A Foz das Carpas
4 Passagens e improvisos
Notas iniciais
A criatura olhou-os de cima para baixo com um olhar cego, olhos brancos e sem brilho fitando o nada.
—Men- o vocativo de Tanishi foi cortado pelo sujeito por ele evocado.
—Corram! Rápido! Subam antes que ele veja vocês!- berrou o mergulhador com a ova do monstro, já no topo da ravina, mal segurando-se pela corda enquanto olhava para a dupla de pé, com ambos os pés descalços no rochedo num ângulo que desafiava a compreensão que Tanishi e Koiko tinham de gravidade.
—Como ass- uma vez mais Tanishi fora calado, dessa vez por um ensurdecedor rugido do grande peixe. —Mas o- o mesmo se interrompeu, dessa vez cegado quando, de uma espécie torpe e curta de tentáculo que se saia por cima da cabeça e por entre os olhos, um pequeno globo na ponta da dita saliência brilhou, emitindo uma luz cuja intensidade os forçou a cerrarem seus olhos. —O- sentiu-se agarrado no peito pelo kimono que vestia e fora arremessado ao lago, recaindo sobre as gélidas águas e tendo seus gritos abafados pela mesma.
Tentando alçar a superfície, sentiu-se espremido por correntezas inesperadas, sentiu-se pressionado contra o piso rochoso e sentiu ainda o impacto de um pedregulho que lhe acertou as costas — por sorte errando a cabeça.
Do lado de fora, um grande estrondo pôde ser ouvido, seguido de gritos e um turbulento chacoalhar do Rei dos Mares.
—Mas o- suas curtas palavras, proferidas ao finalmente emergir do lago, foram engolidas por ondas, assim como o próprio Tanishi, que só conseguiu respirar ao se chocar contra a ríspida e escorregadia parede, do lado oposto da caverna.
—O que tá acontecendo?!- foi o grito libertário que finalmente conseguiu deixar a garganta do jovem, ao que fora respondido com a visão da criatura se desvencilhando de um enorme buraco que ela mesma abriu quando tentou abocanha-los na ilhota que antes estavam.
Por um breve momento temeu que o monstro tivesse engolido Koiko em sua investida, mas sua precoce preocupação deu lugar à uma ainda maior e melhor fundamentada ao encontrar Koiko segurando-se na base da saliência do peixe, a mesma pressionando seu corpo rudemente contra as rochas, quase esmagando-o violentamente no processo.
Os gritos de dor de Koiko foram seguidos por grunhidos de raiva e uma mordida desferida na cabeça do animal, juntamente com algumas punhaladas de uma faca tirada de suas vestes surradas.
O peixe não pareceu sequer notar, no entanto.
—KOIKO!- gritaram os outros dois em uníssono, um pondo-se a nadar em direção à cabeça da criatura, o outro atirando-se do teto e recaindo como um punhal no dorso do animal, perfurando-o com uma faca para se fixar ao mesmo.
Infelizmente, sem sucesso.
Apesar de perfurar pela escamosa pele e penetrar na carne, a escorregadia superfície das escamas o fizeram derrapar lateralmente, abrindo um longo porém esguio rasgo no corpo do peixe, que ganiu em resposta.
—Se segura, Tanishi!- berrou ele atirando ao adolescente à deriva um pedaço cortado de sua corda enquanto perfurava com uma segunda faca as escamas da criatura.
Na inércia de sua queda abruptamente interrompida, ele girou uma vez, lançando-se ao ar na direção de Koiko e trespassando para a outra lateral do Rei dos Mares. Arremessou durante sua travessia uma de suas facas, acertando o lado de dentro das guelras dele, arrancando um guincho de dor e fazendo-o erguer-se de supetão, acertando com força a cabeça contra as paredes da gruta.
O súbito movimento fez esticar a corda que seguravam no ato, tirando-os da água de imediato e mandando-os um de encontro ao outro.
Tanishi, que mal havia consigo segurar na corda fora recebido por seu companheiro com a sola dura de sua sandália de madeira pisoteando-lhe o rosto.
—Segura as pontas ai!- berrou ele tomando um impulso no rosto de seu amigo.
—Quando você teve tempo de colocar suas sandálias?!- perguntou Tanishi por entre o sangue derramado de seu nariz e gengivas enquanto caia de volta na água, sendo parado apenas quando a corda — agora amarrada ao seu pulso — se esticou por completo, prendendo-o ao peixe. —E quando você me amarrou?!-
Seu companheiro de laranja, no entanto, não ouvira, completamente empenhado em escalar as escamas do monstro na direção de Koiko, quem à essa altura perdera a consciência devido ao impacto de quando a cabeça da horrenda criatura chocou-se contra as rochas.
Pulou logo após alguns poucos passos verticais sobre o escamoso corpo, se lançando na direção de Koiko, conseguindo segurar seu pulso e o pequeno globo de luz pouco depois do Rei dos Mares, acuado em sua dor, mergulhar, arrastando-os no processo.
A pressão da água esmagou seus corpos contra o corpo da criatura conforme a mesma avançava cegamente pelas turvas águas da caverna, rumo ao norte.
Tanishi tentou resistir à força incomensurável das correntezas que o cercavam e o sobrepujavam, mas seus esforços mostram-se completamente infrutíferos e tudo que ele podia fazer era manter-se encolhido entre uma escama e outra enquanto rezava silenciosamente para que tudo aquilo acabasse logo.
Mal podia enxergar alguma coisa.
Tudo que seus olhos conseguiam captar eram sombras de rochas e peixes passando por ele numa velocidade estonteante.
