A Filha da Minha Melhor Amiga

29 Olhos que refletem o amor


Notas iniciais
Oiiii... Nossa! Desaparecida como sempre né hahaha Mas eu tenho uma boa e má notícia hehehe (Rufem os tambores!) Bom gente, serei sucinta! O capítulo quase bateu 9.000 palavras e eu não sei se vocês me bateriam ou me matariam se eu postasse um capítulo desse tamanho hahaha Por via das dúvidas decidi quebrar em dois capítulos ^^ HOJE estou postando a primeira parte e AMANHÃ A NOITE eu vou postar a segunda parte do capítulo! Seus lindos... eu morro de fofura e choro às vezes com os comentários de vocês! Muito obrigada pelo apoio! Eu sei que A Filha da Minha Melhor Amiga não é aquela fic água com açúcar que agrada todo mundo, acho que a culpa dela ser assim, fazendo eu e vocês sofrerem em certos momentos, é devido ao meu gosto por fics diferentes e até temas esquecidos ou polêmicos (Não sou louca hahaha gosto de clichês, mas em geral prefiro os não clichês ^^). Obrigada aos inúmeros acompanhamentos, comentários e pessoas que favoritaram! Preparem os coraçãozinhos que esse é a parte I focada no nascimento do Nisuke pela lembrança do Sasuke ^^ Divirtam-se...

Quando eu tinha cinco anos, eu sempre subia em um pequeno banco e ficava encarando meu reflexo no espelho do banheiro.

Era sempre uma face infantil e emburrada.

Não me lembro direito dos traços ou dos machucados que sempre estavam presentes em minha face depois de um dia tentando seguir os passos do meu irmão ou sendo amparado pela minha amada mãe.

O foco do meu olhar era sempre os meus olhos.

Eu sempre me emburrava, pois não tinha olhos brilhantes como minha mãe.

Criança tola. Foi assim que denominei meu passado depois de alguns anos e muitas dores.

Eu ficava quase o tempo inteiro dentro do distrito Uchiha e eu sempre via os mesmos traços típico de um Uchiha.

Olhos negros que escondiam o vermelho carmim...

Eu apenas comecei a me indagar do porquê de não ter olhos brilhantes, só após começar a sair do distrito e ver como as outras pessoas eram.

Certa vez, saí com a minha mãe para comprar um tempero que ela não tinha na dispensa.

Como qualquer criança da minha idade fiz birra, mas no fim fui com ela, já que não poderia ficar sozinho.

Ainda fazendo bico, esperei com meus pequenos bracinhos cruzados, a minha mãe escolher a sua erva.

Muitas mulheres, amigas da minha mãe, diziam que eu era fofinho...

Mal sabem aquelas mulheres o quanto as amaldiçoei por dentro, por terem apertado tanto as minhas bochechas que eu suspeitava que ficariam roxas ou que seriam arrancadas para fora se mais uma mulher as tocassem.

Bufei cansado assim que vi minha mãe conversar com mais uma conhecida naquela pequena mercearia.

Resolvi fugi dos ataques às minhas bochechas, indo para frente da loja.

Ahh! – Ouvi um grito infantil sendo seguido por um baque surdo.

Monstro! Fique longe da minha loja! – Ouvi uma voz raivosa que me assustou, vindo de dentro da multidão, que impedia a minha visão.

Monstro! Monstro! Besta! – Diversas ofensas saiam da boca daquelas pessoas e me assustavam.

Sobressaltei-me com a mão que tocou delicadamente o meu ombro esquerdo.

Levantei meu olhar e pude visualizar os olhos sempre brilhantes de minha mãe, escurecidos e com um toque de dor espalhado por eles.

Eu não entendia o que ocorria naquela época, o porquê dos adultos dizerem aquelas coisas horríveis ou do porquê daquele garoto loiro sair gritando que odiava a todos, fugindo para longe.

Assim que ele sumiu do meu alcance, observei as pessoas se dispensarem, dizendo algumas ofensas, mas meu olhar caiu sobre uma garotinha que olhava curiosa e preocupada o caminho que aquele loiro havia seguido.

Ela não me via e nem me olhava, mas eu via que ela também não entendia o porquê daquilo...

Ela também era só uma criança.

A menina usava uma roupa simples, sua mão direita estava em formato de punho, próximo a boca, em forma de preocupação.

Uma faixa vermelha segurava seus cabelos rosas de forma que eu podia visualizar os olhos brilhantes tonalizados de um verde incomum.

