A Filha da Minha Melhor Amiga
6 Meu Melhor Erro
Notas iniciais
Caminhávamos silenciosamente pelas ruas escuras de Konoha, apenas com a companhia do outro. Nenhuma palavra era dita, mas realmente precisava ser dita?
A mensagem era clara, ela não me queria ali com ela.
Mas por que? Essa era a verdadeira pergunta de tudo afinal.
Não vou negar caro leitor, esse pensamento me fazia rir por dentro. Eu ria da minha situação. Porque é tão risório minha situação que eu não me aguento.
Há oito anos eu nunca imaginaria vivenciar uma situação dessas.
Admito, odiava o jeito idiota da antiga Sakura!
Ela sempre chegava perto de mim com um sorriso nos lábios e olhos brilhantes na expectativa de que algum dia eu iria dizer que correspondia seus sentimentos. Eu só conseguia pensar em uma coisa naquela época sempre quando a via...
Iludida!
Sim, ela se iludia. E era mais idiota ainda por não desistir de sua ilusão.
Mas hoje a olhando eu sei que ela desistiu de sua ilusão e entende que ela era uma garota idiota que não entendia sobre as dores da vida naquela época. Talvez tenha sido bom ela ter se casado e ido embora de Konohagakure no Sato, só talvez.
Porém, essa mudança me traz problemas. Seria tão mais fácil fazer aquela antiga Sakura tagarela falar o que eu queria saber e ouvir. Essa, no entanto, do jeito reservada e silenciosa, não faria que meu trabalho fosse facilitado, teria que ser eu o iniciador e estimulador das conversas. Teria que articular de forma que ela me contasse e não desconfiasse de meus verdadeiros objetivos, o que não seria nada fácil devido a destreza que essa Sakura tinha para enxergar segundas intenções onde tinha, coisa que antigamente ela não tinha em relação a mim, porque suas habilidades ninjas eram ofuscadas pelos inúteis sentimentos que ela nutria por mim.
Tsc, uma grande e idiota iludida irritante!
Eu a olhava pelo canto do olho algumas vezes, mas ela permanecia inalterada em sua postura altiva com os olhos focados no caminho. Seus braços e pernas se movimentavam de maneira lenta e calculada a medida que andava. Ela não olhou para mim nenhuma vez sequer. Nada a alterava.
Ah, caro leitor! Ao ser iluminada pela luz da lua, seus olhos sérios ficavam com tonalidades cinzentos, o cabelo rosa com tonalidade prateado e a pele aparentava ser mais alva que já era. Eu não poderia negar, ela estava linda!
Não, não, não caro leitor. Não se iluda! Não seja uma segunda Sakura de 16 anos! Não é pelo fato que eu a tenha achado bonita que eu esteja começando a me apaixonar por ela.
Não caro leitor! Isso não é um dos seus romances, onde o bad boy se encanta pela mocinha, eles se envolvem e vivem felizes para sempre! Não, não, não caro leitor! Essa é a vida real, contos e romances não existem. São meras formas de fuga da realidade cruel que os homens descobriram para se refugiar e sonhar com um mundo ideal que não existe! Essa é a vida real e o fato de tê-la achado bonita não significa nada! São meros hormônios respondendo a estímulos.
– Chegamos – comentou Sakura tirando-me dos meus devaneios.
– Hn.
Olhei para o prédio cinzento à luz da lua. Uma luz estava ligada no terceiro andar, mas desligou rapidamente.
– É a minha filha – explicou – deve ter ficado me esperando até agora sem conseguir dormir. É melhor eu entrar.
Dito isso ela começou a caminhar em direção a entrada do prédio.
O que mais me surpreendeu não foi o fato da filha dela tê-la esperado, nem nada do tipo. Não ligo para filha dela ou qualquer outra coisa. O que me surpreendeu foi o fato das palavras de Sakura terem me dado um forte déjà vu.
Tudo aconteceu no dia do aniversário de Sakura de 18 anos. Para quem não sabe, ela é a mais velha entre nós três do time 7. Ela faz aniversário em março, enquanto que eu sou de julho e Naruto de outubro.
Naquela época, logo após a guerra e meu retorno à vila, nós três começamos a sair várias vezes juntos para jantar ou fazer qualquer outra coisa. Por ser seus 18 anos ela queria passar seu aniversário de maneira diferente, com seus amigos ao invés dos seus pais.
