A Filha da Minha Melhor Amiga
33 Dores Passadas - Guerra Silenciosa
Notas iniciais
Sakura...
Os soluços saiam cada vez mais altos e minhas mãos trêmulas, já não eram mais capazes de conter as constantes lágrimas que jorravam dos meus olhos.
— Droga – praguejei entre soluços, sentindo a dor de tentar conter tantos soluços e o forte aperto no meu peito, aumentar cada vez mais com as lembranças de poucos minutos antes.
O nojo, o asco, o pavor, a humilhação e a dor, foram minha companhia ao ver aqueles dois corpos se tocando.
— Não – gemi segurando com força o meu penteado que desalinhava com o meu toque grosseiro. – Kami, por favor não – implorei aos céus, enquanto me encolhia naquele beco escuro tão próximo a festa. – Isso de novo não – solucei alto, odiando-me por estar voltando a ser a Sakura estúpida de 18 anos. – Por favor...
— Sakura-san? – A pergunta incerta chamou a minha atenção para a entrada do beco.
Quis correr para que não me vissem afundando em minhas dores. Não queria que vissem minhas falhas e fraquezas, mas a dor me impedia de correr e um preocupado Noyoto correu até mim, agachando-se com preocupação, procurando qualquer sinal de machucado que eu pudesse ter tido.
Mas as minhas dores, minhas feridas e cicatrizes, não são externas, elas não podem ser vistas por medíocres olhos humanos, só eu posso senti-las, mas o grande paradoxo de tudo é que, apesar de ser a melhor ninja médica, não sou capaz de curar minhas próprias dores.
— Você não está bem Sakura-san – comentou com grande preocupação. A luz era quase inexistente, mas eu sentia o calor da proteção e preocupação genuína vindo dele. Eu sabia que poderia confiar, sempre soube, apesar de seus sentimentos não correspondidos por minha parte. – Vou chamar o Sasuke-sama! – Apressou-se, mas a simples menção do nome me fez gritar um sonoro "NÃO!", agarrando-me em seu kimono bem adornado.
— Por favor, não vá atrás dele – implorei, sabendo que minhas feições estavam patéticas e infantis, mas eu simplesmente não tinha forças para nada, muito menos, para lidar com tudo e com o retorno daquele sentimento que eu tanto me negava a aceitar. – Por favor...
Noyoto assentiu em silêncio, sentando-se ao meu lado naquele beco mal-iluminado de terra batida e lixeiras residenciais eventuais.
Eu solucei algumas vezes, deixando que minhas lágrimas finalmente saíssem livres depois de tantos anos reprimindo tudo dentro de mim, a única certeza que eu tinha, era a presença silenciosa e quente de um amigo ao meu lado que via meus lamentos com respeito.
Quando foi que eu me tornei tão patética? Quando foi que eu me tornei tão quebrada? Onde foi que eu errei?
Perguntei em pensamentos, tendo a visão nublada das minhas mãos trêmulas, sobre o meu colo.
"Vai dar tudo certo"
A promessa dele reverberou com nitidez dentro da minha cabeça e só aquele timbre me dava náuseas e desespero.
Baka! Como você pôde deixar que ele te tocasse? Como pôde deixar que a pessoa que mais te abandonou, se aproximasse tanto de si? Como você pôde ter pena dele? Como você pôde ser tão fraca diante dos beijos dele? Diante do olhar dele!
Os soluços saíram mais fortes e rápidos, dando-me a sensação de engasgamento.
As tossis foram convulsivas, o que fez com que o homem desesperado, tocasse-me com suas mãos rodeadas de chakra, tentando me acalmar e me ajudar na respiração.
Sorri amargamente para o homem que me abraçou com cuidado, tentando me transmitir segurança e proteção, algo que eu não conseguia sentir por ele.
Já havia pedido diversas vezes à Kami que minha vida fosse mais fácil. Que eu nunca tivesse amado aquele estúpido Uchiha. Que meu coração tivesse se aberto à um homem como Noyoto, mas desde muito cedo, a vida me mostrou que a minha busca pela felicidade, não era algo fácil para mim...
Nunca foi.
— Foi ele que te deixou assim, não foi? – Perguntou em um sussurro, permanecendo com o abraço que me acalmava com o dizer silencioso de "Eu estou aqui!".
Ele acariciou com respeito a parte superior da minha costa coberta com tantos tecidos, esperando por uma resposta que talvez não tivesse.
Diante de tudo e todos, eu me sentia exausta demais para lutar. Para fingir confiança, para olhar para as pessoas que eu amava e para as que eu odiava.
As pessoas esperavam demais de mim e se esqueciam que eu era humana.
Que eu era apenas Haruno Sakura.
Apenas eu.
Eu sou fraca, eu tenho marcas incuráveis e tenho medo. Medo de tudo e também do nada.
Não negarei, o silêncio eterno já me foi tentador demais...
— Se você não quiser...
— Sim – murmurei vendo os detalhes dourados do Kimono marrom moverem-se com o peito estufado do homem que afastava o abraço para olhar nos meus olhos inchados e molhados.
— Você sempre o amou no fim das contas – sorriu minimamente, tentando transmitir forças para mim, mas tudo o que eu fiz, foi abaixar o olhar.
— No fim, eu não tive capacidade de lidar com meus próprios sentimentos. Os avisos não me faltaram, mas eu não fui capaz de escutar as vozes. Eu... eu fui...
— Sakura-san – o homem me chamou com um toque delicado em meus ombros, fazendo com que eu olhasse para os seus olhos. – Não podemos controlar o nosso coração. Somos ninjas e os sentimentos não podem prevalecer, mas... não podemos esquecer que somos humanos e sentimentos fazem parte do nosso ser. O amor é incontrolável. Não é sua culpa!
— Mas eu não quero amar... – implorei, derrubando algumas lágrimas. – Eu não quero amar ele! – Gritei, não me importando se alguém me ouvisse ou me visse chorando. – Eu não quero voltar para lá Noyoto! Não quero olhá-lo! Não quero que ele me toque! Porque eu sei que minhas forças estão esgotadas e sei que não devo esperar nada. Ele não me deve nada e nunca deveu – grunhi entre soluços, enquanto escondia meu rosto entre as minhas mãos.
