Fez uma pausa, olhou para o lado e soltou um leve suspiro. Tinha os olhos cheios de tristeza e Saya percebeu que não era nenhum pormenor específico que o magoava. Nunca tinha conhecido Nessya, Aerzis ou mesmo Valindra e não eram as suas mortes em particular que o magoavam, mas sim a história do seu povo. Um povo que vivera sempre em paz, mas que podia ver a sua paz acabar com a chegada de Naraku.

- Kai.... — chamou a medo — Aquele youkai de há bocado era Naraku, não era...?

- Era — respondeu o youkai — Eu disse-te.

- Hai, eu sei que disses-te. Mas então... O que é que eu lhe fiz? Matei-o?

Ele soltou uma gargalhada triste.

- Lie, Saya. Confesso que teria sido bom se o tivesses feito. Mas infelizmente não o podes fazer, pelo menos não para já. A única coisa que fizeste foi assustá-lo e enfrequecê-lo um pouco. Ele estará de volta muito em breve, talvez nem demore um mês.

Saya sentiu-se ligeiramente desanpontada. De certo modo, gostava de ter destruído Naraku. E então uma pergunta formou-se na sua cabeça.

- Kai? Afinal como é que o Ceptro funciona?!

- Não sei — respondeu ele como se fosse perfeitamente natural — Ninguém sabe, nem nunca ninguém soube.

- Estás a dizer-me que vocês possuem a única coisa que pode destruir Naraku e nem sequer sabem como funciona? — ele ficou a olhá-la como quem não percebe o porquê da admiração — Gomenasai, mas é preciso ser-se muito burro.

- Saya... O Mundo onde vives-te até agora pode ser linear, mas este Mundo é complexo...

- O meu Mundo também é complexo — estava outra vez a ficar irritada com ele. Ele não tinha o direito de dizer que o seu Mundo era pior que o dele!

- Tudo bem — disse ele com um tom de voz de quem está a perder a paciência — Só estou a dizer que este Mundo está envolto em magia; ele próprio foi criado com magia. Por isso, se não sabemos algo desta importância, não é por não tentarmos, mas porque, pura e simplesmente, não conseguimos descobrir. Talvez o Ceptro não queira que saibamos, talvez esteja à espera da pessoa certa... Não sei, Saya. Estou cansado.

Olhou para ela e depois fez uma cara de desespero. Suspirou profundamente, fechou os olhos e encolheu os ombros.

- O Ceptro é um objecto mágico e, como todos os objectos mágicos, tem uma vontade própria, que muito dificultamente pode ser vergada. É evidente que alguém como Naraku o poderia fazer e é por isso que seria tão perigoso se ele o apanhasse. Imagina o que ele poderia fazer se tivesse na sua posse algo tão poderoso como o Ceptro. Eu concordo que temos poucas respostas para tantas perguntas, mas as pessoas aqui também não passam a vida a questionar-se sobre tudo e mais alguma coisa. Pelo menos a maior parte delas — e como Saya parecia estar novamente aborrecida, acrescentou rapidamente — Não me interpretes mal. Não estou a dizer que não seja bom que faças perguntas. De facto, acho que até é importante que te interrogues e tentes procurar respostas para as tuas perguntas. O único problema é que, como eu não tenho resposta para todas elas, acabas por destruir toda a minha paciência. E a minha paciência até costuma ser bastante grande.

Ambos se riaram com gosto. Ele levantou-se e estendeu-lhe a mão para a ajudar a levantar.

- Vamos entrar? — perguntou ainda a rir.

Ela assentiu com a cabeça, também a rir. E os dois empurraram as magnificentes portas.

Notas finais
No próximo capitulo, emoções fortes para a Saya. Ao descobrir toda a verdade sobre as suas verdadeiras origens, como será que ela vai reagir.