Com um golpe rápido e judicioso, a guerreira atacou a sombra que a imobilizava, desprendendo-se dos braços e das adagas afiadas.

Então estavam de igual para igual. Olho por olho.

A silhueta a sua frente era a de uma mulher, da mesma altura que Sora, cabelos negros e o rosto coberto por uma capa, os olhos a mostra eram de um intenso tom de violeta. Diferente, exótico. As roupas eram completamente pretas, até mesmo as lâminas de suas facas, mas o que chamava mais atenção eram as orelhas.

Finas e pontudas, delicadas, no entanto, prova de que a criatura em frente a Sora era uma filha das fadas.

― Mork.

― Mestiça. ― Sora jurou que os olhos violetas brilharam em um sorriso de diversão sádica, embora o rosto estivesse metade coberto.

Então a criatura sombria atacou, rápida e ágil, Sora defendeu-se desviando dos golpes assassinos. Tereza estava certa ao alerta-los sobre a possibilidade de encontrarem problemas no caminho. Sem sombra de dúvidas, ainda bem que estava em alerta e armada, para um imprevisto como aquele.

A mork era forte, cada golpe desferido chegava com intensidade e técnica, mas Sora era boa nas facas. Quando desviou novamente, girou e mudou de posição, deixando a oponente de costas para o guarda roupa aberto. A guerreira chutou, lançando a filha das fadas em direção ao armário e deixando-a presa contra a parede de madeira.

― O que você quer, mork? ― A lâmina prateada agora apontava para o pescoço da oponente. Era a primeira vez, em toda sua vida, que Sora estava cara a cara com uma filha das fadas, todos sabiam suas principais características em Sidgar, mas poucos que tinham a mesma idade que a guerreira haviam visto um de perto. E a jovem sabia, o quão perigosos eles poderiam ser, mas sem magia, a mork tornava-se apenas uma lutadora habilidosa e com alguns sentidos aguçados, o que trazia vantagem para Sora.

― Mestiça estúpida. ― Cuspiu.

E com um movimento rápido a filha das fadas empurrou Sora, chutou seu estomago e então sua mão esquerda, uma adaga voou. Sora afastou-se, mas quando tentou desferir um golpe, a outra mulher foi mais rápida e lançou um coice intenso na sua mão direita. Outra adaga prateada caiu no chão.

Dor.

Sora bufou, mas antes de desembainhasse a espada que trazia, a mork chutou-a para fora do quarto, derrubando-a dentro da pequena sala da casa abandonada. A jovem caiu sentada no chão, os olhos esverdeados tornaram-se ferozes quando ela saltou e desembainhou a lâmina.

E atacou, com força e fúria, golpeou a mork que apenas desviou, como se estivesse apenas se aquecendo. Sora não estava acostumada com aquele tipo de agilidade, mas reconhecer uma oponente tão boa, era algo que poderia até mesmo admirar, e odiar profundamente.

Então girou e lançou-se na direção da mork, a espada cortando o ar com força, um golpe, outro e outro, repelidos pelas longas facas de cor ônix brilhante. A mork sombria golpeou e lanceou, Sora uniu toda a força que tinha para se defender, e com um giro rápido desferiu a lâmina de sua espada, a adaga de lâmina negra caiu no chão.

E naquele momento, por um segundo, Sora conseguiu ver uma expressão de espanto da mork, seguida por um avanço feroz, ao desembainhar outra adaga escondida na roupa. Então um chute certeiro em direção a porta da casa, Sora voou para a rua e caiu na terra seca, a filha das fadas saltou na sua direção e pisou em cima de seu peito, antes que a guerreira fugisse.

― Interessante. ― Disse, simplesmente.

― Quem é você? ― Questionou Sora, poderia enrolar um pouco até encontrar um momento para levantar-se. Estava detestando ficar daquele jeito, jogada no chão e impossibilitada de poder arrancar as orelhas pontudas da mork.

― Elriel, nós já esbarramos, você não lembra? Ah sim, e você é Sora, eu estava observando vocês.

― Por quê? ― Não era a pergunta mais inteligente para se fazer naquele momento, além de ser bem óbvia, mas Sora estava tentando enrolar.

A mork agachou-se, aproximou o rosto pálido e metade coberto, os olhos violetas brilharam quando encarou a guerreira.

Predadora e assassina.

Malditos eram os filhos das fadas.

― Não devo explicações para uma mestiça suja.

Sora bufou, e aproveitou o momento para chutar a criatura, Elriel, como havia se denominado. Então a guerreira levantou-se, a filha das fadas ajeitava a roupa calmamente quando observou Sora.

― Pensei que seria mais fácil matar você, mestiça.

Os olhos esverdeados e felinos de Sora se semicerraram, irritada, avaliando a oponente.

No entanto, uma flecha voou entre as duas, direcionando a atenção para onde o jovem loiro que se aproximava. Bart trazia o arco pronto para disparar a qualquer momento. A mork embainhou as adagas e se afastou.

