A Filha De Aeon
2 Olhos vermelhos
Notas iniciais
Pittsburg, Pennsylvania
Dias atuais
O gosto amargo de bile na minha boca era incômodo. Limpei com as costas da minha mão o canto dos meus lábios. Levantei-me do chão gélido do banheiro da escola e lavei minhas mãos e a boca. Mesmo depois de lavar, o gosto permaneceu, como um lembrete do que eu acabara de fazer.
Peguei meu material e fui para a aula de cálculo avançado. Acho que ultimamente a única coisa que tem feito sentido na minha vida é a velha e boa trigonometria.
Ao entrar na sala já cheia de alunos, avistei meu local costumeiro ao fundo, inadequadamente ocupado por um cara loiro, aparentemente alto (considerando que ele estava sentado) e com um tom de pele tão claro quanto o meu. Nunca havia visto este cara na vida
Sabe aquele momento em que a gente nem conhece a pessoa, mas sente desejos ardentes de matá-la? Sou eu neste exato momento.
Bufei irritada e sentei-me na cadeira da frente da dele. Enquanto revirava minha bolsa, dei-me conta de que deixei meu estojo no banheiro. Nem sei por que eu o tirei da bolsa. Droga! Não tenho nem um lápis solto pela bolsa! Porque eu não sou menos organizada?
Enquanto eu procurava freneticamente um misero lápis, ouvi alguém pigarrear atrás de mim.
– Como você conseguiu entrar nessa turma? – Disse o loiro sentado no meu lugar estendendo um lápis na minha direção.
– Pergunto a mesma coisa sobre você – Peguei o lápis de sua mão e me virei antes que ele tivesse a oportunidade de deixar mais um de seus comentários. Não funcionou muito bem.
– Olhos legais – Sussurrou ele perto de meu cabelo.
Meus olhos eram mesmo legais. Tinham uma cor vermelho-vinho muito bonita e eram estranhamente discretos, tão discretos que eram facilmente confundidos com castanho-escuro. Os olhos dos meus pais são de ambos castanhos, então não sei de onde veio essa cor. Minha mãe nunca fala sobre os meus falecidos avós e sempre muda de assunto quando eu pergunto. Cheguei a conclusão de que é muito doloroso para ela falar sobre eles, então parei de perguntar.
O som estridente do sinal que anunciava o término da aula tocou. Peguei minhas coisas e levantei da cadeira bege e sem graça que junto de suas amigas beges e sem graças preenchiam a sala.
– Obrigada – Virei e devolvi o lápis para o loiro que estava atrás de mim e ele murmurou algo do tipo “não tem de quê”.
Assim que atravessei a porta parti em disparada para o banheiro. Felizmente ninguém havia entrado naquela cabine nessa ultima aula, ou simplesmente ignoraram o meu estojo que estava jogado no chão. Coloquei-o na bolsa. Tinha aula de física com o Sr. McWood.
Quando saí do banheiro vi um menino loiro, o mesmo da aula de cálculo avançado, andando de um lado pro outro. Olhando ora para um papel ora para as placas das salas. Estava obviamente perdido.
– Hum... Deixe-me ver – Peguei a grade de horário que estava em suas mãos e analisei – Sua próxima aula é no terceiro andar, sala A.3.14 – Tentei lembrar-me de quem era aquela sala – É aula de literatura como Sr. Foster. Ele é muito divertido. – Devolvi o papel para ele.
– Hum... Obrigado – Ele me lançou um sorriso de modelo da Abercrombie e em vez de devolver o sorriso, bufei, revirei os olhos e fui embora.
Não precisava de caras que sabem que são bonitos na minha vida de novo. Caras que fingem que gostam de você, que fingem que nunca te machucaram, mas machucam. Já sofri o bastante por caras assim e não quero passar por isso tudo de novo. Ok eu acabei de conhecer o cara e ele nem deu em cima de mim de verdade, mas é sempre assim que essas coisas começam. Pode conferir em qualquer livro as coisas começam desse jeito. Mas se o destino acha que vai brincar comigo de novo, ele está muito enganado!
