A Filha da Minha Melhor Amiga
24 Lembranças
Notas iniciais
Leiam as notas iniciais e finais!
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No dia seguinte acordamos cedo, nos arrumamos e tomamos café da manhã antes de partir em busca da erva.
Mina estava eufórica, nem parecia que havia tido uma noite ruim de sono.
Sua animação contagiava todos ao redor, não demorou muito para que os outros hospedados e até os trabalhadores do local se apaixonassem pela menina alegre e bondosa
Tinha vontade de rir toda vez que escutava um "Nossa! Você e sua mulher devem ter muito orgulho de ter uma filha amável como ela!?". Sempre respondia com um mínimo sorriso de canto e um assenti leve concordando. Já estava pegando a manha da mentira e não parecia mais tão estranho chamá-la de minha filha.
Não preciso nem dizer que foi um excesso de melodramaticidade a despedida. Fizeram a pequena prometer que um dia voltaria para visita-los.
Bufei quando a menina começou a partir ao meu lado fungando triste pela separação, mas assim que adentramos a floresta do País da Grama, um olhar admirado para os imensos cogumelos se fez presente em sua face.
– Ok, e agora aonde está essa erva? – Perguntei parando de andar.
– Bom, de acordo com as descrições feitas pela minha mãe, é em um local bem próximo de onde estamos – falou lendo o livro aberto.
Nessa hora senti um chakra vindo em nossa direção de galho acima do nosso.
Peguei Mina no colo e pulei para longe do rapaz loiro de olhos azuis que pousara empunhando uma kunai onde antes estávamos.
– Quem são vocês? – Perguntou raivoso olhando para nós dois.
Olhei confuso para Mina que me encarou ainda mais intrigada que eu.
– Você que nos ataca e ainda vem perguntar quem nós somos? – Perguntei frio ainda segurando a criança nos meus braços – Acho que essa pergunta é minha.
– Não sou eu quem está entrando em um território particular. Vão embora!
– Não mesmo! Eu preciso e vou passar para pegar a erva – disse com raiva a menina.
– E quem vai me convencer a deixar? Você? – Debochou da criança.
– Não, mas eu vou – ameacei.
– E quem é você? A babá?
– Não. Eu sou o pai dela! – Falei tão ameaçadoramente ativando o meu sharingan que fiz o jovem adulto tremer de medo.
Antes que continuássemos com a discussão um ancião se aproximou a passos lentos de nós três.
– Inochito, que confusão é essa? – Perguntou o de cabelos grisalhos.
– Esses dois querem invadir a nossa casa – respondeu Inochito.
– Não queremos invadir nada não! Só estou de passagem e vim colher uma erva! É crime agora colher uma erva em floresta pública? – Resmungou a tagarela da criança que não parava quieta nos meus braços fazendo-me coloca-la de volta no chão.
– Ei pirralha, mostre mais respeito ao Inorito-sama! – Exclamou o loiro.
– E você pela minha filha!
– É isso aí, se você se meter comigo, meu pai te mete a porrada! – Ergui uma sobrancelha para a pequena. Agora ela estava comprando até briga para eu resolver?
– Cabelo rosa e olhos vermelhos – disse pensativo o ancião nos avaliando – Faz muitos anos que eu não vejo uma pessoa de cabelos rosas.
– Pera lá, você conhece a minha mãe? Você conhece Haruno Sakura?
– Agora eu sei o porquê de vocês serem tão semelhantes – sorriu minimamente o ancião – Sim, eu a conheço! Anos atrás ela veio até o meu recinto interessada nas minhas ervas medicinais.
– Então, então, você pode nos ajudar a encontrar a erva da lua – falou eufórica a menina dando pequenos pulos.
– Eu não preciso encontrá-la. Eu as planto.
– Então você pode nos dar um pouco? – Perguntei.
– Não.
– O QUÊ? – Perguntou chocada a menina.
