A Filha da Minha Melhor Amiga
30 O amor dos seus olhos
Notas iniciais
A última vez que havia entrado ali, foi para uma consulta de rotina com a rosada, após mais uma missão concluída.
A consulta era rápida e silenciosa, sempre limitada ao profissionalismo, enquanto eu observava Sakura, habilmente usar seu talento em jutsu medicinal, tratando de todo e qualquer machucado, interno ou externo que eu poderia apresentar.
Era estranho ver os verdes me encarar de maneira profissional, como se o homem sem camisa que ela quase tocava, não fosse eu, como se fosse um ninguém.
Cheguei até a indagar mentalmente se ela fazia aquilo com outros homens.
Tsc. Criança tola.
Era claro que ela atendia outros homens. Era claro que ela tocava e curava outros homens, mas aquilo era estranho de se pensar. Eu não via ou imaginava Sakura dando atenção para outros, era como se ela fosse a minha médica, somente minha.
Só quando ela disse que iria se casar com outro, que o choque de realidade finalmente me alcançou.
Não existia só eu, existia outros e agora, eu nem ao menos a tinha. Nesse exato momento ela era de outro, somente de outro.
Sorri de canto sem humor, dando o primeiro passo em direção ao lugar que era tão ligado a ela há poucos meses atrás, mas diferente do caos que o ambiente ficava quando ela estava lá, hoje, o hospital estava vazio e silencioso.
A recepção, mesmo com os equipamentos e luzes ligadas, não apresentava nenhum recepcionista.
Como uma sombra, caminhei pelos corredores inebriados pelo cheiro de éter, sempre camuflando o meu chakra.
Uma sensação incomoda me assolava durante cada dobrada pelos corredores escuros e vazios.
Um lugar antes tão cheio de vida, parecia mórbido.
Sorri de canto tendo um pensamento pessimista...
Até que esse lugar se parece comigo...
Eu passei a gostar de ver as dores dos outros, afinal, ninguém é perfeito. Ninguém merece uma vida perfeita. Ninguém merece ser feliz...
Pus as mãos nos bolsos, parando de frente a um consultório isolado.
Na porta ainda havia os dizeres "Dra Haruno".
– Tsc. Eles ainda não superaram a partida dela? Até parece que ela vai voltar – murmurei abrindo a porta destrancada.
A porta rangeu baixo, mas pelo meu talento ninja, sabia que não havia ninguém próximo a mim, para reclamar da minha invasão.
Olhei pela porta aberta, o ambiente sombrio, sendo açoitado pelas sombras dos galhos da árvore seca, além da janela ao fundo.
Um cheiro floral e fétido invadiu as minhas narinas, fazendo-me procurar o causador do incomodo, até que meus olhos repousaram sobre um vaso em cima da mesa de consulta de Sakura.
Era um vaso de cristal com três narcisos mortos.
Senti meu maxilar trincar involuntariamente, lembrando-me que ela sempre trocava os narcisos de sua mesa, deixando-os com vida e o ambiente com cheiro floral.
Era nostálgico olhar para o vaso quando ela tinha que cuidar de mim, porque eu me lembrava da época de pré-adolescente, quando acordava hospitalizado e olhava para o lado e via o narciso, sendo o sinal para saber que ela havia ido me visitar.
Ela adorava o significado da flor, pois significava o respeito.
Ela sempre respeitou o meu tempo e minha forma de ser e no meu íntimo, eu me sentia agradecido por Naruto e Sakura serem assim.
O respeito em forma de flor, era sempre bem cuidado para que se mantivesse vivo em seu escritório. No entanto, até aquela vida foi tomada pela morte e trevas.
É... parece que o destino de todos é a solidão, sorri sadicamente antes de fechar a porta e voltar a caminhar pelos corredores escuros, sem rumo. No entanto, parei em frente a uma grande parede de vidro com os dizeres: "Berçário".
O pequeno sorriso se esvaiu ao lembrar das últimas palavras de Naruto, ficando em meu rosto, apenas a sem expressividade cotidiana.
Dei dois passos me aproximando da imensa janela, só que a escuridão me atrapalhava em ver detalhes do outro lado, mas eu sabia que haviam muitas crianças além do vidro.
Não sabia o porquê de minhas ações, mas me peguei entrando no local de acesso restrito.
Caminhei entre as inúmeras incubadoras, percorrendo o meu olhar rapidamente, mas nenhum rosto me parecia conhecido.
Quando estava desistindo, percebi que ao fundo existia uma sala com uma porta de vidro.
Luzes e bipes baixos chegavam aos meus ouvidos vindo daquele local.
Entrei na pequena sala escura e percebi que havia apenas uma incubadora totalmente isolada do mundo externo.
Meus olhos se arregalaram um pouco, ao notar, uma pequena criança morena conectada a inúmeros fios.
Vários equipamentos mostravam números e padrões que eu não compreendia, mas se aquela criança estava ali, isolada das outras e sendo sustentada por inúmeros aparelhos conectados a fios e agulhas que perfuravam seu pequeno e frágil corpo, era porque a situação não era das melhores.
Desviei o meu olhar e um sorriso mórbido apareceu em meu rosto.
Parece que mais um Uchiha vai morrer, no fim das contas. Afinal, parece que só eu permaneço vivo nesse mundo.
Meus olhos voltaram para o corpo alvo, porém, ainda avermelhado em alguns locais, devido ao parto recente.
Ele é meu filho, pensei, mas nem essa constatação me fazia sentir algo pela criança que logo pereceria.
Eu deveria me afastar, era o mais sensato a se fazer.
Eu não poderia amar, pois amar é sinônimo de sofrimento para mim.
Eu simplesmente não queria amar.
Mas permaneci ali, até que meus joelhos cederam e cair no chão para que meu rosto ficasse da altura da incubadora.
