se elas de fato valiam a fortuna que haviam dito valer.
Considerando que era as ovas das carpas que subiam a cachoeira e que doma-las parecia ser um dos únicos meios possíveis de entrar ilegalmente no país, elas realmente deveria valer muito dinheiro.
A questão que vinha logo a seguir era: Tekiya e Bakuto realmente tinham dinheiro o bastante para pagar pelas ovas?
De fato eles tinham um renome no submundo da Yakuza, mas ainda assim, eram apenas dois garotos não muito mais velhos do que ele mesmo.
E eles eram filhos de uma das nove bainhas vermelhas, o que os colocavam diretamente debaixo do guarda-chuva da família Kouzuki.
Isso tinha que ter algum peso no mundo da Yakuza, certo? Não que eles mesmos não sofressem disso.
Eles ainda assim teriam dinheiro para poder pagar pelas ovas? Era tão recompensador assim a vida do submundo?
Desenrolou um pouco mais de seu pergaminho para reler suas anotações mais antigas, buscando com seus olhos as informações que tinha sobre os irmãos problema de Wano.
Além de extorquir um ou outro vendedor local, Tekiya controlava boa parte dos açougues das ilhas ao redor da capital e estava começando a por suas mãos no comércio pesqueiro.
Bakuto, além de ajudar seu irmão, comandava alguns dos principais centros de apostas clandestinos do país.
Claramente tinham muito poder nas mãos e muito dinheiro passava por eles, mas ainda assim, eles poderiam paga-lo?
—Não importa, só cala a boca, eu não dormi direito!- reclamou Koiko de repente, fazendo-o sentir seu rosto queimar imediatamente.
—Des-desculpe-me! E-eu não sabia que já havia acordado!- respondeu virando-se para esconder sua vergonha.
—Não estava até agora.- a réplica veio acompanhada de um gemido intenso de dor.
—Suas costas...
—Não importa. Eu mereço por meu descuido. Sobre esses dois, quais as reais chances deles não nos pagarem?
—Bom, eu não sei... os dois tem muito nas mãos, mas não tem como garantir que sejam capazes de pagar por isso, nem que sejam capazes de nos tirar do país sem nos entregar...
—Tsc! No fim a palavras de ladrões e mendigos não vale um punhado de arroz queimado.
—Não tem muito o que se fazer sobre isso. É torcer pra eles nos pagaram ou voltar pra estaca ze-
—Voltar pra estaca zero?! Torcer!? Não! Nunca! Jamais! Eles irão nos pagar ou tirar a gente do país, ou vai haver sangue!
Um silêncio constrangedor se seguiu a forte declaração, no qual Tanishi voltava a abater-se pelo rumo que as coisas haviam tomado.
—Eu me exaltei...- desculpou-se Koiko com um suspiro.
—Não, eu gosto do seu entusiasmo e dedicação...- tranquilizou com um sorriso invisível.
—Você... tem certeza de que quer ir embora? Quer dizer, você vai realmente deixar sua família e ir pro mar? O mar não é exatamente o lugar mais seguro do mundo... ainda mais ultimamente...
—É, eu sei... mas se você consegue deixar seus país, eu também consigo.- sua resposta não passou de um bufo.
—Meus "país" não ligam pro que eu faço. Se eu estou numa roda de apostas, num bordel qualquer ou se morri em uma vala qualquer. Tudo que importa pra eles são os assuntos do clã Kouzuki e aquela maldita escola de dança. Mas com você é diferente. Apesar de seu pai ser como o meu — talvez até mesmo pior -, sua mãe realmente se importa contigo, assim como todos os seus irmãos...
—Mesmo que todos os meus irmãos se importem, cada um deles são tão dedicados a tantas coisas tão distantes da minha realidade, que eu sinto que a minha mera presença só os atrapalha... até mesmo os recém nascidos! Como eu disse, se você consegue deixar sua mãe, eu também consigo! E eu ainda consigo nadar, ao contrário de você!
Findou sua resposta em um tom comicamente vitorioso e exibindo sua língua, fazendo sua contra parte rir.
—Eu com minha força e você com sua inteligência e natação, formamos uma bela dupla, minha bóia!
E riram, mas não por muito. Com um som retumbante que mais se assemelha á artilharia de canhões, um rei dos mares horrendo ergueu-se das profundezas da lagoa, levantando no ar uma quantidade absurda de água.
Fugindo da penumbra formada pela crista da onda, um homem de cabelos morenos trajando um kimono laranja com detalhes pretos praticamente corria por sobre as águas, trazendo consigo uma esfera pouco menor do que um melão de coloração profundamente avermelhada.
—EU PEGUEI!, RAPIDO!, CORRAM!
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