– Eu pagarei o preço que você estipular, mas eu preciso dessa erva! – Falei começando a entrar em desespero por mais que não transparecesse externamente. Não poderia ter chegado até ali para morrer na praia.
– Não sou movido a dinheiro!
– Mas você conhece a minha mãe, é para ela que viemos busca-la! Ela precisa dessa erva, está em uma gravidez de risco.
– Realmente a erva da lua pode curá-la, dependendo da gravidade, pode apenas melhorar seu estado. Mas o meu preço não é dinheiro.
– Então qual é? – Perguntei dando um passo à frente desativando o meu sharingan.
– Merecimento – disse laconicamente tirando um sorriso zombeteiro do loiro.
– O que eu preciso fazer para provar que eu mereço essa erva?
– Mostrar sua história, suas lembranças, só assim saberei se é ou não digno.
Congelei ao ouvir o que eu teria que fazer. Não gosto que invadam minha privacidade e se aquele velho achava que eu iria contar a minha história, estava muito enganado.
– Como você saberá que não estou mentido?
– Isso é fácil, você não irá contar, eu que vou entrar em sua cabeça através de uma técnica do meu clã Yamanaka...
– YAMANAKA!? – Exclamamos incrédulos em uníssono, eu e Mina.
– Conhecemos a Yamanaka Ino, chefe do clã de Konoha. Ela está nos ajudando, então por favor nos dê a erva – explicou já exasperada a pequena.
– Não temos ligação com o clã Yamanaka de Konoha – exclamou Inochito.
– Essa é a minha última oferta – disse Inorito se virando – se não aceitarem vão embora, pois não dou minha erva para não merecedores.
– Espere! – O chamei fazendo-o parar – Como saberei que você não vai torrar o meu cérebro como a Ino já me ameaçou?
Um pequeno sorriso zombeteiro surgiu nos lábios do grisalho.
– Isso é fácil de provar. Como você acha que Sakura conseguiu a amostra?
Eu e Mina arregalamos os olhos surpresos pela revelação.
– Tudo bem, eu faço o procedimento – disse firme, por mais que por dentro tivesse certeza que não teria a aprovação do ancião assim que ele visse o meu passado. Mas claro que não deixaria que ele tocasse no cérebro de Mina.
O ancião assentiu e nos guiou juntamente com o loiro para uma caverna escura.
Entramos no local e ele mandou que eu ajoelhasse no centro de um círculo. Mandou a meu contragosto que Mina e Inochito saíssem do local.
Eu não queria deixa-la ir, mas eu sabia que não tinha escolha.
– Tente relaxar e deixar que as lembranças fluam naturalmente. Lembranças de alto poder sentimental são as mais dolorosas e você sentirá dor caso as tenha. Não tente impedir o procedimento, a dor é pior se você lutar contra.
Assenti receoso já percebendo que eu sofreria muita dor com aquilo.
Respirei fundo fechando os olhos sentindo as mãos do ancião nas minhas têmporas.
– Sasuke, hora do jantar!
– Já estou indo, oka-san!
Grunhi sentindo minha cabeça fervilhar enquanto visualizava imagens desconexas e aleatórias da minha infância, tendo grande ênfase na minha mãe.
– Oka-san, otou-san!
Gritei de dor assim que comecei a vivenciar o massacre do clã Uchiha mais uma vez.
– AHHHH! OKA-SAN, OTOU-SAN! – Gritava o meu eu do passado.
– Para – pedi.
– Se eu parar, você não terá a erva – explicou o ancião.
Mais imagens dolorosas passaram diante dos meus olhos, da minha perda e restante da infância solitária, até que visualizei um par de olhos verdes brilhantes e um sorriso grande e corado.
– Bom dia, Sasuke-kun! – Falou a garotinha antes de sair correndo pelo corredor onde estávamos sozinhos na Academia.