Vi um pequeno papel pendurado em um canto externo e li mentalmente:
Nome: S/N definido
Sexo: masculino
– É um menino – constatei e acabei soltando uma risada sem humor, já que Dona Mikoto sempre quis ter uma menina, mas, no fim, acabou tendo um neto menino.
A ponta dos meus dedos direitos, soltaram o pequeno ticket, deslizando pela parede esterilizada da incubadora, parando na direção da pequena cabeça que se mexia um pouco.
Será que eu falei alto demais e ele acordou? Pensei franzindo o cenho para os bracinhos que se mexiam de maneira trêmula.
O garotinho começou a se remexer, até que sua mãozinha direita encontrou a parede e ali ficou.
O ar fugiu dos meus pulmões ao ver a pequena mãozinha separada dos meus grandes dedos apenas pela parede da incubadora.
Não. Não. Eu não posso me aproximar dessa criança mórbida.
Gritava em pensamentos, até perceber um olhar sobre mim.
Nunca me arrependi tanto de ter desviado o olhar de nossas mãos, porque assim que eu visualizei o rostinho virado para mim, eu pude contemplar a hora que o menino abriu os pequenos olhinhos negros com dificuldade.
Eles eram negros. Eles eram brilhantes. Eles tinham vida. Eram os olhos da minha mãe. Os olhos do meu pai. Os olhos do meu amado nii-san.
Minha garganta secou assim que eu me lembrei:
"Até a escuridão do negro pode ser brilhante se houver bondade e amor nessa pessoa".
Eram as palavras da minha mãe, finalmente se tornando realidade.
A criança esboçou um pequeno sorriso banguela, o que me fez dar dois passos assustados para longe dele.
Como um perdido, a criança que não conseguia me achar em seu campo de visão, já que as trevas me escondiam, mostrou-se confuso e com um prenuncio de choro.
– É a primeira vez que ele abre os olhos – uma voz feminina chamou a minha atenção para um canto escuro da sala.
– Tsunade – falei um pouco surpreso, pela presença da loira de braços cruzados que encarava a criança com o cenho franzido.
– Parece que você foi a primeira pessoa que essa criança viu, em geral, isso ocorre com a mãe, que é a pessoa que se espera ter maior vínculo com o recém-nascido.
– Hn – desviei o olhar ignorando as palavras da loira.
– Quando ele nasceu, ele não chorou, pensamos que estivesse morto, mas por persistência, eu insistir com os estímulos até que ele chorasse, no entanto, os testes indicaram um quadro grave pulmonar – focou o olhar analítico em mim e eu permaneci inexpressivo. – Karin não quer essa criança. Ela se recusou a olhar para ele quando nasceu. Disse que sentia nojo e queria distância dele.
Olhei para o pequeno que se remexia, os olhos negros e brilhantes pareciam puros. No fim, era só uma criança que não tinha culpa pelos pais que tinha. Pais que não se amavam e nunca se amariam. Ele não teria uma família estruturada, muito menos amor...
O rostinho se contorceu como se fosse chorar, mas assim que eu falei, o pequeno voltou ao normal, como se procurasse localizar a minha voz.
– Parece com algo que eu disse para ela uma vez – sorri com escárnio para a loira que não me encarava.
– Ele parece reagir a sua voz – pensou alto, ignorado minha última fala, antes de voltar a focar no meu olhar. – Eu não sei quanto tempo de vida ele terá, mas sei que talvez ele não possa ser um ninja como você espera de um Uchiha – cerrei meus olhos para as palavras proferidas. Eles achavam que eu não queria uma criança só porque ela não poderia ser um ninja como um Uchiha deveria ser? Tsc. Nem se ele fosse perfeito eu poderia tê-lo! – Mesmo assim, ele é seu filho Sasuke, fique com ele.
Ri incrédulo para a atitude dela.
– Você mesmo disse que ele vai morrer, não há o porquê de ficar com ele.
– Naruto me pediu para cuidá-lo e possivelmente eu posso salvá-lo, só que alguém tem que criá-lo. Karin não me parece a melhor opção.
Não pude deixar de imaginar a cena patética, caso eu ficasse com o menino.
O que eu poderia dá-lo? Casa, comida e roupa lavada? E o resto? E o amor, carinho e cuidado? Não. Eu não poderia dar a ele, porque eu simplesmente não quero amar. Eu não quero me afeiçoar por uma criança mórbida. Eu não quero amar, porque simplesmente eu não posso mais amar...
Pois, o maior erro de um Uchiha é amar demais e no fim sofrer demais.
Me aproximar de uma criança mórbida seria perder mais alguém com quem eu pudesse ter um vínculo. No entanto, minha alma corrompida e o acúmulo de tantas desilusões só me tornaram uma coisa...
Alguém que não pode amar e nem quer amar!
– Eu vivo em missões, acha que eu vou contratar uma babá e passar a noite em claro dando mamadeira para ele – falei com escárnio. – Eu não quero essa criança! Eu posso pagar o que a lei me obriga a pagar, mas apenas isso.
– Karin não quer ele – falou mais alto, o que assustou o menino que começou a soluçar, antes de chorar. Fechei os meus olhos pedido por paciência à Kami.
– Convença-a. Você é a médica e a Hokage – disse baixo e frio.
– Você é o pai.
– Minha parte eu farei e só isso – dei as costas para me afastar do local e da criança que chorava, mas uma sentença de Tsunade me fez parar em meio a um passo de distância da porta.
– Se a Sakura estivesse aqui não concordaria com a sua atitude, Sasuke!
Olhei para a porta de vidro na minha frente, vendo o meu próprio reflexo. Os negros sem vida no corpo de um homem.
