As velas nos castiçais acenderam-se e uma nova porta abriu-se. Sayatranspô-la e deparou com um novo corredor. Ao fundo havia duas grandes portas, como as da entrada, que davam para um grande salão e que se abriram. Caminhou até lá com o vestido a esvoaçar atrás de si.

Dentro da sala, encontrava-se uma grande mesa recheada de numerosas iguarias. Ouvia-se uma suave melodia, misturada com o murmúrio das águas do lago. No entanto, ela não percebia donde vinha a música, pois não havia um único músico em toda a sala.

Entrou e aproximou-se da mesa. Havia uma cadeira em cada uma das extremidades. A cadeira atrás de si foi arrastada. Ela virou-se, sobressaltada, mas era apenas Kai. Também ele tinha uma nova roupa, bastante mais cerimonial do que aquela com que viajava.

- Osawuri, Saya — e ela sentou-se.

Ele foi até à outra extremidade da mesa e sentou-se. Saya ficou a olhar para a mesa recheada de maravilhosas travesas. Mas como é que iriam servir-se se estavam ambos sentados? Não precisou de esperar muito pela resposta. Os pratos levantaram-se e foram servidos com um pouco de comida de cada travessa. Aparentemente estavam a ser servidos por criados invisíveis.

- Kai, como é que tudo isto é possível? — perguntou admirada

- Bem — começou ele — Temos de agradecer a Aquilad.

- Demo, Aquilad é, segundo o que tu me disses-te, um palácio. Não tem vontade prõpria! Ou tem? — começava a acreditar em tudo.

- Lie. Não propriamente. A vontade de Nessya vive, assim como ela viveu, em Aquilad. Assim a sua vontade é de certo modo também a vontade de Aquilad.

- Quem era Nessya? — ele pronunciava aquele nome pela segunda vez, assim como pela segunda vez dizia que ela tinha vivido ali.

- Nessya era uma das filhas dos Elementos. Chamavam-lhe «a bela», pois era considerada a mais formosa dos seres que caminhavam sobre este Mundo naquela altura; além disso, era extremamente bondosa.

- O que é que lhe aconteceu?

Kai suspirou, olhou para o tecto e depois para o prato.

- Morreu... — disse por fim — Mas isso é uma história muito triste que não me apetece contar agora. Não aqui, no meio de tanta beleza — olhou para ela com uma expressão grave no rosto — Se não queres chamar o mal, não o menciones.

Começou a comer, deixando Saya muito confusa. O que seria assim tão terrivel para Kai não querer se quer falar disso? Acabou por deixar esse problema de parte. Ele tinha razão. Aquele não era lugar indicado para falar de coisas tristes. Pegou nas talheres ( também de cristal) e começou igualmente a comer.

Durante toda a refeição foram servidos por seres invisíveis. Eram provavelmente esses mesmos seres que tocavam aquelas belas e harmoniosas músicas. No final, Saya despediu-se de Kai e seguiu as portas até ao quarto. Tinha vestida uma comprida camisa de noite verde claro, de tecido esvoaçante. Estava sentada no banquinho rectangular do toucador a olhar para o quadro da rapariga loira.

Seria aquele um quadro de Nessya? Se fosse, aquels teria sido provavelmente o seu quarto. De certo modo era uma honra estar ali. Kai tinha falado dela com tanta reverência... Ela devia ter sido uma pessoa importante. Ter-se-iam conhecido? Ele ficara tão triste quando a conversa chegara à morte dela! Talvez ele a tivesse amado. No entanto, se aquele era o palácio dela, então ela devia ter sido muito importante, talvez mesmo poderosa. Kai dissera que ela fora uma das filhas dos Elementos. Mas o que queria isso dizer? Se bem se lembrava, os elementos eram ar, água, terra e fogo. Contudo, não lhe parecia que pudessem ter filhos. Estaria a pensar nos mesmos elementos aque ele se referia? Efectivamente tinha muitas perguntas a fazer, muitas dúvidas para esclarecer. Ao olhar para o quadro, teve a certeza de que aquela era Nessya, e soube que de certo modo estavam relacionadas.

- Porque me proteges, Nessya? Porque me tratas como se eu fosse uma rainha? — perguntou, a olhar para a imagem da rapariga. Durante alguns segundos paraceu-lhe que ela sorriu.

Estranhamente, Saya não se assutou. Estava simplesmente a habituar-se a que tudo fosse misterioso e improvável. Tinha a certeza de que, quando regressa-se ao seu Mundo, se algum dia regressa-se, ia ter dificuldade em se habituar à normalidade. « E como é que sabes que á aquilo a normalidae e não isto? Ou melhor ainda, como é que sabes que não são ambas a normalidade?», perguntou uma vizinha dentro da sua cabeça.

Foi até à cama que já estava aberta, embora não tivesse tirado a colcha. Não fazia mal, provavelmente não era mesmo para tirar e, de qualquer modo, ela estava demasiado cansada para o fazer. Deitou-se e as velas apagaram-se.

Todas as perguntas, todas as dúvidas poiam certamente esperar. Agora era tempo de dormir e esquecer todas as preocupações. Já que estavam a tratá-la como uma rainha, ia aproveitar aquela noite como se o fosse. Por isso, deixou-se afundar nas almofadas, apreciou o suave toque de seda de que era feita a colcha e esvaziou a mente de todo e qualquer problema.

- Boa noite, Nessya — disse, plhando uma última vez para o quadro. Depois fechou os olhos e adormeceu.

GLOSSÁRIO:

Nessya — uma das filhas dos Elementos, chamada A BELA. Era a mais bondosa dos irmãos. Foi morta por Naraku e vivia em Aquilad

Elementos — espécie de divindades que criaram quatro seres de apârencia humana: os filhos dos Elementos que eram, Aerzis, Naraku, Nessya e Valindra.