A Forma da Sua Alma
1 Prólogo
Notas iniciais
O prólogo ficou curtinho mas logo logo posto o primeiro capítulo.
Acordo suando. Esfrego as palmas de minhas — agora — pequenas mãos e olho ao redor. Meu quarto é rosa e decorado com pequenas tulipas vermelhas. Minha cama é pequena para acomodar meu delicado corpo, e todos os móveis são brancos e polidos. Não faço ideia de onde esteja.
Me levanto sem jeito, não acostumado à pequenez dos membros, e caminho até a janela. A vizinhança não me dá pistas de onde me encontro; é uma rua vazia com um único poste oferecendo uma luz amarelada pálida que cria poças de luminosidade no asfalto mal-tratado. Com um suspiro, abro a janela, depois de lutar com a tranca por alguns segundos. O ar está morno e bate em meu rosto. Eu imaginava que estaria frio lá fora, mas me lembro q estou em um lugar diferente do que fui dormir. Largando a janela escancarada, procuro por um espelho ao redor do quarto; há uma penteadeira. Respiro fundo. Dessa vez é uma menina morena de cabelos compridos, olhos verdes e pele caramelada, como a minha. Não deve ter mais de oito anos. Por que isso tem de acontecer comigo?, me pergunto, respirando fundo. POR QUE? Não consigo controlar minha respiração. Sinto um ataque de pânico chegando. Minhas pernas fraquejam e caio de joelhos no meio do quarto; minhas entranhas se reviram. Como vou voltar para casa se não sei onde estou? Se não tenho transporte ou dinheiro? Se, mais uma vez, falhei em controlar meu poder? Um poder que nem sequer quero. Minha visão escurece e arranho a palma da mão esquerda com as unhas da direita. As unhas da menina estão um pouco compridas; sinto-as afundando na pele macia. Meu corpo parece a ponto de ter um colapso. É sempre assim quando percebo que fui fraco de novo, que mais uma vez cometi uma falha irreparável. Sem pensar, me levanto e vou até a janela. Obviamente estou no segundo andar de um sobrado; uma queda grande até o chão. Talvez, apenas talvez... se eu matar meu hospedeiro, possa voltar de uma vez por todas ao meu corpo e nunca mais ter de assumir outro. Sento-me no parapeito. Meu corpo é muito pequeno. Essa pessoa é muito pequena. Talvez eu não deva fazer isso. Me jogo e tudo escurece quando bato no chão. Tudo dói. Desmaio, e meu último pensamento é me desculpe.***De algum modo, antes que eu possa abrir os olhos, sei que minha última hospedeira não morreu. Mesmo que fosse uma criança, a queda não era suficiente para matá-la e ela acabou severamente machucada, mas irá recuperar-se. Abro os olhos e encaro meu teto familiar; se estou em casa, provavelmente o impacto foi grande o suficiente para me "expulsar" de fora da hospedeira, e me mandar para meu corpo de verdade novamente. Levanto-me; meu corpo lateja dolorosamente. Com um gemido, me jogo na cama e me reviro um pouco até o sono me levar.***Há algo errado comigo. Esse não é meu corpo. Minhas juntas doem demais e meus membros são muito frágeis. Sinto um gosto amargo na boca e sei que não sou mais eu mesmo. Estico as mãos em frente ao rosto. Elas estão enrugadas, as veias aparentes, a pele fina como pergaminho. Essas não são minhas mãos jovens e morenas. Esse não é Logan. E sei de algum modo que passarei muito, muito tempo sem poder me olhar no espelho e me ver como realmente sou.
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