— Você... você viu ele com outra? – Perguntou com temor e incerteza, fazendo com que eu apenas assentisse, impossibilitada de proferir em voz alta o que eu havia visto.
Ele suspirou, acariciando o tecido sobre os meus ombros.
— Tem alguma coisa que eu posso fazer por você, Sakura-san?
Assim que ouvi a pergunta incerta, finalmente levantei o meu olhar para ele, vendo o brilho sincero de alguém que queria me ajudar. Que se preocupava comigo.
O que ele poderia fazer por mim? Perguntei-me em pensamentos, obtendo apenas uma resposta que eu proferi em voz alta, segurando o tecido de suas mangas com força e desespero:
— Me tire daquela casa – implorei. – Me leve para qualquer lugar essa noite, eu só não querer ter que olhar para a cara dele agora. Por favor, Noyoto, me ajude – terminei em um sussurro.
Noyoto arregalou os olhos para o meu pedido, atrapalhando-se com a resposta, em meio a um gaguejo desconexo:
— Sakura-san, você precisa se acalmar... pense com calma... talvez não seja uma boa ideia simplesmente fugir do Sasuke-sama... ele vai... ele vai... – sua voz sumiu, olhando-me com pena – ele vai atrás de você se você simplesmente desaparecer.
— Ele não liga para mim – quis gritar, mas a minha voz saiu arrastada.
Pude ver pelos olhos castanhos que ele não acreditava nas minhas palavras.
Todas aquelas frases que eu ouvi por meses se resumiram naquele olhar.
Todos temiam Sasuke. Todos temiam que ele ficasse perto de mim. E para eles, Sasuke se importava comigo, mas...
— Por favor – sussurrei em uma última tentativa que fez o homem suspirar de olhos fechados, cedendo a mim.
— Tudo bem, Sakura-san. É melhor que você não se estresse mais por hoje. Sua saúde é frágil e temos que pensar nessa criança – comentou olhando para o volume em meu kimono. – Posso levá-la para a minha casa essa noite, acho que ele não vai pensar em procurá-la lá, por mais que eu creia que não consiga escondê-la por tantas horas do último detentor do sharingan – riu amargamente, coçando a nuca, envergonhado por admitir sua fraqueza.
Pela primeira vez, desde que eu cheguei naquele beco, eu sorri minimamente, me jogando nos braços de Noyoto em forma de agradecimento pela ajuda.
Acabei rindo internamente pela surpresa do homem e pelo completo constrangimento em sua face, assim que me afastei dele.
— Vamos então? – Perguntou coçando a nuca, oferecendo a mão para me ajudar a levantar.
— Obrigada, Noyoto – sorri, enquanto andava ao seu lado, vendo pela última vez, por cima do ombro, o aglomerado luminoso onde ocorria a festa.
Decidi não olhar para trás mais. Estava chateada por ele não ter vindo atrás de mim, querendo se explicar.
Mas quem sou eu para querer algo do tipo? Sasuke não é do gênero que correria aos gritos me pedindo perdão. Não. Ele não é assim!
Ele não viria e eu tinha certeza que isso mostrava a minha insignificância. Que possivelmente ele ainda estaria nos braços de outra.
— Preciso ficar longe de você— murmurei para as luzes, antes de voltar a olhar para o homem alto e de bom coração que eu conhecia há tantos anos como colega de trabalho.
Noyoto tinha os ombros encurvados e mãos nos bolsos. Olhando para a rua mal-iluminada, mantendo uma distância respeitosa de mim.
— Desculpe por nunca ter conseguido corresponder – sussurrei abaixando o olhar, limpando as últimas lágrimas que estavam em meus olhos.
— Heh – ouvi ele sorrir, antes de virar o rosto para mim. – Sabe, você não precisa se preocupar comigo. Eu te entendo. Na verdade, sempre entendi que nunca teria o seu coração – coçou a nuca pelo constrangimento.
— Seria tão mais fácil se...
— Seria – ele concordou, voltando a olhar para o caminho –, mas não foi assim que aconteceu – sorriu tristemente, antes de abrir um vergonhoso e grande sorriso ao segredar: – Aliás, nem te contei. Estou saindo com a Yumi da enfermagem do terceiro andar.
Por um momento quase tropecei, mas Noyoto foi atencioso ao me ajudar no equilíbrio.
— Cuidado, Sakura-san!
— Eu não acredito – sussurrei endireitando-me para continuar a andar, ainda entorpecida com aquela notícia. – YUMI? Desde de quando?
Noyoto me distraiu com seus encontros desastrados.
Por um momento, esqueci de tudo e me permiti a sorrir por coisas bobas, lembrando-me de Naruto e da época em que eu não tinha problemas envolvendo Nações. Quando eu era apenas uma chunnin de Konoha.
Onde foi que eu errei?
Perguntei para a lua prateada daquela noite silenciosa.
A leveza perdeu o poder assim que eu entrei no apartamento do Sasuke, usando a chave reserva que havia ficado comigo.
O ambiente escuro, vazio e frio, assim como seu dono, logo trouxe o peso da situação anterior de volta para o meu interior.
— Tem certeza que quer fazer isso, Sakura-san? – Perguntou o homem, notando minha mudança de humor repentina com a visão daquela sala.
— Sim. Eu só preciso de algumas roupas para passar a noite na sua casa e os próximos dias com o Kakashi-sensei. Tenho certeza que ele vai me acolher. Não há mais festa para preparar – tentei soar confiança e alegria, mas eu sabia que já estava cansada demais para fingir alegria.
Por isso, sabendo de tudo, ele apenas assentiu com uma expressão de desconforto.
— Espere-me no sofá, não demorarei.
Apressei os passos para o quarto que fora designado a mim, suspirando de alívio por ter ficado sozinha e não ter que fingir ser forte na frente dos outros.