– Sakura – balbuciei sentindo a minha cabeça latejar ainda mais com as lembranças.
Imagens do time 7 passaram rapidamente na minha frente, não conseguia focar em nada, poucas imagens, as mais importantes, tinham um destaque maior e eu podia visualizar com mais nitidez.
– Você é irritante!
– Você é mesmo irritante!
Escutei a mim mesmo dizer tais palavras enquanto encarava os olhos verdes e chorosos.
– Desculpe, Sasuke, essa é a última vez! – Falou meu onii-san antes de sua morte.
– AHHHHHH! – Gritei desesperado sentindo meu cérebro ferver. Lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto pelo tanto de dor que eu sentia.
– Acalme-se Sasuke e deixe as lembranças fluírem, lutar contra é pior!
– Sakura.
– Sakura, é você?
– ... Sakura.
Trinquei os dentes enquanto me escutava, vendo os olhos surpresos ao me encontrar durante o tempo que permaneci fora de Konoha.
– Sasu...
– Shhh – chiei antes de beijá-la, no dia que eu dei o meu primeiro beijo.
Surpreendi-me ao senti claramente o gosto de Sakura na minha boca. Eu não me lembrava só com a minha memória, mas sim com o meu corpo.
Meu corpo lembrava claramente dos toques desinibidos, dos abraços, dos sorrisos, dos desentendimentos, o que deixava tudo mais real e doloroso fazendo-me gritar ainda mais.
Mãos entrelaçadas, pernas me envolvendo, pele macia de encontro ao meu, arfares dolorosos, gemidos de súplica, respirações descompassadas, o suor escorrendo pela minha costa.
– Sasuke-kun – chamou-me olhando nos olhos, o rosto brilhava pelo suor. Uma mecha grudava-se nele, enquanto que a boca entreaberta que buscava controlar a respiração descompassada dizia em um sussurro: – eu te amo!
– Grrr... – grunhi antes de gritar sentindo meu rosto ficar mais úmido pelo líquido que escorria dos meus olhos.
– Eu vou me casar, Sasuke-kun!
Cai para frente me apoiando nos braços para que não desabasse no chão.
– Eu sempre vou te amar!
Vi a imagem de Sakura vestida de noiva sendo levada para longe sendo açoitado novamente pelas vozes.
– Sakura-chan está indo embora temos que impedir, Teme!
– Sakura foi embora essa manhã, Sasuke – disse a voz do Kakashi.
– Sasuke, eu estou grávida.
– Não ligo para você, vai embora Karin.
– Aposto que se fosse filho daquelazinha de cabelo rosa, você não a trataria assim – falou chorosa e humilhada.
Ouvi um forte tapa, enquanto que as imagens passavam na minha frente de maneira desconexa.
– NUNCA MAIS OUSE FALAR DELA NA MINHA FRENTE! – Vociferou a minha voz.
Ofeguei sentindo a dor diminuir, para logo aumentarem na lembrança seguinte.
– Teme, o seu filho nasceu.
– Eu não tenho filho, Naruto.
Olhos pequenos negros focaram com dificuldade em mim enquanto observava o pequeno bebê antes de partir de sua vida.
– Se a Sakura estivesse aqui não concordaria com a sua atitude, Sasuke!
– Mas ela não está, Tsunade!
Morte, frio, desespero e solidão me envolveram vendo as cenas patéticas que a minha vida tomou durante tantos anos.
Sexo, álcool e morte...
Um assassino sem coração ou piedade.
A imagem focou em uma árvore de cerejeira tingida de sangue.
Mais uma cena de assassinato em uma tarde chuvosa.
A raiva se instaurou no meu ser ao sentir as pétalas cor de rosa acariciando o meu rosto como se falassem o quão patético eu sou.
A imagem mudou para a mulher de cabelos rosas e curtos que me olhava com ódio ao mesmo tempo que segurava um lençol branco tingido de sangue.
