A Fortaleza das Feras - Livro 01 (Caos e Ruína)
16 Capítulo 15 - Sora
Notas iniciais
O local de madeira era iluminado pelo sol da manhã, um longo corredor com baias seguia-se adiante, os cavalos pareciam calmos e quietos, tranquilos e bem cuidados. O cheiro de fezes dos animais ainda se fazia presente no estabulo, feno estava jogado em um canto ao final do caminho. Sora torceu o nariz, mas aproximou-se sem hesitar.
― Estão alimentados e descansaram, prontos para partir ― O garoto empurrou a porta de madeira do estabulo, Sora e Asher adentraram. ― Só espero que não se assustem com a Vênus.
― É alguma uma égua selvagem? ― Questionou o guerreiro, ao dar um riso irônico.
Benjamin, em resposta, sorriu sombrio.
― Não. Um lobo, uma fêmea abissal, nós a resgatamos no ano passado, caçadores a feriram. Desde então passou a viver conosco. ― O ruivo seguiu caminhando e parou em frente a baia onde estavam os cavalos dos guerreiros. ― Podem dar uma espiada nela se quiserem, ver um lobo abissal sem perder um pedaço do corpo é uma raridade.
― Não muito obrigado. ― Quase perdera a cabeça para uma daquelas feras no dia anterior, Asher não estava com estômago para encarar de perto novamente.
― Eu vou dar uma olhada. ― Sora virou-se e deixou os dois para trás. Se ele estava com medo, ela não.
A loba estava na última baia do estabulo, a jovem então aproximou-se com cautela, para ver o animal dormindo no fundo. O pelo branco reluzia na claridade que entrava, o corpo enorme expirava e inspirava lentamente e calma. Não parecia como os lobos abissais assustadores e sanguinários que ela vira anteriormente. O tamanho era semelhante, as cores eram semelhantes, mas não exalava toda aquela selvageria. Sora sentiu vontade de entrar ali dentro e toca-la, para ver se era real toda aquela beleza assustadora e mortal.
― Vênus é linda, não é? ― Suspirou Benjamin, quando parou ao lado da guerreira e cruzou os braços. ― Sabia que lobos abissais são três vezes mais rápidos que um cavalo? Se bem alimentados e saudáveis.
― Não fazia ideia.
― Possivelmente a alcateia que atacou vocês ontem deveriam estar faminta e fraca, se estivessem boa forma, vocês não teriam sobrevivido. Ou eles teriam simplesmente ignorado a existência de humanos. ― Comentou Benjamin, conhecia bem a natureza daqueles animais.
Sora estremeceu com a observação. Sentiu pena de os lobos estarem daquele jeito, mas ao mesmo tempo ficou grata por terem sobrevivido. Da próxima vez, quando voltassem de Edom, dariam a volta pelas montanhas, não poderia arriscar novamente. Não havia garantia se aqueles animais estariam ou não em boa forma.
Vênus ergueu o olhar para observar os dois jovens, os olhos azuis brilharam sonolentos, a loba cheirou o ar notando o odor diferente de Sora e reconhecendo Benjamin. Então abaixou a cabeça e permaneceu os analisando, como um animal doméstico, calmo e sonolento.
― Ela é incrível. Algumas vezes saímos para correr, é veloz e está forte. Embora tenha chegado em um estado horrível aqui. Gostaria de entrar de se aproximar mais? Posso abrir a baia. ― Animado, Benjamin ficava animado ao falar sobre a fêmea abissal. Além de que normalmente ele já tagarelava o suficiente.
Sora queria tocar o pelo branco e aparentemente macio da loba, e Vênus parecia estar em um estado de calma, não iria atacar e nem arrancar a mão de ninguém naquele momento. Mas, por mais que a curiosidade fervesse embaixo de sua pele, Sora falou:
― Não, obrigada. Em outra oportunidade.