O encanto foi quebrado, assim que minha mãe me puxou pela mão, para voltarmos ao distrito Uchiha.

Mamãe – chamei assim que já nos encontrávamos no corredor externo da nossa casa.

Sim, querido? – Perguntou com um pequeno sorriso gentil me olhando por cima do ombro.

Por que as pessoas falaram aquelas coisas para aquele garoto? – Minha voz saiu baixa, enquanto desviava meu olhar para a pequena fonte que jorrava água no meio de nosso jardim.

Vi pelo canto do olho, minha mãe ficar triste, mas logo sua face alterou.

Sente-se aqui querido – pediu sentando-se em um degrau que dava acesso ao jardim.

Eu assenti e logo me prontifiquei para sentar ao seu lado, ansioso pela sua resposta.

Sabe, meu amor, existem coisas na vida que você não pode entender agora, mas no futuro, quando você tiver vivido muitas experiências e for mais sábio, você compreenderá melhor as coisas. No entanto, o que você precisa saber por hora é que nosso mundo existe muitas coisas tristes. Existe a maldade, existem pessoas cruéis e também a injustiça...

Você está dizendo que aquelas pessoas são más? – Perguntei assustado.

Não. Aquelas pessoas não são más. Elas só não entendem...

O quê? – Não pude resistir a curiosidade, o que fez a morena rir.

Você é muito curioso, sabia? – Comentou entre risos, o que me provocou um bico e bochechas vermelhas. – E fica muito fofinho emburrado, também – brincou levemente com a minha bochecha dolorida.

Ai – reclamei baixinho massageando a mesma.

Preciso preparar o jantar. Você quer me perguntar mais alguma coisa?

Olhei para a minha mãe e como sempre a achei linda.

Cabelos longos e olhos negros brilhantes.

Mamãe, – comecei envergonhado desviando o meu olhar – você acha que meus olhos são brilhantes? – Murmurei.

Depois de segundos em completo silêncio, resolvi arriscar e encarar a minha mãe surpresa pela minha pergunta.

Seus olhos são lindos, querido – falou risonha. – E ficam mais lindos quando você sorrir, como você está fazendo esse exato momento. Todos temos a nossa luz interna que só em ocasiões especiais aparecem. Todos temos olhos brilhantes...

É verdade? – Perguntei surpreso.

Claro que sim – falou convicta. – Mas por que essa pergunta agora?

Ah-ah... – gaguejei desviando minha face vermelha para a fonte – nada não.

Senti dedos delicados puxarem meu queixo para encará-la.

Uma sobrancelha estava erguida como se me questionasse.

É que... – senti meu rosto ficar mais quente – é que ontem, uma garota da minha idade esbarrou em mim e hoje a vi de novo, mas... os olhos dela eram... – minha voz morreu pelo constrangimento e pela face risonha da minha mãe.

Abaixei o olhar para o chão.

Eram?

Bonitos – admiti fervendo pelo constrangimento – e... brilhantes.

Minha mãe riu divertida.

Você disse isso para ela?

QUÊ?

Ora, que mal tem em dizer para uma garota que ela é bonita?

Eu não disse que ela era bonita, eu disse que os olhos dela são bonitos e brilhantes – defendi-me apressado, mas abaixei meu tom assim que continuei – e também nem daria para dizer nada, pois ela saiu correndo vermelha assim que me viu.

Dizem que os olhos são o espelho da alma – comentou confiante, mas depois voltou ao tom de brincadeira – e pelo visto o meu pequenino se encantou por uma.

Ma-mãe! – Gaguejei extremente constrangido.

Tudo bem! Tudo bem! – Fez sinal de rendição.

Eu só achei diferente. Todos os Uchihas têm olhos negros. Nenhum tem verdes, azuis ou qualquer outra cor brilhante.

Até a escuridão do negro pode ser brilhante se houver bondade e amor nessa pessoa – comentou baixo em forma de segredo, enquanto acariciava minha face.

Sorri feliz para aquela mulher que eu tanto amava e por quem eu tanto sofri depois que a perdi...

***

Senti minhas pálpebras tremeluzirem pela claridade, antes de finalmente tomar coragem para abri-las.

Pisquei três vezes antes focalizar na face adormecida da rosada tão próxima a mim.

Sorri minimamente sentindo as lufadas de ar, que saiam pela boca entreaberta, acariciarem a minha face.