– Não – pedi tampando os meus ouvidos sabendo o que viria a seguir – Não, não, não!
– EU TE ODEIO! – A voz aveludada ecoou na minha cabeça incontáveis vezes!
– CHEGA! – Gritei sentindo o meu sharingan sendo ativado.
– Sasuke, não... – ouvi o ancião dizer, mas a voz dele morreu antes de terminar a frase.
– Onde eu estou? – Perguntei-me olhando o grande e escuro banheiro que eu me encontrava.
Não era a imagem distorcida de minhas lembranças, essa imagem era nítida, eu realmente estava em um banheiro luxuoso e desconhecido.
Um choro baixo chamou a minha atenção e virei-me de frente para quem quer que fosse que estivesse chorando e surpreendi-me ao ver que era Sakura encolhida no chão perto da pia.
– Sakura! – Corri e me joguei ao seu lado notando o quão nova ela estava. Estava com a aparência entre 19 e 20 anos.
Ela chorava baixinho como se não quisesse que ninguém a ouvisse.
– Por favor, não, não, isso não pode ser verdade – implorava ao mesmo tempo que chorava.
– Sakura – murmurei tentando abraça-la, mas meus braços apenas atravessaram o corpo da rosada me assustando. Levantei-me em um pulo e visualizei sobre a pia o teste de gravidez.
– Por favor, por favor, isso não pode estar acontecendo. Me tirem desse pesadelo! – Pediu e percebi que ela não me via, aquilo não era um sonho, mas sim uma lembrança de Sakura, não minha, mas como isso era possível?
– Você não queria ter engravidado da Mina? – Perguntei-me antes da imagem mudar.
Estava agora em um quarto de hospital. Sakura estava sozinha e olhava para uma janela.
Seu olhar era triste e vazio. Mesmo que ela tivesse uns 20 anos e se parecesse muito com a antiga fisicamente, o olhar não deixava dúvidas de que havia algo de errado.
Ela olhou ao redor do quarto como se verificasse que não havia ninguém nele ou se aproximando do local. Assim que teve certeza, se levantou com dificuldades.
O cabelo longo estava despenteado e suas tradicionais roupas de cor, tinham sido trocadas pelas roupas hospitalares.
Ela pegou um bisturi em uma bandeja esquecida por um enfermeiro e olhou profundamente para o objeto.
Olhei intrigado para cena sem entender, mas minhas dúvidas foram sanadas e substituídas por horror assim que eu vi ela cortar o pulso esquerdo.
– SAKURA! – Gritei desesperado correndo para onde ela caiu no chão pálido, agora tingido de carmim.
Ela chorava silenciosamente olhando o sangue escorrer.
Se continuasse daquele jeito, ela não sobreviveria.
Corri até a porta e gritei para alguém ajudar, mas era inútil porque aquilo era o passado e por mais que eu soubesse que ela estava viva no presente, aquela cena me desesperava.
Voltei em direção da rosada que ergueu o bisturi pronto para cortar o outro pulso.
– Sakura, por favor, não faz isso – pedia entrando em desespero jogando-me ao seu lado – Por favor, não!
A atitude dela foi malsucedida porque vários enfermeiros invadiram a sala e a seguraram.
Sakura se debatia como um animal selvagem, enquanto que os médicos e enfermeiros tentavam amarrá-la na cama ao mesmo tempo que tentavam conter o sangue que continuava a jorrar de seu pulso.
– NÃO, ME SOLTEM! – Gritava se debatendo na cama enquanto eu a olhava inutilmente sem saber o que fazer.
– Senhora Yoshito, se acalme, vamos cuidar de você – tentou acalmar uma enfermeira enquanto que a outra tentava injetar uma agulha na veia de Sakura.