O arqueiro encarou Sora, no entanto, no momento em que olhou para onde a mork estava, a fêmea já havia sumido. Como se tivesse se dissipado em trevas, desaparecera silenciosa e sombria, tão rápido quando havia aparecido.

Sora soltou palavrões.

― Estava tudo sobre controle. Obrigada por deixa-la fugir. ― Resmungou, quando embainhou a espada novamente. ― Da próxima vez, atire sem hesitar.

― Asher também sumiu.

― Por mim ele poderia morrer. Tanto faz. ― Sora seguiu irritada caminhando pela rua estreita, Bart a seguiu.

O arqueiro não respondeu, conforme seguiram outro caminho, para o norte, em direção ao castelo. No entanto, ao colocarem os pés na avenida principal, perceberam a cavalaria parada ao final, próxima a ponte que levava ao castelo. Antes que dessem meia volta, soldados com armaduras prateadas bloqueavam o outro lado. Bandeiras com o desenho de uma rosa azul dentro de um círculo de espinhos.

― São soldados edomnianos. ― Bart sussurrou.

― Merda. ― Sora xingou baixinho.

― Larguem as armas, agora! ― Um dos soldados gritou, os dois guerreiros não protestaram quando soltaram tudo no chão e ergueram os braços. ― Sigam em direção ao castelo.

E eles o fizeram, caminharam até o outro lado, onde o restante da cavalaria encontrava-se, e Ethan e Asher também, com as mãos amarradas, as cordas presas aos cavalos.

― Identifiquem-se. ― Ordenou um dos homens montado, o que parecia ser o líder entre os guardas.

― Sora Hill e Bartolomeu, de Temesia. ― Respondeu a jovem.

― Este homem diz ser Ethan Rosenrot, é verdade?

― Sim.

― Como podem provar?

― Eu tenho a Rosa Invernal. ― Ethan respondeu, um dos guardas aproximou-se e puxou o cordão, o pingente brilhou nas mãos cobertas por manoplas de ferro.

― Como posso ter certeza se esta joia é verdadeira?

― Porque este homem a sua frente, meu caro, é de fato o herdeiro de Edésia. ― Um homem velho surgiu caminhando, sendo seguido por outro montado ao cavalo. ― Desamarrem-vos, não são prisioneiros. Serão convidados. ― Os guardas, para o alívio dos guerreiros, obedeceram.

Pela longa túnica escura, e pela idade daquele homem, Sora julgou ser algum tipo de conselheiro, ou ancião. Ela não simpatizou com o olhar dele, no entanto, sentiu-se aliviada por ter contido os guardas.

― Meu nome é Kaion, sou a mão direita do Lorde Erilwen Thaery, o responsável pelas terras de Edom.

― Obrigada pelas apresentações, Kaion. ― Vociferou o homem que estava montado no cavalo mais atrás, vestia roupas nobres, uma capa de cor azul marinho. Tinha alguns fios grisalhos, mas, não era tão velho. ― Vocês estão vindo de onde?

― De Temesia, da Fortaleza das Feras. ― Sora respondeu, dando um passo à frente.

― Presumo que você seja a líder. ― A jovem não respondeu, Thaery, no entanto, gesticulou para que os guardas deixassem os guerreiros pegarem as armas e as mochilas. ― Vamos entrando. A cidade foi evacuada, estamos evitando andar por aqui.

Os guerreiros obedeceram, então seguiram os soldados edomnianos.

O pátio do castelo realmente havia virado um acampamento para os moradores da cidade. As muralhas de pedra erguiam-se ao redor, conforme o enorme portão levantava e fechava a saída que dava para a saída. Ouviu-se um estrondo quando a madeira e o ferro se chocaram, e Sora sentiu seu corpo arrepiar conforme adentravam o pátio, escoltados pelos soldados. Observou cada movimento, de cada pessoa, em silêncio.

― Percebendo que estávamos em perigo, certifiquei-me de que o meu povo estaria seguro, dentro das muralhas do castelo. ― Começou a falar o lorde, sem olhar para atrás, onde os guerreiros o seguiam. As pessoas ao redor... Pareciam bem. Embora vivendo em tendas, aquilo explicava o motivo da cidade estar tão deserta. ― Vossa alteza, permita-me perguntar. Por que não vieste diretamente para o meu castelo, quando fugiu de Edésia?

― Soldados mork fizeram com que desviasse do caminho, quando percebi... Era mais fácil ir para Temesia.

― Entendo. Estou demasiadamente feliz em saber que esteja bem, príncipe Ethan. ― Aquelas palavras do lorde, foram suficientes para as pessoas ao redor levarem sua atenção a eles, embora já tivessem curiosos, mas o espanto, com a notícia de que o herdeiro estava vivo, e diante deles... Deveria ser um alívio, ou apenas algo chocante.

― Nós pensamos estava morto. ― O velho, Kaion, continuou falando. ― Mas presumo que vocês devam descansar. Tirem o dia de folga, e privacidade. Juntem-se a nós no jantar. São bem-vindos em Edom.