A Foragida
10 Um Motivo
Notas iniciais
Eu queria agradecer todos os comentários e recomendações. São eles que me apoiam nos momentos de branco total na cabeça. Meu energérico em forma de letras :)
Muito obrigada por continuar acreditando na minha fic e em mim. Mesmo.
Tenha uma boa leitura. :]
"E você? Você é o motivo. Do meu amanhecer. E a minha angústia. Ao anoitecer."
* — *
POV/ BELLA
Os humanos adolescentes que me circulavam pareciam não existir, eles falavam, se mexiam, mas tudo parecia borrado. Quase um sonho. Sabe aquela frase: “Mesmo rodeado de uma multidão, me sinto sozinho”? Sempre tinha achado o cara que disse isso um baita de um retardado maricas. Mas agora... eu meio que o entendia.
Ângela fazia um monologo alegremente ao meu lado. Só tinha captado algo como: o Ben finalmente me beijou! No começo eu me senti mal. Aquele fato deveria ser importante, não deveria? Contudo, o meu cérebro se recusava a entender isso. Portanto, agora ela falava respirando o mínimo possível e eu a ignorava. Não de maneira rude, eu apenas não escutava. Mas Ang estava tão eufórica que nem ligava.
Ao menos uma de nós estava feliz.
Senti que os meus dedos adormeciam e que o meu sangue de repente estava em brasas. Eu estava sendo observada. Levantei a cabeça e lá estava ele: o meu Sonhador. Ou seria ex-Sonhador? Desviei os olhos, o meu coração deu uma rápida parada e o meu peito doeu de uma forma agonizante. Mas eu não podia me deixar levar pela a minha dor e me reaproximar dele. Eu devia pelo o menos isso para o Edward. Sacudi a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos, e captei a última frase da minha amiga.
– Isso é muito legal, não é? – Seu rosto tinha um brilho que antes eu nunca havia visto. Será que eu ficaria assim se me apaixonasse? Provavelmente não. Não a parte do rosto, mas ‘não’ para a parte do se apaixonar.
– Muito, Ângela – Dei um sorriso sem mostrar os dentes.
– O que foi que aconteceu? – Ela finalmente havia percebido.
– Só estou cansada – Eu não tinha orgulho disso, mas sabia mentir muito bem.
– Ah – Ela ficou um segundo com aquela cara de mãe preocupada. Entretanto, logo essa expressão desapareceu e o monologo recomeçou. Se eu tivesse ânimo, teria até suspirado.
Suas frases apaixonas pararam ao som do sinal de entrada. Eu estava começando a gostar daquele sino.
Encaminhamos-nos para a nossa aula de História. Hoje teríamos a tão temida prova do senhor Banner. Normalmente, eu teria preparado alguma pegadinha no dia anterior para usar hoje. No entanto, nada na minha vida estava sendo normal. Se algum dia foi. Mas o ponto legal era: não se pode conversar durante as provas.
Poderia ser crueldade o que eu estava fazendo com a minha melhor amiga, mas eu precisava de um tempo para pensar sobre o que tinha acontecido e sobre o que eu tinha feito, principalmente na segunda opção. Entramos junto com o professor, sentei desanimada e esperei que ele entregasse as avaliações. Geralmente, eu sempre respondia de uma forma devagar para não levantar suspeitas. Mas não hoje. Em exatos 10 minutos a minha prova já estava gabaritada e na mesa do tirano.
– Eu posso, agora que terminei, ir à secretaria? – Perguntei de forma discreta, não querendo chamar mais atenção do que já tinha chamado ao me levantar e ir até a sua mesa
– Que brincadeira é essa, senhorita Swan? – Diferente de mim, Banner não estava interessado em discrição.
– Não há brincadeira alguma. – Meu tom já era cansado – Eu acabei a minha prova, e estou apenas pedindo se posso ir à secretaria.
– Ninguém consegue terminar uma prova dessa em menos de 1 hora. – A familiar veia na sua testa saltou – Me diga a onde você colocou a sua cola!
– Eu não preciso e nunca precisarei colar. Se o senhor tem dificuldades em terminar essas questões pré-escolares em menos de 1 hora, o problema é seu. – Estreitei os meus olhos. Ele havia despertado um pedacinho da fera. Mas então eu lembrei o que eu iria fazer e a tristeza logo me tomou. Os meus ombros caíram de uma forma derrotada – Olha, por mais que seja divertido, eu não quero discutir. Se eu fosse você, me deixaria ir, afinal, eu estou indo para lá encaminhar a minha transferência.
Um silêncio tenso se instalou na sala. Até ser quebrado por uma Ângela histérica.
– Você o quê?! – Gritou do fundo da sala, ficando de pé.
– Desculpe, ia te contar, mas você estava tão feliz – Senti uma pontada de tristeza. Como se tudo já não fosse o suficiente.
– Nós conversamos depois, ok Ang? – Me virei para o meu professor – Eu estou saindo. – Vir-lhe-ei as costas, ignorando a sua expressão atordoada, e rumei porta a fora.
Comecei a olhar para aquele prédio como se fosse a primeira vez. Censurei-me por nunca ter notado o seu estilo “clássico”. Ri sozinha do meu adjetivo. Por mais pacata que fosse, Forks era um bom lugar para se viver. Se tudo algum dia se ajeitasse, eu voltaria para cá. Não como uma foragida, mas como uma “humana normal”.
Eu estava tão absorta acompanhando a sequência de números gigantes em cima das portas de cada sala que acabei levando um encontrão com alguém. Foi como se eu tivesse batido em um rochedo gigante. Mãos enormes me reequilibraram e quando eu ergui o rosto, o sorriso caloroso que eu recebi aqueceu um pouco o mar de gelo que era o meu peito.
– Olá, Bella – Será que não doía um sorriso tão grande como aquele? Tomara que não, pois seria um desperdício ele não usá-lo.
– Hey, Jake – Um tímido sorriso se abriu no meu rosto – O que você está fazendo aqui fora?
– Estávamos tendo aula de classificação sanguínea. Uma garota desmaiou e caiu em cima do equipamento do professor, quebrando tudo, e como eu sou o mais forte, gostoso e sensual da sala, me escolheram para levá-la até a enfermaria. – Se qualquer outro garoto usasse aqueles mesmos adjetivos para se descreverem, seria egocentrismo. Mas com o Jacob, aquilo tudo soou cômico. Não que não fosse verdade, de certa forma, era só o Jake. E eu podia afirmar isso, mesmo não o conhecendo.
– E você? Não me diga que esta matando aula? – Aquele enorme sorriso estava de volta – Hum, safadinha! – Deu um leve tapinha no meu braço, um gesto que tentara ser um imitação de um ato gay. Ver um cara de 2 metros e cheio de músculos fazendo aquilo, é algo que todas as pessoas mereciam ver antes de morrer.
– Não, não – Comecei a negar, mas então o peso do que estava prestes a fazer me encheu novamente – Quer saber? Sim, eu estou matando aula. E se você contar para alguém, eu... eu... enfim, eu farei algo bem ruim – Meu ombros finalmente se livraram da tensão.
– Se você, a nerd do colégio, vai matar aula, quem sou eu para não ir? – Me puxou pela a mão e corremos juntos até o estacionamento. Eu simplesmente gargalhava enquanto tentava acompanhar o seu passo.