A madeira fria friccionou contra o tecido do meu kimono, assim que deslizei até cair de joelhos, tampando minha boca, para não deixar escapar nenhum ruído, enquanto meus olhos embargados observaram aquele ambiente já tão conhecido por mim.
Já faziam meses que Sasuke havia me carregado no colo até ali, com a promessa que cuidaria de mim...
As lembranças doíam.
Os beijos, as lágrimas, os sorrisos, as promessas, as ameaças... a esperança. Parecia estranho aquele ambiente tão vazio, ser detentor de tantas recordações.
Recordações essas. Paredes essas que eu deixaria para trás, sabendo que uma parte de mim, eu não poderia levar.
Mas será que algum dia, eu fui capaz de levar comigo? Ou será que meu coração sempre permaneceu aqui, nesse lugar tão frio e abandonado?
Suspirei sentindo meu filho dar um forte chute, chamando a minha atenção para a protuberância do meu ventre, dando-me forças para me erguer e continuar com aquela tarefa que eu queria tanto evitar.
Vi o meu reflexo e acabei dando um sorriso triste e sem vida para a mulher de olhar tão perdido.
Quando foi que eu me tornei uma pessoa para se ter pena?
Retirei as peças caras do kimono. Limpei os vestígios de maquiagem com lentidão. Sempre com os olhos fixos no meu verdadeiro eu.
Eu sabia que quando passasse pela porta, teria que sorrir. Amanhã teria que mostrar a todos que eu estava bem e que nada demais tinha acontecido, mas o que poucos sabiam, é que a tão estimada Sakura, é um fino papel quebradiço por dentro, fingindo-se de forte, até mesmo para si mesma.
Minha força é os meus filhos.
Repeti mais uma vez o que eu sempre dizia, enquanto fechava a pequena mala com roupas minhas e da minha filha para o resto dos dias.
Passei a mão pela minha testa suspirando.
Alisei meu vestido branco, solto e simples, que ia até os joelhos, antes de tomar coragem de sair do quarto arrastando a mala pesada demais para uma grávida de quase seis meses.
— Estou pronta Noyoto. Já podemos ir – comuniquei com a voz cansada, depositando a mala em meus pés, esperando encontrar meu amigo à minha espera na sala, mas assim que ergui o olhar, o ar me faltou.
Não foram os castanhos gentis e bochechas coradas que eu encontrei, mas sim o ódio puro transbordado dos olhos cor de sangue de Sasuke, direcionados a mim.
Olhei ao redor preocupado com o filho do capitão do corpo médico, mas não o encontrei.
O medo do que ele podia ter feito me fez gritar desesperada:
— O QUE VOCÊ FEZ?
— Nada do que eu estou planejando ainda fazer – a voz saiu fria e cortante, fazendo o frio na minha espinha me alertar para o manto negro que se aproximava de mim.
Perigo.
Meu instinto gritava, mas meus pés não se moviam pelo medo que arrepiava meus pelos.
Sasuke estava pronto para matar e até eu, que não sou especialista em rastreamento, sentia o peso que o chakra dele sobre a sala.
— Você não vai a lugar nenhum Sakura – disse tão baixo, que parecia ter sido o vento a sentenciar aquele meu destino.
Fuja!
Minha voz interior gritou, fazendo com que eu desse passos, tentando inutilmente fugir do monstro de olhos predadores.
— Fica longe de mim! – Gritei, estendendo os braços, tentando mostrar a confiança que há tanto já havia me deixado para trás. – Me deixe em paz!
— Acha que manda em mim? – A voz sempre baixa, gritou, contorcendo as feições sempre belas e amenas do homem que prendeu rispidamente meu pulso direito de encontro a porta que me impedia de continuar com a minha fuga.
Com a habilidade de um grande shinobi. Sasuke prendeu minhas mãos para o alto, enquanto eu tentava fugir do seu olhar, tentando me proteger de qualquer ataque de genjutsu que ele poderia me colocar.
— Olha para mim – sussurrou de maneira perigosa, ao pé da minha orelha exposta a si.
Não tinha outra opção a não ser ceder de forma humilhante à sua ordem, mirando o sharingan e rinnegan, com raiva.
— Me larga! – Falei baixo, tentando transmitir toda a ameaça que eu conseguia impor a ele.
Eu precisava fugir e não era me acovardando que eu conseguiria tal coisa.
Mesmo com medo, eu tinha que tentar. Eu tinha que conseguir!
— Eu vou embora e você não pode me impedir.
Mas a vida é dura e foram lágrimas de raiva que começaram a rolar dos meus olhos.
Ele endireitou o corpo, parecendo ainda maior e mais perigoso. Como um predador brincando com a sua recente caça.
Não havia escapatória...
— E se eu não quiser? – Sua voz foi de puro deboche. Deixando-me confusa, não entendendo o porquê de tudo e em meio a um ímpeto de coragem, eu gritei:
— Pra quê me manter aqui? Eu quero ir embora! Te deixarei para trás, livre para você ter sua vidinha patética de volta, pois o que eu vi naquele banheiro, foi exatamente isso! Um homem sem caráter que só pensa em satisfazer suas vontades – inspirei com força, para terminar o que eu tanto queria gritar para o homem tão próximo a mim, que tinha resquícios de batom em seu rosto e que cheirava à perfume caro de mulher. – Quer saber! As pessoas têm razão ao dizer que você merece ficar sozinho, eu que fui tola ao achar que você não fosse o que elas diziam, mas nesse momento, eu só sinto uma coisa em relação a você... nojo e pena – cuspi as palavras sabendo que eu tinha tocado em uma ferida profunda demais.
E meu pensamento estava certo quando eu senti o aperto doloroso do homem nublado de raiva.
Contorci de dor, ouvindo ele dizer em um sussurro:
— Antes ser esse monstro do que ser a mulher que abandona todos aqueles que a amavam para ir para os braços de outros...
O cuspi em seu rosto, foi a reação imediata do ódio que domava o meu corpo trêmulo por aquelas palavras.
— Você não tem ideia do que está falando – grunhi entre dentes.