Então saímos para jantar juntamente com os outros shinobis que tinham a nossa idade e nossos senseis. Eu odiei a ideia, para me convencer a participar da reunião Naruto e Sakura haviam dito que seria só nós três e Kakashi e nem assim eu queria ir. Naruto me arrastou para fora de casa e para ser menos humilhante eu aceitei ir.
Sakura nos recebeu com um grande sorriso na porta do Churras Q. Ela vestia uma saia preta justa em seu corpo até o meio da sua coxa, sua tradicional blusa vermelha de estilo japonês, um salto baixo preto e seus cabelos estavam soltos, ela estava deixando eles crescerem, já estavam na altura de seus ombros e uma franja começava a se formar no seu rosto.
Todos a parabenizaram e deram presentes, menos eu. Eu não queria estar ali, com aquelas pessoas. Elas ainda não confiavam em mim, era recente minha volta para Konoha, já que tudo aconteceu em outubro do ano anterior. Tudo me incomodava, mas eu aguentei aquelas horas de tortura calado.
Assim que tudo acabou. Eu, Naruto e Sakura andamos por algum tempo juntos até encontrarmos uma maldita máquina de tirar fotos.
Meus companheiros logo ficaram ansiosos para registrar o momento. Até porque só tínhamos a foto do time 7 como foto com nós três juntos.
Odeio tirar foto. Mas eles me forçaram.
Até tirar foto nós três juntos ou só Naruto e Sakura juntos tudo bem, o problema foi quando Sakura pediu para tirar uma foto só comigo. Fechei minha cara e fiz um movimento para ir embora. Os dois porém me agarraram por trás, Sakura enlaçou seus braços na altura do meu peito, enquanto que Naruto segurou minhas pernas para que eu não fugisse.
Em um movimento rápido eles me colocaram em frente à maldita câmera automática. Até hoje eu agradeço pelo fato de estarmos em uma cabine e não a céu aberto. Ninguém viu a minha humilhação de ser rendido pelos dois.
Eu estava com raiva, muita raiva. Não queria fazer aquilo, então quando Naruto fraquejou no aperto das minhas pernas eu dei um forte chute na sua cara que fez ele cair para trás com o nariz sangrando e me xingando. Segurei com minha mão esquerda o braço esquerdo de Sakura pronto para arrancá-la de mim, mas o que ela fez a seguir me fez parar. Ela começou a gargalhar, ela ria tanto da situação de Naruto que pequenas lágrimas formavam-se no canto de seus olhos. Olhei para Naruto e ele fazia biquinho e vários gestos engraçados, mesmo com o nariz sangrando ele não se abalava e fazia graça da situação.
Eu não consegui evitar, sorri junto com eles, mas não como Sakura. Sorri a minha maneira, foi um sorriso de canto e olhei para Sakura que apoiara seu rosto sobre meu ombro direito. Nessa hora ocorreu o flash e a maldita foto foi tirada. Soltei-me rápido e agarrei a foto antes que os dois a vissem, guardei no bolso e sai da cabine o mais rápido possível com os dois no meu encalço pedindo a foto. Eu não dei e eles desistiram. Sakura ficou arrasada pedindo a foto, dizendo que esse era o presente que eu não a havia dado antes. Não recuei, não dei a foto e assim nos despedimos, Naruto foi para a casa dele com intuito de cuidar do machucado e eu e Sakura seguimos em direção à casa dela.
Era bem comum a deixarmos em casa, em geral íamos nós três, porém nessa noite estávamos sozinhos. Passava da meia noite e a rua estava deserta e escura. De maneira incomum Sakura estava calada, eu sabia que ela ainda queria a bendita foto que eu não iria dar.
Uma luz estava acessa no apartamento dos pais de Sakura.
– É melhor eu entrar – comentou, mas assim que nos aproximamos a mãe de Sakura, a Dona Mebuki, apareceu na janela gritando com a filha.
– SAKURA! Olhe a hora, isso é hora de chegar menina? Quando você for independente aí sim você chega a hora que quiser na sua casa. Enquanto morar de baixo do mesmo teto que os seus pais, terá que cumprir horário. Aliás, Uchiha – começou direcionando agora para mim – se você está achando que pode ficar andando com a minha filha por aí a essa hora da noite está muito enganado. Ai de você se fazer minha filha aparecer com um filho nos braços. Firma compromisso com ela, aí sim vocês podem fazer o que bem entenderem!
