A Filha de Zeus

11 Capítulo 11 – Lembranças ruins


Minha mãe não deixou nos sairmos da casa até eu arrumar uma mala com um monte de roupa minha. Quando falamos que tínhamos roubado o carro da vizinha minha mãe teve um chilique. Ela disse para abandonar o carro em um mato que tinha ali perto e pegar o carro deles.

Me despedi de meus pais e Dylan também.

– Escutem. Vocês vão vir nos visitar todo dia que puderem, e mandar aquelas mensagens de Iris também.

– Sim, mãe.

– E não fuja mais do acampamento sem avisar ninguém. Agora você tem um irmão, ele pode ficar preocupado.

– Sim, mãe.

– E nada de sair em missões perigosas, se alimenta bem.

– Sim, mãe. Já podemos ir?

– Escute Dylan, não chateie a minha filha, se não vou quebrar sua cara. – meu pai disse para Dylan.

– Pai! Tchau!

Viajamos por umas três horas até pararmos em uma cidadezinha para descansarmos um pouco. Estacionamos o carro em frente a um mercado e caminhamos até achar uma lanchonete.

– Onde estamos? – perguntei.

– Monorville.

Aquele nome era familiar. Talvez alguma lembrança minha. Entramos na lanchonete. Sem sinal de monstros. Comemos um donuts de chocolate com refrigerante.

Então quando eu estava quase terminando meu donuts eu lembrei porque aquele nome me parecia familiar. A mãe de Dylan morava em Monorville. Ele havia me falado quando contou sobre ela. Falou a rua e o número da casa.

– Então. Eu posso dirigir um pouco quando voltarmos? Só pela cidade mesmo.

Ele assentiu com a boca cheia de açúcar.

– O que foi? – perguntou.

Eu dei risada peguei o guardanapo e limpei sua boca. Eu já havia praticado um pouco com o carro do meu pai. Afinal eu iria fazer 16 anos e queria tirar a carteira de motorista, mas aí tudo isso aconteceu.

Liguei o GPS do carro. Dylan ficou olhando pela janela e nem percebeu quando paramos em frente a sua antiga casa.

– Porque parou? – perguntou.

A casa era de madeira branca e tinha um jardim morto, que algum dia já havia sido bonito. Uma mulher que deveria ter uns 49 anos, mas aparentava uns 59, estava sentada em uma cadeira de rodas fazendo um crochê.

Eu apontei para casa. Aquela cena era deprimente. Dylan olhou agora atentamente.

– Mãe... – disse.

Achei que ele ficou feliz em ver a mãe, mas quando se virou para min gritou:

– Porque você fez isso?

– Dylan.

– Não tem nada de Dylan agora Alice. Eu disse que não queria vê-la.

– Eu queria ajudar.

– Ajudar? Eu a havia esquecido! Era para ser uma lembrança ruim!

Dylan havia me ajudado a procurar a resposta da minha vida. E agora eu iria fazer ele resolver as coisas, ele querendo ou não.

– Escuta aqui Dylan Miller. Eu te fiz um favor, e acho que pelo menos um pouco de consideração você deveria ter. Por mais que ela tenha feito aquilo com você ela é SUA MÃE! Você me ajudou a resolver as coisas com a minha família, agora vá resolver sua vida! Senão vai ser esse Dylan amargurado com uma infância terrível.

Ele ficou me encarando por alguns minutos. Eu abri a porta do carro dei a volta e fui para sua porta.

– Vai ficar aí, ou vai tomar uma atitude? – perguntei colocando a cabeça no vidro do carro.

Ele ficou um pouco pensando e depois abriu a porta do carro.

– Acho que ver como ela está não vai mudar nada.

E estiquei a mão, ele colocou a dele sobre a minha e fechou. Subimos as escadas da casa de mãos dadas.

– Sra. Miller? – Dylan chamou.

A mulher olhou para cima.

– Não quero comprar nada. – disse secamente.

Dylan se aproximou do meu ouvido e falou:

– Acho que ela não sabe quem eu sou.

Eu me aproximei dela e me abaixei. Ela cheirava a arroz queimado e solidão.

– Sra. Miller. Nós viemos falar do seu filho Dylan Miller.

– Dylan? Meu filho Dylan? Vocês conhecem ele?

Olhei para Dylan, ele estava atento ao que a mulher falava.

– Sim nós conhecemos.

A mulher largou o crochê e pegou a minha mão. Aquilo me assustou um pouco.

– Por favor menina, fale para ele que eu me arrependo do que eu fiz. Fale que eu me odeio por ter o mandado para fora de casa.

Ela apertou mais minha mão.

– Tudo o que eu mais quero é ver ele novamente e abraça-lo. Mas ele me odeia, ele teve motivos para me odiar. Eu era uma mãe horrível.

Dylan se abaixou ao meu lado. Eu levantei. Dylan passou a mão no rosto da mulher.

– Mãe? – a mulher o olhou nos olhos – Sou eu mãe. Dylan, seu filho.

– Dylan. – ela disse tremendo. – Dylan você voltou? Dylan meu filho.

– Voltei mãe. – a mulher segurou o rosto de Dylan.

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Eu não pude conter as lágrimas também.

– Dylan me perdoe. – disse a mulher.

Eu me apoiei no corrimão da escada, foi então que eu vi um Manticora dobrando a esquina, parecendo farejar alguma coisa. Eu havia o estudado com um filho de Atenas: Manticoras eram criaturas com cabeça de homem, três afiadas fileiras de dentes de tubarão, corpo de leão e uma cauda de escorpião e asas de morcego. Podiam matar qualquer coisa, menos um elefante.

– Dylan, precisamos ir.

Os dois de viraram e viram o que eu estava observando.

– Manticora. – a mulher sibilou.

– Vem mãe, precisamos sair daqui.

Dylan tentou ergue-la mas ela se segurou na cadeira.

– Não filho. Vocês precisam fugir. Não vão conseguir matar aquilo.

– Mãe, vamos levar você. Vem Alice me ajuda.

Eu me aproximei para ajudar mas ela pegou o rosto de Dylan e disse chorando:

– Está na minha hora Dylan. Agora eu vou para os campos Elísios. Vocês precisam fugir.

– Mãe, não. Você não está pensando direito. – Dylan disse segurando o choro.

– Dylan, isso é o que eu tenho mais certeza na vida. Corram.

Eu puxei Dylan pelo braço. O Manticora ainda não tinha nos visto.

– Mãe. Eu te amo.

– Eu também te amo meu filho. E lembre-se eu vou estar sempre com você.

Dylan se soltou do meu braço e abraçou a mãe.

– Se cuida. – ela disse para ele.

Então o Manticora nos viu. Entramos no carro e demos partida. A última coisa que eu vi foi um jato de espinhos acertar a mãe de Dylan.

Depois de mais ou menos uma hora viajando falei a primeira coisa desde que a mãe de Monorville.

– Você quer que eu dirija?

Ele negou.

– Dylan eu sinto muito. – eu disse colocando a mão sobre a sua.

– Não sinta. Ela foi para um lugar melhor. — uma lágrima escorreu pelo seu rosto.