— Ótimo, estou muito a fim de escutar sua narrativa, pois o que me dizem e o que eu vejo, em nada me agradam e eu simplesmente estou cansado de esperar – grunhiu limpando o rosto.
Fuja!
A voz gritou, quando eu mordi o lábio inferior, percebendo que eu estava entrando em uma área que eu não podia entrar.
Não posso contar! Ele não vai entender! É pelo bem de todos! É pelo bem de todos! Esse fardo é só meu!
As lágrimas queimavam meus olhos.
Eu só queria não estar ali...
— Você não é capaz de entender... – murmurei sem forças.
— ENTÃO ME FAÇA ENTENDER! – Vociferou, socando a madeira fria à centímetros do meu rosto.
A situação, a raiva dele e a expressão de ódio, apenas fez minhas lágrimas aumentarem junto com a minha raiva em relação a ele. Em relação a mim. Em relação a nós dois. Em relação ao destino...
— TUDO BEM, SE VOCÊ QUER TANTO SABER, ENTÃO EU DIGO! – Gritei arfando, buscando forças. – Só não me culpe se não gostar da verdade – disse mirando seus olhos com força, sabendo que ele não gostaria nada do que eu diria...
Fechei os meus olhos, tentando reprimir minhas lágrimas, antes de reabri-los, mirando o vermelho silencioso que analisava cada traço meu.
— Eu fiz tudo isso por amor – admiti, mas ele sorriu de canto com deboche.
— Você já disse isso uma vez, mas eu sei que você não casou por amor...
— Não é disso que eu estou falando – gritei, interrompendo-o.
— Então, explique-se.
— Eu fiz isso por amor à minha vila, ao meus amigos e... – minha garganta se fechou.
— E? – Estimulou, dando um passo a frente, aproximando mais o seu corpo do meu, intimidando-me com o seu tamanho e com sua respiração sobre o meu rosto.
— Por amar você – murmurei inutilmente, vendo o olhar masculino tão confiante, ser banhado pela confusão e incerteza por causa da minha última sentença. Porém, antes mesmo que ele pudesse pensar sobre, aproveitei a pouca coragem que ainda me restava para admitir: – A Quarta Grande Guerra Ninja nunca acabou de verdade – as finas sobrancelhas negras franziram para o andar da conversa. – A guerra continua e os shinobis jogados nesse campo de batalha, em grande parte, nem sabem o verdadeiro motivo de suas missões ou o que motiva os grandes Kages.
— Você está dizendo que o Kakashi...
— Não! – Gritei. – Kakashi não tem nada a ver com isso! Ele também não compreende direito e só com o meu retorno, ele está vendo o quão fundo essa guerra está!
— Por que então não estamos lutando? – Perguntou com certa inocência e se estivesse em outra situação, eu riria, mas não havia piada na situação.
— Mas nós estamos – falei com convicção. – E você é o shinobi mais requisitados pelos senhores de Konoha. Você é o shinobi que os outros kages tanto odeiam porque é você que mais deixa baixa no campo inimigo!
— Deixe de bobagens, Sakura – debochou com raiva. – Eu não estou lutando com ninguém! – Gritou.
— Está sim! – Minha voz reverberou alguns decibéis acima do normal, para mostrar a veracidade dos fatos. – Todas as suas missões. Todas aquelas mortes. Todos os seus anos de ANBU são uma fraude, porque todas foram armadas com o único objetivo de você matar os melhores ninjas de Iwagakure e das outras Nações que tentavam mostrar seu poder sobre Konoha. Estamos sendo liderados por uma corja de invejosos. Aquela maldita festa que comemora a paz, é só uma farsa, onde os líderes mostram seu poder, levando seus melhores shinobis consigo, como se fossemos prêmios em uma estante de exibição! Por que você acha que Konoha queria tanto que eu, você e Naruto estivéssemos lá? – Gritei.
O olhar vacilou, vidrado em meu rosto, por todas as palavras que eu proferia.
Minhas acusações eram sérias, mas eu já havia passado tantos anos naquele meio, que eu poderia dar mil provas se assim ele quisesse.
— Sakura...
— Me escute! – Pedi, vendo o assenti do homem que diminuía o aperto em meus pulsos. – Você se lembra de quando nós dois tínhamos dezenove anos?
— Quando você casou...
— Quando você me procurou na minha casa e dormiu lá – fui enfática, surpreendendo-o com a lembrança.
— Sim... eu me lembro.
— Depois daquele dia, você sumiu. Se afastou. Se afundou em missões e mais missões. Apenas o via raramente, quando voltava de missão e ia até o hospital para que eu o avaliasse ou nas reuniões entre amigos que Naruto promovia – narrei, sentindo vontade de chorar por saudades daquela época tão tranquila, mas engoli o choro, sabendo que tinha que contar tudo. – Todos estavam tão felizes com o fim da guerra e reconstrução de Konoha, que não nos atentamos que ainda estávamos em perigo, principalmente você e o Naruto...
Sasuke cerrou os olhos, soltando os meus braços, deixando, porém, suas mãos apoiadas ao lado do meu rosto.
Suspirei, vendo a dúvida por meio dos seus olhos ativos.
— Eu estava preocupada com você, mas você me repelia. Estava indo te chamar para conversar depois de termos tido uma reunião com os amigos, quando um ANBU pousou na minha frente. Eu não compreendi na hora, mas segui as ordens de Tsunade que o ANBU me informou.
"Voltei para a minha casa e permaneci lá, até que o sol se pôs. Chovia muito, e o céu estava cheio de nuvens vermelhas, carregadas de água, porém, sem descargas elétricas.
"Minha capa estava completamente encharcada, mas não me importei. Continuei correndo pelas árvores, até alcançar as proximidades da fronteira do Fogo com a Grama.
"A localização exata, eles não haviam me dado, mas haviam dois ANBUs que me aguardavam no meio do caminho para me guiar.
"Assim que cheguei na pequena clareia, pude ver a pequena cabana de madeira com marcas de batalha. Haviam armas em várias direções e de maneira mais curiosa, vi poucos ANBUs de Sunagakure.