Estávamos sentados no chão imundo, eu encostada em um Fiat branco velho e Jacob em seu Volkswagen preto reluzente. O assunto era leve, e Jacob, de uma forma que eu nunca conseguia entender, sempre me fazia rir. Nós dois pulamos quando ouvimos o sinal que avisava que o recreio havia começado.
– Você está com fome? – Perguntou, preocupado
– Na verdade não. E você? – Dei de ombros.
– Bella, se liga, eu tenho dois metros de altura. Eu sinto fome até quando estou comendo – Falou aquilo da mesma forma que qualquer um afirmaria: Claro que 2 + 2 = 4!
– Tudo bem, vamos lá comer algo – Levantei limpando a minha calça.
– Antes de irmos, eu quero que você me diga o que realmente estava fazendo antes de eu aparecer. Sua cara estava tão triste – De pé, Jake se apoiou contra o seu carro. O seu olhar era terno.
– Eu estava indo pedir a minha transferência – Suspirei – Eu não vejo mais porque continuar em Forks. Parece que eu ter vindo aqui só causou problemas – Encolhi os ombros.
– Dificilmente eu tiro o meu sorriso do rosto. Sabe por quê? Porque eu sempre arrumo um motivo. Seja pensando em mim, seja pensando em outras pessoas. Quando vejo alguém como você rindo de algo que eu fiz, me sinto completo. Esse é o meu motivo. Só basta procurar o seu. E quer um conselho? Fugir nunca resolve. –
O olhei durante um bom tempo. Quem realmente era o Jacob? De onde ele veio, e como conseguia ser tão feliz e sábio? Mesmo não sabendo as respostas, eu sentia que podia confiar nele, como se fossemos irmãos. Era perigoso criar um laço com um desconhecido, mas, naquele momento, eu achava que valeria a pena. Esse poderia ser o meu motivo? Não sei.
– Obrigada, Jake – Abri um dos meus grandes sorrisos.
– Agora que o momento drama passou, podemos ir lá forrar o bucho? – Complementando a sua frase, a minha audição captou um ronco vindo da sua barriga.
Me segurei para não rir.
POV/ EDWARD
Mesmo acompanhando os seus passos a manhã inteira, eu não me cansava de observá-la. Nesse momento ela se inclinava, apoiando-se num garoto de origem indígena. Sua risada dava para ser ouvida pela a escola inteira. Foi nesse instante que eu descobri que odiava aquele cara. Um som de algo quebrando me despertou. Olhei para as minhas mãos e notei que a bandeja que eu pegara agora eram duas. Alice me tirou o plástico quebrado e trocou por outra silenciosamente. Poucos perceberam o ocorrido.
– Você está mal, não é? – Ela sussurrou
– Eu estou bem – Respondi sem encará-la.
– Sabe, você é bem melhor do que aquele humano. Posso não saber o que aconteceu entre vocês dois, mas da para saber que ela gosta mais de você só pela maneira como está te evitando agora. – Alice comentava, de maneira casual, enquanto enchia a sua bandeja de coisas que não comeria.
– Está ciente de que isso não tem lógica alguma, certo? – Peguei um pedaço de torta que emitia um cheiro levemente podre. Considerei a minha atitude como uma boa ação. Antes eu que não comeria do que um humano.
– Eu estou sempre certa. – Virou-se e ergueu a sua cabeça para me dar uma das suas encaradas “Eu sou o oráculo aqui, baby” – Pense comigo: Ela parou de falar com você porque achava que o estava pondo em perigo, certo? – Dei uma leve assentida de cabeça, confirmando. – Pois então!
Com essa breve frase, me deu as costas e rumou para a nossa mesa.
– Pois então, o que? – Indaguei, depois de sentar ao seu lado, já perdendo a paciência.
– Ela parou de falar com você para te proteger. E agora, se Bella está a falar com o Jacob é porque ele não vale a sua proteção. Ou seja: ela não se preocupa tanto com ele do que com você. Em outras palavras: Bella gosta mais de você, bobinho. – Balançou os seus curtos cabelos e sorriu igual a uma criança modelo.
– Por que vocês mulheres são tão complicadas? – Perguntou Emmett de testa franzida.
– Porque se não fossemos, o mundo não teria graça – Dando um dos seus raros sorrisos doces, Rose se aconchegou em seu marido.
– Vocês estão tão estranhos – Jasper se pronunciou em um tom reservado, quase um sussurro.
Contemplávamos uns aos outros em silêncio quando um grande alvoroço se fez presente. Contra a minha vontade, me virei e procurei ver o que estava acontecendo. Não foi difícil. Afinal, a visão de Bella em cima de uma mesa, enquanto agitava os braços para calar o resto dos adolescentes, foi uma cena impossível de não ser notada.
– Vocês gostam de festa? – Minha guerreira perguntou aos berros para a sua platéia de adolescentes. Nós, os vampiros presentes, nos encolhemos ao ouvir o grito de “siiiiiim” dos humanos. Super-audição dos demônios!
– Então eu quero todos vocês na melhor festa do mundo na minha casa! – Outra onda de estrondos vocais. Alice se escondeu atrás de Jasper e tampou os ouvidos com as suas pequenas mãos.
Mesmo incomodado pelo o barulho, eu não tirava os olhos de Bella. Havia algo de errado com ela. Minha guerreira nunca tomaria uma atitude daquelas. Os seus olhos castanhos encontraram os meus, mas logo foram desviados quando o garoto indígena segurou na sua cintura e a ajudou descer de cima da mesa. Imediatamente ela foi rodeada de humanos.
Se eu tivesse algum sangue em minhas veias, ele agora estaria congelado. Os olhos castanhos que eu fitara segundos atrás não estavam quentes e ferozes, eles eram turvos e vazios. Jasper me olhou aflito ao sentir o meu desespero e medo. Algo de muito ruim estava acontecendo com a minha amiga. Bella poderia não querer mais falar comigo, mas eu ainda tinha uma grande dívida com ela. Eu a ajudaria e protegeria. Mesmo ela não querendo saber de mim.
O tumulto logo foi dispensado, sem precisar, milagrosamente, de nenhuma autoridade.
Na nossa aula de biologia, Bella, de uma forma que me doeu de profundamente, passou do estagio “ignorar” para o “não existe”. No começo, eu tentei falar com ela. Nada. A cutuquei. Nada. Quando eu finalmente me preparei para berrar o seu nome, ela simplesmente se levantou, pegou o seu material e se dirigiu para a última carteira no fundo da sala. Seus movimentos eram mecânicos e sua alma e mente pareciam não estarem presentes. Uma marionete de cordas invisíveis. Eu sabia que se dormisse, eu teria pesadelos com aquilo para o resto da minha vida.
– Você vai ir nessa festa, não é? – Alice indagou enquanto caminhávamos para a nossa última aula do dia.
– Eu preciso ir. – Afirmei sentindo um estranho nó no estomago.
– Quer que eu vá junto? – A Gnomo me encarou.
– Não, obrigado, mas eu preciso fazer isso sozinho.
E eu daria um jeito em tudo aquilo. Por ela.
POV/BELLA
Encaminhei-me para a aula de educação física sentindo o leve formigar e o cansaço pular do meu corpo. Eu ainda estava um pouco zonza, mas aos poucos o mundo a minha volta começou a se estabilizar. Virei o corredor e dei de cara com o Jacob. Sorrimos um para o outro, na forma de comprimento, e continuamos a caminhar.