– Hã... Moúsa? – Cutucaram-me fazendo com que saísse de meus devaneios. Não sei o que seria “Moúsa”, mas como eu sou a única aqui, imagino que estejam falando comigo, não é? Além do mais, a pessoa me cutucou. E eu sei que “a pessoa” provavelmente é o cara loiro. Como é o nome dele mesmo? Acho que nem cheguei a perguntar. – Sei que é pedir demais, mas você poderia me levar para essa tal de sala A.3.14? Não sei se percebeu, mas sou novo aqui e você foi a primeira pessoa a me ajudar. – Refleti por um momento e então respondi:
– Primeiro: meu nome é Theá não Moúsa. Segundo: sua sala é no mesmo corredor que a minha, então vamos, estamos atrasados.
Ouvi-o murmurar algo para si mesmo como “É a mesma coisa”, mas não entendi o que era a mesma coisa. Fui na frente pelo corredor e senti seu olhar queimando em minhas costas.
– Galen – Disse o menino loiro quando estávamos chegando no corredor do terceiro andar
– Perdão? –
– Meu nome. É Galen.
– Nome legal – Parei diante da sala do Sr. Foster – É aqui. Boa sorte com o atraso. – Falei indo para a sala do Sr. McWood.
– Para você também, moúsa–
Gostaria de saber o que significa esse tal de “moúsa”, mas já estava no meio do caminho.
O Sr. McWood não ficou feliz com o meu atraso, mas deixou-me entrar, já que não era de meu feitio cabular aula. E assim que entrei senti um cheiro pungente de suor, hormônios e alguma coisa morta. A medida que fui me aproximando do fundo, o odor piorava. Voltei para frente e sentei-me na primeira cadeira. Não sou louca de assassinar minhas narinas desse jeito.
Já estávamos no meio da aula e adivinha? Ainda não havia descoberto de onde vinha tal cheiro. Eu estava apostando que vinha de um daqueles brutamontes que jogam Rugby. Ou quem sabe do Sr. McWood. Ele é um cara legal, mas fede como um condenado. Nunca chegou a esse ponto, mas as pessoas estçao sempre superando seus limites.
Não que ele não seja uma boa pessoa, mas tem umas crises de pedofilia durante a aula. Não entendeu? Permita-me explicar. Ele começa a fazer uma voz de criança insuportável e como ele é um homem adulto, parece que ele esta fazendo voz de alguém que vai te estuprar assim que a aula terminar. Além das crises de assédio dele. Ele sempre leva um porquinho de plástico na aula e faz alguns alunos, pobres condenados, passarem a mão na bunda do porco.
– Tsiu! Thea! – Só senti a bolinha de papel acertando a parte de trás da minha cabeça. Quem foi o filho de Hades que arremessou isto em mim? Virei lentamente minha cabeça, não perdendo a oportunidade de dilacerar com os olhos cada criatura que estava no caminho até encontrar meu atirador. Duncan. Ele havia atirado em mim. Em vez ao menos tentar se defender e mentir, ele apenas sorriu e apontou para a bolhinha de papel que jogara em mim.
A contragosto peguei a maldita bolhinha e abri.
“Eai Thea? Te falei que minha irmã fez cirurgia nos peitos e agora eu tenho que ficar cuidando dela? Acho que não. E tbm não devo ter mencionado que vc vai me ajudar”
Só pode ser brincadeira! Mas não, não era. Eu sabia que ele não brincaria com uma coisa assim. Me lembro da Dany mencionando que iria aumentar o tamanho dos peitos. E como melhor amiga do Duncan, eu não podia dizer não. Ele me ajudou a cuidar da minha mãe quando ela tirou os dentes do ciso , e considerando que uma das tarefas era limpar os buracos cheios de sangue da boca dela enquanto ela babava, bem, digamos que eu não tenho muita moral para recusar alguma coisa para ele.
“Ta, mas vamos deixar bem claro que vc vai fazer a parte nojenta”
Escrevi em baixo de onde ele havia escrito seu bilhete nada agradavel e arremessei pela sala ate onde ele estava. Infelizmente minha mira é pessima e acabei acertando a menina sentada na frente dele. De qualquer modo eu não gosto de ninguem dessa sala e vice-versa.
Um som que mais parecia um coiote tendo bebê anunciou o termino da aula. Odiava segunda-feira pois só tinha uma aula com o Duncan. E nem era a aula de um dos meus professores favoritos. E o pior de tudo. Eu disperdisei essa unica aula sentando longe dele.
– Hoje. Despois da aula. Minha casa. Cuidar da Daniella. – Foi o que ele disse enquanto passava por mim correndo para ir para a sala do Sr. Neumann. Se eu tivesse aula com o Sr. Neumann agora tambem estaria correndo. O velho não suporta um segundo de atraso. E a sala dele fica no primeiro andar.