"Não perguntei na hora o porquê, mas segui para dentro da cabana, sentindo o forte cheiro de sangue, sentindo náuseas com a visão da família brutalmente morta. Até mesmo uma inocente criança de quatro anos estava imóvel em meio de sua própria poça de líquido carmim.
"Olhando para os corpos, estava Tsunade-sama e Gaara-sama."
— Gaara? – Indagou confuso.
— Sim. Gaara-sama estava lá e foi ele, quem primeiro me notou, porém foi Tsunade-sama, a primeira a falar...
— Sakura, finalmente você chegou, quero que você se aproxime – chamou a mulher com um leve movimento das mãos.
Confusa com todo aquele ambiente de paredes pintadas de sangue, eu me aproximei do corpo que parecia deslocado naquele lugar.
Foi com surpresa que eu reconheci que as roupas eram de...
— Iwagakure?
— Sim – foi o Kazekage quem me respondeu.
— O que isso significa? – Perguntei sem me direcionar a ninguém, sentindo que aquele questionamento era mais para mim do que para os meus acompanhantes.
— Sakura, eu preciso te contar algo confidencial, que, como uma ninja, você não pode compartilhar para ninguém, nem mesmo para os seus amigos...
— Claro, shisou!
— Até mesmo para o Naruto e para o Sasuke você está proibida de contar – aquela sentença me pegou de surpresa.
Nós eramos heróis de guerra. O que era tão secreto que nem nós poderíamos saber?
— Claro – falei com pouca convicção, mas os dois kages sabiam que eu não contaria.
— Olhe para essa cena Sakura e nunca se esqueça do que ver.
— Hi.
— A guerra nunca acabou – foi a vez de Gaara se pronunciar, chamando minha atenção para os olhos verdes contornados pelo forte lápis preto.
— É claro que acabou. Selamos Kaguya!
— Sim, Sakura. Nós sabemos – foi a vez da minha shisou se pronunciar. – Kaguya foi destruída, mas a tênue paz que construímos e firmamos com Naruto, está prestes a se romper.
Minha boca se abriu, não acreditando no que eu escutava.
— As Nações são ambiciosas demais para aceitar a paz – o ruivo disse, se aproximando de mim, mantendo o olhar fixo no corpo. – Eles não gostam da ideia de Konoha tendo vocês três só para ela, sem contar que todas as bijuus têm ligação com Naruto – fixou o olhar em meu rosto incrédulo.
— Está dizendo que as Nações querem iniciar uma guerra por causa do Naruto, do Sasuke e por mim?
— Sim – minha mestra foi enfática, me deixando chocada. – Konoha ainda está se recuperando da grande perda na luta contra Pain. Perdemos muito na guerra e na cassada à Akatsuki, é a hora perfeita para eles nos atacarem.
— Mas eles não vão consegui – enfatizei, pondo a mão no meu peito. – Eu, Naruto, Sasuke-kun, as bijuus e todos os outros, a protegeria!
— Eles sabem disso – Gaara se pronunciou. – Eles também perderam, assim como Sunagakura também perdeu na guerra. É por isso que estamos em uma guerra silenciosa. Uma guerra de espionagem! Onde os melhores shinobis são mandados em missões perigosas, destruindo provas, matando outros ninjas especialistas e até se envolvendo com nukenins que usam jutsus proibidos...
— Como Orochimaru?
— Já conversei pessoalmente com ele – a loira quis me tranquilizar. – Disse que se ele tentasse ajudar alguma dessas Nações, eu destruiria com os meus próprios punhos, cada esconderijo que ele tivesse até não sobrar nenhum. Ele disse que Konoha não precisava se preocupar, porque ele se manteria ao nosso lado enquanto tivermos o "Sasuke-kun" dele – rolou os olhos e eu não gostei daquele comentário.
— Sasuke-kun não é um objeto ou uma moeda de troca – quis defender.
— Sabemos de sua opinião, mas... – Gaara olhou ao redor, antes de voltar a olhar para mim – qual é a certeza que temos que ele não vai sair de Konoha? Fui visitar o Naruto e não foram boas as notícias que eu tive sobre o Sasuke.
Aquela sentença foi como uma facada. Sabia a que ele se referia e por vezes já havia me perguntado se ele permaneceria em Konoha para sempre, já que a população não o aceitava totalmente.
— Sasuke-kun vai ficar em Konoha, eu prometo.
— É melhor que ele fique ao nosso lado por segurança. Pois se ele tentar se voltar contra nós, a ordem que os anciãos deram foi a de sentença de morte...
— O QUÊ? – Sasuke gritou se afastando um passo de mim. – Eles vão me matar se eu resolver sair de Konoha? Quantas missões eu já fiz para essa porcaria de Vila? Quantos anos passei escutando calado todos falarem que um nukenin não deveria ter perdão? E agora eles veem dizer que vão me matar se eu não trabalhar calado para eles?
A raiva brilhou nos olhos coloridos, prontos para torturar qualquer um.
— Eles sempre temeram os Uchiha, Sasuke! Desde a suposta tentativa de golpe quando nós eramos pequenos, eles vivem com a cisma de que os Uchiha devem ser controlados e vigiados.
— Eles sempre tiveram essa visão, até mesmo antes da nossa Era – falou com os dentes trincados, andando em círculos; puxando os fios de cabelo pela frustração de ter a certeza de que estava sendo analisado o tempo inteiro.
Ele acredita em mim, pensei com alívio.
— Continue – ordenou frio, parando no meio de um passo, olhando-me em desafio.
— Vão matar o Sasuke-kun? – Gritei sem acreditar no que havia acabado de escutar.
— Sakura, se controle! Não saia gritando isso para os quatro ventos!
— Perdão, shisou, mas...
— Sabemos de sua preocupação Sakura – Gaara abriu os braços. – Sasuke está com a corda no pescoço em Konoha e fora dela, está sendo ambicionado sua morte para que assim Konoha não tenha mais nenhum Uchiha. Raikage não aceita a permanência dele vivo e livre! E isso é uma possibilidade para que Iwagakure consiga o apoio de Tanikagure. Mas não é só o Sasuke que está na mira. Naruto está na mira de todas as Nações...