Na entrada do ginásio, duas garotas de cabelos incrivelmente lisos e cheias de maquiagem no rosto me saudaram e falaram que iriam sim à minha festa. Alguém pare o mundo, por favor. Franzi as minhas sobrancelhas e as olhei como se fossem duas malucas. Do que elas estão falando? Contudo, antes que eu pudesse soltar o meu: “De que raios vocês estão falando?!” Elas viraram as costas e saíram dando os seus constantes risos de hienas.
– Jacob, do que elas estão falando? – Perguntei confusa para o garoto de dois metros de altura ao meu lado.
– Da festa que você disse que irá dar em sua casa hoje à noite – Jake me respondeu tão confuso quanto a mim.
Minha boca se abriu de maneira descrente. Então algo que me perturbaria mais tarde aconteceu: minha mente se apagou, não como se eu tivesse desmaiado, mas como se ela estivesse trabalhando em meia fase. Eu andava, sorria e falava, entretanto, eu não tinha consciência de para onde eu estava andando, para quem ou do que eu sorria e de quais eram as palavras que saiam da minha boca. E o pior de tudo, é que não era a primeira vez que eu estava sentindo isso. Céus!
Um flash, uma escuridão, então me despertei como se estivesse dormindo aquele tempo todo. Meu coração disparou e eu olhei aflita em volta.
– Todos de acordo? – O meu professor de educação física perguntou segurando a sua prancheta suja de café. Houve alguns murmúrios de concordância que logo ficaram inaudíveis com o ultimo barulho do dia do sino. Fui empurrada pelos os outros alunos para os corredores.
– O que houve? – Sussurrei de maneira histérica para Jacob.
– Ele só perguntou se nós estávamos de acordo com o trabalho – Jake falou como se eu não tivesse escutado apenas a última parte.
– Que trabalho? – Minha mente tentava trabalhar o mais rápido o possível, o problema é que ela não tinha material o suficiente para isso.
– Você esta falando sério? – Se virou para mim. Minha cara de perdida-confusa-histérica lhe respondeu por si só. – Em que mundo você estava? – Encolhi os ombros. Eu tinha medo de saber a resposta para aquela pergunta.
– Eu não sei – O medo se alastrava lentamente por entre a minha corrente sanguínea. Mas ele não notou. E uma pequena parte dentro de mim estava um pouquinho feliz com isso. Sua risada mostrava que Jacob não me conhecia tão bem. E talvez ninguém conhecesse.
– Ok. Hoje nós tivemos apenas aula teórica. E nessa aula teórica o professor passou um trabalho em dupla para a semana que vem. – Paramos em frente ao meu armário. – Se lembra? –
– E sobre o que era esse trabalho? – Eu sentia uma dor de cabeça que não estava lá.
– Inventarmos uma nova brincadeira. Tudo original, ou uma adaptação de alguma já conhecida, regras e uma demonstração. As melhores serão ensinadas para as crianças da creche. – Agora eu já estava com a minha mochila nas minhas costas e parada junto de Jacob em frente ao armário dele.
– Certo. – Balancei a cabeça, mostrando que havia entendido tudo o que já havia sido me fornecido. – E presumo que você seja a minha dupla. –
– Foi você quem me implorou, baby – Dessa vez, o seu sorriso gigante não me animou.
– Eu nunca imploro. – Me senti estranha. Meus instintos me falavam para eu ser cautelosa.
– Hey, relaxa. Foi só uma brincadeira – Riu e passou o seu longo braço pelos os meus ombros e caminhou comigo daquela maneira. Eu me sentia pequena e frágil.
E foi apenas encontrando os olhos de Edward no estacionamento, que eu realmente entendi que algo de muito errado estava acontecendo.
Poderiam ser os braços de Jacob que estavam ao meu redor, mas eram nos olhos do meu Sonhador que eu encontrei um porto seguro. Pois foi dentro daquelas orbes douradas que eu encontrei promessas de que tudo ficaria bem. Era dos olhos de Edward que vinha a promessa, mas era do meu peito que vinha a confirmação: Ele daria um jeito.
...
Minha casa como sempre estava impecavelmente limpa, eu não estava como fome, não precisava trabalhar e Ângela, depois de ter uma dura conversa comigo, a qual eu expliquei que havia mudado de idéia por enquanto e não pediria a minha transferência, dispensou, delicadamente, os meus “serviços” como professora. Pois agora ela tinha outro, um humano bem menos inteligente do que eu; mas fazer o que? Estudar era a última coisa que eles fariam de qualquer maneira. Portanto, agora o tédio me tomava nos braços e fazia de mim sua melhor amiga.
Subi as escadas do meu quarto e abri o meu compartimento secreto no piso. De lá eu tirei a minha espada, flechas e arco. Coloquei a mão lá no fundo e tirei dali um pequeno cordão em forma de coração, dentro dele havia um foto da falecida filha de Mary e do seu marido John. Sorri de forma nostálgica e os coloquei ao meu lado. Busquei mais no fundo e peguei um pequeno rolo de papel, o abri já sentindo meu coração dar malditas pulsadas irregulares.
Nele eu vi uma versão de mim com olhos de aço e uma expressão feroz, um arco em posição e uma mira já certeira em seja lá quem for. Da floresta atrás de mim parecia que a qualquer momento as arvores iriam se balançar ao ritmo do vento, o mesmo se imagina ao ver os meus cabelos desalinhados. Eu ainda me lembrava de como eu tinha pegado esse desenho do meu Sonhador. Então era assim que os meus inimigos me viam? Uma garota de altura mediana com o ego e ferocidade de um gigante? Tomara que sim, pois eu senti orgulho do que vi ali.
Guardei tudo de volta, com um carinho que eu nunca revelaria a ninguém, e sentei em minha cama, chutando os meus tênis para debaixo da mesma. Por que tudo agora parecia tão solitário? Eu havia passado anos contando apenas comigo mesma, então por que só agora eu percebi o quão ruim é isso? Deitei-me com aquela roupa mesmo, puxei as cobertas até o pescoço, mesmo não sentindo frio ou calor.
Fechei os meus olhos e da forma provavelmente errada, eu rezei.
Não pedi para que as coisas ficassem melhores para mim, para isso só nascendo novamente. Mas desejei para que as coisas de todos os que necessitavam de mim ficassem. Um peso no meu coração me disse que seria todo o mundo. Ou será que não? Edward me disse, de uma maneira direta e dura, que eu não era o centro do universo. Mas será que enquanto eu dormia ou brincava de ser humana, outro alguém estava lá fora fazendo o que eu deveria fazer?
Eram tantas duvidas que assolavam a minha cabeça que, em algum momento, eu dormi de frustração por não saber as respostas.
POV/EDWARD
Carros passavam a todo o momento em frente a nossa casa, o barulho estridente da música eletrônica vinda da casa ao lado teria sido, como toda a certeza do mundo, reclamada para a policia pelos os visinhos que teriam que trabalhar cedo no dia seguinte. Mas nós éramos os visinhos, não dormíamos e estávamos prestes a participar daquela algazarra digna dos infernos. Pelos o menos eu estava.
Alice entrou no meu quarto, teria sido de forma abrupta, mas o seu aviso mental logo foi captado por mim. Sem momentos constrangedores. Esse era o nosso lema secreto. Terminei de dar o nó no meu novo tênis comprado especialmente para aquela ocasião. Tão caro e “da moda” como tudo o que vinha da Gnomo.
– Você está bonito – Minha irmã comentou quando eu fiquei de pé.