– NÃO! EU QUERO MORRER! – Gritava desesperada em lágrimas delirando – SASUKE-KUN! – Arregalei os meus olhos assim que ouvi Sakura chamar por mim – Sasuke-kun, por favor me ajude! Por favor! – Implorou chorando começando a sentir os efeitos do calmante em sua veia – Porque você me abandonou, Sasuke-kun? Porque...?
Olhei incrédulo para a Sakura parcialmente desacordada e amarrada, os profissionais da saúde saíram aos poucos depois que terminaram de conter o sangramento, mas eu não conseguia sair do lugar, só encarava incrédulo a cena na minha frente.
– O que fizeram com você, Sakura? – Perguntei com a voz embargada sentindo meus olhos arderem com o princípio de lágrimas se formando.
O ranger da porta a minha esquerda chamou a minha atenção e não pude conter a minha raiva ou as lágrimas assim que vi quem passava por ela.
– Tão linda! – Murmurou acariciando o rosto dela.
– Não toque nela seu maldito! – Vociferei para Hiroto.
Sakura olhava assustada para ele, não conseguia reagir porque o efeito anestésico estava se alastrando pelo seu corpo.
– Eu te amo Sah e um dia você será minha! Vou lhe fazer muito feliz e nenhum Sasuke-kun irá nos atrapalhar – murmurou.
Ele se inclinou com a intenção de beijá-la me fazendo chegar ao limite.
– É O QUE VEREMOS! – Gritei correndo na direção dele com a intenção de socá-lo, mas assim que meu punho tocou em seu rosto, o cenário se desfez em uma nuvem de fumaça.
– Ai! – Resmunguei assim que cair de encontro com o chão frio – Cof, cof – tossia tingindo de sangue o chão frio.
Minha cabeça girava, me cegando de dor. Aquilo foi demais para mim.
Meu corpo latejava e tremia ao mesmo tempo que sentia o sangue frio escorrer pelo meu nariz e minha boca, onde eu sentia a mistura do gosto salgado das lágrimas e do metálico líquido vermelho.
– Sakura – balbuciei lembrando-me de tudo que eu vi.
Senti mais lágrimas sendo derramadas pelos meus olhos ao mesmo tempo que continuava a tremer jogado inutilmente no chão.
– Eu nunca encontrei alguém com uma carga sentimental tão grande – ouvi a voz do ancião em algum ponto a minha frente.
Forcei a minha vista e visualizei o ancião também em estado deplorável, sentado na minha frente.
– Suas lembranças são tão fortes e cheias de carga sentimental que isso o fez bloquear o meu acesso invadindo as minhas lembranças.
– Mas... Mas... As lembranças que eu vi eram de Sakura, não suas – murmurei ainda sem forças para me levantar.
– Quando eu faço uma ligação desse tipo com alguém, as lembranças dessa pessoa permanecem comigo como se fizessem parte das minhas. Então quando você tentou repelir o meu jutsu, acabou entrando acidentalmente em duas das muitas lembranças que eu tenho de Sakura desde o dia em que ela veio atrás de conhecimento sobre as minhas ervas.
– Então aquilo realmente aconteceu – murmurei lembrando do hospital.
– Sim.
Senti um aperto no coração e vontade de chorar ao me lembrar dela chamando por mim, pedindo por ajuda enquanto que eu estava fazendo o quê? Bebendo? Transando? Ou matando?
Levantei o meu tronco com dificuldades, sentando-me de frente para o ancião.
– Então você sabe as respostas e sabe quais são minhas dúvidas. Por favor, eu lhe imploro, conte-me o que aconteceu para a Sakura ficar desse jeito, diga-me porque ela foi embora... – minha voz morreu.
– Não cabe a mim responde-lhe. Eu tenho as lembranças de Sakura e sei de seus sentimentos e dores, e por isso eu sei que ela não me perdoaria se lhe contasse. É você que tem que descobrir a verdade, Sasuke. Só você pode compreender a Sakura, assim como o contrário também é verdade.
