Notas iniciais
Desculpem a demora pra postar~

Minha cabeça lateja. Rolo na cama e acabo quase caindo.

A luz invade o quarto repentinamente e meu olhos ardem. Levanto o braço para cobri-los, xingando.

— Levante e vá tomar um banho frio — resmunga Kim, de longe. Ele está em algum lugar perto da porta; sua sombra se recorta em meio à luz. Sua voz me alcança como se ele estivesse falando da ponta oposta de um corredor.

Meus olhos se acostumam e abaixo o braço. Puxando o cobertor de qualquer jeito, viro-me para continuar a dormir. O latejar em minha cabeça aumenta. Ouço estrelas.

— Vamos — diz ele. — Temos que sair hoje.

— Não.

— Vamos, Logan.

Resmungo. Meus pensamentos estão pesados e me lembro repentinamente do sonho que tive. Sentindo o rosto esquentar, cubro a cabeça e fecho os olhos.

— Logan, levanta já!

— Hum.

Kim repentinamente puxa as cobertas. Me agarro à borda do lençol e ele o puxa também, me arrastando para os pés da cama.

— Para! Para! Kim, PARA!

Ele puxa com mais força. Me seguro na cabeceira da cama e ele puxa minhas pernas, gargalhando. Me debato.

— Kim, me solta!

— Não!

Estou rindo agora. Ele me puxa com força e solto a cabeceira ao mesmo tempo. Caímos no chão em um bolo de cobertas, lençóis e travesseiros.

Estou rindo loucamente e Kim também. Ele puxa um travesseiro e me bate no peito. Seu rosto está aberto, sem reservas, como se ele estivesse se divertindo pela primeira vez em algum tempo.

Arranco o travesseiro dele e o empurro. Ele cai deitado e bato em suas pernas com o travesseiro. Ele me agarra pelos braços e me puxa, me derrubando deitado também. Minha barriga está doendo. Tento parar de rir, então Kim começa a me fazer cócegas no pescoço. Solto guinchos, implorando para que ele pare. Estou me mexendo incontrolavelmente.

Finalmente ele se cansa e consigo controlar minha respiração. Deito no chão sobre as cobertas jogadas, ofegando. Olho para Kim; ele sorri.

— Vamos, vá tomar um banho gelado — diz. — Ande logo, temos coisas a fazer hoje.

— Como? — pergunto, erguendo as sobrancelhas.

— Ah, não sei — Ele sorri de canto, levantando. — Vamos tentar descobrir o que podemos fazer para te ajudar.

O encaro enquanto ele sai, fechando a porta atrás de si sem olhar para mim.

***

O ar está morno e doce quando saímos do apartamento. Respiro fundo e sinto o sol bater em meu rosto como uma leve manta me cobrindo. Meu rosto não demora a esquentar.

— Onde vamos? — perguntou, tentando manter o ritmo. Kim anda rápido.

— Onde devo ir você não pode ir junto, então pensei de você ir fazer algumas coisas para mim enquanto isso.

— E onde você vai?

— Acho que existe alguém que pode nos... te... ajudar.

— Então quero ir junto.

— Não — Ele encara a calçada inexpressivamente. — Não será possível.

— Posso saber o motivo?

— Acho que não deve ir, apenas.

— Mas isso é sobre mim! — exclamo. Estamos parados esperando que o sinal abra e algumas pessoas encaram quando falo alto.

— Isso é sobre mim— repito, mais baixo, me aproximando dele.

— Eu sei! — responde ele. — Eu sei, mas eu não controlo tudo, Logan.

Respiro fundo. Kim pressiona os lábios como se controlasse para não falar nada de errado.

Reviro os olhos, atravessando a rua com passos largos sem olhar para trás. Ouço Kim xingar atrás de mim. É a primeira vez que o escuto falando algum palavrão. É interessante, penso.

Kim tem uma personalidade bastante atípica, eu acho. Ele é uma pessoa séria, recolhida, com um senso de humor sarcástico e azedo, palavras enigmáticas que na maior parte do tempo somente ele compreende e sorrisos ardilosos como se ele estivesse planejando lhe passar a perna.

Mas ao mesmo tempo... quando ele sorri, quando ri, quando faz uma piada tosca, até quando me insulta, ele deixa transparecer um lado diferente, suave, oposto de seu eu calado e amargo, como se ele fosse uma pedra preciosa lapidada pela metade; o outro ado, bruto e afiado, era bem mais difícil de lidar.

Kim me agarra pelo cotovelo, me puxando até que eu esteja perto o suficiente para ver as raias castanho-claras em suas íris escuras.