– Obrigado – Respondi tenso. Qualquer outra pessoa teria feito algum plano diante da situação, traçaria estratégias, bolaria uma rota de fuga e, como todo o bom herói, sairia de lá carregando a mocinha no colo, ou jogada em cima do seu ombro, esperneando o quanto fosse.
E eu? Bem, eu só tinha chegado na parte que envolvia estar na festa. E nem penetra eu seria.
– Tem certeza que deseja ir até lá sozinho? – Alice se sentou no meu sofá de couro e me encarou com os seus olhos fraternos.
– Tenho sim. E, além do mais, você demoraria muito para se arrumar – Tentei dar um sorriso, mas tudo o que saiu foi uma carranca estranha.
Acenei para a minha irmã de criação e sai pela a minha janela de vidro mesmo. Estava escuro e nem os melhores olhos humanos conseguiriam me ver naquele breu. Falando nisso, a noite estava escura demais. Estamos na lua cheia, e o mundo deveria estar iluminado por aquele grande satélite. Pode até ser criação da minha mente paranóica, mas eu senti que aquilo era um aviso de que algo ruim estava acontecendo.
Eram duas da manhã, e as coisas ainda ferviam dentro e fora da grande casa de Bella, passei por entre os adolescentes que bebiam, se “pegavam” ou estavam desmaiados do lado de fora. Fora toda aquela quantidade de veículos parados a esmo no primeiro canto grande o suficiente que encontraram. Tentei lembrar o quanto era silencioso este lugar. Tão silencioso quanto qualquer coração de um vampiro. Mas não consegui, não com aquele barulho infernal de alguma mulher que se diz cantora, grasnando algo pop.
Céus, o que houve com o bom e velho rock? E as musicas clássicas, porque todo esse preconceito para cima delas? O que tinham na cabeça essa geração de humanos? Se do lado de fora as coisas estavam angustiantes para qualquer pessoa que prezava o mínimo de organização, no lado de dentro se via a verdadeira caixa de pandora com cômodos. Quase voltei para a minha casa.
Quase.
Caminhei entre os humanos e copos vermelhos, o cheiro de suor e bebida alcoólica era quase insuportável. Parei na cozinha e olhei ao redor. Ela não estava ali. Virei as minhas costas, pronto para ir para qualquer outro lugar, quando trombei em alguém. Trombar, em si, não era algo incomum, a coisa anormal ali era com quem eu havia trombado. Minha expressão se fechou e um rosnado cresceu no meu peito.
Jacob Black
Ok, vamos ser um pouco sensatos. Jacob era apenas um garoto que havia vindo para a cidade errada, entrado para a escola errada e, acima de tudo, se aproximado da garota errada. O que já eram motivos o suficientes. Era difícil admitir isso, e compreendo o estrago que esse pensamento trará para a minha alma e mente, contudo, eu não podia mais negar: Bella era a minha garota. E cada batida fora de ritmo do meu coração a tanto tempo morto, provava isso.
Talvez a minha existência não foi imposta para eu segui-la sozinha, talvez o meu caminho até ali tenha sido solitário para apenas encontrá-la. A minha Guerreira. E eu estava satisfeito com isso.
– Onde Bella está? – Perguntei de forma rude, controlando a fera dentro de mim.
– Bells esta lá na sala – “Bells”. “Bells”. “Bells”. Aquele apelido tosco dado para a MINHA garota rodava a minha cabeça. Se antes estava difícil de me controlar, agora era praticamente impossível.
Meu rosnado fugiu da minha garganta.
Enquanto eu olhava para cima, encarando aqueles malditos olhos pretos, a minha visão captou uma grande movimentação. Olhei por cima do ombro do indígena e vi uma mulher rodeada de humanos que exalavam testosterona por todos os poros. Ela estava linda e vulgar. O seu vestido preto curto e colado vibrava por ter o prazer de contornar aquele corpo, seu cabelos estavam soltos, dando-lhe um ar selvagem, saltos incrivelmente altos estavam nos seus pés. Ela parecia uma Deusa.
Uma Deusa Guerreira.
Sabe aquela sensação de que você conhece uma pessoa, mas não se lembra da onde? O sentimento horrível de culpa por não se lembrar dela é esmagador. Eu estava sentindo aquilo naquele momento. Eu conhecia aquela mulher incrível em cima da mesa, mas não sabia de onde. Teoricamente, o seu nome deveria ser Isabella Swan. Poderia até ser, mas nunca, nunca mesmo, aquela humana seria a doce, forte e meiga Bella. A minha Bella.
Quando dei por mim, eu já estava jogando os humanos para todos os lados, abrindo um caminho a força. Minha meta era chegar aos pés da mesa e tira-la de lá com toda a imposição de um vampiro. O que eu não esperava era ficar preso ao seu encanto quanto qualquer outro humano daquela sala. Porque ela tinha de ser tão linda? E era com os meus pensamentos tentando entender o que diabos aquela garota havia feito comigo, quando eu finalmente encontrei os seus outrora brilhantes olhos castanhos.
O pânico me deu um abraço de urso, tão poderoso quanto qualquer abraço com força total do Emmett em uma criança humana. Foi... Esmagador. Muitas pessoas naquela situação entram em estado de choque, não conseguindo mexer um músculo sequer, ou, até mesmo, lembrar-se do nome da própria mãe. A minha situação foi ao contrario. Disparei na direção da Bella, vários e incompreensíveis pensamentos rodavam a minha cabeça, mas tudo o que eu consegui captar entre pequenos fleches de consciência, era: Salve-a. Não importava do que, ou de quem. Salve-a. Era tudo o que eu precisava fazer.
E foi tudo o que eu fiz.
Ou tentei.
Em algum momento eu tentei achar cômica a minha situação: Eu carregando uma Bella que se debatia furiosamente sobre o meu ombro. Exatamente da maneira que eu imaginei que um herói faria. O problema era que em qualquer dia normal a minha guerreira nunca deixaria ser carregada daquela maneira. Eu sabia disso, e o fato de eu conseguir tal feito me dava mais medo do que orgulho.
Os humanos abriram caminho para eu passar. Suas expressões transitavam entre espanto e descrença. Isso para os que ainda não haviam desmaiado graças à quantidade de bebida alcoólica ingerida. Encaminhei-me para a porta da frente, mas o que eu não esperava era que a poucos metros para chegar a ela estivessem bloqueados.
E que esse bloqueio se chamasse Jacob Black.
– Saia da minha frente – A música antes tão estridente agora estava desligada, todos prestavam a atenção ao nosso confronto verbal. Nosso confronto ainda verbal.
– Aonde você pensa que vai com ela? – Ele ignorou a minha ordem. Se eu poderia ficar ainda mais com raiva, foi naquele instante.
– Não te interessa. SAIA DA MINHA FRENTE! – A minha mistura de berro com rugido assustou boa parte dos humanos ali presentes. O problema foi que o único o qual precisava se assustar não se assustou.
– Solte-a – Sua voz era baixa e raivosa. Me lembrou de uma granada quando soltada. Calma e silenciosa antes de explodir e causar diversos estragos. – Ou eu irei quebrar osso por osso seu antes de queimar parte por parte. – Certo, aquilo funcionou. Havia a possibilidade de esse indígena saber que eu era um vampiro, ou aquela era apenas outra ameaça “padrão”?
– Para isso você terá que me pegar – Eu poderia estar rodado de dúvidas dentro de mim, mas eu nunca, nunca mesmo, demonstraria fraqueza perante o inimigo.