– Seria tão mais fácil se você simplesmente respondesse – murmurei aceitando os lenços que ele me estendia para que limpasse o meu rosto.
Inorito riu levemente de mim.
– Desde que eu conheci e vi as lembranças de Sakura, eu tive a curiosidade de conhecer o garoto que tinha olhos cor de sangue e que era extremamente idiota, mas ela era mais idiota por insistir em você por tanto tempo.
– Então você não precisa se preocupar, ela já parou de insistir no garoto idiota a muito tempo – suspirei terminando de me limpar.
Depois de um longo silêncio, Inorito observou:
– Fico surpreso que você não tenha entrado em coma.
– Como assim?
– Quando Sakura fez esse procedimento, ficou três dias desacordada.
– Oh.
– Sasuke, eu vou te dizer a mesma coisa que eu disse para a Sakura depois que vi suas lembranças – endireitei o meu corpo pronto para ouvir atentamente o que ele queria falar – Eu não queria estar na sua pele!
Bufei.
Esperava algo que me elucidasse sobre a Sakura, mas no fim ele só disse o óbvio ao ver a vida desgraçada que eu tenho.
Se bem que... se minha vida foi tão ruim e foi comparado ao da Sakura, isso quer dizer que o dela também foi bem problemático...
Mas o que poderia ter sido tão problemático na vida dela?
O quê? O quê? O quê?
Suspirei desistindo. Com certeza não conseguiria as respostas ficando sentado ali.
– Então – iniciei olhando para o chão – sou merecedor?
Um pequeno sorriso reconfortante surgiu nos lábios enrugados do senhor de olhos azuis tipicamente Yamanaka.
– Os merecedores são justamente aqueles que se acham que não são merecedores.
Olhei surpreso para o senhor compreendendo o que ele queria dizer.
– Então, isso quer dizer...
– Quer dizer que eu lhe dou permissão para levar as minhas ervas da lua para Konoha, Sasuke. Tenho certeza que meus irmãos Yamanaka irão cultivar muito bem.
Dei um pequeno sorriso agradecido enquanto sentia um enorme peso sair das minhas costas.
– Arigato – murmurei.
– Sei o quanto essas palavras significam para você – sentir o meu rosto esquentar percebendo a que ele se referenciava – fico feliz em ser digno dessas palavras vindo de você.
Silenciosamente nos dirigimos para fora da caverna onde o loiro chamado Inochito fazia um buquê de flores com a ajuda de Mina.
Os olhos da garota eram grandes e brilhantes enquanto admiravam o multicolorido do buquê.
– Ela é uma garotinha especial. Tem a habilidade de sensibilizar até os corações mais sombrios – rir de canto observando Mina encarar abobalhada as plantas enquanto que o antes ranzinza Inochito lhe explicava algo com um sorriso no rosto – Inochito não tem facilidades de se relacionar com as pessoas, é muito desconfiado, ainda mais depois de ter perdido os pais quando pequeno, mas Mina conseguiu se transportar para o coração dele em tempo recorde. Mesmo que o coração dela também seja machucado e confuso, o amor e a benevolência típicos dela falam mais alto. Mas, eu não preciso dizer nada, você sabe bem mais do que eu sobre isso.
Não disse nada, apenas continuei a observando, até que os olhos castanhos dourados se encontraram com os meus ônix. Um grande sorriso se estampou em seu rosto enquanto que ela saia correndo na minha direção.
– Papai, você conseguiu?
– Mina, não precisamos mais fingir, ele sabe de tudo – expliquei enquanto que o ancião somente assentia confirmando as suspeitas da menina.
– Tudo bem, então – deu de ombros – Tio Sasuke, você conseguiu?
– Mina, você está falando com Uchiha Sasuke, acha mesmo que eu não conseguiria uma simples erva – fingir falsa modéstia.
– A-hã sei – provocou rindo de mim – não vou nem falar a minha opinião sobre esse assunto – tirou gargalhadas dos outros dois homens.
