A Forma da Sua Alma
10 Dia 62
— Entrem — diz a jovem; seu rosto traz uma expressão serena.
Procuro os olhos de Kim mas eles estão fixos na garota. Olho para meus próprios pés, incerto. — Vamos, Hall — diz Kim, finalmente me encarando de novo. A garota nos dá as costas e sobe as escadas graciosamente. Sentindo a garganta fechar, aperto os lábios e subo atrás dela. Repentinamente, é como se eu estivesse sob a névoa que paira sobre um cemitério, com o sentimento desesperador de perda e pesar flutuando acima de minha cabeça. Estou tonto; meu rosto esquenta com a vontade de chorar e as lágrimas vergonhosas se acumulam. — É esse lugar — murmuro, compreendendo. — Você está certo — sussurra Kim, pegando em minha mão. — É esse lugar. A atmosfera parece estranha, não é? Pesada. Como entrar em um cenário em que houve uma tragédia, repleto de dor e sofrimento e nada mais, nenhum sentimento feliz. — Eu sinto como se nunca mais pudesse ser feliz. — Eu falei que você não deveria vir — murmura ele, apertando minha mão. Ele a solta e sinto falta do calor imediatamente; é como se eu então afundasse o punho em uma bacia de gelo. Não respondo a Kim; em vez disso, engulo em seco e volto a subir a estreita escadaria. A garota que nos atendeu já sumiu atrás de grossas cortinas que balançam no topo das escadas, como se tivesse sido absorvida pela escuridão desse local. Silenciosamente terminamos a subida e Kim, à minha frente, afasta as cortinas para que eu possa passar. Tremendo fortemente, adentro o espaço. É um cômodo escuro e fétido. Há um sofá carcomido por traças em um canto, uma lareira sem fogo, quadros mofados e manchados na parede e uma mesa com cadeiras finas de assentos aveludados apodrecidos no centro de tudo. O restante do cômodo está vazio. A única coisa bonita é a jovem sentada em uma das cadeiras; mãos sobre o colo, postura régia, olhos escuros e sem expressão fitando um ponto à sua frente. Mesmo com a expressão encovada de quem vive a vida por obrigação, ela é incrivelmente bela. — Sentem-se — diz ela suavemente, notando nossa presença. — Não se façam de rogados. Kim novamente está vidrado nela. Procuro auxílio em seus olhos mas ele apenas encara a garota inexpressivamente, sem desviar por nenhum instante. Ela, por outro lado, parece perdida em pensamentos, observando o tampo encardido da mesa. Vagamente pouso os olhos sobre a madeira escura tempo o suficiente para ler uma das frases cortadas na superfície do tampo, como quando você risca a carteira da escola com uma tesoura, formando um sulco. Salvem minha alma. Desvio os olhos, assustado. Concluo que é melhor me sentar. Kim me acompanha. — Sou Ambrose — diz a garota, me examinando criticamente. — Você deve ser o garoto a quem Kim estava prestando guarda? — Sim — respondo, hesitante. — Sou Logan. Ela me encara por mais alguns instantes e se vira para Kim. — O que quer aqui? — Logan precisa de ajuda. Ela aperta os olhos. — Ele não tem boca? Não sabe falar? Espantando com sua ferocidade, gaguejo qualquer coisa, mas não consigo me expressar corretamente. As palavras saem quebradas e no fim desisto. Discretamente, Kim coloca a mão sobre a minha e a aperta. Sei que não é um sinal de afeto; ele quer me transmitir uma mensagem. Eu falo. — Creio que Logan não esteja pronto para falar sobre sua história — diz Kim, confiantemente. Sua mão desliza para fora da minha e ele pigarreia. — Ele apenas acha melhor que eu diga. Ambrose levanta o queixo arrogantemente e arqueia as sobrancelhas. Ela me transmite uma aura extremamente prepotente. — Fale, então, já que é uma história tão traumática — declara ela, encarando Kim avidamente. — Fale, Kim. Então ele fala. Conta minha história inteira, como lhe revelei, como ele deve ter descoberto por si mesmo, como lhe devem ter contado. Juntando delicadamente os pedaços para unir tudo em uma tapeçaria de ricos detalhes, uma narrativa tão cativante e excitante que não poderia se tratar de alguém como eu. Durante todo o discurso, observo aos dois; o modo como suavemente se encaram, focados apenas um no outro, como se o mundo estivesse derretendo ao redor deles. Ardendo dentro de mim, a pergunta. O que eles são? Ou melhor, o que foram? O clima dessa sala fétida apenas piora minha tensão, e logo estou fervendo de raiva, cansado da voz suave de Kim, do olhar dissimulado de Ambrose, de minha própria fraqueza. Pateticamente, conto até dez repetidas vezes, tentando manter o controle que ainda me resta. No fim de seu discurso, em uma súplica charmosa, Kim pede: — Amber, preciso de sua ajuda — ele desliza a mão para tocar na dela; ela permite. — Preciso que me revele... nos revele... como desfazer a capa. Como recuperar a impressão do corpo de Logan para ele mesmo. Algo no modo como eles se olham me faz crer que já foram — se ainda não são — profundamente conectados. É como se estivessem conversando sem usar coisas mundanas tal como palavras e toques. Apenas seus olhos, grandes, cativantes e reveladores olhos. — Não sei como fazer isso — Ela suspira; sua boca se curva em um bico infantil. Ela me encara reprovadoramente.
