A Filha Dos Mundos
11 Aquilad
Tinham abandonado a estrada, mas já há algum tempo que não ouviam nada que os preocupasse. De facto, apenas o chilrear dos pássaros e o som os seus próprios pés a caminhar nas folhas secas eram audíveis.
O verde das folhas das árvores ficava gradualmente mais claro. A quantidade de flores aumentara. Toda a floresta parecia ainda mais viva do que antes. Havia também uma estranha clariedade, uma clariedade que não tinha nada de assutador. Era sem dúvida misteriosa, muito provavelmente mágica, no entanto parecia oferecer uma certa protecção.
Saya atreveu-se por fim a suspirar. Estava a ficar mais aliviada. Era verdade que ainda tinha bem presente a imagem do Magdul morto que a tentara matar, assim como a do exercito de guerreiros Magdul, os quais não se tinham, com certeza, evaporado. Contudo, era como se isso tivesse acontecido num outro lugar qualquer. Parecia a Saya que não era possível que criaturas tão horrendas caminhasem numa terra tão magnífica.
Agora que o medo estava finalmente a abandoná-la, ela começava a sentir-se novamente ensonada. Abriu a boca num bocejo e, institivamente, levou a mão à boca. Ao tocar-lhe, hesitou. Há não muito tempo, Kai cobrira-a com a sua mão; quase assustada, Saya deu-se conta do quanto tinha apreciado esse toque. Estaria a apaixonar-se por ele? Não. Muito simplesmente estava aterrorizada e o gesto dele fizera-a sentir-se segura, como se fosse uma criança pequena protegida pelo irmão mais velho com quem passa o tempo a discutir, mas que sabe que a protegerá sempre.
Chegaram a um grande lago de águas calmas e limpas. O sol criava reflexos extremanete bonitos na água. As margens do lago revestiam-se de erva muito verde e flores de várias cores suaves com pequeninas gotas de orvalho sobre as pétalas. Também estas pareciam estar cobertas de ouro, devido à luminiosidade criada pelo o sol.
- Vem, Saya — disse Kai enquanto entrava no lago — Não tenhas medo. Não te vais afogar.
- Mas não tiro sequer as botas?! — perguntou admirada por ele entrar na água sem tirar ao menos os sapatos.
- Claro que não. Não vamos tomar banho. Anda, dá-me a tua mão.
Saya agarrou a mão que ele estendia e ambos entraram no lago. Para grande surpresa sua, caminharam normalmente até ao meio das calmas águas, sem molhar mais do que a sola das botas.
- Kai, o lago é uma ilusão? — perguntou desconfiada.
Tinha de haver uma explicação para não terem ficado cada vez mais mergulhados dentro de água.
- Que ideia, Saya! É claro que não — respondeu o youkai. Depois, ao olhar para a expressão dela, compreendeu a razão da questão — Se souberes por onde ir, não te molhas. E felizmente eu sei o caminho certo. Largou a mão dela e declamou:
Aquilad, onde morou Nessya, a bela,
Palácio da calma,
Guardiã do rei que espera a sua amada,
Deixa-nos entrar.
As águas à volta deles elevaram-se, lenta e progressivamente, e fecharam-se sobre as suas cabeças. E enquanto o círculo à sua volta estreitava e a cúpula baixava, desceram suavemente para o interior do lago.
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