― Tudo bem. ― Sorriu Benjamin, então voltou-se a Asher que levava dois cavalos para a rua. ― Vou ficar por aqui, tenho que fazer a limpeza do estabulo, se minha mãe ver toda essa sujeira, estarei ferrado. Está cheirando a bosta de cavalo. ― O garoto torceu o nariz, fazendo uma careta de nojo ― Boa sorte com a viagem de vocês.
***
― E então, como se sente? ― Sora questionou, quando Perci lenta e dolorosamente sentou-se na cama.
Ela acordara no meio da madrugada, mas por sorte Kristin estava no mesmo quarto, também desperto. Ele também explicara o que acontecera, acalmando-a e fazendo companhia até o sol amanhecer, quando Tereza os visitou para ver como estavam. E a mulher encontrou uma guerreira irritada e um Kristin desesperado tentando acalmá-la.
Perci resmungou e soltou palavrões.
― Estou ferrada. Esse ferimento vai levar dias para melhorar. ― Gesticulou os braços doloridos. ― Olha isso, mal consigo mexer meu braço direito. E eu sou destra.
― Teve sorte por estar viva. ― O homem com cabelos cor de fogo respondeu, marido de Tereza. Benjamin era mais parecido com ele do que com a mãe. Os cabelos longos estavam presos, e a barba longa era bem cuidada. A visão de um guerreiro aposentado, mas que agora resolvera cozinhar extremamente bem.
Ele trouxera o café da manhã para os dois feridos.
― Aeron está certo. E o melhor que você pode fazer no momento é se alimentar bem.
― Eu espero que sim, não estou acostumada a ficar desse jeito. Quando partiremos? ― Perci fixou os olhos em Sora, que estava escorada na porta com os braços cruzados.
― Vocês não seguirão daqui, não até chegarmos em Edom, depois voltaremos para buscá-los. ― A guerreira lançou um olhar rápido para Kristin, que assentiu. Sora já havia discutido aquela ideia com ele, o qual concordara, considerando ser a melhor opção.
Mas um breve silêncio recaiu sobre Perci.
Sora imaginou que ela explodiria em fúria.
No entanto, a guerreira apenas observou a jovem de olhos esverdeados.
― Tanto faz, só iremos atrapalhar de qualquer forma. ― Mágoa, Perci estava magoada com a ideia de não poder continuar, tudo por causa daquele maldito ferimento. E em parte por pensar na possibilidade de não receber o ouro prometido.
― Mas não se preocupe, receberá o seu pagamento.
Os olhos da morena brilharam.
Ela fez um bico.
― Acho bom. ― Perci virou-se para Aeron e Tereza, então soltou um suspiro. ― Poderiam nos deixar a sós, por favor? ― Sorriu fazendo a melhor expressão de educação que conseguiria.
O casal assentiu e saiu do quarto, Sora aproximou-se da cama em que Perci estava sentada.
― Confio em Tereza e Aeron, mas não consigo confiar em Ethan. ― A guerreira desabafou, falando baixinho, como se as paredes tivessem ouvido. ― Demos sorte em eles estarem disponíveis para nos abrigar, creio que teremos que pagar muito bem.
― Entendo. Mas por que não confia em Ethan?
― Eu acredito que Edom talvez já tenha sido atacada, embora a notícia não tenha se espalhado. A fazenda pelo que eu consegui compreender fica bem afastada da cidade, e leva dias ou semanas para que alguém daqui vá até a cidade. Kristin concorda com isso, não é?
O guerreiro assentiu antes de falar:
― Nós conversamos sobre isso antes do amanhecer. Tome cuidado, estamos falando isso para você, porque Asher e Bart podem não reagir tão bem.
Aquilo era verdade, Bart iria deixar escapar aquela espécie de segredo, e Asher tentaria espancar Ethan sem mais nem menos.
― Apenas, tomem cuidado. ― Perci disse, por fim.
― Faremos isso.
***
Sora fizera questão de agradecer a Tereza por todo o auxílio, ela confiava na vidente, e sabia que Perci e Kristin seriam tratados adequadamente.