Eu sonhei, mas não foi um sonho triste. Foi apenas uma lembrança boa e que eu nem me lembrava mais.

Um gosto amargo espalhou-se pela minha boca, pela saudade daquela mulher e pela atual a minha frente, que nem ao menos sabia que fora alvo de nossas conversas há tantos anos atrás.

Fechei meus olhos sentindo a mão aveludada de Sakura repousada em minha bochecha esquerda, da mesma forma que a morena fizera uma vez.

Meus longos dedos traçaram a linha da coluna da rosada sobre o tecido macio de sua roupa.

– Você parece feliz – comentou a voz baixa da mulher com indícios de sonolência.

Abri meus olhos ainda sentindo o pequeno sorriso esboçado em minha face.

– Tive um sonho bom.

– Qual? – Seus olhos brilhavam, bem menos do que quando ela observava a filha ou acariciava a sua barriga, mesmo assim eu via o pequeno brilho da curiosidade querendo ser expelida.

Meu sorriso de canto se repuxou um pouco mais, antes de balbuciar a meia verdade:

– Eu sonhei com a minha mãe.

A surpresa foi instantânea, deixando aquela que sempre fora alegre e falante no passado, sem fala.

A boca entreabriu-se minimamente, enquanto os grandes olhos verdes arregalavam-se.

– Desculpe-me – falou constrangida, ao mesmo tempo que deixava a sua mão cair entre nossos rostos.

Pisquei os olhos balançando minimamente a minha cabeça em negação.

– Não precisa se desculpar.

O olhar antes abaixado, voltou a focar no meu, deixando esboçar um pequeno sorriso verdadeiro na face levemente corada.

– Presumo que vocês se davam bem.

– Muito – admiti em um suspiro, antes de deitar-me olhando para o teto alvo. Flexionei meu braço esquerdo por trás da minha cabeça, antes do meu rosto tombar na direção da rosada. – Meu irmão vivia em missões e meu pai, por ser o líder do Clã Uchiha, passava muito tempo fora – peguei-me contando coisas nunca antes compartilhadas com as outras pessoas, o que foi recebido com surpresa pela rosada, que esperava o tradicional silêncio por minha parte. Desviei meu olhar para o teto antes de continuar em um sussurro baixo. – Eu me sentia sozinho, certas vezes, por não haver muitas crianças da minha idade. Para falar a verdade, só comecei a interagir com crianças da minha idade, quando eu entrei na Academia – olhei-a de canto.

Uma risada abafada e curta saiu pelos lábios do rosto afundado no travesseiro.

– Isso explica muita coisa – interroguei-a pelo olhar, por isso ela continuou. – Quer dizer, isso explica o porquê de ser tão sério e emburrado, parecendo um mini-adulto. Se brincasse mais, quem sabe eu veria menos aquele seu rosto esnobe para o Naruto – soltou uma risada como se lembrasse de algo e eu não pude evitar acompanha-la, já que aquilo era a mais pura verdade.

O silêncio nos abraçou e com surpresa, fui o primeiro a interrompê-lo:

– Eu passava a maior parte do meu tempo em casa, sozinho com a minha mãe.

– Eu nunca conheci a senhora Uchiha. Creio que era uma boa pessoa.

Sorri, pois, por mais que Sakura soubesse dos planos dos Uchiha, ela não julgava a minha mãe, acreditando que era boa.

Por um segundo, senti-me como se tivesse voltado a ter 18 anos e nada do que ocorreu depois com nós dois, tivesse de fato ocorrido.

– E era. Você iria gostar dela se a conhecesse.

– Heh. Te conhecendo como te conheço, aposto que se nada houvesse acontecido, eu e o Naruto, seríamos as últimas pessoas que você apresentaria aos seus pais como seus amigos. Já imaginou... o Naruto se apresentando com aquele jeito escandaloso dele para o seu pai?

O sorriso de canto brotou em meus lábios acompanhando o raciocínio da rosada.

Tinha que admitir, seria engraçado.

– É... não seria uma boa ideia apresentar o Naruto para o meu pai.

– Sem contar que sua mãe se escandalizaria quando se encontrasse com o Kakashi-sensei e seu inseparável livro erótico.

– Kami! – Fechei os olhos e ri, à minha maneira, da imagem plantada na minha imaginação. – Agora tenho certeza que nunca apresentaria o Naruto ou o Kakashi aos meus pais.

