A Filha da Sabedoria
10 Canto Smels Like Teen Spirit com um bode louco!
Notas iniciais
Enjoy ;)
Viajamos em silencio durante uma hora. Thomas estava aparentemente nervoso. E eu também. Ele buscaria Pã... e eu buscaria a Marca de Atena. Ambos podemos fazer parte de todos aqueles sátiros e semideuses que não retornaram vivos da mesma busca.
No velho rádio do carro que Tom dirigia, tocava "Stand By Me", do John Lennon. Perfeito! Aquilo é o suficiente para deprimir nós dois mais ainda. Então, ele começa a cantar.
- Tom... você está me deprimindo. — eu digo.
Ele revira os olhos.
- Desculpe se quero ocupar minha mente com outras coisas.
- Está perdoado.
Fico brincando com o elástico do meu arco. Noto que Thomas olha para ele, depois volta sua atenção para a estrada. Parece refletir sobre alguma coisa.
- O que foi? — pergunto.
- Como vai entrar no Acampamento Júpiter com esse arco?
- Entrando...
- Eles vão desconfiar. Por Zeus, Alexia, pensei que você fosse mais inteligente.
- Obrigada, Thomas.
Observo o arco. Thomas tem razão. Imagine eu chegando no Acampamento com a desculpinha de que achei o arco-e-flecha em alguma esquina, com a aljava cheia. Minha faca de bronze... Posso escondê-la (como geralmente faço), mas um arco-e-flecha...
- Fique com ele — eu lhe digo.
- Não há necessidade, deixarei ele no carro. Você vai e eu o levo. Quando eu voltar te devolvo.
- Ok.
Ele ia voltar. Nós íamos nos ver novamente!
- Você vai fazer mais alguma coisa lá, não é?
Abaixo os olhos.
- Vou para Roma.
Thomas quase perde a direção do carro e atropela um esquilo.
- ROMA? — ele grita.
- A Marca de Atena leva até lá. Percebi isso porque Atena ficou observando os mapas de Roma do Chalé 6... Deve ser por causa da Marca que os romanos e gregos não se entendem... A moeda... deve levar para algum artefato ateniense...
- Alexia, você está ciente de que eu não estou entendendo nada, não é?
Reviro os olhos e conto da visita "agradável" de Atena no Chalé 6, depois conto da profecia e lhe mostro o dracma ateniense. Por fim, conto minhas suspeitas da Marca levar até Roma. Que algo deve explicar todo o ódio que minha mãe sente da cidade neste momento.
Quando termino de contar, ele está pensativo.
- O que é a Marca de Atena? — ele pergunta, fitando o horizonte enquanto dirige.
- É uma trilha. Ainda não a vi, mas suspeito que só a encontrarei sozinha, como a profecia disse.
- Sim, mas trilhas levam a algum lugar... Para onde esta leva?
- Não sei, Tom... Deve ser algo importante. Algum símbolo de Atena. Deve ser a razão dela ter raiva de Roma... esse símbolo poderia ter sido roubado pelos romanos em uma invasão... Por isso está em Roma!
- Legal. E o que foi roubado pelos romanos? Tem tantas coisas que poderíamos ficar aqui o dia inteiro chutando...
Obrigo meu cérebro a trabalhar. Sinto que a resposta está próxima, e que o Acampamento Júpiter pode possuí-la. Mas ainda é complicado pensar. Tenho que equilibrar minha missão para com Atena junto de minha missão para com o Acampamento Meio-Sangue...
Meus pensamentos são interrompidos com o som de "Smels Like Teen Spirit", de Nirvana, tocando no rádio. Grito para que Thomas aumente o som. Também preciso de algo para ocupar a mente, então começo a cantar.
Eu e Thomas Ferdinand estamos cantando Nirvana aos berros e gritos. Alguns motoristas passam por nós e nos lançam olhares carrancudos, mas nem ligamos. Eles não sabem que podemos provavelmente morrer nos próximos dias...
Atravessamos uma placa verde que dizia "Berkeley".
- Estamos chegando — ele diz no ritmo da música.