– MAMÃE! – gritou Sakura exasperada e completamente vermelha.
Franzi o cenho. A mãe de Sakura estava achando que tínhamos algum tipo de relacionamento? E que ainda por cima estávamos fazendo alguma coisa indevida?
– Entendi – respondi a mulher carrancuda que me encarava com um olhar mortal. Após isso ela fechou a janela e desapareceu atrás das cortinas.
Encarei Sakura que ainda estava completamente vermelha e encarava o local onde a poucos segundos a mãe dela estava com a boca aberta. Só depois de algum tempo ela teve coragem para me encarar, mas a coragem se esvaio assim que nossos olhos se encontraram e ela olhou para os seus pés.
– Ai que vergonha. Desculpa por isso, Sasuke-kun. É melhor eu entrar, boa noite – e saiu correndo com a cabeça abaixada em direção a entrada do prédio.
– Você quer casar? – perguntei calmo.
Ela petrificou no lugar e depois de alguns longos segundos ela se voltou com os olhos arregalados na minha direção e mais vermelha do que ela estava.
– O-o quê? – perguntou gaguejando.
– Tsc, Sakura. Eu não estou te pedindo em casamento, não pense besteiras. Só estou perguntando se algum dia você pensa em casar.
– Ah sim – sussurrou absorvendo a informação e voltando levemente ao normal, ficando apenas um pouco corada. Ela continuou sua fala aproximando-se de mim respondendo com um sorriso – Mas é claro que sim, Sasuke-kun.
– Porquê?
– Porque eu não me casaria Sasuke-kun? – indagou.
– Não vejo motivos para casar.
– Casamento não é só um contrato Sasuke-kun, é bem mais do que isso. É uma forma de amor. Casar com alguém, é você dizer que você quer passar o resto da sua vida sendo companheiro daquela pessoa. Antes de ser marido e mulher, eles são companheiros, amigos e confidentes. Um apoia o outro.
– Não me vejo sendo marido e pai de família – admiti em um sussurro.
Ela colocou sua mão direita no meu rosto e falou em um sussurro com um olhar triste:
– Quando você encontrar essa pessoa, você saberá que isso é a coisa certa a se fazer, você se verá pronto para isso. Mas Sasuke-kun, – continuou tirando sua mão do seu rosto. Ela trocou seu peso entre os pés e olhou para o chão – me avisa quando isso acontecer. Quero ser a primeira a saber – finalizou com um sorriso triste, pois sabia que essa pessoa não era ela.
Encarei-a por um tempo em silêncio com o cenho franzido, antes de voltar a indagar:
– Você acha que existe felicidade em casamento?
– Seus pais não tiveram um casamento feliz? – perguntou confusa.
– Tiveram, mas foram tão companheiros que até planejaram o ataque a Konoha e...
– Isso é o de menos – interrompeu movimentando a mão no ar como se isso não importasse.
Sorri, achava incrível como Naruto e Sakura tinham a capacidade de ignorarem o fato de minha família ter planejado destruir a vila deles e eu ter por uma época querido a mesma coisa. Eles não ligavam, diziam que o fato de eu estar ali com eles era mais importante que os fantasmas do passado. Pena que nem todos os moradores de Konoha pensavam assim.
– Tudo bem – disse sorrindo de canto – tentarei encontrar alguém que se encaixe no que você disse. Você vai ser a primeira a saber quando eu encontrar. – ela sorriu de volta – Boa Noite, Sakura.
Virei de costa e comecei a andar, mas...
– Boa Noite, Sasu...
Ela não conseguiu terminar a frase. Sakura tinha caminhado na minha direção com a intenção de depositar um beijo na minha bochecha direita, mas eu virei o rosto em sua direção.
Esse foi meu erro. Mas estaria mentindo se dissesse que foi o pior dos meus erros. Posso dizer que esse foi o Meu Melhor Erro.
Nossos lábios se encontraram e assim ficamos. Não fechamos os nossos olhos, ficamos nos encarando, esmeraldas contra onixes. Enquanto ela estava vermelha com os olhos arregalados, eu só franzi o cenho.