– Heh. Esqueceu de dizer que não apresentaria a irritante – sorriu sem graça, olhando para o teto.

Meu sorriso morreu. Fiquei sério encarando o rosto de perfil para mim, lembrando-me do sonho.

Minha mãe, se tivesse mais tempo, gostaria de conhecer a garota que eu havia comentado e que às vezes ela me indagava curiosa para saber, se já havia dito o que eu achava dos seus olhos.

Dona Mikoto com certeza sorriria e receberia a visita com elegância. Elogiaria a beleza exótica de Sakura e serviria uma xícara de chá para a convidada, lançando olhares questionadores para mim sorrateiramente e no fim, quando estivéssemos a sós, sorriria com a possibilidade de ter netos rosados ou de olhos verdes brilhantes. Eu bufaria e diria que ela estava vendo coisas que não existiam de fato. Afinal, éramos apenas companheiros de equipe. No entanto, ela se foi, juntamente com os demais Uchiha e nada do que um dia eu imaginei que aconteceria, aconteceu...

Desculpe mãe, mas eu e Sakura, não nos casamos ou tivemos os netos que um dia você poderia ter imaginado. Diferente do que muitos acreditavam ou até estipulavam, não terminamos juntos. Separamo-nos, seguindo cada um com sua própria vida...

A mulher de cabelos rosas voltou a fixar as esmeraldas em meus ônix e por um momento permanecemos calados em nossos próprios pensamentos e lembranças.

Absortos em nossos próprios mundos, o mundo pelo qual eu queria poder invadir e saciar todas as dúvidas que venho carregando nos últimos tempos. Descobrir tudo de uma maneira que não a machuque, de uma maneira que eu não cause mais sofrimento do que eu já causei e causarei quando as duas rosadas descobrirem que eu sou o assassino de Nagashi.

"Não tenha medo. Eu não vou te deixar". As singelas palavras, o toque inocente do roçar dos lábios, tudo, era confuso, mas também, o suporte para que uma pequena chama de esperança se mantivesse acessa, de uma forma que há muitos anos não acontecia ou eu sentia.

Sentir.

Eu estava começando a voltar a sentir. Eu estava começando a ter as barreiras gélidas do casulo que construir, ser ruído e desmoronado aos poucos...

– Mamãe – uma voz infantil e sonolenta, chamou a nossa atenção para a porta do quarto.

Mina coçava um olho com a mão em forma de punho, enquanto encarava as primeiras imagens do dia, após o despertar, um pouco confusa.

– Bom dia, meu amor – saudou a voz doce de Sakura, sentando-se na cama.

A mulher sorria e mais uma vez contemplei em silêncio o brilho intenso dos verdes.

– Você não estava na cama quando eu acordei – comentou dando passinhos na direção da cama. Sem cerimônias, a garota sonolenta, engatinhou na cama até se aconchegar no pequeno espaço criado entre mim e a rosada.

Sakura corou levemente com a atitude da filha e me encarou como se pedisse desculpas pela atitude descortês da filha.

– Você dorme como uma pedra, que nem percebeu que eu sair da cama bem cedo – comentou acariciando algumas madeixas longas e rebeldes da menina.

– Tio Sasuke passou mal? – Indagou com a voz abafada por está com o rosto enfiado em um travesseiro.

Ergui uma sobrancelha para a rosada sem entender, mas ela apenas sorriu um pouco sem graça.

– Ah... é... mais ou menos... ele não estava se sentindo bem, por isso vim ajudar.

– Tudo bem.

– Mas agora é hora de ir para a Academia, mocinha – cutucou, sorrindo, a costa da menina.

– 'To com sono, mamãe.

– Nada de preguiça – cruzou os braços sobre a barriga saliente sob o cetim prateado da camisola. – Hora de se arrumar, mocinha. Até eu tenho coisas para fazer hoje, não será você que ficará em casa sozinha.

A menina fez um enorme bico na tentativa de sensibilizar a mãe, mas apenas uma sobrancelha erguida de Sakura foi o suficiente para que derrotada, ela saísse da cama para o banho no banheiro do corredor.

– Coisas para fazer? – Indaguei sentando-me na cama.

Sakura parou no meio do caminho, já que se direcionava para a saída do quarto.

Seus olhos vagaram, momentaneamente, pelo quarto como se lembrasse de algo que ainda não havia me dito e procurasse as palavras para dizer. No fim, os verdes ficaram firmes, enquanto as mãos modelavam as laterais da cintura.

