– Ellen, preste atenção.

Minha psiquiatra sacudiu o punho moreno na frente dos meus olhos cor de mel. Em resposta reflexiva, pisquei e voltei a mim mesma.

– Sonhando de novo? – ela riu, acostumada.

Eu forcei um sorriso, apertando minha receita médica entre os dedos, desgostosa. “Olanzapina”, pensei. Quando fui pesquisar, era um remédio para esquizofrenia e depressão. Será que Gabriela achava que eu era louca pela minha mediunidade?

Afastei tais pensamentos com uma ajeitada de cabelo.

– Obrigada, Gabi. – agradeci, saindo de meu assento cinza em frente à sua mesa.

Ela retribuiu, mas decidi sair daquele consultório o mais rápido possível que o dito “normal e discreto” poderia oferecer.

Passei pela recepcionista finalizando o processo da consulta e fui para fora.

Meu irmão mais velho me esperava do lado de fora, sentado num banco de madeira no pátio da clínica. Como sempre, ostentava uma posição preguiçosa diante de uma espera.

– Isamu! – chamei, dando um tapa em sua nuca. Ele saltou do banco, balbuciando xingamentos pelo susto. – Vamos, ela passou uma dosagem maior de remédio para mim.

Ele me olhou com desgosto, compartilhando meus sentimentos.

Seu volvo nos esperava debaixo do sol escaldante de Taikara. Eram os melhores dias, em minha opinião: não gostava de chuva. Parecia que cada gota emitia um som e de repente havia um imenso coro preenchendo e alagando a cidade. Houve uma vez que eu estava sentada com Isamu no parque e de repente uma gotícula amarela caiu na grama. Quando olhei para cima, um cordel de água colorida despencou do céu. Ao invés de achar estranho, meus instintos me disseram para levantar e abraçar cada onda do líquido que deixava seu lar, as nuvens. Com muito esforço mental, arrastei-me para um canto seco e dali não olhei para fora. Mais uma fuga.

Olhando apreensivamente para meus tênis All Star surrados, Isamu toca minha coxa, pois sabe que tem algo errado. Ele me conhecia como ninguém e não precisávamos de palavras para nos comunicar.

Exemplo disso foi que acariciei seu dedo indicador descansado sobre o volante duas vezes, um sinal de que eu não tinha gostado do acontecimento anterior.

Seus olhos amendoados encontraram os meus com um brilho que dizia “não falta muito para tudo isso terminar”. Eu queria que aquilo fosse verdade. Queria que todas as coisas que meu irmão dizia se tornassem realidade.

Era nosso costume sempre tomar sorvete na Santa Helena depois de minhas consultas. Eu, com um sorvete de menta, ele, com um de chocolate. Especialmente hoje, nosso clima não era muito bom. Meu estômago dava voltas desagradáveis e Isamu logo percebeu.

– O que foi?

– Quero cancelar meu tratamento. — soltei, engolindo uma grande dose de sorvete sem querer.

Ele franziu a testa, confuso:

– Por quê?

– Não está dando certo. Minhas ondas de tristeza estão vindo mesmo com os remédios... E o mundo inteiro sabe como odeio psiquiatras. – meu estômago pareceu mudar de posição dentro de mim, fazendo-me retorcer a boca tentando conter um gemido descontente.

Isamu aperta minha mão, o que faz com que um calor suba daquele ponto até eriçar minha nuca. Isso me faz lembrar que não somos irmãos de sangue. Que minha mãe casou com seu pai faz dois anos e desde que começamos a morar juntos, nos tornamos inseparáveis. Então, tudo o que mais quero é aninhar-me em seu peito e deixar toda a tristeza causada pela depressão jorrar pelos meus olhos, mas me contenho e me contento em apenas jogar outra montanha de sorvete de menta dentro da minha boca e fingir que está tudo bem.

Quando sua mão se afastou, tive calafrios. Ele a depositou no bolso e logo a tirou de lá, desta vez portando um cordão prateado com um pingente negro. Meus olhos faiscaram.

– É um ônix? – indaguei, animada.

– É sim! – ele a passou pelo meu pescoço, prendendo-a.

– Não acredito! Como? Eu rodei a cidade inteira à procura dessa pedra!

Ao ver meu sorriso, ele sorriu de volta.

– Bem... Digamos que eu mexi alguns pauzinhos... Brenda tem uns contatos.

Fiz uma careta. Brenda era sua melhor amiga. Pelo menos nisso tínhamos que ter algo diferente, eu tinha a Karen nesse posto.

– Muito obrigada! Cara, eu te amo. – falei, segurando a pedra entre os dedos e testando seu brilho contra o sol.

– Também te amo, irmãzinha. – ele beijou a minha testa, carinhoso. O local esquentou em contato com seus lábios, fazendo-me fechar os olhos por alguns instantes.

Depois disso, respeitamos o direito de existência do silêncio e terminamos nossos sorvetes calados.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.