Eu não queria me lembrar. Tinha raiva de escutar aquele nome e naquele momento não foi diferente, mas eu imaginei. Imaginei Sakura no lugar de Tsunade. Ela brigaria comigo e talvez até choraria com as palavras frias e sem vida que eu dissesse, mas no fim, quem sabe, ela me convenceria com a desculpa de que me ajudaria a criá-lo, ajudaria-me com as necessidades da criança e até me ensinaria a como trocar uma fralda ou preparar uma mamadeira, mas... se Sakura estivesse ali, essa criança nem estaria entre nós, já que ela foi feita em meio a um porre que tive no dia do seu casamento com outro homem...
Não. Aquela criança não estaria ali!
– Mas ela não está, Tsunade! – Disse com a voz fria e sem vida que me acompanhava há alguns meses.
– Dê pelo menos um nome para ele – falou baixo quando iniciei outro passo. – Nem isso Karin lhe deu.
Parei e olhei por cima do ombro para a criança que chorava.
O rostinho manchado pelas pequenas lágrimas, estava vermelho pelo esforço que seus delicados músculos estavam exercendo.
Eu não sentia nada, mas me lembrei de quando eu e Itachi conversávamos sobre nosso futuro.
– Então, Sasuke. Quantos filhos você quer ter?
– Não sei, nii-san, mas sei que um dia eu trabalharei na Polícia de Konoha e claro, terei uma família para ensinar jutsu aos meus filhos.
A risada de Itachi ecoava em minhas lembranças.
– Fico feliz em saber disso – sorriu amigável como a imagem que eu sempre tinha em minhas lembranças. – Sei que você será um bom pai... só falta uma companheira.
– Nii-san! – Praguejei ficando vermelho com a risada de Itachi. – Meninas são nojentas! – Falei a típica frase de uma criança.
– Hn. Não foi o que a mamãe disse – coçou a nuca.
O constrangimento foi instantâneo ao perceber sobre o que ele falava.
– Mamãe é fofoqueira – resmunguei cruzando meus pequenos braços, desviando meu rosto vermelho do seu olhar analítico.
Itachi suspirou encarando o jardim da nossa antiga casa.
– Se você tivesse um filho, que nome você daria?
Voltei meu olhar para o meu irmão sem entender o porquê daquela conversa ou o porquê do seu rosto sério com um leve franzir de sobrancelhas.
– Por que você está perguntando isso, nii-san?
– Só fiquei curioso para saber o nome que meus sobrinhos irão ter – falou sem graça, voltando a expressividade de sempre, quando me encarou.
Desviei o meu olhar para o jardim e fiquei pensativo.
Nunca havia pensado naquilo. Eu era apenas uma criança, ainda haveria muitos anos para se pensar em tal coisa, mas era o meu irmão que estava ali, do meu lado e poucas vezes tínhamos tempo de ficarmos juntos entre as suas inúmeras missões como ANBU, por isso, eu aceitaria qualquer assunto para ter aquele momento com ele.
– Hn. Não sei, que tal Nisuke? – Falei sem pensar.
– Nisuke? – Ficou confuso. – Não consigo atribuir nenhum significado a esse nome.
– Mas não tem significado mesmo, acabei de inventar – dei de ombros. Aquela era a verdade, talvez nunca utilizasse aquele nome, mas aquela seria a resposta para o meu irmão.
– E qual foi a sua inspiração?
– Bom... – desviei o meu olhar. – Eu só pensei em nii-san e Sasuke e resultou nesse nome.
– Então Ni seria de nii-san e suke de Sasuke? Seria uma junção entre nós dois?
Fiquei confuso. Não havia pensado em um significado profundo para a minha invenção momentânea.
– Acho que sim.
Meu irmão desviou o olhar para um canto qualquer pensativo.
– Nisuke – balbuciou. – Uchiha Nisuke – sorriu, voltando a olhar para mim. – Parece um bom nome, gostei dele. Não tem significado nenhum, mas nós podemos acrescentar o nosso próprio significado.
– É... pode ser – sorri para ele.
A criança continuava a chorar, enquanto um sorriso sem humor surgia no canto dos meus lábios, antes de desviar o meu olhar para o meu reflexo.
Um nome sem significado para alguém que não teria significado para mim.
Parecia perfeito e perigoso por causa da minha lembrança com Itachi, mesmo assim, peguei-me falando:
– Nisuke. O nome dele é Uchiha Nisuke.
Saí daquela sala sem olhar nenhuma vez para trás ou esperar alguma indagação de Tsunade.
A única coisa que eu escutava, era o choro da criança ficando cada vez mais distante de mim, até o silêncio me envolver.
Caminhando entre os corredores, escutei um choro e um sussurro baixo.
Parei meus passos ao lado de uma porta entreaberta.
Eles não me viam, mas eu pude ver a hora em que Karin chorava deitada na cama do hospital.
– Eu não quero ver ele. Não me obrigue, Suigetsu – negou com a cabeça. – Nem Sasuke quer essa criança.
O azulado estava com o semblante sério e preocupado ao lado da cama. A mão masculina, logo envolveu a mão feminina em um toque de conforto.
– Sasuke pode não está aqui e ele pode ser um grande filho da puta, mas... – o aperto se tornou mais forte quando o olhar roxo desviou dos vermelhos surpresos – eu estou aqui e vou está ao seu lado sempre que precisar.
Não continuei ali. Apenas continuei o meu caminho deixando todos para trás, voltando para o meu caminho de solidão e trevas, onde me afogaria cada vez mais.
***
– Tio Sasuke! – Acordou-me Mina.
Pisquei três vezes, focalizando meu olhar na pequena que me encarava confusa.
– Você ficou tão calado que me deixou preocupada.
– Só estava me lembrando de algo – balancei a minha cabeça.
– Tudo bem, mas... você pode responder a minha pergunta?
Um filho é uma prova de amor entre os pais?
– Mina...
– Por favor, não responda "claro que sim" só porque eu sou uma criança. Eu quero saber a verdade, tio Sasuke.
Fiquei alguns segundos em silêncio, encarando a menina, antes de responder a verdade:
– Nem sempre.