– Ah, eu me esqueci de dizer, mas hoje começa o tratamento do Nisuke, devo ir ao hospital para resolver isso – comentou dando de ombros.

– Tratamento – repeti em um murmuro, saindo da cama para ficar a dois passos de distância de Sakura.

Meus olhos se estreitaram.

– Você ficou louca? Você está grávida.

Um suspiro alto saiu dos lábios femininos.

– Eu estou me sentindo bem e fui informada pela Ino, que os exames que eu pedi para Nisuke fazer já estão prontos, logo, nada impede de iniciar o tratamento e como qualquer problema de saúde, quanto mais cedo for iniciado o tratamento, melhor os resultados. Nisuke já tem 7 anos, logo fará oito. Já está em uma idade avançada, mas nada que impeça um tratamento. No entanto, será mais trabalhos.

– Você está grávida – repeti – e vivenciando uma gravidez de risco. Não vou deixar você sair daqui e usar chakra para praticar jutsu medicinal.

Ela bufou alto, indignada com o meu atrevimento.

– Se você não sabe, o tratamento é feito em grande parte por uso de ervas medicinais e pouca coisa de jutsu medicinal, nada que possa me comprometer.

– Não vou deixar você sair – falei frio, dando um ponto final aquela conversa. Virei de costa para ela, com a intenção de ir ao meu banheiro, mas a sentença seguinte me fez estancar no lugar.

– Ou eu vou até o Nisuke, ou ele vem até mim. Você que sabe, só quero que saiba que independente de você querer ou não, eu vou iniciar esse tratamento hoje!

Cerrei meus olhos, observando a figura segura por cima dos ombros.

Nada do que dissesse mudaria a mulher de ideia.

– Tsc – resmunguei voltando a andar em direção ao banheiro.

***

Abri a porta assim que a campainha tocou.

Eu não estava de bom humor com a situação, por isso permaneci sério e de braços cruzados, assim que visualizei as duas crianças paradas na entrada do meu apartamento.

– Oi tio Sasuke – falou alegre a rosada mirim, antes de passar correndo por mim, deixando-me sozinho com o moreno sem graça.

Os trejeitos eram incertos.

Vez ou outra, ele mexia no grande aro quadrado de seus óculos negros.

O rubor de suas maçãs era evidente e os ônix fixando em todos os pontos, menos em mim, mostrava o quanto ele estava nervoso e constrangido com a situação, não sabendo como se comportar ou o que dizer.

Também permaneci do mesmo jeito. Mantive-me calado analisando o garoto e seu nervosismo.

Pelo visto, nós dois não somos muito sociáveis...

– Nisuke!

Para nos retirar da situação incomoda e constrangedora, Sakura saudou alegremente o garoto, aparecendo por trás de mim.

O sorriso era largo e os olhos brilhavam felizes, da mesma maneira o garoto correspondeu com olhos felizes, tão diferente dos incertos e opacos de momentos antes.

E como ocorrera no hospital, aquele olhar me incomodou...

– Oi tia Sakura – falou educado.

Dei um passo para trás, dando passagem para que Sakura se aproximasse do garoto.

Ela abaixou-se com um pouco de dificuldade, usando a minha mão direita como um apoio, para que pudesse se ajoelhar e abraçar a pequena criança, acariciando as madeixas negras, tão semelhantes às minhas.

Nisuke me encarou por um segundo, por cima do ombro da mesma, mas logo desviou como se tivesse receio das minhas ações ou que eu simplesmente mandasse-o embora.

Mal sabes Nisuke, mas a culpada de você finalmente vim na minha casa é essa mulher aí na sua frente, pensei me afastando, após ajudar a rosada a se levantar.

Encostei minha costa contra a parede ao lado da entrada do corredor, pondo as mãos nos bolsos.

Fiquei ali parado, encarando em silêncio a interação daqueles dois.

– Sente-se aqui, Nisuke – apontou para uma das cadeiras da mesa circular. Prontamente o garoto obedeceu. – Quero conversar com você – riu, prontificando-se na cadeira ao lado do garoto, de costa para mim. – Como você está?

– Bem.

– Não aconteceu nada demais nesses tempos em que não nos vimos?

– Não. Só às vezes que sinto mal-estar quando brinco com o Boruto e a Mina – a voz ficou falha e vi a hora em que ele me encarou pelo canto dos olhos, como se certificasse da minha presença e isso o incomodasse em parte.