Segurei o rosto dela entre as minhas mãos e afastei nossos lábios com um estalo baixo.
Aquele era o meu primeiro beijo com uma garota e tinha sido por acaso, POR ACASO!
Já não bastava ter meu primeiro e segundo beijo com o Naruto, agora eu tinha beijado Sakura por acaso?
Qual era o meu problema afinal?
Por que essas coisas aconteciam comigo?
Será que eu gostaria de me lembrar anos depois que o meu primeiro beijo tinha sido com Sakura, sendo ele um simples toque de lábios e ainda por cima por acaso?
– Sa-sasuke-kun, desculpe-me – gaguejou incrédula tentando achar uma maneira de se explicar – e-eu...
Não permiti que ela continuasse a falar. Rompi nossa distância e uni novamente nossos lábios, mas não em um simples toque de lábios, agora era um beijo mais profundo.
Sakura ficou com os olhos arregalados no início e sem reação, mas depois ela se entregou ao momento e principalmente a mim.
Aprofundei ainda mais nosso beijo inserindo a minha língua em sua boca que me dava passagem. Minhas mãos que estavam segurando seu rosto movimentaram-se. Posicionei minha mão esquerda em sua nuca forçando nossos lábios a ficarem os mais próximos possíveis, enquanto que com a direita contornei o seu corpo até chegar na altura de sua cintura onde a contornei aproximando o seu corpo ao meu.
Sakura com as mãos trêmulas segurou minha camisa na altura de meu peitoral.
Como eu estava me aproximando de 1,80m e ela tinha seus 1,65m, tinha que me curvar para saborear ainda mais da boca que a cada segundo me dava mais passagem.
Afastei nossos lábios para recuperarmos o fôlego.
– Sasu...
– Shhh – coloquei meu dedo direito sobre seus lábios para calá-la. Segurei seu pulso direito com a minha mão esquerda e a puxei para um beco escuro ao lado do prédio onde ela morava.
Assim que entramos no local escuro, empurrei Sakura contra a parede e a beijei novamente, agora nossos lábios estavam mais sincronizados e experientes.
Segurei-a na altura da cintura, apertando-a entre mim e a parede.
Ela contornou os braços pelo meu pescoço e agarrou os fios do meu cabelo rebelde com mais força, puxando-os levemente a medida que nosso beijo ficava mais rápido e ardente.
Gemidos de lábios e salivas sendo tocados e trocados ficavam cada vez mais altos, mas estávamos sozinhos naquele beco escuro de uma noite de março, então a cada segundo que se passava as carícias e toques ficavam mais intensos e desinibidos.
Ergui Sakura levemente e ela entendeu meu recado contornando suas pernas na minha cintura. Com o movimento sua saia ergueu-se deixando a mostra as partes que antes ela escondia só que a garota não se importou.
Mordisquei e puxei seu lábio inferior inchado pelo meu beijo enquanto deslizei minhas mãos pela sua perna desnuda parando o movimento em suas nádegas. Sakura suspirou de prazer assim que as apertei.
Naquele momento eu descobrir que a desejava. Aquela foi a primeira vez que eu desejei uma mulher.
Ah caro leitor! Não se engane, não se iluda. Desejo não é amor. Desejo é apenas uma resposta hormonal. Ninguém poderia nos julgar por estarmos juntos daquela maneira. Isso era algo inevitável e esperado. Éramos companheiros de time, convivíamos muito juntos e ela dava em cima de mim. Essa era a equação quase certeira que acabaríamos mais cedo ou mais tarde em um beco escuro como esse.
Enquanto eu sentia apenas desejo. Sakura por meio de seus beijos me transmitia tudo, amor, paixão, dor, desespero, saudades, enfim, tudo o que ela poderia me transmitir.
Eu a desejei de tal maneira que era insuportável não sucumbi a ele. Eu queria romper com todas as barreiras que nossas roupas colocavam entre os nossos corpos suados e excitados. Eu queria leva-la para minha casa e jogá-la na minha cama e desfrutar de todas as sensações que ela queria me proporcionar.
Mas eu sabia que se sucumbisse, talvez nem esperássemos chegar em casa. Sakura estava tão entregue que se entregaria ali mesmo naquele beco.
