A Filha de Leviatã
1 Prólogo
Quando deito minha cabeça no travesseiro, os sussurros recomeçam mais fortes e tamborilantes do que no resto do dia. Eles encontram conforto em minha natureza receptiva em relação aos mortos. Às vezes sinto um formigamento, um cano frio de uma arma em meu queixo, alguém soltando lufadas brancas de lamúrias, outros mundos ao lado da cama desarrumada.
Minha infância não foi normal. É tudo o que eu tenho a dizer.
Mas esses sussurros antes de dormir não se comparam às vozes que escuto quando passo perto de um rio ou praia. Sim. O marulho aconchega minha audição confortando-a em concha entre suas mãos de aquamarine e quando fecho os olhos, em transe, ele diz “venha”.
Para uma criança de doze anos, isso é meio assustador, então, o que fiz foi fugir a qualquer custo. Sem contato com piscinas, nada de mar. Tudo para fugir das vozes que tanto me desejam. Quando retornam, eu as afasto gentilmente, com um singelo empurrão como se empurrasse uma criança de um lugar perigoso.
Mas todos esses métodos tinham que falhar algum dia.
E vou contar a história a partir desse ponto.
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