A rosada suspirou alto e cruzou os braços, focalizando um olhar questionador em mim.

– Vai ficar quanto tempo ainda aí parado?

– Tsc. Estou na minha casa, fico aonde eu quiser – rebati, minha voz saiu mais fria do que eu queria. Ainda me incomodava a situação, porém, achei-a melhor do que Sakura se esforçar para ir ao hospital e fazer os procedimentos.

– Tudo bem, então – deu de ombros. – Só vou avisando que vai ser demorado e consultas médicas não são tão interessantes para homens como você, acostumados aos campos de batalha. Não se preocupe, Sasuke, com aquele documento que eu o fiz assinar, não necessito necessariamente de um responsável presente, mas se você quiser ficar... – provocou mostrando com a mão a cadeira ao seu lado.

– Tsc – resmunguei saindo dali. Eu sabia que Sakura não queria a minha presença naquele momento, já que a simples ideia de está no meu apartamento já deixava receoso o seu paciente e isso era péssimo para a conduta médica.

Minha mão rodou a maçaneta do meu quarto. Tinha decidido deitar e relaxar, esquecer-me da tensão que a situação estava me colocando, mas assim que olhei para a minha cama, encontrei uma rosada lendo o grande livro da sua mãe, sobre as pernas cruzadas.

– Ah... oi tio Sasuke – sorriu sem graça assim que a questionei com uma sobrancelha erguida. – Desculpa invadir o seu quarto, mas é que talvez a mamãe necessite da outra cama para o Nisuke e bom... eu não sabia para onde ir.

Simplesmente assenti com a cabeça, limitando-me a ir para o lado direito da minha cama.

A minha costa, por mais que coberta, sentiu o frio das grades da cama com o contato.

– Você já terminou as tarefas da Academia? – Peguei-me perguntando, depois de um tempo em silêncio analisando a pequena rosada.

Tsc, desde quando inicio conversas?

O rosto corou antes de pigarrear.

– Éééé... bom... eu fiz a maior parte durante a aula, mas...

– Mas?

– Tinha algumas questões que eu não soube bem como fazer. Pensei em pedir ajuda para a mamãe ou para o Nisuke quando terminarem – admitiu com um sorriso torto, ao mesmo tempo que batia nervosamente um dedo na página do livro.

– Hn.

O silêncio nos golpeou e permaneci inalterado olhando um ponto qualquer além da porta de vidro que levava à sacada do apartamento.

Senti o olhar dourado, que me lembrava tanto daquele que eu havia matado, sobre mim.

– Tio Sasuke, eu posso fazer uma pergunta? – Indagou baixinho, mostrando o nervosismo de fazer aquela pergunta, algo incomum para a menina sempre alegre e faladeira.

– Hn.

– Você é um homem de muitas palavras – ironizou rindo um pouco.

– Isso não foi uma pergunta – rebati.

Ela inflou as bochechas com raiva o que me tirou um sorriso de canto para a cena.

O rosto logo tomou os traços de seriedade novamente.

– Um filho é uma prova de amor entre os pais?

Não pude evitar, surpreendi-me com a indagação inesperada.

As palavras fugiram da minha boca, no entanto, ao olhar para os dourados ansiosos e curiosos, com um motivo oculto para a sua pergunta, eu sabia que não havia como fugir do questionamento repentino.

Meu olhar logo caiu sobre o tecido levemente amarrotado da colcha de cama alva.

Alva, pensei. Tão diferente dos negros dele...

Não pude evitar, acabei me lembrando daquele dia...

Afinal, o que significa ter um filho?

Fazia meses que Sakura havia partido de Konoha, mais precisamente, um pouco mais de sete meses.

Era uma noite fria. A lua resplandecia pálida no céu de eventuais nuvens.

Eu havia acabado de sair de um bordel. Havia me deitado com uma prostituta qualquer, depois de ter ingerido doses de álcool, mas não o suficiente para que eu ficasse bêbado, porém, o cheiro do lugar que eu andava frequentando, estava impregnado em mim.

Já era madrugada, por isso as ruas estavam desertas, o que me era um alívio de diversas maneiras.

A noite passou a ser o meu espelho, me sentia melhor nela do que durante o dia, no meio de uma população que me lançava eventuais olhares questionadores.

No fim, eu sempre me perguntava porquê continuava em Konoha, mas nunca achava a resposta...

