A Filha da Minha Melhor Amiga
7 Dores Infantis
Notas iniciais
Informações importantes nas notas iniciais!!! Leiam, se não vocês não entenderão o capítulo!
.
Ela se concentrava no ranger baixo do movimento monótono e discreto do balanço de baixo da árvore no pátio comum da Academia Ninja de Konohagakure no Sato.
As mãos de Mina seguravam frouxamente as cordas desgastadas daquele balanço, seus cabelos longos e soltos movimentavam-se de acordo com a melodia do vento, fazendo com que alguns fios rosados emaranhassem-se, mas principalmente escondendo seus olhos tristes e baixos que encaravam suas pernas infantis balançando levemente no ar por não alcançarem o chão.
Tudo era tão estranho, tão novo e inesperado para aquela pequena criatura.
O choro pedia passagem, mas sempre que olhava para sua mãe ela via o quanto ela estava sendo forte pelas duas, seria injusto ela chorar na hora que deveria ser forte.
Ela havia sonhado na noite anterior com seu pai. Ela via aqueles olhos castanhos claros brilhantes semelhantes aos seus chegando em casa, na casa que eles moravam em Iwagakure.
Como sempre, depois que ele chegava de uma longa missão e avistava ela, um sorriso surgia em seu rosto e dizia um “Oi minha pequena pétala de cerejeira”.
Ela não acreditava no que via, ele ali na sua frente parado no batente com os ventos balançando seus cabelos castanhos escuros desgrenhados possivelmente devido a uma batalha. Foi inevitável, todas as lágrimas, toda a dor, todos aqueles sentimentos misturados e conturbados que ela guardava para si desde o dia que viu o corpo inerte de seu pai em cima da grande mesa da sala de jantar com sua mãe e alguns dos seus subordinados ANBU ao redor, tudo, tudo veio à tona.
Ele. Era ele. O seu pai. Vivo e bem.
– PAPAI! – gritou entre lágrimas se jogando nos braços dele.
Atordoado o pai da menina retribuiu o abraço apertado e desesperado da menina afagando os longos cabelos rosados que ela havia herdado de sua mãe e que ele tanto amava.
Agachado para ficar na altura da pequena menina de olhos vermelhos, ele beijou o topo da cabeça de sua cria absorvendo o cheiro do shampoo floral que ela usava e lhe dava o ar mais primaveril. Olhou nos olhos dela, de onde não parava de cair grossas lágrimas, algo incomum para uma menina tão doce que sempre sorria.
– Porque choras flor? – perguntou enxugando algumas lágrimas com seus polegares.
– Eu vi você morto – admitiu entre soluços que não cessavam e ela tentava inutilmente reprimir. Mas a dor e a felicidade de ver aquele homem ali na sua frente inutilizavam todas as tentativas. Era impossível não liberar aquele sentimento reprimido.
Por Kami! Ela só tinha 7 anos. Isso era muito para uma criança aguentar!
– Foi apenas um sonho ruim – sussurrou com um pequeno sorriso no rosto – eu sempre estarei aqui minha menina. Eu nunca vou te abandonar.
Os soluços voltaram mais violentamente. Ela agarrou suas pequenas mãos nas vestes ninjas de seu pai na altura do peitoral e afundou seu rosto absorvendo cada sensação, cada cheiro vindo daquele homem. Ele a envolveu e afagou seus cabelos carinhosamente. O cheiro de terra molhada dele enchia os pulmões da pequena. Aquela foi a última lembrança antes do sonho se desfazer em uma nuvem de fumaça.
– Mina, Mina – chamava sua mãe balançando a pequena.
Mina abriu lentamente os seus olhos marejados e focaram na mulher à sua frente que a encarava com o semblante preocupado.
– Mamãe – sussurrou com a voz embargada.
– Você estava gritando e chorando desacordada – comentou enxugando as lágrimas da menina.
– Eu sonhei com o papai – admitiu com o olhar baixo.
Ela sentiu sua mãe ficar tensa e seus carinhos pararem. Levantou o olhar e visualizou Sakura com o olhar sem foco, talvez pensando em seu pai, imaginou a menina.
Sakura levantou-se da cama de solteiro da menina e andou até a porta e só falou assim que segurou a maçaneta sem olhar para trás nenhuma vez.
– Apenas tente descansar – suspirou antes de voltar a falar – amanhã você irá para a Academia e iniciará sua nova vida. Vai ficar tudo bem, eu estou aqui e sempre irei estar.
Dito isso, ela saiu do quarto deixando sua filha novamente sozinha com as dores que ela tentava suprimir.