— Os anciãos ainda acham o Naruto imaturo demais para andar livremente tendo tantas bijuus dentro dele. Aqueles velhos acham que temos que vigiá-lo e não permitir sua saída de Konoha, nem para missões...
— Se eles fizessem isso, todos iriam desconfiar do que está acontecendo – fui clara.
— Sim, Sakura – Gaara focou o olhar no meu, para mostrar a seriedade de suas próximas palavras – mas você também está na mira deles. Você é um grande suporte em uma batalha, manteve vivos e curados, milhares de shinobis apenas com o seu chakra. Eles a temem também e temem seus filhos.
— Filhos? – Fiquei confusa com o assunto.
— Os outros Kages estão supondo que talvez, em breve, você possa ter um Uchiha.
— O... o quê? – Gaguejei, sentindo meu rosto ferver com o andar da conversa. Entendendo o que eles haviam insinuado.
— Eles têm quase certeza de que você será a escolhida do Sasuke e isso é um perigo para as outras Nações, pois, se apenas ter o sangue Uchiha já é perigoso, o que dirá um Uchiha com sua habilidade de controle de chakra – foi sucinta a minha mestra.
— Sasuke nem olha para mim. Ele está me evitando e já tem Kage fazendo aposta de que teremos filhos? Não somos animais procriadores para dar os shinobis que Konoha quer ou ser privado de união pelas outras Nações, shisou! Somos pessoas! Temos sentimentos!
— Sasuke está sendo monitorado, tanto por nós, quanto pelas outras Nações, como bem já achamos infiltrados em Konoha. E dentre os relatórios que nos foi dado, foi reportado um relacionamento entre vocês dois, inclusive de entrada e saída dele, no seu quarto, em dias diferentes.
— Eu não acredito que vocês estão nos vigiando! – Gritei.
— Sakura, seja como for, queremos que vocês tomem cuidado. Mantenha a discrição em relação ao Uchiha. Nada de demonstrações públicas que vocês possam ter um relacionamento mais profundo, se não, vocês podem ser vítimas de alguma atividade de outra Nação.
— Eu entendo, mestra.
— Chamamos você aqui, porque temos um serviço para você e para isso, você precisava saber a verdade – comunicou o Kazekage. – O chefe da ANBU de Iwagakure é Yoshito Mahara. Ele é o grande responsável por esses ataques contra Konoha e Sunagakure, que são aliados. A família Yoshito é uma poderosa família com um Kekkei Genkai incomum. Vem ganhando impressionante espaço na política depois da guerra e com uma forte tendência de assumir o cargo de Tsuchikage, quando o atual se aposentar.
— Então, esse tal de Yoshito Mahara é o alvo?
— Sim, mas não podemos simplesmente eliminá-lo. Ele tem uma família poderosa. Tem dois filhos, Yoshito Hiroto e Yoshito Horen, além de ter um sobrinho habilidoso que criou como um filho, Yoshito Nagashi.
— Ainda não entendi o que vocês querem que eu faça – disse com sinceridade.
— Queremos que você seja a guia turística de Yoshito Nagashi em Konoha – foi direta a minha mestra.
— Yoshito Nagashi tem forte indícios de que conseguirá um alto cargo no governo, talvez como Capitão da ANBU, quando seu tio, Mahara-sama se aposentar. No entanto, é Yoshito Hiroto que possivelmente irá assumir o cargo de Tsuchikage.
— Hiroto iria vir à Konoha para questões diplomáticas, pois, apesar de toda essa guerra nas escuras, precisamos manter às aparências. No entanto, por Hiroto poder ser o futuro Tsuchikage, vão enviar Nagashi no lugar, por proteção de Hiroto. Queremos que você acompanhe o Nagashi e se torne "amiga" dele. Tente descobrir qualquer coisa que nos deixe à frente deles nos próximos passos dessa guerra. Esse é a missão que eu, como Hokage, e Gaara, como Kazekage, estamos confiando a você.
— Fiquei sem reação no momento, mas aceitei a missão.
— Então você quer dizer que além de quererem minha cabeça, também estavam me vigiando – falou de forma cruel, rindo sem humor. – Às vezes, acho que deveria ter destruído essas Nações quando tive oportunidade – cuspiu as palavras, cruzando os braços.
— Ficou louco? Konoha é a nossa casa!
— Tsc.
— Nossos amigos estão aqui, nossa vida está aqui!
— Se sua vida está aqui, então para quê partir com o inimigo?
— Você entenderá com o tempo, mas primeiro, tenho que explicar o que aconteceu – ele assentiu impaciente, mas se manteve calado me deixando contar a história. Suspirei buscando forças antes de começar: – Nagashi chegou dois dias depois, você estava em missão e eu o esperava no portão da Vila. Apresentei-me formalmente e ele ficou surpreso ao reconhecer o meu nome...
— Tsc. Interesseiro...
— Nagashi não era um homem mal. Era jovem e talentoso. Ele estava surpreso com Konoha e com os habitantes se ajudando na reconstrução, até mesmo tendo ajuda de tantas Vilas menores. No período em que esteva aqui, até chegou a ajudar uma família de idosos no campo que tinha tido sua casa destruída.
— Aposto que era só fingimento...
— Não era – balancei a minha cabeça em negação. Sasuke não gostou da minha atitude. – Tenho certeza que suas ações eram sinceras. Ele se importava de verdade com os outros.
— Como pode ter certeza? – Gritou. – Se estava tão apaixonada ao ponto de se casar com o inimigo em questão de meses e sem contar para mim.
— Eu tenho absoluta certeza das minhas observações, pois o único idiota que eu amava naquela época era você, Sasuke! – Gritei, só notando depois, o que eu tinha acabado de dizer.
Mordi meu lábio inferior de maneira repreendedora, desviando o olhar do carmim que voltou ao negro, me analisando calado.
— Não faça essa cara de desentendido. Você sempre soube disso – murmurei com o olhar baixo.
