A Filha da Sabedoria
19 O garotinho loiro dos olhos penetrantes
Notas iniciais
Acordo no chão, bem onde adormeci. Estou nua e abraçada com um garoto de cabelos negros, também sem roupas. Ele está adormecido e não deixo de sorrir ao vê-lo assim, e ao perceber a paz que estou sentindo. No súbito silêncio de uma manhã recém nascida.
Respiro fundo. A noite acabou. Já está na hora de eu retomar às minhas responsabilidades.
Levanto-me em silêncio e ponho minhas roupas. Prendo a faca de bronze na cintura e saio da principia em silêncio. Quando passo pela porta os cachorros de Júlio me fitam, mas não rosnam ou latem.
Caminho pelo Acampamento vazio. Está cedo demais para alguém acordar. Seria a hora perfeita para comunicar com o Acampamento Meio-Sangue, mas meus dracmas acabaram. Malditas moedas douradas!
James deve estar organizando-os agora. Ajeitando as armas, os arcos e aprontando um plano de ataque no Bunker 9. Miranda deve estar treinando os campistas para a batalha e Gabriel deve estar atirando em algum alvo qualquer.
Sorrio. Lauren deve estar plantando algumas ervas daninhas como armadilha e Alicia deve estar roubando algumas armas do arsenal. E como eu queria estar ajudando-os. Travando alguma das minhas melhores estratégias. Com sede de vingança.
Mas até essa sede está se dissipando.
Maldito Júlio. Maldita Afrodite. Por que essas coisas sempre acontecem comigo? É uma desonra até para mim mesma. Minha mãe estar com ódio de mim no Olimpo, e minha madrasta com mais ódio ainda dos Elíseos...
Se meu pai me visse agora, amando um romano, tentaria me matar sem dó.
Comprimo a lágrima que insiste em sair. Não é hora disso. Olho para cima e algo me chama a atenção; uma luz vermelha brilhando no topo de uma colina. A Colina dos Templos, pelo o que Jane me disse.
A luz é ofuscante. Seria alguém com uma lanterna superpotente? Ou os gregos em alguma espécie de ataque? Se for isso eu mato todos! Segui a luz até o topo da Colina, subindo até onde estão os Templos de Poseidon, Hades, Ares e Zeus – ou Netuno, Plutão, Marte e Júpiter... Tanto faz.
A luz não era uma lanterna, nem um grego. É uma coruja. Uma coruja vermelha flamejante na parede do Templo de Zeus – Júpiter – como se fosse uma pichação.
Ela tem haver com a Marca, eu sei que tem. Seus olhos vermelhos me encaram desafiadores. Como se dissesse: duvido que encontre suas respostas aqui dentro.
E eu odeio ser desafiada.
Entro no Templo. Se for a vontade dessa coruja ou não, não me importo. Mas sinto que as respostas estão aqui. Rodeio o lugar com os olhos. Na minha frente há uma estátua de Júpiter segurando o raio-mestre, que não se parece nada com o Zeus que já vi no Olimpo.
Sim, não vamos no Olimpo de tempos em tempos em excursões. Mas, depois que a guerra se tornou oficial, nunca mais fomos.
A coruja volta a brilhar em vermelho, no canto da sala. Caminho na direção dela. Ela está na porta de um grande armário branco que passaria por despercebido por qualquer um que entrasse no Templo. Eu sei o que a coruja quer. Ela quer que eu o abra.
Abro as portas do armário e me deparo com milhões de pergaminhos antigos e – acredite ou não – ursinhos de pelúcia. Não sei se caio na gargalhada ou se fujo assustada.
Melhor eu não fazer nenhuma dessas coisas.
Um pergaminho brilha num vermelho da mesma cor da coruja, ela quer que eu o pegue. Pego o rolo de pergaminho, tão antiga que parecia manchado de café, e o desenrolo.
Havia uma coisa escrita ali, escrita em tinta preta. Mas eu já li – e ouvi – as palavras lá dentro. Elas me assustaram mais que tudo e me puseram nessa furada. Diz:
A filha da sabedoria caminha solitária,
A Marca de Atena por toda Roma é incendiária.
Gêmeos ceifarão do Anjo a vida.
Que detém a chave para a morte infinita.
A ruína dos Gigantes se apresenta dourada e cálida,
Conquistada por meio da dor de uma prisão tecida.
Sim, é a profecia do Oráculo. A minha profecia. Mas seria mesmo minha? Tenho medo de que não. Tenho medo de terminar como todos os outros. Morta. Derrotada. Sem sucesso para com minha mãe.
Atena, eu começo a rezar, se estiver aí e se me amar mesmo... Por favor, me ajude. Diga-me o que fazer! Por favor, mãe.
Primeiro, nada aconteceu. Então, nas minhas mãos, o pergaminho começa a brilhar em vermelho. Palavras começam a ser escritas embaixo da profecia numa cor de sangue. Como aconteceu quando o Oráculo proferiu esta profecia. As palavras são:
Vá para a Cidade Confederada e entre no museu.
Você encontrará o mapa que leva até aquilo que é meu.
Não salve o seu amigo na hora desesperada,
E se quiser ganhar minha Grande Inimiga
Não escolha o punhal nem a queimada.
Reli tudo até gravar de ponta a cabeça. Foi Atena, ela me enviou essa mensagem. “Você encontrará o mapa que leva até aquilo que é meu”. O mapa para a Atena Paternos, eu sabia! Está em algum museu de Charleston... mas qual?
As três últimas sentenças me assustaram. Não salve o seu amigo na hora desesperada. Um amigo meu vai ficar em perigo... Como não irei salvá-lo? É injusto.
Punhal e queimada. Isso também não faz sentido. Será que é um dos desafios da Marca de Atena? Mas se não posso escolher nenhum deles e ao mesmo tempo tenho que escolher um deles... O que farei?
“Se quiser ganhar minha grande inimiga”. Atena tem muitos inimigos. Mas uma foi a mais marcante. A que até hoje assusta nós, filhos de Atena.
Ai, deuses! É ela quem guarda a Atena Paternos?
- Quem está aí?
Guardo o pergaminho rapidamente no bolso e me viro. Atrás de mim havia um garotinho com os cabelos cor de areia e pele muito pálida. Ele abraçava um ursinho e me fita com os olhos azuis.
- Quem é você? – ele pergunta.
- Meu nome é Alexia – eu responde, mantendo a calma – e você?
- Octavian – responde ele.
- Muito prazer, Octavian.
Ele franze o cenho.
- O que está fazendo aqui?
- Observando o lugar. É bem bonito aqui.
- É sim. Desculpa, Alexia, mas você não pode ficar aqui.
Assento.
- Claro. Perdão.
Saio do templo evitando o olhar penetrante do garotinho e desço a Colina correndo até o Fórum, onde eles se reuniam para a batalha em Charleston.
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