Os dourados ficaram tristes e caíram sobre o livro, que sua mãozinha alisava nervosa.
– Obrigada por responder com sinceridade. No fundo, eu já suspeitava.
– Por que você me perguntou sobre isso?
O olhar da menina perambulou pelo quarto.
– Pelo Nisuke e... – seu olhar focou em mim – por mim – sussurrou.
– Por você?
– Sim.
– Mina, o que você está querendo dizer? – Indaguei com uma curiosidade contida, querendo entender o que aquilo tinha haver com ela. Eu compreendia a ligação da pergunta com Nisuke, só não compreendia como poderia está ligado a ela e aos seus pais.
– Meus pais não se amavam, tio Sasuke – murmurou fazendo movimentos circulares com o dedo indicador, na capa do livro. – Eles me amavam, isso era fato, mas... minha mãe não sorria verdadeiramente para ele. Ela era fria, presa em seus próprios pensamentos, na maior parte do tempo. Apenas sorria de verdade para mim. Meu pai, por outro lado, tinha fascínio por ela e sei que ele gostava bastante dela, mas... aquilo não era amor. Era como se só estivessem juntos por minha causa ou outra coisa. Só quando minha mãe começou a conviver com o senhor e com os vários amigos do passado, eu comecei a ver ela sorrir mais vezes, só então me lembrei do tempo de Iwagakure... – a voz morreu, mas as perguntas continuavam a rondar os meus pensamentos.
Sakura não amava o seu marido, como havia me dito como o porquê de se casar.
Ela não foi embora só para se afastar de mim.
Os relatórios dos últimos atendimentos e missões desapareceram da ficha dela.
Eu não sabia o porquê da partida da rosada, mas eu tinha uma certeza... ela não queria ir para Iwagakure, pois se sentia melhor em Konoha.
Então, por que ela teria ido embora?
– Nada é perfeito, assim como os casamentos, mas isso não quer dizer que a falta de amor entre os pais irá comprometer o amor entre um pai e um filho – comentei com intuito de animar a menina cabisbaixa.
Aquilo não era totalmente verdade, mas também não era uma mentira. No entanto, era demais falar para uma criança de sete anos, que possivelmente o casamento dos pais tinham muitos furos de lógica e que ela foi apenas um acidente.
Um acidente que Sakura temeu no início, pensei lembrando-me da lembrança de Sakura no banheiro.
Mina sorriu agradecida, mas logo seu rosto estampou-se em dúvida. Antes mesmo de perceber seu erro, a boca tagarela já havia me indagado:
– Então, por que o senhor não se dá bem com o Nisuke?
Os dourados arregalaram-se e repreenderam a sua atitude, pondo as mãozinhas sobre a boca tagarela.
– Desculpa. Eu não queria ter dito...
– Tudo bem – falei baixo desviando o meu olhar para um canto qualquer.
O nascimento de Nisuke foi recebido com surpresa pelos habitantes de Konoha, alguns comemoraram, outros amaldiçoaram, dizendo que mais uma criança amaldiçoada havia nascido, ainda mais se tratando de mim e de Karin como pais, já que a ruiva era vista como uma forasteira e ex-súdita de Orochimaru.
O peso dos pais caiu sobre ele e muitas vezes eu vi a população cochichar pelas costas da criança, enquanto ele caminhava sozinho pelas ruas da Vila.
Sozinho.
Assim como eu.
Tão parecidos e, ao mesmo tempo, tão diferentes...
Durante o seu crescimento, eu sempre o evitava. Naruto comentava algumas vezes sobre Nisuke, mas as minhas palavras frias e repúdio pelo assunto, era a mensagem clara que ele não deveria falar sobre tal, mas eu via, mesmo que sempre me ocupando de missões e tarefas, eu sempre acabava vendo-o por Konoha, sempre sozinho ou com seu único amigo, que por ironia do destino, era o filho do Naruto.
Às vezes eu sentia o olhar sobre mim, mas eu nunca me pronunciava, fingia que não me importava ou não o havia visto e seguia o meu caminho, mas aquilo só piorava o conteúdo das conversas da população.
Certa vez, há poucos meses atrás, tive que entregar um documento para Shino, que se tornara sensei.
Sempre camuflando a minha presença, acabei escutando uma conversa dele com Anko, ambos observavam algo localizado na área externa do andar inferior.
– É um garoto talentoso esse Uchiha – comentou a morena com um sorriso satisfeito no rosto.
– Pelo visto, talento é hereditário – disse sem alterar seu típico timbre de voz. – Alguns professores das séries mais baixas se reuniram para pedir que adiantem Nisuke, já que seu nível elevado, faz com que seja desnecessário sua permanência em níveis baixos.
– Ele se parece com um genin recém-formado. Por que não acatam o pedido dos sensei?
– Para adiantar a criança, analisam os exames físicos dela e descobriram que ele tem grave problema pulmonar. Mesmo que ele seja muito talentoso, ele nunca poderá ser um ninja.
– Mas se ele não pode ser um ninja, como ele foi aceito para ser um aluno da Academia? Esse é um dos testes de admissão. Uma criança que está aqui e não pode ser ninja, é a mesma coisa que dizer que Nisuke está ocupando o lugar de um possível futuro ninja – exclamou surpresa.
– Admitiram ele, porque foi um pedido direto do Naruto e do Hokage. Quanto ao fato de ocupar o lugar de outra criança, não se preocupe. Ouvi dizer que talvez entre outra criança na turma deles, ficando assim 28 alunos, sendo 27 futuros ninjas e o Nisuke.
A mulher assentiu com o semblante triste para as crianças que praticavam no pátio.
– Que pena. Um talento desses sendo desperdiçado...
Meu olhar se ergueu para uma Mina preocupada e ressentida. Mal ela sabia que era a tal 28° que ocuparia o lugar de Nisuke.