— Pare com isso — resmunga ele, entre os dentes. As pessoas esbarram em nós descuidadamente; Kim parece irritado. — Eu não sei como a pessoa com quem vou falar vai reagir se eu levar um completo estranho para lá sem aviso!

— Um completo estranho cuja vida está em jogo? — Me solto do aperto dele e o encaro. Minha vontade é gritar o mais alto possível e chutar coisas. — Você parece que esquece que isso que para você não tem a mínima importância, é minha vida!

Ele parece magoado, mas estou tão frustrado que não consigo me importar.

— Não tem a mínima importância? — exclama ele; estamos aos gritos no meio da calçada agora, em frente a um restaurante sujo de comida chinesa. — Engraçado eu fazer tanto por você, tudo que eu podia para te ajudar, te oferecer um lugar para morar, te oferecer tudo o que eu tenho...!, para no fim das coisas ter que ouvir que não fiz nada por você!

Abro a boca mas ele está ofegante; sei que não conseguirei falar.

— Se eu realmente não fizesse nada por você, você notaria! — Alterado, ele corre os dedos pelo cabelo com raiva. — Vamos ver o que sobra de você se de repente eu parar de te ajudar!

— Não quis dizer isso — Balanço a cabeça; minhas unhas afundam na palma de minhas mãos. — Mas você quer fazer tudo sozinho, decidir tudo sozinho, como se não me dissesse respeito! Como se não fosse sobre mim!

— Ah, não sei! — Ele ri alto. — Talvez eu faça isso, sabe, porque sei mais que você? Faz sentido, Hall?

Estou prestes a dar uma resposta enfurecida quando uma senhora franzina de olhos caídos aparece na porta do estabelecimento chinês, parecendo infeliz e irritada.

— Os dois podiam parar de escândalo na minha estabelecimento, podem ser? — grita ela, rouca. — Que coisa é essa? Os dois está espantando meu clientela!

— Me desculpe, senhora — Kim parece envergonhado; ele se inclina. — Estamos saindo.

— Vá gritar na concorrências! — aconselha ela, os olhos apertados.

— Vamos, sim, senhora — asseguro, balançando a cabeça.

Ela parece desconfiada.

— Sai de meu porta, já já! — ela gesticula em direção a Kim. — E leve seu amiga de olhos verdes!

Com um último olhar fulminante, ela nos dá as costas e entra em seu restaurante.

Os olhos de meu hospedeiro são castanhos.

***

— Eu não sei! Pela milésima vez, Hall, eu não sei!

— Mas se ela me vê... como eu sou... talvez o véu esteja saindo!

Kim revira os olhos, soltando a respiração lentamente.

— Não existe tal coisa — resmunga ele, mordendo o lábio. — Se há algo, é com ela. Quando o véu sair, será perceptível para todos.

— Se ele sair — Engulo em seco.

— Isso! — Ele parece entediado. — Fique com esse pensamento negativo mesmo. Vai te levar muito longe.

— Meu Deus, o que você tem hoje? — pergunto, intrigado.

— Nada, me desculpe — Ele franze o rosto, suspirando. — A briga mais cedo também foi culpa minha, eu deveria ter entendido seu lado.

— É — digo, sem querer que ele ache que pode falar o que bem entender. — Deveria.

Ele não responde nada e continuamos a caminhar. Após alguns instantes, chegamos a um prédio de poucos andares com uma entrada lateral do tipo que tem uma escada estreita e leva ao segundo andar do prédio.

— É aqui — afirma Kim, passando a mão sobre a maçaneta.

— Abra então.

— Não posso — responde ele. — Temos que ser convidados.

— Agora além de mago você é vampiro? — pergunto, genuinamente curioso.

Tomando como sarcasmo, Kim me soca de leve no estômago. Me curvo com os braços sobre a barriga para um efeito dramático.

— Fique direito — diz ele, segurando um sorriso. Posso ver pelos seus olhos que tipo de sorriso será.

Me endireito e cutuco sua barriga.

— Não encoste em mim! — exclama ele.

Encolho os ombros.

— Me desculpe. Te entendo, depois que toco em alguém normalmente a pessoa se apaixona.

— Nos seus sonhos apenas — retruca Kim, finalmente sorrindo.

Ouço passos na escada. Nos entreolhamos e Kim repentinamente se torna sério.

A porta se abre. Ou melhor, uma bela moça a abre; cabelos escuros e lisos caindo pelas costas, um corpo curvilíneo e bem delineado, pele de porcelana e olhos escuros e profundo.

— Jong Kim — diz ela, exibindo um sorriso de raposa que conheço bem. — Eu sabia que você voltaria para mim.

Notas finais
O que acharam?