Então haviam partido, ela vestira as roupas de combate, agora limpas, e em poucos minutos haviam atravessado a Estrada do Rei, que se estendia ao lado da fazenda e da plantação de cevada. As torres do castelo de Edom erguiam-se ao longe, acima da colina.
Asher e Bart acompanhavam, Ethan estava há alguns passos dela quando cortaram a trilha que havia no bosque. O que Perci dissera lhe deixara desconfiada, então manteve o príncipe sempre perto. Sora sentia seu estomago embrulhar, se pudesse vomitaria todas as suas tripas por causa daquela ansiedade que a inundava no momento.
Quando a trilha de árvores terminou, e cidadezinha de Edom surgiu depois das árvores, eles diminuíram a cavalgada. Ainda era manhã, mas não tão cedo para que estivesse tudo tão silencioso.
Sora fez sinal para que a seguissem, conforme as casas simples surgiram pela rua eles diminuíram a velocidade gradativamente.
A cidade de Edom estava deserta.
Não havia sinais de sequer uma alma viva.
Algo estava errado, muito errado.
Não trocaram nenhuma palavra conforme adentraram a cidade vazia e cinzenta. Sora observou tudo com cautela e atenção, assim como os outros dois guerreiros. Não havia sinais de ataques explícitos, apenas casas com portas e janelas arregaçadas. Nenhum sinal de vida, nem sequer pássaros ou ratos. Cavalgavam silenciosos e lentos, aquela visão de vazio e abandono era intrigante.
A construção do castelo erguia-se após as poucas casas da cidade, tomada pela névoa cinzenta da manhã, um cenário digno para se sentir intimidado.
No entanto, o guerreiro de roupas completamente pretas tomou a frente:
― Vamos deixar os cavalos por aqui e seguir andando. ― Asher sequer questionou se os outros concordavam quando desceu para o chão. Pegou a mochila e prendeu as armas ao redor do corpo.
― Não acho que seja uma boa ideia. ― Advertiu Bart, o arqueiro já mantinha o arco erguido, uma flecha pronta para ser lançada a qualquer sinal de ameaça.
― Tem razão. ― Sora desceu para o chão. ― Caminhando chamaremos menos atenção do que cavalgando. No momento é melhor permanecer camuflado do que correr algum risco. ― A jovem percebera que Asher estava irritado desde o momento em que haviam partido, e ela não estava a fim de piorar a situação, a não ser que ele pedisse.
― Só espero que não tenha nenhum lobo abissal por aí. ― Resmungou Asher mal-humorado quando tomou a frente, esbarrando o ombro com força em Sora.
Um sinal infantil de hostilidade.
Ele estava furioso, mas aquele movimento fora o cúmulo do ridículo. Em parte, Asher não estava errado, mas Sora passara a noite em claro e chegara a conclusão que o ocorrido com os lobos fora um acidente, e todos sabiam das probabilidades. Agir daquela maneira não curaria ninguém.
― Antes que faça isso novamente, ― a guerreira puxou Asher pela roupa e segurou-o pela gola do casaco de combate, com força, os olhos verdes queimavam furiosos ― tomamos a decisão em conjunto. Perci e Kristin concordaram, todos concordamos, mesmo sabendo dos riscos. E lembre-se que foi eu quem salvou a sua cabeça. Então não me venha com toda essa arrogância, Asher, porque você sabe, e me conhece muito bem, que não tenho nada a perder caso você faça alguma merda.
O guerreiro bufou, mas então sorriu malicioso para Sora:
― Você vem achando que tem algum tipo de poder para querer controlar a todos durante a missão, fica fingindo que é líder de alguém por aqui. ― Palavras afiadas e arrogantes, ela realmente não esperava por aquilo. ― Falando assim até parece que você não gosta de quando eu domino... ― Uma ameaça, interrompida por Bart.
― Não sei se vocês perceberam, mas Ethan sumiu.
