Saya caminhava pela floresta. Podia ver a figura de uma mulher ao fundo. À meida que se aproximava, as suas feições tornavam-se mais nítidas. Era a sua mãe. Precipitou-se para ela, numa corrida desenfreada. Mas quanto mais corria, mais longe a mãe parecia estar. Exausta, parou a ofegar. Então, muito lentamente, a mãe começou a aproximar-se. Saya estendeu os braços para a colher. Estava cada vez mais próxima, mais um pouco e a mãe estaria abraçá-la. Cada vez mais próxima, cada vez mais próxima.... Fechou os olhos, pronta para receber o abraço, mas tudo o que recebeu foram cinzas a esvoaçar pelos céus, a pousarem nas suas roupas e nas ramagens das altas árvores. Cinzas, como se a mãe se tivesse reduzido a cinzas que voavam agora, finalmente livres, pelo Mundo.

Acordou sobressaltada, encharcada em suor. Estava ainda no quarto de cristal de Aquilad. Tinha tido um sonho, estranho sonho. No entanto, certamente não passara disso. Um sonho influenciado pelo medo que sentira naquele último dia e pelas saudades que tinha da mãe. Ultimamente, andara tão absorvida com o jornal que mal falara com ela;e agora, que tantas coisas estranhas estavam a acontecer-lhe, sentia a falta de um abraço de mãe. Um daqueles abraços em que se podem afogar as mágoas e esqueçer os medos. Um abraço que só uma mãe pode dar.

Virou-se de lado e fechou os olhos, na tentativa de voltar a adormecer. Mas por mais que tentasse, não conseguia. Portanto, limitou-se a ficar muito quieta, numa semissonolência, visitando variadas vezes aquele lugar onde a realidade ainda não terminou e os sonhos ainda não começaram, e em que ambos se fundem indistintamente. Por fim as velas acenderam-se e Saya, estranhamente aliviada, levantou-se.

Após tomar um banho rápido e vestir as roupas de viagem, comeu algumas fatias de pão quente com compota, um bolo de passas e uma peça de fruta. Bebeu dois copos de água e regressou ao corredor onde no dia anterior tinha chegado. Mal a última porta se fechou, lembrou-se de que não se tinha despedido de Nessya, ou do seu quarto. Mas, por mais que tentasse abrir a porta, esta não se mexeu. Foi a meio destas tentativas falhadas para abrir a porta que Kai a encontrou.

- É escusado cansares-te, Saya — disse ele, afastando-a da porta — Ela não vai abrir-se.

Saya fez uma expressão de desanpontamento, mas acabou por segui-lo pelo comprido corredor. O palácio parecia estranhamente deserto. Não que quallquer deles tivesse visto alguém, mas no dia anterior ele parecia repleto de vida, acolhedor, seguro. Agora estava silencioso de mais, até as águas do lago estavam quietas e caladas, não se via um peixe e a luz do sol parecia penetrar as águas tristemente. Apenas os seus passos no chão de cristal eram audíveis.

Quando estavam quase a chegar ao fundo do corredor, uma das portas abriu-se. Entraram numa sala, que dava para um outro corredor. Durante um bom bocado do dia, limitaram-se a andar a direito e a entrar por todas as portas que se abriam. Era como se elas lhes indicassem o caminho. De facto, Saya começava a ter a certeza de que elas sabiam realmente qual o caminho que eles deviam seguir. Só não sabia onde esse caminho a levaria. Mal Saya começou a ter fomeuma porta abriu-se, revelando uma mesa repleta de iguarias que eles comeram agradecidamente. E assim aconteceu durante todo o dia. Sempre que precisavam de alguma coisa, uma porta abria-se e atrás dessa porta encontrava-se aquilo de que precisavam.

O dia devia estar a acabar. Há muito tempo que percorriam os corredores e as salas daquele palácio labirintico, e agora a clariedade estava a diminuir. Aqui e acolá, uma e outra vela acendeu-se.

Saya sentiu-se novamente aconchegada e deixou-se mergulhar nas profundezas dos seus pensamentos. Forçou-se a recordar os onze primeiros anos de vida, os anos que passara com o pai. Mas dele só se lembrava de umas quantas fotagrafias antigas que possuía e de uma voz melodiosa que contava histórias de terras encantadas e maravilhosas. Gostaria de se lembrar de mais, mas era ainda pequena quando ele desaparecera. Apercebia-se agora que ele tinha sido um pai, de um estranho modo, ausente. Apesar de raramente permanecer muito tempo seguido em casa, estava sempre lá quando ela precisava. No entanto, recordava apenas uma visita ao jardim zoológico, uma daquelas visitas em família com a mãe e o pai. As suas colegas costumavam ir com os pais visitar os avós, às compras, à praia. Mas a esses lugares ela fora sempre sozinha com a mãe; de facto, quando iam o pai estava sempre a viajar. Com o pai ia para o campo correr, ouvir histórias, aprender o nome das plantas.

«Como é que se chama aquela árvore, Saya?»

« Carvalho»

« Muito bem! E aquela planta?»

« Feto»

« Sim senhora. Só mais uma, Saya, só mais uma. Depressa! Qual é o nome daquela flor?»

« Orquídea. Que tal? Estive bem?»

« Muito bem»

« Então acaba lá de contar. O que é que aconteceu depois?»

« Ah! Depois, ele ganhou coragem e...»

Fora há tanto tempo. E lembrava-se de tão pouco! Metade dessas memórias nem sequer o eram. Eram mais episódios que a mãe lhe contara e para os quais ela inventara um tempo e espaço. Mesmo das histórias, mal se recordava das personagens. Sabia que eram personagens encantadas: fadas, elfos, youkais. Mas como eram, não se lembrava.

Suspirou profundamente. Sentiu os olhos a ficarem molhados. Não podia dar nem mais um passo. Não queria chorar, mas para isso tinha de parar e descansar um pouco.

- Kai... — sussurou, certa de que o tom de voz mais alto provocaria uma avalanche de lágrimas.

No entanto ele não se virou. Em vez disso, olhou para o tecto perfeitamente transparente. Saya seguiu o olhar e o que viu secou qualquer lágrima que estivesse preste a escorrer-lhe pela cara, substituiu toda a tristeza que tivesse enchido o seu coração e deu lugar a um terror que ela nunca tinha experimentado ou imaginado.

As águas do lago, por cima das suas cabeças, ficavam lentamente mais negras que a própria noite, cheias de um negro viscoso e demoníaco, tornando-se cada vez mais densas, até que nem um raio de sol conseguia atravessá-las. Aquilad acendeu todas as velas e encheu-se da mais pura luz. Uma luz branca, límpida e maravilhosa. Era como se o palácio estivesse a tentar lutar contra toda a escuridão que o envolvia. Kai tirou dentro da mochila o embrulho que Elianor lhe tinha dado e desembrulhou-o. Continha um pequeno e elegante ceptro de ouro maciço, que se abria em duas ovais, uma mais pequena e outra maior que alojava uma grande esmeralda, iguamente oval. O youkai apertou o ceptro com força e a pedra brilhou timidamente. Um riso gelado elevou-se do nada e toda a luz desapareceu. Estavam no meio da mais profunda e tenebrosa escuridão.