Então ele sorriu igual a uma criança mal criada que ganha um brinquedo novo para ela destruir. Deu um passo a frente. Foi nesse exato instante que fortes batidas na grande porta de madeira importada da casa da Bella se fez presente. Todos, menos eu e Jacob, se viraram momentamente para a mesma direção. No fundo todos já sabiam o que era antes mesmo de um aluno mediando cheio de sardas dirigir-se ao olho-mágico e gritar, numa voz surpreendentemente grossa:
– É os tira, negada!
Pandemônio era uma palavra pobre para descrever o que houve naquele momento. Adolescentes aterrorizados correram para a porta dos fundos. Gritos de “Meu pai não sabe que eu estou aqui!” ou de “Minha mãe vai me matar se descobrir isso!” entre outras coisas assim, eram ouvidos no meio de toda aquela corrida desesperada. Se eu ainda não estivesse tão concentrado em fixar o olhar no garoto indígena, eu teria sentindo até uma pequena pontada de dó daqueles que não conseguiam nem sair do lugar de tão bêbados e desorientados que estavam.
– ABRA A PORTA, OU ARROMBAREMOS! – Eu e Jacob, os únicos conscientes da casa, escutamos a ordem vinda de algum guarda estressado por ter de sair da cama às duas horas da manhã para atender uma ocorrência sobre adolescentes desordeiros.
Passaram-se exatos 2 segundos para então o garoto indígena rosnar e destravar os ombros.
– Você me paga – Praticamente cuspiu em mim suas palavras. Sem medo de eu atacá-lo pelas as costas, se dirigiu para a porta dos fundos, a mesma rota de fuga dos outros adolescentes.
– Quando mais rápido vier, maior é a gorjeta – Trocamos um ultimo olhar gélido e raivoso. Então ele sumiu na escuridão e houve outra batida na porta.
Pensei tão rápido quanto só um vampiro conseguiria.
A primeira coisa que eu notei após a saída de Jacob, foi que Bella não gritava ou se movia mais, tirei-a, desesperado, daquela posição rústica e a segurei no meu colo. O som da sua respiração tirou um peso do meu peito. A deitei no sofá, numa posição em que parecesse que ela estava apenas dormindo devido ao cansaço.
Ok. Agora faltam os outros humanos. Movi-me na minha velocidade vampiresca e puxei todos para trás da escada. Os arrumei da melhor forma que a pressa permitiu e fui atender a porta rezando internamente para que nenhum dos idiotas acordasse dos seus sonhos alcoólicos. Dei uma última olhada para a minha guerreira e entrei no hall.
Eu não esperava, ao girar a maçaneta e abrir a porta, encontrar dois humanos tão diferentes. Enquanto um media uns bons 2,15m e era magro, tendo só o mínimo de gordura que um corpo precisaria para se locomover, o outro possuía 1,50m — no máximo -, e pesava, de uma maneira que deveria ser impossível para um corpo daquele tamanho, uns 100 quilos muito mal distribuídos.
Tentei imaginar o quanto de piadas aqueles dois não deveriam ouvir todos os dias.
– Boa noite, senhores, eu posso ajudá-los? – Uma dica para todos: A educação sempre te ajudará. Esteja onde você estiver, fazendo o que for.
– Recebemos uma reclamação devido ao alto barulho vindo desse local. – Franzi o cenho diante das palavras de timbre grosso vindo do policial alto.
– Mas a casa da minha família é a única vizinha. E eu tenho certeza que foi nenhum familiar meu que ligaste para a polícia, senhor – Dúvidas preenchiam a minha cabeça. Quem poderia ter ligado?
– Então você não mora aqui? – Ergueu a sobrancelha o policial baixinho. Sua voz era baixa e tensa, quase um sussurro. – Onde estão os donos da casa? –
– Aqui mora a minha amiga – Estávamos entrando em um terreno perigoso. Tudo poderia ir abaixo se fosse feito uma única pergunta.
– E onde ela está? – E é claro que ela foi feita.
– Ela está... – Tentei pensar em uma desculpa boa o suficiente para não deixar espaços para dúvidas. Mas tudo o que vinha na minha cabeça parecia ter mais buracos do que uma estrada em um país de terceiro mundo.
– Eu estou aqui – Do nada, sim, do nada, Bella surgiu ao meu lado. Deu um dos seus raros grandes sorrisos para os humanos e esperou paciente as reações perante a sua entrada repentina.
Se fosse outra situação, eu teria achado graça dos humanos hipnotizados com o sorriso de Bella. Mas não agora, não depois de eu ver a alma da minha garota sumir e outra a possuir no seu lugar, como se fosse um botão de liga e desliga no poder de um maluco. Um maluco que poderia ter planos contra todos nós.
– Eu poderia ajudá-los? – Sua voz dócil os tirou dos seus tupores. E me colocou em um.
– Nós... nós... música... reclamação – Ainda olhando para o rosto da minha guerreira, eu observei um lampejo de tédio brilhar nos seus olhos, enquanto uma sobrancelha sua se arqueava. Pisquei e voltei ao mundo. Aquela sim, era a minha Bella.
– Os senhores devem estar falando sobre a música alta. Estou certa? – Um sorriso doce brincou no seu rosto quando ela viu uma leve assentida de cabeça vinda do policial maior. – Não se preocupem, a festa já terminou e não voltará a se repetir.
Silêncio. – Ah, e me desculpem por incomodá-los a essa hora. Suas esposas devem os estar esperando. Eu sinto muito, mesmo. – Me peguei também acreditando em suas desculpas tanto quanto os humanos. Balancei a cabeça. E finalmente entendi o que ela tentava fazer: induzi-los a ir embora sem fazerem pergunta alguma, pois nem ela, ou eu, saberíamos responde-las.
– Está tudo... – Um pigarro – tudo bem. Vocês são jovens, tem de viver – Uma piscada. O cara maior enfim voltou ao mundo. Tocou no ombro do seu colega, quase tendo de se abaixar. – Vamos embora, Julius? –
– Ok. – O humano menor pronunciou com a sua voz rouca. Seu olhar ainda em Bella. – Vai indo na frente que eu vou fazer só mais algumas perguntas para colocar no relatório.
Ouvimos um murmúrio de concordância do policial maior e o vimos se dirigir ao precário carro de policia. Evitei trocar um olhar culpado com Bella, e junto dela, apenas observei aquelas mãos rechonchudas pegar um bloquinho e começar a anotar algo lá.
Como sempre, entrei na mente do humano e “li” o que ele escrevia no pequeno pedaço de papel, sua letra não era a das melhores, mas a mensagem era clara:
Mate o seu inimigo, antes que ele mate a todos.
Percebi que as mãos da minha guerreira tremiam ao pegar o papel. Agora não pudemos evitar trocar um olhar tenso. Ele sabia. O humano talvez soubesse de coisas que até mesmo nós não sabíamos. Encarou Bella nos olhos e se virou, voltando para o seu carro. As luzes do automóvel lentamente se afastaram, mas continuamos ali, na soleira da porta, com vários carros abandonados na nossa frente e o frio da madrugada nos saudando.
Eu não sabia ao certo o que eu estava fazendo, e sabia que se parasse pra pensar, talvez eu não tivesse erguido o meu braço. Contudo, eu o ergui e, confiante, abracei os ombros da minha garota. Eu tinha um pouco de medo dela voltar a me rejeitar, mas eu precisava tentar.
Tum. Tum. Tum. .......... Tum. Tum. Tum.