— Pode nos dar licença, Logan? — pergunta Kim carinhosamente, sorrindo. — Fique no corredor por um segundo. Quem lhe deu o direito de falar comigo como uma criancinha patética? — Claro. Me levanto e saio da sala. Sento-me na escada, encarando meus dedos entrelaçados. Estou sentindo muita vontade de sair correndo e sumir de novo, e por um instante insano quase me levanto e me lanço escada a baixo no mundo de novo. Porém, reconhecendo que isso seria tolo, forço-me a continuar sentado. Kim está lá dentro, conversando com sua delicada amante, provavelmente se utilizando de seus artifícios — sabe se lá quais — para convencê-la a dar-lhe o que ele quer. Ah, deve estar se divertindo no processo. Bom, isso é bom. Kim é dissimulado; não deveria ter lhe dado tal brecha a ponto de pensar que tudo foi verdadeiro — o colar, o vinho, a guerra de travesseiros, os sorrisos em geral e alguns em particular. Ah, a culpa foi minha por ter me iludido achando que encontrara um amigo com quem contar. Meus pensamentos às vezes se tornam tóxicos assim. Quando estou nesse tipo de humor soturno, gosto de dormir. Como não posso fazer isso aqui, engulo minha frustração e tento não dar ouvidos a tais pensamentos tolos. O tempo parece se arrastar de modo lento. Nervosamente, cruzo e descruzo os braços, encarando os degraus estreitos, pensamentos vazios indo e vindo rapidamente. Levo a mão ao pingente pesado que Kim me deu — apenas para descobrir que não o estou usando. Tirei-o ontem para dormir e devo ter esquecido de colocar pela manhã. Isso me deixa inesperadamente frustrado, como se tivesse deixado para trás algo essencial para minha existência. Finalmente, agitado e corado, Kim sai detrás da cortina. Sem me dirigir o olhar, ele diz: — Vamos. Voltaremos amanhã. Levanto-me. — Onde está Ambrose? — Vamos, Hall — Ele começa a descer as escadas rapidamente, parecendo afobado para partir. Obedeço, confuso. Olho para trás quando chego lá embaixo; o pequeno rosto de Ambrose é visível por entre as dobras. Seu sorriso de raposa é o maior do mundo, afiado e cativante como o brilho de uma lâmina. *** Encaro o teto, me sentindo vazio. Este quarto, esta cama, estas cortinas e a janela por trás delas... não se parecem com o que eu chamava de casa alguns meses atrás. É como se além de estar em um corpo que não é meu, eu esteja em um mundo que não é meu. Distraidamente toco o pingente pesado pousado em meu peito. O coloquei no pescoço assim que chegamos, e ele se encaixou graciosamente sobre o tecido suave da camisa que Kim me emprestou, me trazendo um senso de familiaridade, de casa. Bizarro. Rolo e enfio o rosto no travesseiro, suprimindo um grito. Quero chorar e espernear. O sentimento estranho como se algo estivesse esmagando meu coração e me pressionando de forma agonizante ainda me envolve como se o covil de Ambrose tivesse deixado uma impressão: mesmo que eu saísse dele, ele não sairia de mim. Não cedo ao impulso; apenas respiro fundo, sentando-me na cama e olhando ao redor. Não sei para que Kim usa esse quarto, mas há um ar impessoal nele, como se fosse destacado do resto da casa, como se não tivesse dono. As paredes são de um tom de creme neutro e desprovidas de quadros ou fotografias; os móveis — uma cama de casal com uma mesinha ao lado, uma cômoda e uma cadeira a um canto — são de madeira clara, conservados. Não há nada sobre nenhum deles, nenhum casaco pendurado nas costas da cadeiras, nada sobre a cômoda ou em suas gavetas, ou embaixo da cama. Como um local que não pertenceu a ninguém, como algo que nunca foi de alguém que o valorizasse, ele não tem sinais de que ninguém se sentiu em casa aqui. Não sei o que este quarto se tornará comigo aqui. Não sei o que eu deixarei quando partir. Uma batida soa repentinamente, me assustando. — Entre! Kim enfia a cabeça para dentro do quarto e então entra, sorrindo suavemente. Ele se aproxima e senta-se na cama, me encarando. — Está bem? — pergunta, parecendo preocupado. — Sim — respondo, talvez na defensiva, encarando minhas próprias mãos. — Entrou aqui quando chegamos e não saiu mais — comenta Kim, no mesmo tom de antes. — Não está com fome? Venha, vou preparar algo para comermos. — Estou sem fome. Sei que estou sendo rude, mas não consigo me impedir. De algum modo, não sinto a menor vontade de ser gentil com ele. Não agora. Ele parece surpreso pelo meu tom. Abre a boca e a fecha repetidamente; um pouquinho de culpa me invade. — Tudo bem, então. Se quiser falar comigo... estou esperando em meu quarto. Você sabe o caminho. Então, dando a conversa por encerrada, ele se retira.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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