Balancei a minha cabeça para que ela se acalmasse, o que surtiu efeito, mas eu não parava de pensar que no fim, eu prestei atenção em quem eu não queria notar.
Eu não deveria ter entrado naquele hospital, mas eu entrei.
Eu não deveria ter dado o nome que Itachi gostou, mas eu dei.
Eu não deveria escutar a população xingando-o, mas eu escutei.
Eu não deveria saber de sua educação e de seu futuro, mas eu sei.
E por mais que eu tente evitar, hoje, por ironia do destino, ele está andando pela minha casa, sendo consultado pela mulher que uma vez me abandonou e sendo amigo da filha da minha melhor amiga.
Como o destino é hilário, pensei sorrindo minimamente.
– Pegue o seu caderno de exercício, vamos resolver as questões que você não conseguiu resolver – falei, passando as mãos pelo meu rosto cansado.
Eu não queria pensar sobre Nisuke e como sempre, afundaria-me em mais tarefas para impedir meu momento de ócio, mesmo que a atividade fosse apenas as dúvidas de Mina.
A menina se surpreendeu, mas logo esbanjou seu largo sorriso, enquanto corria para buscar seu caderno na mochila prostrada na perna da escrivaninha.
– Aqui – pulou em cima da cama perto de mim, entregando-me o caderno cheio de figurinhas e desenhos infantis.
Sorri um pouco e ergui uma sobrancelha para os "projetos" de desenhos nas primeiras páginas.
Apontei para um em que eu uma mulher de cabelos rosas estava de mãos dadas com um moreno de olhos vermelhos. Ambos sorriam.
– Isso era para ser eu? – Provoquei mostrando para a menina vermelha que constrangida, puxou o caderno das minhas mãos, folheando rapidamente para chegar na parte dos exercícios do dia.
– Aqui – devolveu-me o caderno com a cabeça abaixada.
– Devo dizer para a sua mãe que você fica desenhando na aula ao invés de prestar atenção no seu sensei? – Fingi seriedade.
A garota bufou cruzando os braços, mostrando o típico bico herdado de sua mãe.
– Ah qual é, tio Sasuke, eu sou uma boa aluna.
– Ok, voltaremos a discutir sobre seus "dotes" artísticos depois, mas agora vamos focar em "selos" – terminei lendo o título da tarefa.
Mina assentiu pulando para mais perto de mim.
Daqui a pouco essa garota está em cima de mim, pensei fuzilando a rosada mirim que se afastou um pouco constrangida.
***
– Mina, o selo é assim – falei irritadiço mostrando o selo da cobra. – Isso que você está fazendo é o selo do tigre. Cobra não tem esse dedinho aí, abaixa isso.
– Ah tio Sasuke, isso é complicado – falou manhosa, querendo que eu parasse de puxar a orelha dela em cada coisa errada que ela fazia.
Mina tinha um grande conhecimento e talento em controlar chakra, mas, por ter entrado atrasada na Academia, pecava em detalhes básicos e isso me irritava, forçando-a a aprender cada vez mais até que eu ficasse satisfeito.
– Isso não é nada complicado. É o básico! Você que é preguiçosa e estava até querendo matar aula mais cedo.
– Não tenho culpa se tigre e cobra são parecidos.
– Tem uma grande diferença. Tigre tem os indicadores levantados. Cobra não!
As bochechas da pequena inflaram-se antes dela se jogar dramaticamente para trás.
– Sasuke, você é um péssimo sensei – uma voz risonha chamou a minha atenção para a porta.
Fiquei tanto tempo entretido com a tarefa, que havia até me esquecido de Sakura.
– Como se você fosse melhor do que eu.
– Eu entendo quando a mamãe explica – disparou a pequena, tirando outra risada da mãe.
– Tsc – me levantei da cama, jogando um travesseiro na criança jogada na minha cama. – Já acabou? – Perguntei quando estava próximo da mulher.
– Preciso da sua ajuda – voltou a seriedade. – Tem um minuto? – Assenti de acordo. – Vem – puxou-me pelo pulso, para que saíssemos do quarto, mas assim que finalmente vi um garoto de sete anos desacordado na cadeira, estanquei no lugar.
– O que aconteceu?
– Esses procedimentos logo no início cansam o paciente e essa erva dá sono. Como tive que usar uma quantidade elevada no início, Nisuke acabou desacordando por está exausto e com sono.
– Hn – caminhei lentamente até parar ao lado dele. – E o que você quer que eu faça? Quer que eu leve ele para casa?
– Não – negou com a cabeça. – Você pode levar ele para o meu quarto? Quero passar a noite monitorando o andamento dele. Caso ele tenha uma rejeição ao tratamento, quero está do lado dele.
– Ele vai dormir aqui? – Ergui uma sobrancelha.
– Eu posso dormir na casa da Karin se você quiser – cruzou os braços em desafio.
Se tinha uma arma que Sakura havia descoberto... era a ameaça.
Suspirei revirando os olhos, antes de focar meu olhar inseguro para o garoto.
Fiquei algum tempo encarando o que deve ter chamado a atenção dela.
– Eu tenho a noite inteira, sabia – zombou.
– Tsc – resmunguei puxando um pouco os ombros do garoto para que ele desencostasse da mesa, a qual ele estava apoiado.
– Pega ele devagar, para não acordar – sussurrou.
Inclinei-me lentamente, enquanto apoiava minhas mãos sob os bracinhos dele.
A verdade é que eu estava com receio de tocá-lo. Eu não queria me aproximar, e carrega-lo parecia demais para mim, mas como estava sob o olhar e um pedido de Sakura, eu acatei o pedido, trazendo, pela primeira vez em toda a minha vida, o meu filho para perto de mim.
O pequeno corpo se colou ao meu, em um contato quente. Transpassei meu braço esquerdo sob os braços dele, enquanto a minha direita, apoiava seu corpo, para que ele ficasse em uma posição sentada, com as pernas caídas ao lado do meu corpo, porém...