Se eu ainda fosse humano, o meu coração teria feito exatamente isso: uma parada que deveria ser fatal para qualquer pessoa, mas que não era. Graças a algo não era. Pois se fosse, eu não teria a chance de ver a minha Bella se virar para mim e abraçar a minha cintura, escondendo sua cabeça no meu peito. Ela me abraçava forte, como se estivesse com medo que eu fosse fugir, confesso: doía um pouco, contudo, nem por isso era menos agradável, menos esplêndido.
Pois eu sabia que a partir dali nós não teríamos mais volta.
– Eu estou com medo, Edward – Sussurrou e eu mal consegui ouvir.
– Eu também. Mas vamos enfrentar isso juntos. Entendeu? Juntos. – Apertei um pouco meus braços em redor dela e beijei o topo de sua cabeça.
Mandei um olhar ameaçador para a escuridão ao nosso redor, desafiando qualquer um a incomodá-la novamente, então a guiei para dentro da sua casa. Sentei Bella no sofá ao meu lado, de um jeito que a sua cabeça se recostasse no meu ombro, dando espaço para que o meu braço pudesse a circundá-la.
– O que vamos fazer, Edward? – Sua voz ainda era um sussurro, como se estivesse com de medo de que alguém pudesse estar nos escutando. E talvez estivesse.
– Vamos seguir o conselho daquele policial. – Nossos olhos se encontraram. E completei a minha fala sentindo uma espécie de fogo queimando na minha barriga. O fogo da vingança.
– Iremos matar esse desgraçado.
Ficamos em silêncio por algum tempo, nossas mentes trabalhando para encontrar um plano que de tão bom, se tornaria perfeito. Mas eu sabia que nós não o encontraríamos, não com todo esse estresse em nosso corpo e cabeça.
– Acho melhor você ir dormir – Quebrei o silêncio.
– Não sei se vou conseguir – Sua voz alquebrada me fez me sentir um inútil.
– Eu estarei aqui. Passarei a noite toda ao seu lado. Se quiser, até cantarei um musical inteiro da Broadway para você. – Apertei o meu abraço.
– Um musical inteiro, hum? – Seu tom era risonho
– O seu predileto – Confirmei.
– Sabe, eu dispenso o musical. Mas ficarei feliz com uma cantiga de ninar – Nos levantamos ainda juntos. Humanos não seriam fisicamente capazes de realizar aquela proeza, mas quem quer saber de humanos mesmo?
Encaminhamos-nos para a escada, mas antes de subir na mesma, ouvi a minha guerreira rosnar um palavrão e chutar os seus sapatos de salto para o infinito e além, como diria aquele brinquedo.
– Que sapatos de Ades! – Ri de sua expressão zangada.
– Mas cá entre nós, eu realmente gostei do vestido – Olhei descaradamente para as suas pernas expostas.
– Edward! – Deu um tapa no meu braço, mas logo começou a rir também.
E, céus, como eu gostava daquele som.
– Eu estava muito fora de mim para usar esse pedaço de pano – Comentou quando finalmente começamos a subir as escadas.
– Se você não gosta dele, porque o tinha em seu armário? – Franzi o cenho, confuso.
– Mas esse vestido não é meu – Paramos exatamente ao mesmo tempo, com os músculos já preparados para o próximo movimento, mas sem mover.
– Você está pensando o mesmo do que eu? – Indaguei, e o sorriso de esperança que eu recebi foi resposta o suficiente.
– Eu procuro no banheiro, você no quarto – Suas palavras mal saíram da sua boca e já corríamos e rompíamos no seu grande e simples aposento.
Eu meio que me joguei no chão enquanto olhava debaixo da sua cama, e em milésimos de segundos já corria em volta do quarto inteiro, meus olhos, mais desenvolvidos e capazes do que qualquer globo ocular humano, esquadrilhavam todo e qualquer centímetro daquele cômodo. Na mesma afobação do que eu, Bella procurava em seu banheiro, em algum instante eu até escutei algo se quebrar lá dentro, mas não perdi o meu tempo tentando saber o que estava acontecendo.
Desesperado por não encontrar nada, saltei para cima do guarda-roupa da minha garota, tive uma boa visão aérea do cômodo, mas o que eu procurava não estava ali, inferno, poderia nem existir o que estávamos procurando! Encostei a cabeça na parede atrás de mim. O que faríamos agora? As pessoas falam que há coisas piores na vida, mas se sentir impotente deve estar lá no topo também, porque era isso o que eu estava sentindo agora e se eu produzisse lágrimas talvez as estivesse segurando para não derramá-las.
O que faríamos agora?
Eu não consegui salvar a pessoa que era mais importante na minha vida quando era humano, e agora, como vampiro, também estava falhando. Então esse era o meu destino? Fracassar e ficar sozinho? E de repente todas aquelas coisas ruins dentro do meu peito desapareceram num estalar de dedos, toda a escuridão espantada por um raio de sol, pelo o meu raio de sol.
Seu vestido estava torto, o seu cabelo bagunçado, mas o seu sorriso, o seu mais do que enorme sorriso, escondeu tudo aquilo, escondeu que ela era um foragida, escondeu que eu era um vampiro condenado e escondeu que talvez nós dois estivéssemos arruinados. Posso afirmar com toda a certeza que a minha existência de merda valeu a pena só por conhecer aquela garota e ter aquele sorriso dirigido a mim. E pelo o resto da minha vida eu lembraria daquela cena: uma garota como o braço erguido de forma triunfante, em sua mão um pedaço retangular de madeira, e, acima de tudo, da alegria estampada no rosto daquela foragida guerreira.
POV/NARRADOR
– Você conseguiu! – O vampiro pulou de onde estava, mal aterrissou e já pegava Bella nos braços. A girou pelo quarto, sua risada se misturando com a dela.
– Não, nós conseguimos – Bella pronunciou-se depois de ter os seus pés novamente em solo firme. Sorriram um para outro. De um lado uma foragida atormentada pelo o passado e obrigada a seguir o seu caminho sozinha, do outro um vampiro prejudicado pelo o destino, torturado pelas as coisas que fez e pela às que teme que faça. As chances de se encontrarem pela a passagem da vida? Quase nulas. Mas do que as estatísticas importam? Eles se encontraram. E ponto.
E foi naquele momento, enquanto o silencio reinava e os sorrisos lentamente sumiam, que os dois entenderam o porquê de sofrerem tudo o que sofreram, ele compreenderam que tudo aquilo foi uma espécie de preparação, para que quando chegasse o momento em que estão tendo, tudo estivesse em seu devido lugar. Que tudo estivesse certo. Mal se conheciam, mas se compreendiam. Quantas pessoas não se matariam para ter aquilo? Se soubesse o preço que teriam que pagar, talvez repensassem em sua escolha. Mas aquele vampiro e aquela foragida pagaram, e foi olhando para o rosto um do outro que receberam o seu premio: um amigo, um aliado. Alguém para caminhar ao seu lado por todo o percurso que ainda tivesse de percorrer.
E aquilo era mais do que suficiente para aqueles dois corações solitários.
Olhos foram desviados, corações dispararam. Não sabiam o que sentiam, não sabiam o que fazer com o que sentiam. Não estavam preparados para aquilo. Derrotar exércitos? Fácil. Ser imortal? Mais fácil ainda. Olhar nos olhos da pessoa na sua frente? Impossível, ao menos naquele momento.
– Hum, ah, de qual loja o vestido veio? – Edward passou a mão em seus cabelos, um típico ato de nervosismo. Onde estava o cara que acabara de abraçá-la e a rodá-la pelo o quarto?