Não era justo. Ela sabia e pensava nisso enquanto olhava para o chão de terra da Academia. Não era justo com a sua mãe ela chorar, sua mãe também havia perdido ele, também teve que mudar sua vida, teve que enfrentar o passado e as pessoas que a olham torto. Ela era uma criança, mas sentia a represália dos olhares desconfiados que os adultos e até as crianças da Academia ao verem seus cabelos rosas, lhe lançavam. Eles se lembravam dela, se lembravam de Sakura.
Ela não sabia o porquê, era muito jovem para entender assuntos adultos de um passado distante que ocorreu em uma época que nem ao menos ela existia.
As crianças não se aproximavam. A olhavam de longe, cochichavam coisas inaudíveis para seus delicados ouvidos ou simplesmente a ignoravam.
Solidão.
Era tão estranho pensar nessa palavra logo depois de seus pais dizerem que estariam sempre com ela. Mas pensar nisso só a fazia se sentir mais sozinha.
– Oi – uma voz ressoou à sua frente tirando-a de seus devaneios. Ela levantou o olhar e focou em um menino loiro de sua idade com olhos azuis e risquinhos no rosto ao redor de seu grande sorriso.
– Oi – respondeu contrariada.
– Meu nome é Boruto. Uzumaki Boruto. Mas pode me chamar de Bolt – sorriu mais abertamente – qual é o seu?
– Mina. Yoshito Mina.
– Bonito nome. – disse tímido – Então Mina. Meu pai falou de você. Você é filha da tia Sakura, não é?
– Sou.
– Sou filho do Uzumaki Naruto. – falou alegre – É, eu percebi – recomeçou receoso olhando ao redor – que as crianças te olham diferente.
– Elas não gostam de mim, não é? – perguntou com o olhar baixo.
– Não, não, não – começou desesperado balançando as mãos na sua frente – não é por isso não. Olha ao redor, elas também olham para mim assim.
Mina olhou ao redor e era verdade, para ambos eles olhavam diferente e Bolt parecia ser sozinho assim como ela naquele lugar.
– Porque?
– Porque eles têm medo da gente. Na verdade não é medo. Só receio. Por causa dos nossos pais, eles nos acham diferente.
– Nossos pais?
– Sim o meu pai, a sua mãe e o tio Sasuke.
– Qual o problema?
– Eles são muito poderosos. Foram considerados heróis de guerra, mas isso só faz que nós, os filhos, sejamos mais cobrados e considerados diferentes.
– Heróis de guerra? – aquilo não encaixava na sua cabeça infantil associada a sua mãe. Desde quando sua mãe era uma heroína de guerra? Tudo bem que ela sempre viu os outros a respeitarem, mas ela nunca falou sobre seu passado para ela, sobre Konoha, sobre sua vida ninja e muito menos sobre ser heroína de guerra. Porque? Indagava-se.
– Sim – respondeu confuso o garoto – você não sabia?
– Ah, sim, é claro que eu sabia. Ela me contou algo do tipo uma vez – ela mentiu, não queria ser questionada quanto a isso pelo garoto. Ela tentaria descobrir mais sobre o passado de sua mãe, mas por si só. Tentaria entender melhor a mulher que a aninhava e cantava músicas de ninar para ela quando era pequena – foi só um lapso de memória – forçou um sorriso e o garoto caiu na mentira – é que eu nunca tinha visto isso de perto. Essa reação das crianças.
– É porque a memória sobre eles é mais forte aqui em Konoha já que eles moram aqui e são pessoas importantes. Tio Sasuke, por exemplo é capitão da ANBU e o meu pai é o cotado a ser o futuro Hokage – Mina assentiu atenta a todo detalhe que lhe era dado – Você quer ser a minha amiga? – perguntou envergonhado.
Mina arregalou os olhos. Não esperava aquilo. Para falar a verdade ela nunca teve amigos da sua idade. Sempre viveu praticamente presa dentro da grande mansão que morava na parte campal e isolada de Iwagakure. Mas olhando para aquele garoto sorridente a sua frente que lhe oferecia companhia e entendia o que era ser vítima daqueles olhares ela se sentiu tentada a ceder.
"Amanhã você irá para a Academia e iniciará sua nova vida", a voz de sua mãe ressoou em sua mente. Uma nova vida. Bolt poderia fazer parte dela.
– Claro – respondeu sorridente. Um sorriso verdadeiro e bonito, o mesmo que Sakura mostrava aos seus amigos quando era mais nova, tão bonito que Bolt corou levemente o encarando – Algum problema? – perguntou confusa.
– Não, não – disse rapidamente – Bom já que somos amigos eu posso te apresentar um amigo meu. Ele é como a gente.
– Existe mais um como a gente?
– Na verdade, além dele, eu tenho uma irmã só que ela é tão doce que todo mundo se derrete por ela ao invés de encará-la – comentou emburrado e Mina riu do comentário.
– E quem seria esse seu amigo?
– O filho do tio Sasuke – comentou sorrindo – eu vou busca-lo, eu já volto.