Sora empurrou Asher para trás e soltou-o, os punhos cerrados com força, se compelisse um pouco mais as mãos poderia furar as palmas, mas só então olhou ao redor. A raiva subindo em seu corpo, então tudo esfriou, subitamente.
O príncipe, nenhum sinal dele.
― Temos que achá-lo. ― Ordenou, então voltou-se para o guerreiro de olhos profundos, Asher ainda transbordava fúria. ― Não fique pensando que algumas noites de sexo vão ser suficientes para me intimidar ou ter algum controle sobre mim. Se era isso que você queria expor, então está feito. Não tente usar isso como tom de ameaça, não vai funcionar comigo. Não sou chefe de ninguém aqui, estou seguindo ordens passadas por Arcádio, embora minha pontuação dentro da fortaleza seja bem melhor do que a sua. E todas as decisões que tomamos foi em conjunto. Então se você vier com toda essa arrogância para cima de mim novamente, não hesitarei em cortar a sua língua e algo a mais, pequeno e aí em baixo. ― Seus olhos percorreram todo o corpo do guerreiro, mas Asher não hesitou em encara-la com raiva em momento algum, a respiração estava pesada e furiosa. Sora nunca o vira daquele jeito, e não esperava uma atitude daqueles vinda do guerreiro.
― Espera, vocês o quê?! Que mal gosto, Sora.
― Cale a boca, Bart, vamos nos separar. ― Sora retrucou.
O loiro ficou em silêncio, Asher bufou e saiu andando. Sora deu de ombros e seguiu para o outro lado. Sem se dar ao trabalho de verificar para onde os outros iriam.
Era tudo o que precisava naquele momento: Asher querendo expor a relação que tinham, como se aquilo fosse afeta-la de alguma maneira. Assim que uma oportunidade melhor surgisse ele pagaria por aquilo, e ela não hesitaria. E Ethan havia sumido, outra decisão estúpida para resolver.
***
Sora poderia estar furiosa, mas a cidade era intimidadora suficiente para ela ficar mais preocupada em encontrar Ethan. Alguns minutos perambulando sozinha naquele pedaço de fim de mundo haviam sido suficientes para entrar em uma casa vazia. Após notar a breve movimentação, ela vasculhou cada canto dos cômodos. Poderiam ser ratos, ou algum príncipe burro e inútil que resolvera passear por uma cidade abandonada.
Ethan era idiota, mas agora passara dos limites.
Afinal, ele era a chave para ela, e todos os outros guerreiros, conseguirem ouro suficiente para fazer muita, muita coisa.
Silenciosamente encostou a porta de madeira cheia de frestas quando adentrou o que era um quarto. A pequena casa não parecia ter sido abandonada há muito tempo, o que significava que poderia ter sido evacuada, ao invés de atacada. Sem sinal de invasão ou de ter sido saqueada, era como se as pessoas tivessem deixado de existir ou simplesmente ido embora pacificamente. Uma atitude estranha, no fim das contas.
Sora caminhou cautelosa, ouviu um ruído e então olhou ao redor, nada. Nenhum movimento. Deu mais dois passos e ouviu o mesmo som. Então virou-se na direção do armário, era grande suficiente para caber um adulto, caso quisesse ficar escondido.
E, com a sensação de estar sendo observada, bruscamente arregaçou as portas de madeira.
Ratos, ratos e ratos correram para fora. A guerreira saltou, então percebeu uma sombra passar correndo em sua visão periférica. Ela desembainhou as adagas e quando se virou para atacar o que quer que estivesse a perseguindo, uma lâmina surgiu em sua bochecha. Brilhante, afiada e mortal.
A outra adaga estava apontada para sua cintura, imobilizando-a. Qualquer movimento idiota resultaria em um ferimento nas costelas, ou um belo corte na bochecha.
Houve uma respiração quente em seu ouvido, um pedido de silêncio.
Sora sorriu sombria quando percebeu que o dia estava começando bem, muito bem.
Foi então que girou e deu o primeiro golpe, sem hesitar.
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