– Está tirando uma com a minha cara? – Peguei ela no colo e a encarei erguendo uma sobrancelha.
– Eeeeeuuu? Claro que não tio Sasuke! – Respondeu com cara de sonsa contornando os bracinhos ao redor do meu pescoço.
– É bom mesmo.
Mina riu da situação, mas logo voltou a seriedade, mas ainda assim com os olhos brilhando de expectativa.
– Então, é verdade mesmo Inorito-sama? Podemos levar a erva?
– Claro que podem – falou afagando os cabelos da menina – tenho certeza que sua mãe vai melhorar e ficar muito orgulhosa da filha que tem – o rosto de Mina corou fortemente.
– A-arigato!
– Então vamos nos apressar. Quanto mais cedo partimos, mais cedo chegamos em Konoha para dar o chá a sua mãe.
– Hai!
Não demorou muito para irmos colher a erva, mas como as descrições de Sakura diziam, haviam mais duas espécies extremamente parecidas na região.
Eu até tentei ajudar na colheita, mas na terceira vez seguida que eu arranquei a erva errada, deixei para quem entendia de plantas essa tarefa, ou seja, para Mina e Inochito.
Nos despedimos e mais uma vez Mina foi melodramática.
Já estava começando a achar que ao invés de ser ninja, aquela garota se tornaria atriz.
Caminhamos em silêncio, cada um absorto em seus próprios pensamentos.
Quando o sol já estava se pondo, Mina apresentou sinais de cansaço pela caminhada.
Ajoelhei-me ao lado dela e pedi o livro que ela me deu prontamente. Antes mesmo que Mina percebesse coloquei-a na minha costa.
– Segura – avisei e ela obedeceu.
Dei um impulso e pulei de galho em galho tirando um grito surpreso da menina que logo foi substituído por riso e olhos brilhantes que viam encantada a queda de folhas vermelhas durante o pôr-do-sol.
– Que lindo, tio Sasuke! – Suspirou encantada.
Ficamos horas pulando entre os galhos, aquilo adiantou muito a viajem e adiantaria mais se eu continuasse, mas decidir caminhar assim que sentir que a menina caíra no sono.
Olhei de canto o rosto iluminado pela lua que se apoiava no meu ombro direito.
Parecia tão angelical...
Foi aí que eu percebi que já havia sido sensibilizado e tocado pela menina assim como tantas pessoas eram, assim como Inorito havia insinuado.
Eu estava começando a me importar com aquela criança, de uma maneira que eu jurei não me importar mais, para que não sofresse novamente.
Entrei na vila e os chunnins olharam surpresos para mim só que não liguei. Assim como havia combinado no dia anterior, Kakashi e Naruto me esperavam em frente ao meu prédio.
Kakashi abriu um mínimo sorriso, enquanto que Naruto arregalou os olhos e começou a falar alto sobre o fato de Mina estar nas minhas costas.
Ignorei os dois e subir o mais rápido possível entrando no meu apartamento dando de cara com Ino que esperava apreensiva em minha sala.
– Então? – Perguntou assim que me viu.
– Nós conseguimos – falou com a voz sonolenta a rosada enquanto estendia a sacola com as ervas para a loira.
Um sorriso largo iluminou o rosto da loira que não conteve a formação de lágrimas de alívio no canto de seus olhos.
Como se fosse uma praga, todos nós sorrimos felizes a sua maneira. Naruto foi o mais eufórico e eu o mais contido.
Mas no fundo, compartilhávamos do mesmo sentimento...
Conseguimos!
***
O sangue do loiro de olhos azuis agora opacos tingia o chão sob os joelhos do senhor de idade que permanecia calmo esperando o seu interrogador.
Roxos e escoriações marcavam a pele enrugada e ressecada.
Os braços estavam amarrados nas costas em um ângulo incomodo, mas nada o fazia falar.
