Notas iniciais
Esse "dia" se refere a quantos dias ele está recebendo a punição, só para o caso de vocês ficarem confusos ^-^

Acordo assustado e suando, como de costume. Não é a primeira vez que sonho com a minha mãe, mas dói do mesmo jeito. Sinto o calor do toque dela em meu braço mesmo depois que me sento, depois que me abraço, alisando a pele pálida em que estou.

Olho ao redor. Estou em um espaçoso loft com janelas amplas e uma ótima iluminação, alguns móveis neutros e uma cortina semi-aberta separando a cama da sala. Na mesinha de cabeceira, um bilhete.

A noite foi ótima, me ligue mais tarde. Beijos, Joy.

Percebo rapidamente que estou no corpo de uma mulher. Ontem foi a mesma coisa. Já quase não tem a mesma graça sentir os cabelos tocando as costas, as curvas, as mãos delicadas. Ah, apertar os seios quando estou distraído também é legal.

Aparentemente a mulher mora sozinha. Melhor, posso passar o dia todo em casa. Quando meu hospedeiro tem família, sou obrigado a passar o dia fora fazendo atividades aleatórias e fingindo ser ele quando os familiares telefonam, até que a familiar sensação me tome e eu desperte no corpo de outro alguém.

Pior quando vou parar no corpo de uma criança. Não nasci para obedecer ninguém.

Deitando-me novamente, respiro fundo. O que eu não daria para poder ter meu corpo jovem e desajeitado de adolescente novamente, minha pele morena, meus olhos familiares e todas as coisas em mim que eu antes detestava.

Mas sei que isso não é possível. Sei, infelizmente, que talvez eu nunca mais volte a ser o eu de antigamente. Que por enquanto de Logan Hall só resta a alma, pois o corpo se foi.

Penso em como está minha casa e minha família, no que isso parece para eles. Se eu sumi, se meu corpo foi achado sem vida, se saí um dia e nunca mais voltei. O que houve comigo? Nem sequer sei. Tenho medo de esquecer minha aparência, como pareço, como é ser eu, o toque de minha irmã, a mão da minha mãe segurando a minha.

A dor me atinge.

Isso são questões além do meu entendimento. Eu não sei o que aconteceria se eu aparecesse em casa, se minha mãe sentiria a presença de seu filho ou se só veria um estranho em sua frente. Se veria o que eu vejo, quando olho meu reflexo.

Mas agora, para questões mais mundanas. Estou com fome. Me levanto e vasculho o loft, a procura da geladeira; encontro-a rapidamente, um modelo de luxo em prata cromada, com um dispenser para água e imãs com telefones colados na porta do freezer.

Quando abro-a, há mais comida do que já vi em qualquer outra casa: creme de avelã, cream cheese, queijos diversos, bandejas de iogurte de diversos sabores, caixas de suco, vidros de geleia e compota, e até uma barra de chocolate e água com gás.

Dessa vez vim para um lugar um pouco mais privilegiado, penso, esticando-me para pegar o creme de avelã.

Como com uma colher, apreciando o sabor doce e a cremosidade, e depois passo em um pedaço de pão, e termino me lambuzando. Aproveito para lavar o rosto. Tenho uma regra: não tomo banho no corpo dos meus hospedeiros. É tolo, eu sei, mas acho uma invasão de privacidade. Eles que se deem banho depois.

O banheiro é limpo e claro. O reflexo no espelho é o detalhe mais notável. Loira, pele clara, olhos castanhos e cílios compridos, ombros magros e clavículas marcadas. Ela tem um corpo elegante, embora eu destrua isso — não consegui me livrar de meu modo de andar tosco, não importa o corpo que eu assuma.

Circulo pelo apartamento, fuçando até encontrar uma carteira largada sobre o sofá de couro. Aparentemente, o nome dela é Alana, e ela tem vinte e três anos. Nossa, nunca pensei que eu dia seria uma jovem mimada e loira. O mundo dá voltas.

Me jogo no sofá e ligo a televisão. Assisto um filme qualquer que passa, e quando ele termina procuro por outro, e sigo até ter fome de novo. Então faço um miojo e volto ao sofá.

Quando minhas pernas começam a ficar dormentes, decido andar pelo apartamento. Olho pela janela. Provavelmente estou no primeiro ou segundo andar; vejo os rostos dos pedestres apressados enquanto eles se esbarram, seguindo seu caminho. Há histórias por trás de cada um deles, vidas que foram destruídas e outras que foram salvas. Algumas a ponto de terminar e outras só começando.

Então o vejo, do outro lado da rua, parado apoiado em um pilar qualquer, fumando um cigarro. O mesmo enigma de cabelos escuros e olhos igualmente desprovidos de luz. Ele olha para cima, franzindo o rosto quando encara a luz. Então, seus olhos escaneiam as janelas do prédio e param na minha. Ele dá um trago no cigarro enquanto me observa.

Fecho a persiana rapidamente, um calafrio me percorrendo. É como se ele desfizesse o encanto que há por cima e visse o Logan que há por baixo, a verdadeira forma da minha alma, os olhos verdes por trás dos castanhos, os cachos escuros por trás das mechas lisas.

Não importa o corpo que eu assuma, eu sempre o vejo. No ônibus, atravessando a rua, em uma fila, dentro de um táxi, em uma sacada. Todos os dias, repetidamente, é como se ele me perseguisse, me chamando, e eu obedeço, me sentindo irremediavelmente atraído para ele.

E quando me viro, quando o chamo, quando estico a mão... ele some como se nunca tivesse estado lá.

Sento-me no sofá, roendo uma das compridas unhas de Alana — outro hábito que nunca consegui abandonar.

Talvez isso seja apenas coisa da minha cabeça. Talvez eu queira tanto alguém que me veja como eu realmente sou que criei alguém assim, moldando-o de acordo com meus próprios desejos. Deve ser isso, e é tolice achar que ele é real.

Assisto mais alguns filmes, como um pouco mais, me reviro no sofá, e finalmente o sono começa a me dominar. Tento lutar contra ele, querendo aproveitar esse local dos sonhos por mais alguns instantes, mas finalmente desisto, deixando a inconsciência me levar.

Notas finais
Gostaram? Comentem! Amo vcs seus lindos