Arrumei meu material e fui lentamente até a porta. Ninguem merece ficar todas as aulas do dia sem o melhor amigo.
Quando passei pelo batente da porta, tropecei em alguma coisa e quase fui para o chão. Que vamos combinar estava bem sujo e gelado. Mas em vez de dar uma bitoquinha nos insetos mortos que jaziam no chão empueirado e meio gosmento, meu braço foi subitamente agarrdo e fui posta de pé novamente.
– Desculpe, não devia ter deixado meu pé na porta desse jeito. – Era o Galen. Acho que a proxima aula dele é nessa sala. Coitado. Vai ter que aguentar o cheiro repugnante que esta impregnado naquela sala.
– Tudo bem, estou acostumada à quedas – Ele soltou uma leve risada. Gostaria muito de estar brincando. – Aula com o Sr. McWood agora? –
– Ãn... não sei. Vim ate aqui para voce me dizer para onde devo ir, moúsa – Ele me estendeu sua grade de horarios. Encarei o papel por alguns segundos.
– Voce tem aula na B.2.7. Se não me engano é a minha proxima aula tambem. Historia geral, com o Sr. Ruzinsky. – Devolvi o papel para ele e fiz um sinal para ele me seguir.
Ao chegarmos na sala, Galen se sentou ao meu lado na ultima cadeira.olhei para ele e fiz uma careta de indignação.
– Olha, não é só porque eu estou te ajudando que voce tem que se sentir na obrigação de sentar perto de mim – Apontei para um grupo de meninas estilo barbie girl que estavam gritando como o fim de semana delas tinha sido otimo – Qualquer uma delas mataria para sentar perto de voce. Não desperdice a oportunidade de fazer amigos. – A cara de indignação dele foi ainda melhor que a minha.
– Mas e se eu quiser sentar aqui? E se eu quiser ser seu amigo, moúsa? – Por essa eu não esperava. Meu rosto expressava toda a minha surpresa e aversão àquela situação.
– E por que, em nome de Odin, voce faria isto? – Ele refletiu por um momento, mas pareceu ser mais por eu ter usado o nome de Odin do que pela pergunta.
– Voce não tem muita experiencia em fazer amigos, não é? Vou dar uma dica. Quando alguem quer ser seu amigo, voce aceita. Finge que gosta da pessoa e depois de um tempo voce acaba realmente gostando. –
– O problema, fofo, é que eu não sou falsa com ninguem. – Nunca vi motivo para agradar pessoas com as quais não me dou bem e que não gosto.
– Entao é por isso que voce não tem amigos, moúsa? – Eu queria responder que tinha amigos. Que ele estava errado e que não sabia nada sobre mim. Mas ele tinha razão. Um melhor amigo não conta como “amigos”. E eu nunca me esforcei para fazer alguma amizade.
Seja bem, as amizades simplesmente não duram comigo. Minha vida se resume em: Entrar numa escola, aprender o maximo que consigo sem me meter em confusão e quando alguma coisa paranormal grande acontece comigo, mudo de cidade e começo tudo de novo.
O caso é que as pessoas começam a ligar os eventos paranormais à minha presença, então eu sou obrigada a mudar.
Estava nesta cidade faz um ano e meio. Foi o tempo maximo que já consegui ficar em algum lugar. Minha mãe disse que quanto menos laços de amizade eu fizer, mais facil sera a mudança eminente.
Aqui era diferente. Estava em Pittsburg, Pennsylvania. Mudei-me de Nova Iorque no começo do ano passado e desde então só fiz um amigo. Que se tornou um grande amigo.
Infelizmente eu não sou muito de aceitar que estou errada. Outra desvantagem de ser filha única e não ter amigos. Então em vez de concordar com com ele, levantei-me e fui sentar perto das barbies.
Elas não me receberam muito bem. Me olharam com desgosto, reviraram os olhos e se voltaram para trás para admirarem o belo rosto (e corpo) de Galen. Olhei para ele com uma cara de “Eu não disse?” e ele respondeu dando de ombros.
Eu não esperava que ele fosse reagir a minha saída de maneira muito escandalosa, afinal eu nem o conheço. Mas a questão é que ele não reagiu. Simplesmente ficou lá piscando para as barbies.
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