- Foda-se! — grito.
Começamos a rir. Deveria ser o nervosismo, ou o fato de que estamos emocionalmente cansados, mas começamos a rir e gritar palavrões ao vento. No ritmo de Smels Like Teen Spirit.
- Romanos escrotos! — grita Thomas.
- Para caralho! — grito eu.
- São mosquitos!
- Mosquitos?
- É pra rimar.
- Desde quando "caralho" rima com "mosquitos"?
- Vai se fuder, Alexia.
Isso só faz com que eu ria mais ainda. Que doidos somos...
Observo o mapa do Acampamento. Estávamos próximos ao Túnel Caldecott. A "entrada secreta" para o Acampamento Júpiter. Thomas deveria me deixar na distância de 2km do Túnel e depois partir para sua missão.
Depois de mais alguns metros, ele freia o carro. E olha para mim, os olhos tristes.
- Você vai conseguir — ele diz — entendeu?
Nos abraçamos, não consegui impedir as lágrimas.
- Você também vai... Mande lembranças a Pã por mim!
Ele sorri.
- Mandarei.
Saio do carro com apenas minha mochila nas costas e minha adaga escondida na bermuda. Abro a mochila e tiro todos os dracmas, que são moedas gregas, de dentro dela e os ponho no meu tênis.
Bebi o resto da água que tinha na mochila e a joguei fora. Chegar lá de mochila também não era muito sábio. Virei e tive um último deslumbre do carro velho de Argos indo embora e sigo em frente, na direção do Túnel.
A ponta da adaga estava incomodando um pouco quando eu caminhava, mas não era nada sério. Eu a amarrei bem à minha perna, de modo que a escondia e não machuca tanto.
Quanto pude ver o túnel claramente, avistei duas silhuetas uma de cada lado das entradas. Pareciam guerreiros de vigília, bem como imaginei. Me aproximei mancando, entrando no personagem. Também não era difícil fingir que eu estava cansada... O 1km que eu já havia andado no sol era suficiente para acabar com as energias.
Fui me aproximando mais e pude ver que era um casal. Um menino e uma menina. O menino era muito alto e muito musculoso. Se fosse do Acampamento Meio-Sangue eu rapidamente diria que era filho de Ares.
Faltava pouco agora, eles ficaram a postos. A menina era alta, mas não tanto quanto o menino. Ambos estavam de armadura e a garota segurava uma longa lança. Já o menino estava armado de duas espadas longas, gêmeas.
- Quem é você? — o menino grita quando só tínhamos uns 5 metros de distância.
Paro de andar.
- Alexia Garcia — respondo — e quem são vocês?
Eles trocam olhares.
- Tales — ele responde. Uau, um romano com nome grego? — e esta é Jane.
- Por que estão vestindo armaduras romanas? — pergunto como uma idiota.
Eles parecem relaxar um pouco.
- Você pode ver nossas armaduras? — a menina pergunta.
Pela pergunta deduzi que eles tinham conhecimento da Névoa, o véu que cobre os olhos mortais para como as coisas realmente são. Coisas como monstros, deuses, armaduras de guerra, espadas... Coisas pequenas assim.
- Posso — respondo como se fosse óbvio.
Eles conversam. Pelo o que conheço de leitura labial discutiam se sou ou não confiável. Eu já não aguento mais o sol escaldante em meu rosto. Deveriam ser o que? Três horas? Quatro? Não sei. Mas estava quente. Despenquei no chão, sentada.
Eles se aproximam correndo. Vejo mais claramente os traços do garoto: moreno, cabelos negros e olhos castanho-escuros. A menina era um tanto magra. Tinha cabelos pretos com mechas loiras, com olhos cor de mel e sardas salpicadas pelo rosto. A orelha era um pouco pontuda, como de um elfo.
- Tales, precisamos leva-la para dentro — ela diz. Qual é mesmo o nome dela? Jane? Juliane?
- Tem certeza? — ele pergunta.
- Ela está quase desmaiando! É uma semideusa, dá pra ver.
Então minha visão escureceu.
E não foi fingimento.
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