A Filha Dos Mundos
10 Os Magdul
Saya não fazia a mínima ideia onde estava, ou por onde ir. Estava sem dúvida perdida. Há muito que se arrependera de ter deixado Kai. Pelo menos ele conhecia aquele lugar e sabia por onde deviam ir. Se ao menos lhe tivesse pedido um mapa, podia voltar para a casa de Elianor e pedir-lhe ajuda. Mas infelizmente não se tinha lembrado de o fazer, pelo que tinha de se desembaraçar sozinha. Não ia desistir, não era pessoa para isso. Chegou a uma pequena clareira e, como o seu estômago acabara de se queixar e o sol já ia bem alto, decidiu sentar-se para comer qualquer coisa. Quando tivesse a barriga cheia pensaria no que havia de fazer. Tirou um bocado de carne e começou a comer.
Uma brisa agitou-lhe os cabelos. Saya assustou-se. Mas não foi o vento que a sobressaltou. Uma sombra movia-se no meio das árvores. Levantou-se com o coração a bater muito depressa. — Quem está aí? — perguntou. No entanto, a resposta não chegou e a sombra desapareceu. Voltou a sentar-se, decidida a esquecer a sombra. Provavelmente era só um animal que tinha mais medo dela do que ela dele. Suspirou fundo, mas foi empurrada. Caiu no chão. Levantou a cabeça para ver o que a tinha feito cair. À sua frente estava uma horrível criatura de pele acinzentada e olhos vermelhos. Tinha um ar extremamente feroz. Grunhiu alto e dirigiu-se a ela. Saya tentou correr, mas a criatura agarrou-a pelo o pescoço. Estava a sufocá-la. « Está tentar matar-me», pensou Saya, com uma estranha clareza. Instintivamente, atirou as pernas para trás, na tentativa de lhe acertar. Mas nada parecia magoá-la. Sentiu que estava quase a desmaiar. Mais um pouco e não sentiria qualquer dor. A sua visão estava a ficar enublada. E então algo aconteceu. A pressão no seu pescoço abradou e a criatura largou-a. Saya ouviu-a grunhir novamente, mas este era um grito de desespero e profunda dor. Finalmente, caiu com um estrondo. Estava morta. Saya virou-se, com dificuldade, para ver o que acontecera. A criatura tinha um corte profundo na parte lateral do pescoço e outro nas costas. Um pouco mais atrás encontrava-se Kai, com um comprido punhal ensanguentado na mão. Ofegava, mas estava ileso. Correu até ela e levantou-a. — Estás bem? — Estou. O que era aquilo? — Um Magdul — respondeu o youkai — Os Magdul são criaturas hediondas, guerreiros brutais, mas felizmente muito burros. Atacam todos os que encontram pela frente e têm o prazer em destruir — foi até à mochila dela e começou a arrumá-la — Infelizmente para nós, nunca viajam sozinhos. Este deve ter-se afastado para caçar qualquer coisa. Saya arrepiou-se. Teria estado quase a transformar-se a refeição de um grupo de criaturas feias e malcheirosas? Kai estava a olhar para ela. — Não sei, Saya, e estou contente por não ter descoberto — ela tinha a certeza de que ele percebera os seus pensamentos — Temos que nos apressar. Os restantes já devem estar a procurá-lo, Também não me agrada que eles andem por este lado da floresta. Geralmente evitam-na. Se vieram para aqui é porque andam à procura de alguma coisa... E eu temo que essa coisa sejamos nós. O youkai ajudou-a a pôr a mochila às costas. Entregou-lhe um pouco de carne e uma maçã. — Receio que tenhas de comer enquanto andamos. — Kai — chamou — Não cumpriste o que disseste. Ele sorriu e Saya deu por si a admirar o seu rosto iluminado por um sorriso tão puro! — Eu disse que não ia impedir-te de continuares sozinha. Não disse que não ia seguir-te. — No entanto, disseste-me adeus. Disseste até nunca. — Bem, então vamos chamar esta clareira nunca. Assim nem eu e