— Tsc – passou a mão grande pelos cabelos. – Continue – encerrou o assunto temporariamente.
— Fazia relatórios diários para a Hokage e para o Kazekage, até mesmo descobri, sem que Nagashi soubesse, que haveria um ataque em uma pequena Vila no País do Vento. Os meses se passaram e acabei me aproximando de Nagashi. Ele me convidava para jantar e eu aceitava seus convites. Ele era um homem de conversa fácil, porém interessante...
— Não estou afim de saber sobre os atributos dele – falou com orgulho ferido, trincando o maxilar, apertando os braços cruzados.
— Seja como for. Nagashi era um bom homem. Um homem que começou a me procurar no hospital, provocou machucados em si mesmo só para que eu o atendesse, até mesmo, me acompanhava todas as noites até a minha casa.
"Meus pais gostavam dele na época. Achavam-o um bom rapaz e até mesmo convidaram o 'amigo' da filha, para jantar algumas vezes com eles."
Sasuke bufou, encostando o ombro esquerdo, na porta do quarto que me pertencia.
Ele não parecia feliz com a minha descrição.
— Um tempo depois, enquanto eu o curava, ele estava estranho e nervoso, eu perguntei o que tinha acontecido e ele disse que tinha que me contar uma coisa, mas antes, perguntou se eu tinha alguém ou se já gostava de outra pessoa – levantei meu olhar para Sasuke e eu sabia que ele imaginava qual tinha sido a minha resposta. – No fim, ele disse que respeitava meus sentimentos, mas se eu lhe desse a honra, ele faria de tudo para que eu te esquecesse.
— Tsc – resmungou, encostando a costa na madeira fria da porta, olhando para a parede branca à sua frente. – Você deveria ter dito não...
— Eu disse – limitei-me, recebendo toda a atenção do olhar dele. O questionamento estava claro na íris negra como o carvão –, mas – abaixei o meu olhar – fui chamada pelos anciãos – admiti vendo o corpo se remexer com a reviravolta da história.
— O que eles queriam?
— Falar sobre o pedido de casamento...
Estranhei ter sido chamada diretamente pelos conselheiros de Konoha, mas fui, entrando em uma sala aconchegante, com quatro sofás, onde os conselheiros tomavam calmamente o chá.
— Mitokado-sama. Utatane-sama – reverenciei com respeito os dois conselheiros que logo assentiram para que eu me acomodasse no sofá à frente de ambos.
Sentei com certo desconforto, pois a tensão do que poderia ter acontecido ou descoberto por eles, me incomodava.
Implorava para que não fosse nada em relação à Naruto e Sasuke-kun.
Eles estavam em casa. Felizes. Com amigos. Não queria que a aparente paz terminasse.
— Gostaria de um chá, Sakura-san – ofereceu-me o idoso, Mitokado Homura.
— Muito obrigada, Mitokado-sama, mas estou satisfeita com o almoço recente.
— Entendemos – murmurou com a voz envelhecida de Utatane Koharu.
— Deve está confusa do porquê a chamamos aqui – começou Homura e eu me limitei a assentir.
— Soubemos que anda muito com o garoto de Iwagakure, chamado de Yoshito Nagashi. Confere essa informação? – Perguntou Koharu.
— Hi – admiti, sabendo que não havia como fugir. Com certeza eles tinham espiões me vigiando.
— Vocês estão em algum relacionamento sério? – Perguntou Homura.
Silenciei-me – lembrando que eles almejavam um filho meu com o Sasuke-kun – sabendo que minha resposta poderia resultar em ações.
— Não – falei a verdade depois de um longo silêncio.
— Está em um relacionamento com o garoto Uchiha?
— Não – reprimi um suspiro de decepção.
— Então, você está solteira – comentou Koharu e eu senti minha têmpora latejar com o comentário.
— Hi.
— Soubemos que Yoshito Nagashi a pediu em casamento – comentou Homura.
— Hi.
— O que respondeu? – Perguntou Koharu.
— Eu disse não.
— Por que? – Insistiu.
— Porque eu não amo ele – falei dura, cansada de todos aqueles questionamentos pessoais.
— Deveria repensar – murmurou, o que me fez ficar confusa com a sentença, pois, se eles queriam que eu tivesse um filho Uchiha, então porquê agora queriam que eu casasse com Nagashi?
Minha expressão fez eles adivinharem meus pensamentos.
— Sabemos que você está bem informada sobre nossa atual situação política e deve saber sobre as tantas baixas que tivemos. Iwagakure está se fortalecendo, e Konoha está sofrendo muitas baixas, precisamos de alguém lá dentro passando informações para Konoha... – começou Homura.
— Eu não vou me casar com alguém que eu não quero, só para ter informações – gritei me levantando.
— Sente-se, Haruno – ordenou Koharu.
Mesmo com raiva e punhos cerrados, acatei a ordem.
— Você tem que pensar como uma shinobi de elite e não como uma mera civil – repreendeu Homura.
— Hi – disse com obediência, não vendo saída.
— Não estamos dizendo para que você passe o resto da sua vida em Iwagakure, só o suficiente para mudarmos esse quadro desfavorável. Você pode se separar e depois voltar.
— Vocês estão pedindo para que eu me deite com um homem em troca de informações? – Falei com nojo da ideia. – Minha resposta é não!
— Essas crianças de hoje em dia só olham para seus próprios umbigos – reclamou Koharu, como se eu não estivesse ali. – Saudades da época em que tínhamos Itachi...
A menção do irmão de Sasuke fez a raiva aumentar em meu ser e despejar as palavras:
— Itachi-kun teve que destruir toda a sua família e vocês se vangloriam desse ato? – Falei enojada.
— Tecnicamente, ele não realizou toda a missão – Koharu disparou, insinuando o fato de Sasuke ainda estar vivo.
