A Filha Dos Mundos
16 Naraku II
Kai ainda não tinha começado a sua história. Parecia estar a decidir-se pela melho maneira de a contar. Olhava várias vezes para Saya e depois novamente para o comprido corredor. Ela começava a achar que ele não acabaria a história antes do findar do dia, talvez nem sequer a começasse. Mas então ele começou, muito calmamente, como alguém que recorda algo de que já não se lembra muito bem.
- Há muitos, muitos anos, quando este Mundo foi concebido, Os Elementos — e ao ver a cara dela de desentendimento — Uma espécie de estranhas divindades, criaram quatro seres de aparência humana. Eles deviam preparar o Mundo para a chegada dos Elfos, dos Youkais, das Fadas, dos Duendes e dos Gnomos. Os seus nomes eram Aerzis, Valindra, Nessya e Naraku. Enquanto as fadas, os youkais, os elfos, os duendes e os gnomos dormiam, eles construiram uma grande cidade dentro de Caladmiron: Omnirion. Assim que os seres acordassem, era seu dever ajudá-los, e ao rei que eles escolhessem, a tornarem-se independentes e autónomos. No entanto, Naraku não concordava. Ele achava que como tinham sido os primeiros a acordar neste Mundo e eram sem dúvida os mais poderosos, deviam ser eles, os filhos dos Elementos, a governar. Mas, Aerzis, Nessya e Valindra não estavam de acordo.
»Sozinho, Naraku fugiu e construiu um lugar maldito, onde apenas o medo e a escuridão são reais. Chamou-lhe Morniran. Por seu lado, Nessya criou Aquilad onde passou a viver; Valindra construiu Névila, envolta em brumas e perdida no interior da floresta Brumívium, onde agora vivem as suas sacerdotisas; e Aerzis permaneceu em Omnirion, a ajudar o rei youkai. Este rei chamava-se Inu No Taisho e os seus descendentes governarem este Mundo desde então, e se tudo correr bem, assim continuará.
»Entretanto, em Morniran, Naraku criou seres terrivéis aos quais deu o nome de Magdul. A sua intenção era governar este Mundo no lugar do rei Inu No Taisho, e estava disposto a tudo para o conseguir. Ciente da ameaça que Naraku constituía, Aerzis criou um ceptro onde encarcerou não só todo o seu poder mas também o de Caladmiron, a grande Floresta. E esse ceptro, o Ceptro de Aerzis, o mesmo que tu tens agora guardado dentro da tua mochila, é a única coisa que pode destruir Naraku.
Estavam agora no fim de um pequeno corredor. À sua frente erguiam-se imponentes duas grandes portas. Estas, de um cristal menos transparente, estavam divinamente trabalhadas com flores e folhas entrelaçadas.
As águas que envolviam agora o Palácio de Nessya eram vermelhas, com pinceladas de dourado, pois o sol, antes de se pôr, decidira dar uma última e maravilhosa tonalidade ao lago.
Kai parara de contar a sua história, ou melhor, a história daquele Mundo. Sem dúvida que tinha esclarecido muito das dúvidas de Saya, mas ainda não lhe dissera porque razão devia ser ela a guardar o Ceptro, ou por que fora ali parar.
- Osawuri — disse ele e a sua voz soou cansada — Tenho de acabar a minha história antes de entrarmos ali.
Sentaram-se ambos no chão com as costas encostadas à parede, de frente um para o outro.
- Assim que Naraku teve conhecimento da existência do Ceptro — continuou Kai — Veio até Aquilad para tentar que Nessya lhe disse-se onde estava Aerzis ou o próprio Ceptro. Só que ela não sabia. De facto, ninguém sabia. Furioso, Naraku matou Nessya. Depois, encaminhou-se para Brumívium. Foi a meio do caminho que Aerzis o encontrou. Tiveram uma grande discussão, à qual se seguiu um duelo, um duelo de feiticeiros. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, mas parece que Naraku utilizou o seu bastão e Aerzis o Ceptro. No entanto, Aerzis não venceu Naraku, apenas o enfraqueceu-o tanto que ele desapareceu por muita centenas de anos.
» Mas Aerzis também ficou fraco. Ficou mesmo mais farco que Naraku, e só teve forças para regressar a Omnirion. Lá, deu o Ceptro ao rei Inu No Taisho, dizendo-lhe que ele era a única coisa que podia destruir Naraku e que em caso algum devia cair nas mãos deste. Depois, tal como Nessya, morreu. Desde entaão o Ceptro tem passado de geração em geração na família real, sendo um símbolo do seu poder.
» O que aconteceu a Valindra não se sabe. Ela desapareceu na altura em que os seus dois irmãos morreram e nunca mais foi vista. Alguns pensam que morreu, também morta por Naraku; outros acham que ainda caminha por entre as brumas de Brumívium, à espera de se tornar suficiente poderosa para enfrentar Naraku. Sinceramente, não sei, mas confesso que gostaria que ela estivesse viva.
GLOSSÁRIO:
Aerzis — um dos filhos dos Elementos e criador do Ceptro. Travou um grande duelo com Naraku, do qual saiu muito enfraquecido, acabando por morrer. Era o mais velho dos irmãos, e também o mais justo e poderoso.
Valindra — Uma das filhas dos Elementos. Vivia em Névila e dasapareceu depois da morte de Aerzis e Nessya.
Omnirion — cidade toda de pedra branca, dentro de Caladmiron, onde vive o Povo da Luz.
Névila — morada de Valindra, perdida no meio das brumas de Brumívium. Depois do desaparecimento da Valindra, tornou-se a morada das suas sacerdotisas.
Morniran — morada de Naraku. É um lugar negro, repleto de medo e dor.
Brumívium — floresta onde se situa Névila. É um lugar sagrado.
Inu No Taisho — rei youkai. O primeiro dos reis de Omnirion. Pai de Sesshoumaru e avô da Saya.
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