O menino começou a se mexer e o pânico tomou conta da minha face.
– Shhh... – Sakura chiou pondo o indicador direito sobre os lábios, enquanto seus cálidos dedos esquerdos, acariciavam as madeixas negras da criança, como ela fazia para me acalmar.
O menino começou a se acalmar, mas seus braços rodearam inconscientemente meu pescoço, enquanto sua cabeça se aconchegou na curva daquele lugar, se aninhando ainda mais em mim.
– Os óculos – avisei em um chiado, a rosada, sobre a superfície gelada que tocava a minha pele.
A mulher compreendeu e retirou-os antes que os mesmos caíssem do rosto adormecido.
Como se o confortasse a retirada dos óculos, o garoto se aconchegou ainda mais em mim, fazendo com que eu parasse de respirar, ao mesmo tempo que sentia um sorriso em contato a minha pele daquela região.
Droga. Droga. Droga.
Praguejei mentalmente desviando meu olhar para o piso, longe do olhar pensativo de Sakura, mas pelo canto do olho vi ela sorrir amistosamente como se tivesse pensando em algo, nem o meu olhar sobre si a despertou.
– No que você está pensando? – Murmurei para acordá-la, mas no fundo, temia o que eu iria escutar.
Os longos cílios piscaram algumas vezes, antes de se voltarem para mim e corarem um pouco pelo seu descuido.
– Ah... eu... só estava pensando em como vocês dois ficam bonitinhos juntos – sorriu sem graça.
Desviei o meu olhar para o corredor, antes de caminhar para o quarto da Sakura, sem comentar sua última fala.
Sakura se apressou para abrir a porta do quarto escuro, pois já era fim de tarde.
Caminhei lentamente e com cuidado, tendo a minha atenção separada pelos meus passos e pela respiração contra a minha pele, mas assim que coloquei o corpo deitado na cama, notei o problema.
– Sakura, ele não quer soltar – sussurrei inclinado na cama. Apoiei minhas mãos sobre os lençóis, mas o aperto forte no meu pescoço, não deixava que eu me afastasse do rosto infantil que sem os óculos, ficava mais parecido com o meu, quando pequeno.
– Eu acho que você vai ter que dormir agarradinho com o Nisuke essa noite, Sasuke – comentou risonha, tentando segurar o acesso de risos.
– Rá rá rá – imitei uma risada – muito engraçado Sakura. Agora vem aqui me ajudar.
A rosada se aproximou alguns passos e por trás de mim começou a desfazer o abraço do garotinho, enquanto eu permanecia encarando o rosto tão próximo ao meu, ser acariciado pelos meus cabelos.
– Sasuke, fica parado – a mulher me impediu de me mover, quando fiz menção de me levantar.
– Por que? Você já soltou o aperto dos braços dele.
– Os braços sim, as mãos não.
– Como assim "as mãos não"?
– Nisuke acabou segurando com força alguns fios do seu cabelo – falou insegura com a minha reação, continuando o trabalho na minha nuca.
– Kuso!
– Fica quieto se não vai acabar arrancando alguns fios e isso vai doer.
– A culpa é sua.
– O filho é teu – rebateu.
Bufei alto, mas a minha ação fez o garoto se remexer incomodado.
– Sakura, ele... – antes que eu pudesse falar, a mulher tampou a minha boca com sua mão direita e com a esquerda me puxou pelo colarinho, prostrando-me de pé, ao lado dela.
Sakura estava com o cenho franzido para o garoto, que nem ao menos percebeu que estava com o corpo colado a minha lateral.
– Pa... pai? Ma... mãe? – Murmurou atordoado, abrindo os olhos brilhantes. – Vocês... vieram... me pôr... na... cama? – Falou sonolento, mas de maneira estranha, ele não focava em nós dois.
Indaguei Sakura com o meu olhar. Afinal, por que ele estava chamando a Sakura de mamãe? Com certeza ele não estava chamando a Karin, já que, pelo que eu sei, ela não é muito amorosa com ele.
– Ele está delirando. É um efeito raro da erva.
Que tipo de erva ela deu para o garoto?
– Pa... pai... Ma... mãe.
– Sim, querido – falou amorosa e audível a rosada, o que me deixou confuso.
As mãos soltaram o meu corpo e apoiando uma sobre a barriga saliente, ela se sentou na borda da cama, antes de acariciar os cabelos negros e rebeldes.
– Eu e o papai estamos aqui, não é? – Dirigiu a última parte com um olhar súplico para mim, mas o nó na minha garganta não me deixava falar.
Não se aproxime. Não se aproxime.
– Hn.
Sakura revirou os olhos, antes de voltar a sorrir, fazendo carinho na criança.
– Pode voltar a dormir – beijou a tez de Nisuke. – Papai e mamãe estão aqui.
– Vão ficar comigo?
– Claro.
– Então por que eu não escuto o papai? Por que eu não consigo vê-lo? Por que ele sempre foge de mim? – Falou alto e claro, enquanto escorria lágrimas pelas suas bochechas rosadas.
– Nisuke se acalme, querido – abraçou em um impulso o garoto, que rodeou a cintura protuberante dela, escondendo o rosto que chorava, entre os seios da mulher.
Era um choro. Igual no dia em que ele nasceu e eu fui embora.
Como naquele dia, eu dei um passo para trás, mas o olhar suplicante de Sakura me fez parar.
O rosto preocupado da mulher balbuciava sem voz: "Fala alguma coisa, por favor".
– Eu... – o corpo do menino tencionou quando escutou a minha voz – estou aqui... Nisuke.
Sentia a palpitação no meu peito, enquanto via o olhar agradecido de Sakura que acalentava o menino que havia parado de chorar.
Os negros pesaram e foram se fechando aos poucos até Sakura conseguir deitá-lo e cobri-lo.
Não esperei mais. O ambiente me sufocava e com um impulso alcancei o corredor, só percebendo lá que havia prendido a minha respiração e precisava de ar.