E então, não era mais possível se enxergar mais nada.
Haviam entrando em alguma rachadura nas paredes, dava para deduzir tanto pelo raspar das rochas sobre a pele, rasgando as roupas e ferindo a carne. Teve de se conter para não gritar de baixo da água por causa da dor.
Sentiu-se tonto e a ponto de desmaio quando, numa curva estranha no meio do trajeto, chocou-se diretamente contra a parede da estreita passagem e logo depois chocou-se novamente contra o corpo do animal, sentindo-se chacoalhar de um lado para o outro com a brusquidão dos movimentos dele até que enfim a criatura parou quando saíram de dentro da rocha.
—REI DOS MARES!-
Ouviu alguém gritar quando a água deu lugar ao ar e pôde enfim respirar de novo.
Demorou alguns segundos para reconhecer aonde estava pelo seus arredores, principalmente porque nunca havia estado ali, mas só havia lugar que poderia se parecesse com aquele no país de Wano.
—Mogura?
—GEPPO!
Espantou-se ao ver pessoas mascaradas e trajadas de branco da cabeça aos pés simplesmente andarem no ar como se houvesse ali um caminho secreto que apenas eles conheciam para abandonar a gôndola onde estavam, que agora estava se inundando.
—Isso é mal!- desviou seu olhar para cima a tempo de ver Koiko voando em sua direção. —Vou cuidar disso, volto já!- enquanto dizia suas palavras o homem de kimono laranja se atirava sobre os homens de branco.
—Ei!- mal tivera tempo de apanhar o corpo desfalecido de Koiko antes de ver o outro pisar no rosto de um dos homens de branco de igual maneira ele fizera com o próprio Tanishi não muito antes.
—Foi mal!- desculpou-se já saltando para a parede mais próxima, escalando-a somente com a planta de seus pés, subindo como corria.
O homem pisoteado, no entanto, não gostou.
—RANKYAKU!- com um chute o revolto homem enviou um corte que dilacerou a parede em que seu colega se apoiava para andar, visando acerta-lo no processo.
Mas o mesmo saltou antes que isso acontecesse, pisando sobre as costas de um outro homem de branco que estava mais acima e impulsionando-se de volta na direção da cabeça do Rei dos Mares.
—SEU! SHIGAN!- mas o tiro errou conforme o moreno continuava à ascender, revezando entre se apoiar no corpo do peixe e se apoiar nas rochas do lado oposto.
—Assunto secreto da Família Kouzuki! Me desculpem!
Isso pareceu acalmar os ânimos dos usuários do Rokushiki, que com apenas um crispar de língua se resignaram à aceitar, parando até mesmo de andar sobre o ar.
Por outro lado, o Rei dos Mares rugiu em protesto quando o Kouzuki em questão acertou ambos seus olhos com duas facas Kunai após se impulsionar na direção de seu rosto.
Ele só não esperava ser engolido em retaliação.
Exasperou-se ao vê-lo abrir a gigantesca boca para abocanha-lo. Ergueu um de seus braço na direção da monstruosa.
—Rasen- mas fora engolido.
E pensar que ele viveria para ver um Kouzuki sendo devorado por um peixe.
Mas não ficou barato.
Um estrondo fora ouvido e um clarão azul claro atravessou a pele da criatura, indicando que a luta continuava.
E assim o Rei dos Mares começou a se debater, chocando-se contra parede até encontrar, no lado oposto de onde saíra uma outra abertura que pudesse atravessar, dessa vez seca.
Tanishi, dependurado pelo pulso esquerdo e ferido de toda essa agitação, nada pôde fazer além de agarrar-se a Koiko e deixar-se ser levado novamente.
Fechou seus olhos e tossiu com a irritação da poeira erguida com a passagem da grotesca criatura pela passagem seca e chorou de dor quando sua perna já ferida acertou novamente uma rocha solta pelo caminho.
Tudo que podia fazer era resistir a agarrar-se cada vez mais firme para que Koiko não caísse, seu agarre cada vez mais forte sobre seu peito arrancando gemidos de dor de seus lábios.
Quando pensou que estavam condenados a morrer soterrados num caminho sem saída subterrâneo, o Rei dos Mares fez jus ao seu título e encontrou a água, chegando por fim ao mar aberto.
Mais explosões foram ouvidas do lado de dentro da criatura e mais guinchos de dor foram ouvidos dela, mais e mais forte ela se contorcia em seu nadar.
Tentando olhar para o exterior nada podia ser enxergado além do profundo azul das águas e inúmeros borrões escuros e um risco claro e brilhante, que ele assumiu serem — respectivamente — as sombras dos peixes que se afastavam, abrindo caminho para que o Rei passasse, e o Sol, brilhando fortemente no céu.
E enfim, a criatura parou.
A inércia de sua parada abrupta lançando tanto Tanishi quanto Koiko na direção das águas, ultrapassando-a e desprendendo a corda que até então seguia presa firmemente à uma das barbatanas do bicho.
O Rei, agora morto, não era nada além de espasmos de sua grotesca boca e brilhos esporádicos de seu globo, sangue escapando-lhe por entre quase todas as escamas.
Não saberia dizer como era possível que tudo aquilo tivesse sido feito no pouco tempo em que estiveram agarrados à ele, tão pouco saberia dizer como era possível matar um Rei dos Mares de dentro para fora(verdade seja dita, ele não saberia dizer como matar um de fora para dentro também).
Tudo que ele sabia era que estavam à salvos.
À deriva.
No mar de Wano.
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