Talvez a resposta mais sensata seria, que eu não tenho para onde ir.

Uma vez Naruto me disse que o lugar para onde temos que retornar é o lugar onde estão pensando em nós.

Tsc, que baboseira!

Se em Konoha estão as pessoas que dizem pensar em mim, então por que me sinto incomodado e não pertencente a tal lugar?

Tsc!

No fim, eu apenas deixei os questionamentos e dores afundarem-se no meu ser cada vez mais sombrio e antissocial.

Depois da minha tentativa de suicídio mal feita, afundei-me em missões constantes. Tsunade tentava brigar comigo pela minha desobediência em pegar folgas ou ir para o hospital, para que me analisassem, mas no fim, eu apenas dava as costas e não ligava para as palavras proferidas por ela.

Tsunade não poderia reclamar. Eu era o melhor shinobi que ela poderia ter na ANBU, meus trabalhos eram rápidos e muito bem feitos, eu sempre eliminava àqueles que ela me impunha a eliminar sem nem questionar o porquê deles serem eliminados, mas, claro, eu sempre acabava eliminando mais do que o esperado.

Nem quando eu estava sob o domínio de Orochimaru, eu cheguei a tal ponto.

Um belo paradoxo se formos levar em conta, que onde eu deveria me curar, foi onde eu mais me afundei nos desprazeres da vida.

Konoha, tornou-se apenas o lugar onde eu morava, mas não sentia nenhum sentimento por ela.

Todas as vezes que retornava de uma missão e entregava o relatório para a atual Hokage, eu me encaminhava para um bordel qualquer e bebia antes de pedir um programa.

Os homens riam entre amigos, enquanto ficava sozinho no balcão olhando as horas passarem.

Naruto me acompanhava às sextas a noite, sabia que aquilo era só desculpa para permanecer ao meu lado, impedindo-me de me isolar completamente.

O loiro sempre olhava com desgosto quando eu aceitava a carícia de alguma prostituta, eu sabia que no fundo ele odiava aquilo e pensava na mulher que em um pacto silencioso, decidimos nunca mais falar o nome em voz alta, mas ele aguentava, ele me "aceitava", para que assim não me perdesse como uma vez havia perdido.

Para que ele não perdesse mais um amado amigo...

No entanto, durante os últimos meses tivemos uma briga devido a minha indiferença com a gravidez de Karin.

No início, discutimos muito, chegamos até a nos afastar por um tempo. Eu apenas dei de ombros e continuei a caminhar sob o meu manto de solidão, algo já tão familiar a mim.

Entretanto, não demorou muito para que algumas semanas depois, Naruto aparecesse sério em um bar que eu me encontrava. Ele sentou ao meu lado e pediu uma bebida em silêncio.

Eu sabia que ele não abandonaria Karin, até por ser uma pertencente do seu clã, mesmo assim, o loiro continuou a me encontrar e cuidar dela, sem nunca citar o nome da rosada ou da ruiva para mim.

Suspirei baixo, finalmente chegando ao meu apartamento.

O lugar tão característico, logo tomou formas, quando adentrei.

Vazio.

Essa palavra me definia e definia o ambiente.

Eu não sentia nada. Eu não queria nada. Eu não dizia nada. Eu não demonstrava nada...

Tirei minha blusa e botas ninjas. Joguei sobre a escrivaninha, meu equipamento ninja, antes de me jogar, em meio a um suspiro, em minha vazia cama.

Mesmo cansado e com escoriações pelo meu corpo – prova de acúmulos de missões sem cuidado – eu não consegui dormir. Fiquei encarando o nada por um longo tempo, até sentir uma presença tão familiar atrás de mim.

– Teme – o chamado veio baixo, tão diferente do escandaloso que ele costumava a dar há alguns meses atrás.

Não respondi, nem me movi, apenas permaneci na mesma posição, ignorando aquela presença.

– Teme, o seu filho nasceu – falou mais convicto e alto, como se aquilo fosse me afetar e me fazer acordar para a realidade.

No entanto... eu não senti nada.

Alguns anos atrás, eu disse que uma das minhas ambições era restaurar o clã. Tal desejo foi realizado em meio a uma noite de sexo desprotegido que eu nem sequer lembrava de ter acontecido.

Eu deveria comemorar. A sorte sorriu para mim em uma só tentativa, mas eu não senti nada, apenas repulsa pela mulher que me procurou diversas vezes nos bordeis, onde eu me deleitava com profissionais do sexo.