— Não preciso escutar isso – murmurei me levantando, dando as costas com a intenção de partir daquele lugar, mas estanquei assim que eu ouvi:
— Garota tola. Deixará que mais pessoas pereçam por culpa de seu capricho. Se lembra da Quarta Grande Guerra quando corpos e mais corpos, chagavam às tendas da equipe médica e essas mesmas pessoas pereciam por não serem capazes de salvar? – Não olhei para Koharu, apenas cerrei meus olhos para a visão da saída logo à minha frente, lembrando-me de cada corpo daquela pilha de cadáveres. De todos os funerais e famílias destruídas. De todas as crianças traumatizadas e órfãs que eu atendia atualmente. – Será pior e mais cruel dessa vez. Não será humano contra meros vegetais ambulantes. Será shinobis contra shinobis. Nações contra Nações. Famílias contra famílias. Vocês, jovens, acham que sabem o que é guerra, mas vocês nunca presenciaram uma de verdade. Uma em que vocês se perguntassem: onde está a humanidade?
— Temos certeza que você não quer outra guerra tão cedo – comentou Homura.
— Vai ter mesmo uma guerra? – Murmurei sem olhá-los, lembrando-me que Konoha ainda estava em ruínas. Ainda estávamos nos reerguendo, não podíamos ser mais devastados do que já estávamos.
A esperança é uma chama tênue que pode se apagar devido à constantes desventuras e o fogo da juventude, estava pálida demais para outro combate.
— Tudo indica que sim – respondeu Homura com propriedade.
Eu sabia que eles não pediriam tal atitude se a situação não fosse tão preocupante.
Voltei o meu corpo para eles, mantendo minha posição ereta e decidida.
Sabia que aquilo era um assunto secreto.
As pessoas me odiariam por abandoná-las sem um motivo plausível e meus amigos exigiriam explicações quando eu não pudesse dá-las, e, por um segundo, me perguntei se era assim que Itachi havia se sentido quando lhe deram sua missão.
Diferente dele, eu seria a traidora da Vila, mas todos ficariam vivos e protegidos. Eu podia deixá-los seguros.
Tsunade, Kakashi-sensei, Ino, Naruto, papai, mamãe... Sasuke-kun... me perdoem, mas é pela segurança de você! Eu não quero vê-los sofrer mais uma vez!
Eu não quero mais uma guerra!
Eu não quero ver os olhos decepcionados de Naruto quando ver que a paz entre as Nações é uma grande farsa!
Eu não quero meu sensei mais uma vez tendo que se envolver em uma guerra! Ser submetido mais uma vez à possibilidade de perder amigos queridos como ele sempre perdeu!
Eu não quero ver o Sasuke-kun partir mais uma vez...
Durante toda a minha vida como ninja, eu quis que eles vissem minhas costas. Que eu pudesse protegê-los!
E dessa vez, eu iria protegê-los e eles veriam minhas costas quando eu partisse, por mais que eu soubesse que em seus interiores, a raiva e a traição tomasse lugar dos sentimentos bons que sempre sentimos uns pelos outros...
Me perdoem pessoal, mas... pelo bem de vocês...
— Eu aceito a missão – falei firme, vendo os sorrisos traiçoeiros deles – mas com condições – os sorrisos vacilaram com o andar da conversa.
— Como assim condições? – Perguntou Koharu.
Caminhei calmamente para onde antes eu estava sentada, mantendo minhas pernas cruzadas, meu queixo erguido e meus braços cruzados, mostrando que eu não estava de brincadeira.
— Sim. Condições!
— Quais condições? – Perguntou Homura, com uma leve preocupação no tom de voz.
— Primeiro, se qualquer uma dessas condições forem quebradas, eu volto de Iwagakure e exponho todo esse teatro de paz das Nações. Se vocês têm tanto medo da guerra, então é melhor cumprirem todas essas condições, se não, é a guerra que vocês terão.
— Está nos ameaçando? – Cerrou os olhos, Koharu.
— Estou dando um aviso – fui fria.
— Não acha que está sendo petulante demais?
— Acredite, estou calma demais. Esse prédio não estaria em pé se eu estivesse sendo petulante – respondi a altura, vendo as expressões preocupadas dos senhores em antecipação às minhas condições. – Primeiro, sei muito bem como vocês sempre são contra a Tsunade-sama e na primeira oportunidade que têm, tentam tirá-la. Vocês não poderão tirar de maneira ilegal o Hokage do posto, seja a Tsunade-sama ou o sucessor. Hokage é Hokage, merece respeito. Segundo, quero a proteção dos meus pais integralmente sem que eles saibam. Terceiro, nem inventem de impedir o Naruto de andar por aí. Ele é forte e é uma pessoa, não é um animalzinho para se manter enjaulado. Acreditem, ele é capaz de se defender com facilidade e nenhuma Nação seria tola de perder a confiança do Naruto. Por último, – levantei e apoiei minhas mãos na pequena mesa de mogno que nos separava para enfatizar minha principal condição – vocês não vão fazer absolutamente nada contra o Sasuke-kun ou qualquer outro Uchiha que vier a aparecer ou nascer. Se eu descobrir que estão tentando mandá-lo para a forca, acredite, eu vou voltar para essa Vila e quero ver qual de vocês dois vai me enfrentar. Por isso, é melhor manter seguro todos esses que eu citei e todos os meus outros amigos que vocês tanto conhecem, pelo bem de todos e principalmente pelo de bem de vocês – endireitei-me, ajeitando minha roupa ninja de dezenove anos. – Passar bem, senhores – desejei sem vontade, sentindo uma parte de mim se partir com aquele acordo. Aquela sensação incomoda de que algo estava errado, não me deixava respirar direito. – Para vocês terem certeza que eu cumprirei com a minha parte do acordo, vou mandar meu convite de casamento especialmente para vocês. Espero vê-los lá – finalizei dando as costas.
Minha fúria por toda aquela situação me cegava, ao mesmo tempo que eu queria chorar por acabar de selar meu destino com a infelicidade...
Mal sabia naquela época, que os problemas só estavam começando e que tudo que eu sabia, era apenas a ponta do iceberg do que verdadeiramente eram os interesses e métodos que aquela família, para qual eu entraria como espiã, poderia fazer contra mim e contra os seres que eu tanto amava...
Continua...
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