Uma porta pesada de ferro foi aberta seguida de um baque surdo.
Passos calmos e masculinos aproximaram-se do senhor.
Além do prisioneiro, o morto e o interrogador, haviam homens mascarados posicionados nos cantos escuros próximos às paredes.
Apenas uma lâmpada incandescente balançava preguiçosamente, sustentada por um fio tênue e desgastado, ao mesmo tempo que iluminava o centro.
Os passos das botas ninjas pararam próximos ao senhor, que levantou lentamente o rosto machucado para visualizar o viril homem que se submetia a fazer tais coisas apenas por um capricho seu.
Apenas o som de gotas chocando-se com o chão de pedra fria ecoava pelo ambiente enquanto que o castanho e o azul celeste chocavam-se em uma batalha silenciosa.
Um sorriso cruel surgiu no rosto do mais novo.
– Yamanaka Inorito – sibilou a voz aveludada e masculina de forma fria e cortante que provocou tremores até em seus próprios subordinados – é uma honra finalmente conhecê-lo – fez uma breve reverência – já ouvir falar muito sobre o senhor e como eu posso dizer? – Caminhou ao redor do idoso analisando sua presa como um animal preparando-se para o bote – Interessei-me muito por suas habilidades hereditárias.
O idoso permaneceu corajosamente calado.
– Sinto muito pelas suas atuais acomodações, mas devido as circunstâncias e pela sua não cooperação, medidas tiveram que ser tomadas – comentou chutando levemente o corpo frio caído no chão – Uma situação inusitada chamou minha particular atenção essa tarde, se isso não houvesse acontecido com certeza não o tiraria de sua cômoda residência no interior dos bosques do País da Grama – olhou ao redor como se admirasse a arquitetura local – A certa visita de alguém, a visita de Uchiha Sasuke e de Yoshito Mina.
O idoso estreitou o olhar.
– Não tenho nada a lhe oferecer, Tsuchikage-sama.
– Ah, você tem sim, Inorito-sama. Você tem as memórias de Uchiha Sasuke ou você acha que eu não sei que você sempre faz esse teste antes de entregar algo que seja do interesse de alguém? Sei que você viu a vida dele pelos olhos daquele Uchiha! Eu só quero saber a verdade, o que está acontecendo em Konoha e se Sakura estar realmente morando com aquele serzinho.
– Acho que a resposta que você tanto almeja tenha mais haver se eles estão juntos do que se estão morando juntos.
– APENAS RESPONDA! – Vociferou o kage.
– Não responderei se esse for o meu desejo.
Com raiva da petulância do senhor, o kage desembainhou sua katana e encostou a ponta no pescoço do ancião.
– Responda ou reencontrarás mais cedo do que imaginas o seu subordinado – disse ameaçadoramente com a voz baixa.
– A única coisa que precisas saber é que o coração de Haruno Sakura nunca te pertencerás.
– Lembre-se que o culpado da sua morte se chama Uchiha Sasuke – disse preparando a katana para o corte mortal.
– Só consigo pensar em um culpado e ele se chama Yoshito Hiroto.
Sem piedade a lâmina cortou o ar.
Durante segundos o único som audível na sala era o da cabeça rolando pelo chão frio.
Hiroto observou por segundos os olhos opacos do novo cadáver que permaneceu focado em si, mesmo depois de tudo.
– Humpf.
Virou-se novamente de costas em direção à saída que foi aberta para sua passagem pelos seus subordinados.
Ele estava com raiva. Nenhum dos seus talentosos ninjas especializados em interrogatório conseguiu tirar a informação que queria ou ao menos entrar em seu cérebro.
Realmente o clã Yamanaka é um clã especial, pensou fechando a cara lembrando-se das palavras do senhor sobre o coração de Sakura.
– É o que veremos – murmurou antes que apenas os sons das botas ecoassem por aqueles corredores subterrâneos úmidos.
Continua...
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