No entanto, pelo fato de ser unilateral o sentimento, vindo a paixão só de Sakura, julguei injusto usá-la para depois descartá-la. Por esse motivo não sucumbi.
Ah, caro leitor! Como naquela época eu era ético, hoje, porém, não me importo com trivialidades como essa.
Nossos movimentos eram urgentes. As costas de Sakura raspavam na parede de cimento irregular devido aos nossos movimentos de sobe e desce.
Desgrudei nossos lábios e chupei seu pescoço abaixo de sua orelha esquerda e ela gemeu alto ofegante.
O ar nos faltou e precisamos recuperá-lo. Encostei meu queixo no ombro esquerdo dela, assim como ela. Nossas respirações eram fortes e profundas tentando resgatar o ar que nos privamos por um longo tempo.
Ela continuou com as pernas cruzadas em torno de mim, apertou mais seu abraço me aproximando dela e acariciou levemente meus cabelos.
Fechei os olhos e encostei minha testa suada na parede absorvendo as sensações. Eu era capaz de sentir seu coração palpitando forte no peito e sua respiração descontrolada roçar a minha nuca.
Ficamos ali parados abraçados até eu sentir o tecido da minha blusa na altura do meu ombro ficar encharcada. Sakura estava chorando.
Suspirei.
– Não se iluda – sussurrei.
Sakura ficou tensa e parou de acariciar meus cabelos, no entanto as grossas lágrimas continuaram a cair.
Afastei meu rosto para olhá-la.
Ela tinha o olhar vidrado, sua boca estava semiaberta mas nenhum som saia de lá, os únicos movimentos nela eram das lágrimas que saiam sem permissão de seus olhos.
– Não se iluda. Um beijo não significa nada – disse frio olhando-a nos olhos.
Seus braços fraquejaram e caíram ao lado do seu corpo. Suas pernas deixaram-me e se apoiaram no chão de terra fria. Ela espalmou as mãos contra a parede numa tentativa falha de se manter em pé.
– Então porquê? – perguntou chorosa em um soluço.
– Porque deu vontade – respondi virando rosto em direção à rua que estávamos anteriormente. Eu não estava afim de ver mais uma vez as lágrimas dela, mas era impossível não ouvir os soluços baixos que ela tentava impedir que saísse de seus lábios – Considere isso o seu presente de aniversário – um soluço surpreso rompeu alto de sua boca – Boa Noite.
Caminhei sem olhá-la em direção a saída daquele beco.
– Sasuke-kun – chamou-me com uma voz baixa.
– Sim – respondi parando o andar ainda de costas.
– Guarda a foto.
Suspirei.
– Estava pensando agora mesmo em formas de dar o fim nela.
– Se você não quer, então me der ela. Eu acho que tenho um porta-retratos sobrando mesmo.
Ficamos em silêncio antes de responder voltando a caminhar sem olhá-la uma vez sequer.
– Leve o porta-retratos amanhã para o meu apartamento, eu vou ficar com a foto.
Eu sabia que ela sorria, eu não precisava olhá-la para saber. Fui embora tentando ignorar o que havia acontecido.
Hoje, estávamos novamente na mesma situação. Eu deixando ela em casa, mas agora 9 anos depois ela tinha uma filha e era viúva.
Em um movimento impensado segurei seu pulso esquerdo com a minha mão direta, impedindo que ela continuasse o seu caminhar.
Ela me olhou surpresa, mas logo seu olhar foi substituído por um repreendedor que alternava seu foco de nossas mãos para os meus olhos.
– Parece que as coisas nunca mudam – comentei com um sorriso de canto – sempre tem alguém te esperando. Sakura, nem mesmo adulta você não tem liberdade de horários.
Por um segundo vi seus olhos ficarem sem foco, eu sabia, ela estava se lembrando da noite que eu acabara de me lembrar, porém seu olhar logo voltou a ficar frio e focado em mim.
– Se você tivesse filho entenderia – disse virando-se de costas.
– Mas eu tenho um filho – comentei ainda sorrindo e segurando firme seu pulso.
Sakura paralisou no lugar e ficou tensa. Ela voltou o seu olhar para mim. Nenhuma palavra saia de sua boca, mas eu sabia que ela estava surpresa e não sabia dessa informação sobre mim.