nem tu mentimos — e começou a andar. — Kai — chamou novamente — Hai... — Estou contente por teres seguido. Arigatou. Ele virou-se. O seu rosto reflectia uma expressão de total incredulidade. — Foi um prazer — respondeu por fim — Agora temos mesmo de ir. Já perdemos todo o tempo reservado a um cessar de hostilidades. Eu não quero ter de enfrentar os Magdul outra vez, e desconfio que tu também não. Caminharam durante um bom bocado sem trocarem uma palavra, mas sentia-se um ar mais leve entre eles. Parecia a Saya que fora uma parvoíce o conflito que tinha criado entre si. Mas existem coisas que tornam duas pessoas amigas. E salvar alguém de um monstro como aquele era sem dúvida uma delas. Finalmente, Saya apercebeu-se de que estavam numa estrada. — Vamos a algum lado em especial? — Hai. Mas porque perguntas? Certamente não pensas-te que estavamos a fazer esta viagem só para apreciar a paisagem. — a verdade é que não pensei sequer nisso. Sabia que tinha de a fazer e.. — hesitou um pouco, não estava certa se o devia dizer, mas apetecia-lhe ser honesta novamente, dizer o que realmente achava — Acho que estava demasiada ocupada a chatear-me contigo — ele soltou uma gargalhada — Além disso, é a primeira vez que caminhamos por uma estrada.
— Tens toda a razão. O lugar onde vamos agora é conhecido, respeitado, e tem algumas visitas ocasionais, como a nossa. Acho que é natural que tenha uma estrada. Não concordas? — Claro. No meu Mundo... — parou de falar. Há tanto tempo que não pensava nele! Era como se aquele começasse também a ser o seu Mundo. Podia estar ali sem ter saudades do outro. Bem, talvez tivesse saudades de um bom banho, seguido de uma sessão de cinema em casa. E, mesmo assim, parecia que conseguiria encontrar ali algo que substituísse esses pequenos e deliciosos prazeres da vida citadina. — Sabes, Kai, o meu Mundo é fascinante... Mas Kai nunca chegou a saber o que era fascinante, porque naquele preciso momento ouviram-se passos apressados atrás deles e ambos estacaram. Em menos de um segundo, o youkai pegou-lhe na mão e saíram os dois da estrada. Enquanto corriam por entre as árvores, Saya olhou para o caminho. Cerca de vinte guerreiros Magdul corriam pelas a estrada com espadas e arcos grotescos. Era uma das visões mais aterradoras que já tivera. Kai correu para uma das margens da estrada e empurrou-a para uma pequena gruta que o amontoado de terra e raízes criara. Pegou no comprido punhal e cobriu o corpo de Saya com o seu próprio corpo. Fechou-lhe os olhos com uma mão e depois desceu a mão até lhe tapar a boca, para que o som da respiração entrecortada dela não fosse tão audível. Saya apercebeu-se de todos os seus sentidos a apurarem-se. Conseguia sentir os minúsculos grão de terra que lhe caíam em cima da cabeça e rolavam pela a cara, sentia o cheiro da terra húmida misturado com o pestilento cheiros dos Magdul, ouvia os seus passos como se fossem tambores, Sabia que por muito bom guerreiro que o youkai fosse, não teriam qualquer hipótese contra todos aqueles Magdul. Se tinha de morrer, só esperava que fosse rápido e o mais indolor possível. No entanto, os passos deixaram de se ouvir e o hendiondo cheiro das criaturas diminui. O perigo tinha passado. Estava viva! Era a segunda vez que escapava à morte num só dia. E naquele momento sentia-se mais afortunada das pessoas. GLOSSÁRIO: Magdul — guerreiros criados por Naraku, de pele acinzentada e olhos vermelhos. Têm uma força considerável e gostam de destruir, mas não são dotados de grande inteligência.
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