Apoiei a minha testa na parede ao lado da entrada do meu escritório, até sentir pequenos socos contra o alto da minha costa.
Olhei por cima do ombro, visualizando uma Sakura no escuro que chorava enquanto me batia.
Lágrimas.
Mais lágrimas.
As malditas lágrimas que me perseguiam.
As lágrimas de dor que eu sempre causava.
– Cretino – balbuciou antes de um soluço. – Por que você é tão cretino com o Nisuke? Ele só quer a sua atenção.
Segurei-a pelo pulso, puxando-a para mim. Meu rosto inclinado e sério, estava próximo ao choroso e dominado pelos hormônios da gravidez, de Sakura.
Ela era uma mulher muito volátil na gravidez.
– Para de chorar – disse frio, sacudindo uma vez os seus pulsos. Sakura negou com a cabeça, sem desviar o olhar choroso. – Para! – Ordenei mais uma vez, mas...
– Não! Você é um cretino – resmungou voltando a chorar. – Eu... eu.. – buscava ar – te...
Não deixei que ela terminasse, segurei o pescoço alvo com urgência e empurrei ela contra a parede nas suas costas.
A boca entreabriu-se surpresa, o que foi perfeito para que eu a beijasse com volúpia, introduzindo a minha língua na cavidade quente e molhada, com o leve gosto salgado devido às lágrimas.
Fechei os meus olhos, mesmo sentindo o olhar surpreso sobre a minha face.
Pressionei a boca imóvel, alisando a língua que aos poucos cedeu à minha.
O movimento era incerto e tímido, mas aos poucos senti os cílios caírem como uma desistência para a luta silenciosa que impomos sobre nós.
Minha mão em seu pescoço deslizou lentamente para a nuca, fazendo-me sentir os pelos eriçarem com o meu toque.
Dei um passo colando os nossos corpos ao mesmo tempo que alisei a carne macia, sendo correspondido com a mesma carícia, como se eu fosse convidado a continuar.
Movimentei a minha cabeça para a a esquerda e para a direita, sendo correspondido por Sakura que acompanhou os meus movimentos, ao mesmo tempo que colocava as mãos sobre a minha camisa.
Inclinei-me ainda mais, na direção dela, mas um movimento estranho de encontro com a minha barriga, fez-me dar dois passos para trás.
– O que foi isso? – Indaguei ofegante, encarando a barriga de Sakura naquele ambiente escurecido.
Mesmo ofegante e visivelmente assustada, a mulher enxugou as lágrimas com as costas da mão.
– Foi... o bebê. Ele chutou.
– Hn – desviei o meu olhar. Lembrando-me de toda a situação. Eu não poderia simplesmente sair atacando uma mulher grávida de outro homem, por mais que essa mesma mulher esteja sobre os meus cuidados. Mesmo assim... – Se você tentar falar aquilo de novo, eu te beijo de novo – falei frio e vi ela engolir em seco.
Virei o meu corpo para ir embora, mas parei em meio a um passo.
– Vamos fingir que isso nunca aconteceu, ok? – Murmurou o pedido com o rosto virado para longe do alcance dos meus olhos.
– Você também quer que eu esqueça os outros dois beijos, principalmente aquele que você me deu antes de dormir? – Indaguei sério.
– Você estava acordado? – Sussurrou mais para si, virando o olhar surpreso para mim.
– Eu não tinha certeza, mas agora tenho – sorri de canto, mas meu sorriso se desfez, quando dei um passo em sua direção e enxuguei uma lágrima que escorria solitária, no entanto, deixei minha mão no lugar. – Você pode me dizer o por quê de ter me beijado?
– Você pode me dizer o por quê de renegar o seu próprio filho, Sasuke? – Rebateu contraindo o rosto em dor pelo ocorrido.
– Não – respondi frio. – Pelo visto, cada um vai ficar com as suas dúvidas – finalizei o contato, mas antes que eu pudesse dar as costas, Sakura me segurou pelo braço.
– No delírio mostramos nossos desejos, sonhos e pesadelos. Mostramos o que somos por dentro. Sasuke, o Nisuke é uma criança que só quer a sua atenção, só isso. Ele quer um pai e uma mãe presente. Ele quer uma família de verdade.
No fim, somos tão parecidos...
Pensei encarando a porta do quarto onde ele dormia, em silêncio.
Não disse nada e Sakura não me impediu. Fui para o meu quarto e não nos vimos durante aquela noite.
***
– Kuso! – Resmungou baixo chupando o dedo queimado.
– Deixa que eu faço isso, já disse para você não tentar usar o fogão sem ajuda – resmunguei afastando a mulher para o lado.
Minha voz estava fria e meus olhos concentrados na massa, que se encontrava dentro da frigideira com óleo. Nem o olhar dela me fazia desviar o meu do utensílio doméstico.
– O que você estava tentando fazer?
– Panquecas. Eu quero panquecas no café da manhã – falou incerta, remexendo o restante da massa ao lado do fogão.
Suspirei profundamente, procurando paciência para lidar com mais aquele desejo de grávida logo que eu acordei.
– Tudo bem. Prepara a massa que eu faço o que tem que fazer no fogão.
Ela assentiu e começamos a trabalhar em silêncio.
Mesmo que fingíssemos estar tudo bem, não queríamos arriscar um diálogo e ter o perigo de recair no mesmo assunto da noite anterior.
– Ohayou – saudou alegre a menina que entrou na cozinha correndo para olhar o que estávamos fazendo, para o café da manhã.
– Ohayou – respondeu feliz a mãe, depositando um beijo na testa da filha, já que suas mãos estavam sujas. – Ohayou para você também, Nisuke.
Desviei um pouco o meu olhar e percebi que o moreno estava parado, encarando o ambiente sem entender o que se ocorria, mesmo já estando pronto para a Academia.
