A Filha De Aeon
4 Danny e seus peitos de cirurgia
Notas iniciais
Aos poucos fui me envolvendo num sono cada vez mais gostoso e profundo. De repente estava dormindo. As jorradas do vento gelado contrastavam com o cobertor gigante que me abraçava, quente e fofinho.
Meu cobertor começou a se mover e logo despertei com cara amarrada. Estava tão bom! Não queria acordar nunca mais!
— Vamos, Thea, a aula vai começar — Cobertores não deveriam falar com a gente, mas o meu falava, talvez porque ele era meu melhor amigo Duncan e não um misero cobertor.
— Aula de quem você tem agora, Dun? — Perguntei ameaçando abrir os olhos, deixando a luminosidade atacar meus desprotegidos olhos.
— Sra. Backman de biologia. E você — A sim, a Sra. Backman, uma velha gorda e nanica. Risonha como um bebê e faminta como jogadores de rugbi.
— Sr... — Não lembrava que aula teria em seguida. — Sr. Rockenbach de filosofia grega, eu acho — Este era um dos professores mais estilosos de toda a escola. Ele literalmente se vestia melhor que muitos alunos, o que o tornava meio afeminado.
— E você, Galen? — Perguntei à ele aparentemente tirando-o de seus próprios devaneios.
— Não sei, só sei que é na B.3.1 — Ele encarava o pedaço de papel em suas mãos tentando entende-lo, mas ficando perceptivelmente mais confuso a cada segunda que se passava.
— Artes cênicas — Respondemos em unissono Duncan e eu.
— Quem é a professora? Ou professor? — Ele perguntou um pouco desconfiado. Eu ta,bem ficaria se aquela bruxa estivesse me esperando para uma sessão de tortura, felizmente fiz questão de eliminar esta materia do meu horario.
— Katherine. Ela é meio louca e nunca nos disse o segundo nome, ela diz que o teatro tem que ser algo liberal, onde todos se conhecem pelo primeiro nome — Duncan respondeu, poupando minha saliva.
— Ela parece ser legal — Ri tão alto que os deuses no olimpo devem ter me escutado.
— Legal? Aquela mulher é o demonio em pessoa! Tão terrivel que chega a ser indrescritivel em meras palavras! Veja por si mesmo, vai se arrepender pelo resto da vida de um dia ter se inscrito na aula dela! — Os olhos dele estavam arregalados por causa de minha explosão.
— Santa ninfa padroeira! Pare de assustar o menino! — Reprendeu-me Duncan com um olhar de reprovação.
— Ele vai descobrir de qualquer maneira! — Era verdade, ninguem escapava da maligna Katherine.
— Obrigado por sua sinceridade, moúsa — A surpresa estava estampada em meu rosto sonolento. Ninguém gostava da minha sinceridade. Na maior parte do tempo as pessoas achavam irritante e uma falta de educação. Não, ninguém gostava.
O resto do dia passou um pouco mais rápido. Minha cabeça estava longe nas aulas legais, ainda mais distantes nas aulas chatas. Tive mais uma aula com o Galen, o que facilitou muito a minha vida porque eu precisava ficar levando-o de uma sala até a outra em todos os intervalos de aula, o que me fazia ter um ou dois minutos de atraso dependendo da distancia entre nossas salas.
_X_
— Sabe... Isto é bem mais nojento do que eu imaginei! — Disse para as paredes do banheiro roxo da casa do Dun. Estava lavando uma blusa da Danny cheia de pus e outras coisas que eu não identifiquei. O cheiro de maquiagem, flores mortas e alvejante estava circulando pela atmosfera do banheiro. Um cheiro nada agradável.
— Anda logo com isso, Thea! — Duncan me apressava do lado de fora do banheiro.
Os peitos recentemente aumentados de sua irmã infeccionaram por ela não ter limpado os cortes direito e agora cabia a mim e ao Dun limpa-los, além de — é claro — termos de lavar as roupas que sujaram com a infecção.
Danny diz que não quer estragar muitas roupas com essa — nas palavras dela — besteira de infecção.
— Esta coisa não sai da blusa! — Gritei para ele de dentro do banheiro.
— Deixa eu entrar então —
— Não! Eu consigo sozinha! — Na verdade eu não conseguia, mas não queria ficar num lugar tão "íntimo" sozinha com ele.
— Então anda logo! — Ouvira os passos dele se distanciando da porta e suspirei de alívio.
Após uns bons 15 minutos eu saí do banheiro com uma blusa parcialmente limpa. Entreguei-a para a Dannielle que estava apenas de sutiã na sala de estar assistindo um programa que eu identifiquei como American's Next Top Model.
— Valeu, Thea — Ela colocou a blusa com coitado — O bobão está na cozinha fazendo alguma coisa para eu comer — Ela sabia que eu iria perguntar pelo Dun.
Fui até a cozinha, Duncan estava no fogão fazendo sabe-se lá o que.
— Thea? — Ele sabia que eu estava lá mesmo antes de eu falar alguma coisa — Eu estava pensando... Sabe aquele cara novo, o Galen? — Murmurei um "sim" evitando o cheiro devastador que o fogão emitia — Acho que vocês se dariam bem, sabe, como namorados — Meu queixo caiu.
— É o primeiro dia do menino na escola, e você já quer se livrar de mim? — Levei na brincadeira, para ver se ele esquecia essa história e pensava um pouco mais na nossa amizade como algo além de amizade.
— Só estava pensando! Você está aqui a um tempão e não saiu com nenhum cara além de mim — Era verdade. Mas eu não queria sair com ninguém. Estava feliz com um melhor amigo e minhas paixonites platônicas.
— Já pensou que talvez eu não queira nenhum cara? — Peguei um pano para cobrir o nariz, o cheiro era de matar.
— Ta se assumindo lésbica por acaso? — Ele riu com a própria piada.
— Eu só não quero um namorado, okay? — Foi a única coisa que consegui dizer.
Eu queria um namorado. Mas ele não me queria.
_X_
— Me ligue se ele não cuidar bem de você — Gritei para a Danny da entrada da casa. Já estava de partida depois de ter passado a tarde toda e uma parte da noite cuidando dela com o Duncan.
Ele me levou até em casa como sempre (não que fosse muito longe da dele).
Assim que cheguei tomei um bom banho, longo e quente. Vesti minhas roupas comuns para dormir e me enrolei no cobertor que ganhei de aniversario aos 3 anos. Minha mãe diz que era da minha avó. Um gosto peculiar. O cobertor era cheio de desenhos que lembravam imagens de guerra entre deuses e coisas assim.
Durma com ele porque era a única lembrança viva que tinha dela. Nunca cheguei a conhecê-la de verdade. Só tenho isso.
Me apeguei mais forte ao cobertor e caí num sono gostoso, com a respiração ritmada e cada vez mais profundo.
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