Assim que terminou de proferir as palavras, ele saiu correndo em direção ao prédio que eles estudavam, deixando uma Mina confusa mas feliz. Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, sorriso este que ela pensava que ninguém observava, porém um par de ônix a observava sentado em sua carteira na sala através das janelas.
Ele estava sozinho na sala, tinha escolhido ficar estudando na sala durante o intervalo. Não gostava de ficar no meio daquelas crianças que sempre o encaravam estranho, mesmo Bolt gritando a plenos pulmões que eles eram uns idiotas invejosos, uma tentativa falha de fingir que aqueles olhares não o atingiam, mas o moreno sabia que seu amigo loiro sofria com aquilo e ele mais ainda por ser vítima de vários comentários referentes ao seu pai ex-nukenin que nem sequer queria saber de sua existência.
Doia. Ele admitia para si. Doia ser repudiado pelo pai, vítima dos olhares repreendedores da vila e mais ainda por ser um completo estranho em sua casa no meio de seus quatro meios-irmãos filhos de sua mãe, Karin, com o seu padrasto Suigetsu.
Ele não odiava ou sentia ódio por algum deles, na verdade os amava, queria que fossem felizes. Até mesmo seu pai que mal via ele queria que fosse feliz, que saísse da vida que cada dia mais que passava se afundava. Sim, ele sabia pelos comentários de seus pais de criação que seu pai não levava uma vida de flores, que era sozinho e assim queria permanecer.
Mas, mesmo querendo o melhor para aquelas pessoas que só o olhavam com desprezo, isso não o impedia de se sentir excluído e abandonado.
– NII-SAN! – gritou Bolt entrando correndo e ofegante na sala de aula, deparando-se com o moreno tão semelhante a pai, diferenciando-se apenas no fato dele ter os cabelos negros sem o tom azulado do pai, uma franja, algo que o pai não tinha mais e grandes óculos de grau preto quadrado, observando a rosada – Hn. Sabia que você já estava observando ela – disse maliciosamente.
– O quê? Não. Eu não estou observando ninguém – disse levemente corado e envergonhado olhando para o amigo.
– Você não quer conhece-la? – perguntou sentando-se ao lado do amigo.
– Bolt, eu tenho que estudar e você deveria fazer o mesmo – disse virando-se para o livro a sua frente com a tarefa do dia – não tenho tempo para isso.
– Nii-san – sim, Bolt o considerava seu irmão – ela é como a gente.
O moreno olhou ao redor da sala vazia e voltou a observar a menina solitária de cabelos rosas e cabeça baixa no balanço que pelas histórias que conhecia era onde seu padrinho, Naruto, costumava ficar.
– Tudo bem – foi só o que disse antes dos dois saírem calados da sala.
Mina encarava suas pernas enquanto esperava o loiro. Ela não tinha coragem de levantar o olhar e ter que encarar o olhar das outras crianças. Mas ela levantou com um grande sorriso no rosto ao ouvir chamarem de maneira estridente seu nome.
Encarou o loiro e logo seu olhar divagou para o menino moreno de mesma idade que ela um pouco mais contido e quieto ao lado do amigo.
Ela não pode deixar de observar o quanto ele se parecia com o seu tio Sasuke. Era bonito, igual ao tio. Ela riu internamente com esse pensamento. Mas havia alguma coisa em seu olhar que chamava sua atenção para ele, era a falta de brilho, a perda de foco nas coisas ao redor. Era o mesmo olhar que ela observava no seu reflexo no espelho sempre que acordava depois de um pesadelo.
Era o olhar da dor. O olhar do sofrimento. O olhar da solidão.
Era magnético. Mina sabia o que era a dor, mas aquela criança parecia sofrer mais do que ela, o olhar dela era momentâneo, só após o pesadelo, o dele era constante. A vida dele era o seu próprio pesadelo.
Ela sorriu, sorriu com compaixão. Ela era sensitiva, sabia ver as dores dos outros. Seu pai sempre lhe dizia que ela tinha um dom, o dom de ver através de falsos sentimentos estampados em seus semblantes e outro maior ainda de tentar compreender e ajudar o próximo sem julgar seus motivos.
Uma menina doce, tão doce. Que não merecia sofrer, não merecia seus pesadelos e seus medos!
Ele corou ao ver o sorriso que ela lhe mostrava. Um sorriso só para ele, só dele e de mais ninguém.
Alguma vez na vida alguém lhe sorriu assim?, perguntou-se. Foi inevitável, ele retribuiu com um pequeno sorriso de canto envergonhado.
– Oi, você deve ser a Mina. Bolt só fala de você agora – comentou apontando para o amigo que praguejou fazendo a garota rir, mas nunca desviando seu olhar dele – Prazer, meu nome é Nisuke. Uchiha Nisuke.
Continua...
Fale com o autor