A Foz das Carpas
2 Caça ao Tesouro
Notas iniciais
O som da água se agitando ao seu redor era semelhante ao de canhões, foi o que pensou ao atirar-se naquela espécie de lagoa entrada engrutada.
Podia ver que nas partes rasas que alguns peixes tão pequenos quanto as palmas de suas mãos pareciam mordiscar o chão em busca do que lhes enchesse as barrigas. Algumas braçadas mais ao fundo habitavam peixes maiores que seus braços. Ai mais ao fundo pareciam viver já peixes maiores que si mesmo, movendo-se tal como sombras no escuro.
Depois de inspecionar superficialmente as águas, subiu para recuperar o fôlego.
Apesar de toda terra e raízes presas ao teto e de toda poeira que se desprendia das paredes, o ar daquele local era incrivelmente limpo e a gruta era incrivelmente maior do que se poderia imaginar caber num simples pico rochoso.
E pensar que essa beleza natural se escondia debaixo da Capital das Flores.
O palácio do Shogun caberia inteiro no espaço que havia entre o nível da água até o teto da fissura, apesar de que seria apertado demais.
Não havia muito espaço horizontal ali.
A falha geológica era como uma barbatana de enguia: uma longa e estreita faixa que se estendia metros e mais metros acima de suas cabeças e assim se seguia sinuosamente sem fim para o norte e para o sul.
Koiko jazia de seu afogamento no único pedaço de chão firme que podia-se usar para se manter de pé era uma rebarba saliente de pedra e terra que se desgarrava do paredão terroso que escondia este oasis da Capital das Flores. Não havia com que preocupar-se, no entanto, pois por mais lento que fosse, não tardaria para que Tanishi chegasse ali.
Seus amigos poderiam cuidar de si mesmos.
Com uma última inspirada, submergiu e afastou-se da borda. Haviam ali apenas duas fontes de luz: as pequenas frestas que haviam espalhadas pelo teto muito acima e uma única e tortuosamente longa abertura que iniciava-se na parede oposta, que parecia se estender até o mar.
Com isso, podia explorar um pouco mais a caverna inundada, vasculhando o chão alagado a procura do menor reluzir. Conforme mergulhava, se cercava dos mais diversos cardumes, peixes de todas as cores e tamanhos pareciam surgir da água salgada e doce. Se quisesse, bastava o mínimo de agilidade para fechar as mãos num agarre firme para pegar um truta grande o bastante para o almoço, mas não o interessava pescar em águas tão rasas.
Seu objetivo eram os peixes grandes que viviam bem mais abaixo.
E assim, desceu, mais e mais fundo.
Não havia som que ecoasse nas profundas e escuras águas da caverna, mesmo que houvesse ali som, seus tímpanos já há muito haviam se ensurdecido quando a água havia entupido-lhe os ouvidos, lágrimas escorriam de seus olhos conforme os mesmo se irritavam com o sal presente na água, obrigando-o à passar parte do tempo com os olhos fechados, abrindo-os esporadicamente aqui e ali.
A água movia-se suavemente, como se pequenas correntezas o acertassem por todo o corpo e de todas as partes, anunciando a presenças dos peixes grandes que procurava. Chegou até mesmo à sentir o que parecia ser a carícia de uma nadadeira do seu tamanho trespassando–lhe pelas costas.
Um arrepio fúnebre percorreu-lhe a espinha trazendo-lhe um medo instintivo. Nesse ponto, os peixes já tinham tamanho o suficiente para dar-lhe cabo com não mais que uma dentada e esse pensamento não podia afligi–lo e fascina–lo mais.
Fascinava–o que, da mesma forma que haviam homens para comer os peixes que neste mundo havia, haviam também peixes para comer os homens que este mundo habitavam.
Em fato, haviam até mesmo peixes capazes de devorar vilas inteiras numa mera mordiscada, como se não passassem de uma fugida, um lanche que se pudesse beliscar antes do almoço.
Que mundo aterrorizante e assustador.
Apesar de que era impensável que tal mal pudesse afligir um homem de sua família. Em seus tempos áureos, seu pai poderia atirar–se ao mar revolto por dias a fio e retornar carregando suprimento para o país inteiro por algumas semanas.
O dia que dissessem que um Kouzuki fora devorado por um peixe, o nome da família claramente cairia em desgraça.
Melhor não ser ele a piada da casa.
Conforme as profundezas da caverna pareciam se estender ad eternum, um frio profano se apossava de sua tez e rastejava por sua derme, infiltrando-se em seu ser e anestesiando-o para qualquer sensação.
Já não sentia o toque, tão pouco sabia dizer o quão afundo estava naquele buraco cuja luz não era permitida entrar, nem poderia dizer por quanto tempo era possível continuar mergulhando.
Sentia-se um fantasma de outro plano, uma assombração à ser assombrada pela realidade.
E a realidade o assustava em demasia. Sempre o assustou. Naquela opressora escuridão, sua imaginação começava a dar forma ao nada, e logo se via só contra si mesmo.
Podia ver no vazio o olhar de escárnio e desprezo que homens e mulheres lhe davam quando achavam que ele não estava olhando. Podia sentir o ódio naqueles que não se importavam e demonstrar seu desgosto publicamente. Podia ouvir os sussurros maldizendo-lhe um demônio, as praguejadas à sua família.
E então havia sua família. Nove bainhas vermelhas que não lhe serviam de qualquer conforto, uma irmã completamente crescida que já não era tão próxima de si pois tinha que arcar com as preparações para se tornar a esposa de algum garoto sobrevivente dos Fuugetsu. E ainda havia o casamento arranjado com a filha do Lord Yasue. Casar com uma criança!, um homem completamente crescido! Isso fazia seu sangue fervilhar. Como era possível que...!
—Momonosuke!- a voz de sua mãe em tom de repreensão surgiu espiada através do silêncio e toda a sua raiva morreu.
Tudo que restava no silêncio de sua mente eram as vozes gritando por sangue.
Eis que surge a sua frente o que buscava.
Com um brilho avermelhado que reluzia ao vazio estavam as ovas. Centenas, gigantescas, e hipnotizantes.
E então, sobre elas surge a luz.
E os dentes.
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