– Esperado – respondeu laconicamente depois de um longo silêncio.
– Esperado?
– Sim, esperado. Você queria reconstruir seu clã, nada mais do que lógico que você tivesse filhos. E esse é mais um motivo para você me largar e ir embora, seu filho e sua mulher devem estar preocupados te esperando em casa.
– Eu não sou casado. – ela franziu o cenho – Nem separado. Nem viúvo. Nem nada do que você deve estar pensando.
– Isso é problema seu, não meu.
– Você não estar curiosa para saber quem é a mãe?
– Não – ela fez menção de se virar de costas, no entanto eu a segurei mais forte.
– Karin – ela franziu o cenho.
– Outra coisa esperada – disse ácida já com raiva do meu toque que a apertava com força.
– Nada além de um estorvo. Nada além de um erro. – sussurrei. Eu não sabia onde eu queria ir com aquela conversa, só sabia que estava a testando, testando suas emoções e ações, mas ela se mantinha firme – O menino deve ter a idade da sua filha.
– Deve ter?
– Não sei ao certo – dei de ombros – não faço questão dele.
Ok, esse foi o estopim. Se Sakura se mostrava imparcial a tudo, saber da minha indiferença com o meu próprio filho trouxe muita raiva para os seus olhos.
– O que? Não faz questão? Que tipo de pai é você Sasuke? Quer saber, você não serve mesmo pra ser pai de família, nem nunca será. – disse entre dentes – Sinto pena de você, é tão azedo que não existe uma pobre alma que te aguente. – comentou com um sorriso cínico debochando – Não sei se sinto mais pena de ti ou do seu filho de ter o azar de ter você como pai. Agora me solte – disse a última frase puxando o braço com força, mas eu petrifiquei no lugar segurando-a mais fortemente.
– Vai pagar por ter dito isso, Sak...
– Mamãe? – uma voz sonolenta infantil nos interrompeu e eu soltei Sakura rapidamente, mas não desgrudamos nossos olhares – Aconteceu algum problema? Você está demorando para subir.
– Não aconteceu nada, Mina. Sasuke só está se despedindo. Dê boa noite pro seu tio Sasuke – comentou a última frase com um sorriso irônico que só eu poderia ver.
– Boa Noite, tio Sasuke.
Desviei momentaneamente meu olhar para a garota com um vestido longo branco de dormir. Ela sorriu amigavelmente para mim. Eu não deveria estar com uma cara amistosa, mas isso não a abalou.
Voltei meu olhar para Sakura antes de me virar e ir embora para minha casa sem me importar de me despedir.
Entrei no meu grande apartamento localizado no centro da vila onde eu vivia sozinho. A escuridão e o frio o envolvia. Tirei meus sapatos e joguei minha camisa sobre o sofá. Uma garrafa de sakê bebida pela metade estava sobre a mesa de centro da sala. Caminhei até ela e a virei, mas o líquido desceu pela minha garganta mais amarga do que eu me lembrava da última vez que a bebi.
Dei mais um gole antes de olhar para a estante onde alguns porta-retratos empoeirados que usualmente nem prestava atenção e nem fazia questão que ficassem ali estavam, mas eram fotos que foram colocadas por outras pessoas e que eu sempre deixava para retirá-las outra hora.
Entre elas estava uma foto da minha família quando eu era pequeno, outra era do time 7, outra minha com o Naruto em seu casamento, na qual eu fui o padrinho e havia uma última foto escondida ao fundo e empoeirada.
A peguei e levei para a cozinha ainda bebendo o sakê. Com um pano eu limpei o objeto que revelou uma imagem minha com Sakura. Era a foto que havíamos tirado nos seus 18 anos.
Nela via-se Sakura com os braços em torno de mim com a cabeça apoiada no meu ombro direito e um grande sorriso amigável no rosto, seus olhos com pequenas lágrimas nos cantos encaravam a câmera. Eu por outro lado segurava o braço esquerdo de Sakura com a minha mão esquerda. Não olhava para a câmera, eu olhava para Sakura com um sorriso de canto e um olhar com um brilho de felicidade.
Joguei o maldito sakê amargo no ralo e deslizei pelos armários até me sentar no chão gélido da cozinha encarando a foto me perguntando continuamente:
O que aconteceu para mudarmos tanto?
Continua...
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