Ela queria que eu me casasse com ela, dizia que poderia me dar todos os filhos que eu quisesse, que restauraríamos os nossos clãs, misturando os poderosos sangues Uzumaki e Uchiha.

Essas ofertas poderiam ter sido tentadoras aos olhos de outros seres ou até para um Sasuke mais jovem, mas eu apenas ria e esculachava a mulher sem dó, humilhava-a e mandava-a abortar, pois a única coisa que eu queria dela, era distância.

– Eu não tenho filho, Naruto – minha voz saiu fria e sem vida, na tentativa de mandar aquele ser embora, no entanto, ele não se moveu.

– Mas que droga, teme – gritou socando o criado-mudo longe do alcance dos meus olhos. – Você tem um filho e está agin...

– Eu não tenho filho, Naruto – falei alto, erguendo-me na cama para encará-lo, mas não menos frio do que eu estava.

Toda a confiança de Naruto se esvaiu ao encarar meus orbes tão sem vida. Ele sabia que não adiantava insistir, eu não falaria sobre o assunto.

Os azuis obscureceram-se caindo no chão. Naruto estava cansado de tudo. Eu lhe dava trabalho, assim como dava para Kakashi, mas o grisalho não tentava nada para me mudar.

O futuro Hokage já estava desistindo de salvar o seu ex-prodígio aluno.

Talvez as pessoas achassem que era egoísmo da minha parte, por tomar tanta atenção de um homem casado e com uma mulher grávida em casa, mas eu não me sentia culpado, pois não havia pedido pela atenção grátis do loiro, muito menos, as suas preocupações.

– Tudo bem – sussurrou. – Eu não vou insistir, mas... – voltou a me encarar – se você quiser vê-lo, você o encontrará no berçário do hospital.

Sem dizer mais nada, o loiro sumiu como um sopro silencioso.

Deixei que meu corpo caísse para trás, acomodando minha cabeça em um dos travesseiros.

Fechei os meus olhos, mas o sono não veio.

Tombei minha cabeça para o lado e fiquei encarando o lado vazio da minha cama, o mesmo lado que um dia ela ocupara...

– Tsc – levantei-me da cama e fui tomar uma ducha para relaxar.

Não demorei muito debaixo do chuveiro e o ardor das feridas eventuais não me eram tão incomodas, mas faziam-me esquecer dos problemas.

Assim que sair do box, enrolado em uma toalha e com a outra enxugando os meus cabelos, acabei vendo o meu reflexo no espelho.

O corpo, antes adolescentes, estava tomando, cada vez mais, características adultas.

Tudo parecia chamar cada vez mais atenção das mulheres e eu acabava me aproveitando de tal, mas não era isso que chamava a minha atenção no meu reflexo...

Depois de tantos anos, eu reparei nos meus olhos...

Negros. Opacos. Sem vida.

Nenhum atrativo. Nenhum convite de hospitalidade ou de "se aproxime". Nada. Não havia nada...

Dei as costas para o meu reflexo, decidindo dar uma volta pela vila enquanto não tinha sono.

Ficar em casa, olhando para o nada, só me levava a ter lembranças e pensar, e isso não era o que eu queria.

Mantinha-me ocupado o tempo todo para esquecer e pensar em outras coisas além do que a minha mente em ócio me tentaria a pensar.

Com um pulo silencioso, pousei no chão de terra batida da rua. Caminhei por lugares aleatórios sem prestar atenção em nada, mas sempre evitando o caminho da saída de Konoha...

No fim, meus passos pararam em frente a um lugar inesperado.

À minha frente, se encontrava o grande prédio alvo em meio a penumbra da madrugada.

Era o hospital de Konoha...

Continua...

Notas finais
hehehehe Sou malvada por parar nessa partezinha? heheheh Desculpem... mas tive que quebrar capítulo e aí que deu para quebrar! Volto amanhã com a segunda parte! Será que o Sasuke vai entrar no hospital? O.o Se ele entrar, o que será que ele vai ver e fazer? O.o Ihhh... quero saber a opinião de vocês sobre esse capítulo hein ^^ O que acharam dos pensamentos de Sasuke e da Dona Mikoto *---* Acho ela uma fofa e sempre imaginei ela conhecendo a Sakura! Ia ser lindo *---* Ja ne! Até a próxima pessoal!