A Filha da Sabedoria

9 Dizemos adeus, ou quase isso.


Notas iniciais
Aproveitem o cap, demigods.

Com a mochila nas costas saí do chalé quando bateu exatamente meio-dia, o horário do almoço.

Os filhos de Atena já estavam da patrulha retornando para almoçar e acabei esbarrando em Heyle, minha meia-irmã de apenas 13 anos.

Heyle andava distraidamente, mastigando seu chiclete enquanto seus impecáveis cabelos loiros voavam atrás dela. Ela poderia se parecer comigo quando eu era mais nova, com cabelos loiros escuros, bochechas rosadas e sorriso despreocupado.

Esbarrei nela e quase a derrubei.

Ela já ia pestanejar mas me reconheceu e abriu um sorriso.

- Ei, Alexia... — o tom animado morre em sua voz quando ela avalia a mochila e a aljava de flechas em minhas costas — está partindo?

Heyle era inteligente. Mentir para ela não tinha nenhum sentido. Respirei fundo.

- Vou para uma missão em território romano. — respondo.

Suas sobrancelhas se unem.

- Sozinha?

Faço que sim com a cabeça. Ela não parecia muito convencida.

- Nem vai comer antes de ir?

Eu responderia que "não", mas minha barriga não concordava com isso. Eu não havia comido nada desde a inspeção dos chalés, mais cedo. Comer seria uma boa ideia...

- Vou — decido — o chalé já está indo?

Ela assente.

- Está.

Me junto na fila com os 10 ou 11 filhos de Atena em frente ao Chalé 6. Todos conversavam distraidamente, alguns assuntos variando de Revolução Russa até alguns planos de ataque contra os romanos... Se notaram minha mochila, não disseram.

Os outros doze chalés também foram se reunindo, exceto pelo Chalé de Hefesto que foi designado a patrulhar na fronteira o resto do dia.

No Chalé 7, bem ao lado, vejo Gabriel na frente da fila. Ele faz um gesto interrogativo, apontando para a mochila em minhas costas... Ou seria para o arco?

Fiz um gesto com os dedos que indicava que eu falaria com ele depois sobre aquilo.

Em resposta, ele bate com a mão fechada no peito. Um sinal de companheiros de luta, geralmente usado para reconhecimento em batalha ou apenas uma amizade forte. Talvez Gabriel soubesse que estou deixando o Acampamento por um tempo um pouco longo.

Bato no meu próprio peito em resposta. E ele sorri.

Caminhamos até o Pavilhão/Refeitório e nos sentamos na longa mesa cor de vinho com uma coruja entalhada no centro. Todos continuaram com sua conversa, animados e ansiosos. Pelo o pouco que prestei de atenção agora o Chalé 6 falava sobre a Teoria da Gravidade, de Newton.

Na mesa do Chalé 5, todos davam as boas vindas a uma garotinha de, pelo menos, uns 10 anos que chegara. Tinha cabelos loiros e rebeldes, seu olhar era tão mortífero quanto dos seus irmãos. Ouvi alguém chama-la de Clarisse.

A comida chegou. Pizza, como eu havia pedido. Não sei o que servem no Acampamento Júpiter, então decidi comer o que me vinha de melhor. O outro prato de pizza também veio, este com duas. Me levantei como os outros e me aproximei da fogueira.

- Atena — sussurro esperando que ela me escute — dai-me coragem para minha missão.

Jogo uma pizza na fogueira.

Pego o outro pedaço.

- Nike, conceda-me sucesso em minha busca.

Jogo-o no fogo. Esperando com todas as forças que aquilo sirva de alguma coisa.

Sento-me novamente e como, ainda sem participar da conversa sobre o Império Persa à minha volta. Bebo um gole da minha Coca-Cola e mordo meu último pedaço de pizza de calabresa e me levanto.

Todos os olhos se voltam para mim.

- Quíron — digo — vim lhe pedir permissão para partir em missão.

O Sr. D, praticamente o único deus a quem temos contato, franze o cenho e até deixa sua garrafa de vinho tinto em cima da mesa. Como se fosse ela a culpada por meu requerimento.

- Uma missão? — pergunta Quíron — onde, minha jovem?

- No Acampamento Júpiter.

Murmúrios confusos. Posso ouvir grande parte dos semideuses perguntando uns aos outros se sou maluca ou se bebi alguma coisa do Chalé 12 ultimamente. Ignoro todos. Tudo o que preciso é da permissão de Quíron. E partirei mesmo sem ela.

- O que pretende no Acampamento Romano, Alexia? — ele me pergunta.

- Espionagem. Manter o Acampamento informado de datas próprias para combates físicos diretos, por meio de mensagens de Íris.

Ouço concordâncias no Chalé de Ares. Maioria gostou bastante do "combates físicos". A menininha nova, Clarisse, me observou com seus olhos castanhos cheios de curiosidade. Até mesmo Miranda sorriu com o que eu havia dito.

- Vocês tem conhecimento de minha apatia com esse conflito, não é? — pergunta Quíron para todos os campistas.

Todos assentem.

Quíron solta um longo suspiro, e seus olhos se voltam para mim.

- Quer isso realmente, minha jovem?

- Sim.

Minha voz falha um pouco. Quíron me observa. Não notei que estava pressionando o dracma ateniense em minhas mãos, e ele voltou sua atenção para isso. Talvez ele desconfiasse... Afinal, era um centauro muito inteligente...

- Que assim seja — diz.

Todos gritam, animados. Eu não sorrio em nenhum momento, nem grito por uma vitória que ainda não aconteceu. Os únicos que também não sorriram ou gritaram foram Gabriel e Thomas. Eles tinham uma noção mínima do que eu estaria enfrentando.

Foi então que percebi que Thomas também carregava uma mochila.

- Você recebeu uma profecia, Alexandra? — indaga Dionísio.

- Alexia — corrijo — sim, recebi.

O Pavilhão fica em completo silêncio.

- Quer dividi-la conosco?

Não respondo.

Dionísio solta um longo suspiro e toma mais um gole de seu vinho tinto.

- Sempre assim — ele reclama — as profecias mais importantes não são ditas por quem as recebe.

Então seus olhos púrpuros se fixam nos meus. Haviam uma espécie de desafio neles, como se Dionísio dissesse: eu sei o que você viu. E ainda sei muito mais...

Não sei porque, mas a profecia que minha mãe disse sobre Apolo, eu e Roma volta a minha mente. E fico curiosa para saber do que ela se trata.

- De você, queridinha. — Dionísio diz como se estivesse lendo meus pensamentos, os semideuses pareciam tão confusos quanto eu — parece que algumas atitudes suas não vão deixar os gregos felizes.

- O que...?

Dionísio faz um gesto de "esquece isso" e toma mais um gole do vinho.

- O Underwood te levará até o Acampamento Romano... — Sr. D se vira na direção de Thomas — ele está de saída também. Espero que vocês dois tenham mais sorte que os outros.

Tento entender o que diabos ele quis dizer. Mas, como sempre, não consegui. Terminei de beber minha Coca e me junto a Thomas na mesa de Dionísio sem dizer mais nada.

Por um momento curto, me viro para Gabriel e bato em meu peito mais uma vez, discretamente.

Não deixo de sorrir quando ele faz o mesmo.

Eu e Thomas nos retiramos, com olhares curiosos e preocupados nos seguindo. Certamente que teríamos nos preparado se soubéssemos que aquela era a última vez que veríamos o Acampamento Meio-Sangue.

Notas finais
:'(