A Forma da Sua Alma
8 (BÔNUS) Dia 61 - Kim POV
Os cabelos de Logan caem em seu rosto quando ele se inclina para examinar a máquina de escrever. Nervosamente, mexo as mãos, me segurando para não esticá-las e ajeitar sua franja.
Não pela primeira vez, me pergunto o que há por trás dessa magia. Deve ser incrivelmente poderosa para criar uma cortina de fumaça tão realista por cima da verdadeira aparência de Logan. Algo que faça com que ele não possa mais sentir o próprio corpo... poderia facilmente evoluir para algo que faça com que ele não se sinta mais como ele. Logan pode deixar de ser Logan. Pode sumir até se tornar um fio de fumaça fraco e frágil, a ponto de desaparecer com o vento. Ele finalmente acharia o fim que procura. Óbvio que não lhe direi isso. Estou disposto a fazer o que for necessário para ajudá-lo... mesmo que não compreenda seus motivos. Quando eu estava na mesma situação, não havia ninguém para me apoiar. Não quero viver sabendo que podia ajudar uma pessoa e escolhi não fazê-lo. — Acho que esse cômodo é meu preferido — comenta Logan, me tirando de meus pensamentos. — Ah, sério? — pergunto, me aproximando dele. Logan me encara. Seus olhos são verdes e penetrantes. Não são fáceis de ignorar. — Sim — Ele olha ao redor curiosamente. — Como conseguiu todas essas coisas? — Ah, eu... Não sei como responder. Todas essas coisas — velharias — são objetos que coletei ao longo da minha vida, coisas que juntei para me lembrar do que eu um dia tinha sido. Do que eu não sou mais. — Eu apenas consegui — respondo, abrindo a cristaleira. — Venha aqui. Logan se aproxima um pouco, espiando para dentro da cristaleira. Sua mão toca minhas costas delicadamente quando ele tentar se aproximar mais. Recuo e acabo batendo nele. — Me desculpe — digo. — Olhe isso. Ele chega mais perto ainda. Sinto sua respiração em minha nuca. Estou segurando um pequeno camafeu de bronze manchado. É de longe meu objeto favorito na coleção; eu o ganhei de alguém muito especial para mim. Além disso, ele tem um encantamento, óbvio. — O que tem essa coisa? — pergunta Logan. Pelo reflexo da porta da cristaleira, posso vê-lo encarando o camafeu fixamente. — Um encantamento — respondo, virando um pouco o rosto para encará-lo. -Ele avisa quando o efeito de um ritual está prestes a acabar. Quero que use, — eu entrego camafeu a ele — para que eu saiba quando refazer. — Por que não posso simplesmente descobrir... quando o efeito passar? — pergunta ele, colocando o camafeu no pescoço mesmo assim. Tento não revirar os olhos. — Isso facilita muito as coisas, Logan — digo. O som do nome dele, as duas sílabas combinadas para formar a palavra única, já se tornou familiar para mim como se fosse algo que eu dissesse sempre. — Se você diz — ele toca no camafeu distraidamente. — Está morno! — Sim — respondo. — Eu não sei, mas ele tem essa peculiaridade. Olhe, agora que conhece o local... por que não tomamos algo?***A taça está tremendo. Eu estou tremendo, acho. — Olha, sinceramente? — comenta Logan abruptamente. — Eu nem sei mais o que vale a pena. Você às vezes não pensa em desistir? Ele balança a cabeça, agarrando sua taça. Quando percebe que não há nada nela, toma o restante da minha. Encho as duas; minha mão balança um pouco e quase derrubo a garrafa de vinho. — Eu já não deixei claro? — entrego-lhe sua taça. — Suicídio não é uma opção para mim, se fosse, eu já teria feito há muito tempo. — Você é bem mais forte que eu — ele ri, parecendo miserável. O quarto está girando ao meu redor. Não sei se foi uma boa ideia trazer o vinho para cá. Me jogo na cama ao lado Logan, tentando não entornar minha taça. — Você não exibiu muita força até agora, mas veja, tenho certeza de que pode ser forte. Só precisa aguentar até eu entender isso... quem fez isso e como desfazer. — A solidão é o pior — comenta ele, sentando-se momentaneamente para tomar o que restou na sua taça. Ele então a larga na mesinha ao lado da cama, virando-se de barriga para me encarar. — Às vezes, eu acho que vou enlouquecer. Porque estou todos os dias sozinho... porque passo as horas só com os meus pensamentos... porque ninguém sabe quem eu realmente sou, nem mesmo eu. Estico o braço e toco seu ombro. — Você não precisa mais ficar sozinho — digo. — Eu posso ser seu amigo. Ele me encara fixamente. Seu físico ainda me impressiona; sua pele caramelada, seus olhos grandes e claros em contraste com o cabelo escuro e cachado — incrivelmente bagunçado. Eu já estive com pessoas mais atraentes, mas há algo em sua normalidade, como se ele fosse alguém que você pode simplesmente se sentar e conversar, e ele vai te responder porque é esse tipo de pessoa. — Amigo... — Ele abruptamente começa a rir alto. — Amigo? Eu não quero ser seu amigo. Ele ainda está rindo. A risada dele soa alta e contagiante. Não posso deixar de rir. Minha cabeça parece leve como um balão de ar quente.
Logo estamos rindo histericamente na cama. Estou sentindo dor nos músculos da barriga. Rolo e acabo perto demais de Logan. Ele se estica por cima de mim para pegar a garrafa de vinho pela matade que eu coloquei — em algum momento? — sobre a mesinha de cabeceira. — Acho que já bebemos demais — comento, rindo. — Eu não — Ele vira a garrafa e um pouco de vinho escorre pelo seu queixo. — É... — Estico a mão e limpo distraidamente. Seus lábios estão roxos e inchados. Um silêncio pesado recai sobre nós. Ele me encara. Vinho pinga dos seus lábios. — Ser seu amigo seria a pior coisa do mundo — diz ele de repente. — Acho que sei onde é meu quarto. Obrigado pelo vinho. Então ele se levanta e sai, tão rapidamente quanto entrou.
Notas finais
Hehe, gostaram? Eu deveria postar mais capítulos assim?
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