– Ohayou – respondeu um pouco constrangido com um sorriso de canto.
Todos olharam para mim.
– Hn.
– Isso significa Ohayou e muitas outras coisas na linguagem dele – prontificou-se para traduzir, a pequena tagarela.
Fuzilei a Mina com o olhar.
Quanto será que eu consigo correr até a Sakura me alcançar para me bater, por ter jogado "acidentalmente" uma frigideira com óleo na cabeça rosada da filha dela?
Sakura me deu um tapa no braço como se adivinhasse meus pensamentos.
Poderia traduzir seu olhar como:
"Você não vai conseguir correr muito"
Suspirei e voltei a terminar a última panqueca.
– Aqui – entreguei tudo para Sakura que já olhava com satisfação todas as panquecas e a cobertura em sua mão.
– Nisuke, você quer com cobertura ou sem cobertura? – Gritou para as crianças que conversavam já sentadas na mesa circular além da bancada da cozinha.
– Sem cobertura – gritou de volta.
Uma sobrancelha rosada sobressaltou no rosto de porcelana, enquanto um sorriso zombeteiro se alinhava aos lábios finos.
– Não sei nem porque eu pergunto – me confidenciou.
– Não faço a mínima ideia do que você quer dizer com isso – me fiz de desentendido, dando de ombros.
– Filho de peixe, peixinho é – cantarolou enchendo sua panqueca de cobertura.
Sorri de canto, desligando o chá que também era preparado no fogão.
Inclinei-me em sua direção e encostei meus lábios em sua orelha esquerda.
– Assim como a sua filha é tagarela, idêntica a mãe.
Sakura me fuzilou com o olhar antes de pisar com força no meu pé.
Mordi meu lábio inferior para não gritar, mas foi impossível não contorcer meu rosto em dor.
Satisfeita, a rosada pegou as panquecas e levou para a mesa.
Assim que consegui voltar ao normal e com uma carranca no rosto, peguei o chá e o meu prato com panquecas.
– Café 'tá na mesa! – Anunciou feliz a rosada mãe.
Revirei os olhos sentando ao lado dela.
– Eu amo panquecas – os olhos dourados brilharam quando ela deu a primeira mordida.
Sorri de canto antes de tomar um gole de chá.
Mais uma típica manhã com Sakura e Mina, pensei antes de sentir um olhar em mim.
Ao meu lado direito, na mesa redonda, estava Nisuke que observava tudo com curiosidade e receio.
Devolvi o olhar por um segundo, antes de voltar a comer o meu café da manhã. Ele compreendeu que era hora de comer e não de ficar encarando os outros.
– Hum... Ni-kun! – Chamou a pequena eufórica se lembrando de algo. Franzi o cenho para o –kun no final do apelido e olhei para Sakura que só ria divertida, devolvendo-me um olhar de canto. – Tigre e cobra é assim? – Mostrou os selos.
– Estão trocados, Mina – falou com calma depois de engolir uma fatia. – No selo do tigre os indicadores ficam para cima – mostrou o selo certo para a menina que olhava com admiração – já no cobra, os indicadores ficam iguais aos outros dedos – mostrou a diferença.
– Ah... agora eu entendi – Mina perguntou algo para Nisuke que eu não notei, pois senti a mão esquerda de Sakura cair sobre a minha perna, acariciando com o dedão, o tecido da minha calça, para chamar a minha atenção.
Olhei para a mulher que sorria feliz e encantada para as duas crianças, antes de voltar seus grandes olhos verdes e brilhantes para mim.
Divertida, ela aproximou o rosto do meu e sussurrou:
– Me enganei. Esse talento de explicação ele não deve ter herdado de você – piscou um olho e eu acabei sorrindo de canto para a provocação.
– Sabe que estou começando a achar que Mina é seu clone perfeito, até mesmo a demora para entender as coisas, está parecido.
A boca entortou enquanto ela dava um leve tapa na minha perna.
– Até onde eu me lembre, você elogiava muito a minha inteligência, Uchiha – falou convencida.
– Pois é, estou revendo meus preceitos – sorri um pouco mais, até perceber o silêncio que o cômodo tomou.
Eu e a rosada desviamos os nossos rostos próximos para encarar nossos filhos nos encarando em silêncio.
Mina tinha um grande sorriso sapeca no rosto, enquanto os negros de Nisuke, estavam arregalados de surpresa.
– Éééé... Hora da Academia, Nisuke-kun! – Pulou eufórica da cadeira.
– Mas ainda nem deu aiii... – puxou o garoto pelo braço, fazendo-o cair. – Calma, Mina – pediu levantando-se, ajeitando os óculos desajeitados.
– Desculpa, Ni-kun – pediu doce – mas é que eu me lembrei que havia prometido chegar mais cedo para falar com o Boruto-kun e... – olhou para nós dois. – Ah, eu te explico no caminho – puxou novamente o garoto para fora da porta. – Tchau mãe, tchau tio Sasuke!
– Tchau. Obrigado por tudo – gritou o garoto que já havia sido empurrado para fora do apartamento.
Mina deu um último sorrisinho, antes de fechar com força a porta.
Fiquei um tempo encarando a porta, sem entender nada, até que um suspiro alto de Sakura, fez-me encará-la.
– Crianças – resmungou cruzando os braços, enquanto seu rosto balançava levemente.
Olhei para os restos de panquecas no prato das crianças e eu também suspirei.
– Você parece bem. A louça é sua! – Anunciei voltando a comer.
– Nossa... que grande cavalheiro você é, Sasuke! – Debochou.
Eu apenas dei de ombros, abocanhando mais uma fatia, mas Sakura saiu correndo e eu sabia o que viria a seguir.
O som da descargar foi audível.
– A louça é sua, eu vou descansar! – Gritou do banheiro.
– Droga...
Continua...
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Por Kami! Por God! Por Odin! Leiam as Notas Finais!
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