– O que? – A foragida tinha um olhar perdido, lentamente as coisas foram novamente entrando na sua cabeça. Igual a um download de algo pesado. – Ah, sim! O vestido... Deixa-me ver... Aqui só tem um nome: Hawkins. Então presumo que o nome da loja seja Hawkins – Concordou consigo própria. Download concluído com sucesso.
– Eu vou ligar para a Alice, para ver se ela conhece. – O vampiro levou a mão ao seu bolso, mas só encontrou o vazio. – Acho que perdi o meu celular – Sua testa franziu, tentando imaginar onde o teria deixado.
– Sobre isso... – A voz culpada de Bella o fez olhá-la com a sobrancelha arqueada. – Bem, ele ta aqui – Deixando agora as duas sobrancelhas no topo de sua cabeça, Edward viu a foragida tirar o seu aparelho prateado de dentro do seu decote.
– Devo esperar uma explicação? – Perguntou quando tinha novamente o seu celular em mãos. Evitou pensar no local onde o seu aparelho estava.
– Eu peguei emprestado para ligar para a polícia – E um sorriso amarelo. Bella estava satisfeita apenas com essas informações dadas.
– Por que raios você ligou para a polícia? – Não, as poucas informações não tinham sido o suficiente.
– Porque eu estava como medo de você acabar com o Jacob e se expor para todas aquelas pessoas. – A Arma X torceu as mãos. – Olha, eu não sei o que aconteceu, tudo o que eu lembro era de acordar de cabeça para baixo, olhando para as suas costas e de escutar a sua voz e a do Jake discutindo. Eu precisava fazer algo. Então tirei o seu celular do seu bolso, liguei para a polícia e o guardei comigo caso eu precisasse ligar para outro lugar, tipo para a emergência. Mas então... Sei lá... Alguma coisa aconteceu. Algo quis entrar na minha cabeça, talvez a mesma coisa que vem entrando continuamente. Eu tentei lutar, não permitir que me controlasse tão facilmente. Daí eu apaguei e acordei de uma vez, como se algo dentro de mim dissesse: Você precisa sair dessa escuridão. Então me levantei e você sabe o resto. – Edward teve um vislumbre do medo crescendo dentro da foragida, saindo pela a sua voz e se derramando no meio daqueles olhos castanhos.
– Hey, olha para mim – Pediu calmamente – Bella, olhe para mim – Segurou o queixo da sua garota e o ergueu – Está tudo bem. Nós vamos pegar esse cara, mas antes você tem que confiar em mim. Entendeu? –
– E se nós não conseguirmos pegá-lo? – A voz da foragida não passava de um sussurro.
– Nós vamos pegá-lo. Não duvide disso nem por um segundo – As palavras saíram num tom forte e seguro da boca do vampiro. Ele havia de certa forma acabado de fazer uma promessa para ela, e ele iria cumpri-la. Com toda a certeza ele iria.
– Porque você não vai tomando um banho e se arruma para ir dormir? Enquanto isso eu ligo para a Alice e vejo o que podemos fazer. – O vampiro assumiu as rédeas da situação.
– Ok. Não vou demorar, eu prometo. – Bella mostrou um sorriso sem dentes. Ela sabia que a coisa estava pior do que achava, afinal, quando é que foi a última vez que se deixou ser guiada? Tentava não se apegar muito a isso, mas era tão reconfortante ter alguém “vigiando as suas costas”. Duas mãos extras, que ajudassem a bater, tanto quanto ajudassem a segurá-la.
O vampiro escutava o som do chuveiro ligado enquanto se sentava na cama da sua garota, seu telefone em mãos. Digitou os números que a sua memória vampira nunca deixaria esquecer, esperou exatos 2 toques e soltou os ombros ao escutar a animada voz da sua irmã.
– Olá, maninho! – Ele podia “ver” o sorriso da gnomo em sua voz – Achei que você nunca iria ligar, já estava até cansada. Sabe, eu acho que as minhas visões deveriam ter um relogiozinho no canto da tela, e um calendário, com certeza um calendário. As coisas seriam tão mais fáceis, né? Porque então eu saberia o momento certo que tudo iria acontecer. Imagina a emoção de esperar atrás de uma porta e então romper para dentro dela no segundo exato?! As pessoas me chamariam de Super Alice. Ai, que emoção! Eu até imagino as roupas que eu vestiria. Dourado seria a principal, se bem que o preto também é bastante elegante, mas daí eu teria que... – As palavras se derramavam da boca da pequena vampira.
– Alice, não querendo ser indelicado, mas você poderia fechar essa boca e me escutar? – Escutou o bufo da sua irmã, mas não palavras, graças a algo, não palavras.
– Você conhece alguma loja de roupas chamada Hawkins? – Achou o seu ato bobo, mas cruzou os dedos.
– Qual evento beneficente bilionário você pretende ir? – A surpresa esta tanto na voz da vampira Alice quanto no rosto do seu irmão Edward
– Eu não entendi, Alice – Por um segundo até achou que a gnomo estaria brincando com ele.
– Bem, porque para comprar com esse estilista só existe um requisito: Ser de bilionário para cima. Marcar uma hora é praticamente impossível. Até para eu, que sou eu, tive um pouco de dificuldade para conseguir pisar lá dentro. Peças exclusivíssimas e sigilosas. Só um evento super ultra mega importante estaria ao nível de uma das suas peças. – Agora o vampiro tinha as sobrancelhas no topo da cabeça. O que raios algo tão caro quanto aquele vestido estaria fazendo em Forks? Poderia fazer inúmeras perguntas para Alice, poderia ter até tirado sarro do seu “estilista famoso”, mas tudo o que disse foi:
– Eu quero que você marque uma hora lá para Bella e eu.
– Irmãozinho, você escutou alguma palavra do que eu falei? – O tom da gnomo ficou um pouco mais sério, mais preocupado.
– Escutei sim, Alice – Edward ergueu a cabeça quando escutou a água do chuveiro cessar.
– Então você tem ciência que pode demorar semanas, até meses para eu conseguir um horário, não é? Isso se eu conseguir. – A vampira não gostava de decepcionar os outros, mas tinha coisas que nem ela conseguia controlar.
– Eu preciso de um horário para amanhã. – Ela não pôde conter a risada diante das palavras do seu irmão.
– Mas é impossível! – Começou a se exasperar.
– Não para ti. Eu confio em você, Alice. E sei que você consegue, afinal, você não é a “Super Alice!”?– Brincou com o nome que a sua irmã havia se posto.
– Eu acho que sou. Mas se eu conseguir. Ouviu bem o meu “se”? Então, SE eu conseguir, você irá me dever um enorme favor, o maior de todos. Combinado? – Dever algo para a gnomo nunca era algo bom, mas não hesitou um segundo em dizer:
– Combinado.
Desligou o seu celular após se despedir da sua irritante e amável irmã de criação, então se ergueu a tempo de ver a sua garota sair do banheiro já com um pijama azul claro, de calça comprida e mangas longas. Seu cabelo ainda úmido e no rosto um sorriso tímido.
Adorável.
– Eu falei com a Alice. Ela disse que tentaria conseguir um horário para nós nessa loja. – Soltou logo de cara.
– Eu preciso agradecer ela. – Afirmou pra si própria. Sentou-se na cama e logo Edward estava do seu lado. A observou tirar a etiqueta do bolso do seu pijama, só agora o vampiro havia reparado naquele pedaço de madeira.
Tinha uns 8 centímetros de comprimento por 5 de largura, parecia pesado, na sua superfície, em letras douradas, estava entalhado a palavra Hawkins. Caro e bem feito. Isso só pela etiqueta. Voltou a pensar nas palavras da sua irmã. E se ela realmente não conseguisse? Tratou logo de esquecer aquele assunto por hora. Delicadamente tirou o objeto das mãos da foragida.
– Você precisa dormir – Anunciou de forma doce.
Um suspiro – Eu sei. – A Arma X encolheu os ombros e foi escorregando até estar deitada e com o seu cobertor sobre o seu corpo. Sentiu-se sem sono. – Você não ia cantar uma música para mim? – Tinha um sorriso de criança no rosto
– Quer escolher uma? – Edward se aproximou da cama e se sentou na beirada, virado para ela.
– Na verdade não, eu confio na sua escolha – Se aconchegou ainda mais em seu confortável ninho.
A foragida fechou os seus olhos quando os primeiros versos saíram da boca do seu Sonhador. Estava cansada, mas não mais com medo, não com ele ali. A música acabara e agora soava no ar um leve murmúrio ritmado e reconfortante. Sentiu as garras do sono lentamente se aproximando de si, estava apagando, sabia disso, mas precisava saber de uma única coisa antes de se entregar:
– Vai estar aqui de manhã, quando eu acordar? –
– Serei a primeira coisa que os seus olhos verão – Bella sorriu com a resposta. O passado finalmente estava ficando para trás, pois não se sentia mais como aquela garota desesperada, se sentia agora como a mulher mais sortuda do mundo, sortuda apenas por ter Edward. O que já era mais do suficiente. Entregou-se ao sono se lembrando do conselho de Jacob, e soube, no seu ultimo pensamento, que o vampiro ao seu lado era o seu motivo. Seu motivo para continuar em frente.
Edward tirou os castanhos cabelos da frente do rosto da sua garota a muito adormecida. Sua respiração calma ressonava por todo o quarto, um anjo de olhos fechados e sem asas. Observou-a se aconchegar mais perto de sua mão, sorriu como nunca sorriu e então tentou imaginar com o que ela estava a sonhar. Seria com o futuro? Seria com o passado?
Seria com ele?
Poderia não saber com o que a sua garota sonhava, mas tinha a certeza que se sonhasse, sonharia com ela. Tentou entender como fora se meter naquilo tudo. Até um mês atrás achava que vampiros eram a coisa mais repugnante do mundo, que estavam no topo da lista das criaturas cruéis. Mas Bella mostrara que estava errado. Também achava que os humanos eram inocentes até certo ponto, que eles nunca atravessariam a barreira do sobrenatural. Novamente, Bella o mostrou que estava errado. Bella...
Bella!
E ainda por cima havia essa garota com coragem o suficiente para confiar em um vampiro ao ponto de dormir não uma, mas duas vezes na sua presença. Confiar ao ponto de contar sobre os seus segredos, suas fraquezas e seus inimigos. Por quê? Por que ele? Sabia que ela era talvez mais perigosa do que si próprio, mas como acreditar nisso vendo aquele pequeno rosto murmurando coisas inteligíveis enquanto dorme, enquanto sonha?
Um anjo com o destino de uma guerreira.
Tentou imaginar como seria voltar para a vida que tinha antes de conhecê-la. Não conseguiu, doeu até. Se uma pessoa, vampiro, ou qualquer outra coisa lhe dissesse que estaria, em algum momento da sua existência, no quarto de uma garota, vendo-a dormir enquanto acaricia os seus cabelos, teria rido. E rido com muito gosto. O que era impossível finalmente acontecera. E o que viria dali para frente? Mais impossibilidades possíveis? Talvez sim, talvez não. Nada mais tinha importância, não quando o presente já se mostrava quase perfeito. Porque ela havia se tornado o seu motivo para existir.
Traçou levemente o rosto da foragida com a ponta dos dedos e soube que, se ela permitisse, nunca a deixaria.
Nunca.
...
Sentado na beira da estrada, o homem fazia um leve carinho no bicho amedrontado que tinha em sua frente, havia sido fácil pegá-lo, e agora era só esperar. Observou melhor o animal, era um cervo, pequeno para a sua espécie, talvez fosse um filhote. Ele não se importava.
Seus olhos voltaram-se para a floresta mais a sua frente, conseguia ver tudo o que tinha nela, desde as folhas à aos pequeníssimos insetos que permaneciam na mesma, estava tudo tão parado, que logo a sua mente distraída voltou-se para os joguinhos que tinha feito em cima do seu alvo. Não gostou de como aquele garoto tentou se aproximar dela, então logo tomou conta da mente da foragia. Algo divertido, concluiu depois.
Algo muito divertido.
Sua mente voltou para o presente ao ver as luzes de um carro. Estavam longe, mas já era hora de por o seu outro plano em prática. Gostava desse tipo de missão: eliminação de testemunhas. Ficou de pé, não se importando com a sujeira que se instalara em sua roupa, e se preparou para o momento exato.
Sorriu quando este chegou. Deu um tapa no cervo amedrontado e o deixou livre para fugir. Pena que a sua rota de fuga seria logo interceptada por um carro ultrapassado. Sorriu ao ouvir os gritos agudos dos freios do veículo, então continuou assistir quando esse mesmo, para desviar do animal, guiou o carro para dentro da floresta, parando bem a tempo de não bater em uma árvore.
O homem, já satisfeito da cena que vira, saiu de dentro das sombras e caminhou lentamente para o carro a centímetros daquela gigante planta. Olhou para àquelas pessoas atordoadas dentro do veiculo e sorriu diante do que teria logo que fazer. Teria sido melhor para elas terem morrido com a batida, mas fazer o que? Iriam morrer pela as suas mãos. Era a obra do destino, nada mais.
Rodeou o carro e olhou para a placa, decorou o que viu, tudo na intenção de por em seu relatório mais tarde, explicando os motivos, os justificáveis motivos. Então ergueu o pé e deu um leve chute na traseira do carro, apenas um leve empurrãozinho. Gargalhou ao ver o motor fundindo no tronco da arvore, gargalhou pelo o barulho, gargalhou pelos os gritos de surpresa e agonia.
Gargalhou pelas as mortes que provavelmente causara.
Caminhou mais um pouco e olhou pelo o vidro trincado do motorista. Achou até um pouco fácil de mais fazer aquele sangue escorrer pela a cabeça daquele homem como conseguira fazer. Matar humanos era tão fácil que chegava a ser entediante. Olhou para o seu carona, que agora tinha a cabeça tombada para o lado devido ao pescoço quebrado.
Apurou o ouvido, tentando escutar se algum coração ainda insistia em bater, mas tudo o que escutou foi o correr de um animal muito ao longe, provavelmente o de um cervo. Sorriu, satisfeito com o seu trabalho, e mandou um ultimo olhar para as suas vitimas antes de virar as costas e sair dali. Pensou em como as manchetes retratariam aquilo no dia seguinte: “Trágico acidente mata policiais locais”.
Riu ao tentar imaginar a explicação que os humanos teriam, talvez lesse, e assim saberia até o nome daquela dupla de humanos: um muito alto e magro, enquanto o outro se mostrava baixinho e gordo. Concluiu que a genética humana às vezes era bizarra.
Mas o isso importava? Já que ser um ser humano era algo que não era.
Não mais.
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