A Filha Da Timidez

8 Capítulo 7 – Não é mais segredo


A única coisa que consegui fazer foi entrar igual uma louca no banheiro. Fechei a porta tão rápido quanto piscar e a tranquei. Encostei-me na porta e levei a mão à boca, me dando conta do que acabara de acontecer. Nem dez minutos se passaram e ele bateu na porta. Parecia estar sem graça – tanto quanto eu.

– Então... Eu preciso usar o banheiro. Tá tudo bem aí?

– Tá!

– Beleza. Então... Dá pra sair agora? Eu não mordo.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Eu não podia passar a noite naquele banheiro. Seria ridículo. Então cedi seu pedido e abri a porta. Assim que o fiz, ele me encarou com um sorriso. Ele percebeu que eu estava com vergonha, principalmente por estar usando só aquela camisa.

– Obrigado. E vê se não vai embora, quero falar com você.

Fiquei em silêncio, apenas sai do banheiro enquanto ele entrava. Assim que ele fechou a porta o pânico tomou conta de mim. Fiquei tremula. Não sabia o que esperar do que iria acontecer em seguida. Fui correndo procurar minhas coisas e coloquei a calça em um segundo. Foi o tempo que demorou até ele sair do banheiro.

– Já ia fugir? – perguntou assim que me viu de novo, desta vez com a calça.

– Não... – aposto que eu estava roxinha de vergonha. Aposto!

– Eu só queria saber o que você está fazendo aqui. Confundiu o quarto? – ele riu.

– Não, eu vim porque a Babi pediu. – disse enquanto procurava minhas coisas – ou melhor, fingia que procurava. Não conseguia olhar para ele enquanto falava.

– Como assim?

– Ela e o Rapha, no nosso quarto lá, vão... Vão... – essa sou eu nervosa o suficiente para não conseguir falar.

– Beleza, já entendi. Eu acho... – ele voltou a rir. – E então ela pediu pra você dormir aqui hoje pra eles ficarem a sós lá. É isso?

– Sim.

– Então porque está procurando suas coisas? Vai a algum lugar?

– Acho que isso não foi uma boa ideia. – andei em direção a porta.

– E você vai simplesmente voltar lá e estragar a noitada deles? Fora que não seria nada legal entrar e pegar os dois no maior rala e rola... – ele cruzou os braços. Pensando bem, não seria nada legal mesmo. Fora que eu não queria estragar a noitada deles.

– É verdade. – Não consegui dizer mais nada. Me dirigi ao criado-mudo para colocar um mísero anel ali e acabei derrubando o abajur.

– Porra. – resmunguei enquanto abaixava para pegar os cacos. – Ai, desculpa. Quis dizer droga, não porra, e me desculpe pelo abajur também, eu sou uma desastrada, mas eu posso consertar se você quiser e...

– Ei, relaxa! – Me calei e finalmente olhei para sua face. Ele me observava com um sorriso de canto no rosto e com os braços cruzados. Voltei a pegar os cacos e, ao tentar colocá-los sobre o criado-mudo, bati a mão em um copinho de plástico que tinha ali. Ainda tinha um pouco de água nele, mas foi pro chão em questão de segundos. Soltei todos os cacos e me levantei do chão no mesmo instante.

– Eu sou um monte de bosta mesmo! – disse para mim mesma e levei as mãos ao rosto, tampando-o de tanta vergonha. O objetivo era colocar um anel ali e eu dei conta de fazer uma grande cagada. Agora ele deve achar que eu sou uma trouxa.

– Deixa que eu cuido disso, senta aí.

Sentei-me em uma das camas e fiquei observando-o limpar tudo. Sou uma imbecil. Assim que terminou, sentou na cama da frente e me encarou.

– Você não precisa dormir com isso se não quiser. – e apontou para minha calça de couro. – Tá um calor do caralho. Não precisa ter vergonha, fica a vontade aí. – assim que terminou de falar, tirou a camisa, deitou na cama e ligou a TV.

Enquanto ele procurava um canal para assistir, fui até o banheiro. Eu podia estar morrendo de vergonha, mas não dava pra dormir com aquela calça. Tirei-a e a deixei no banheiro. Saí de lá abaixando a blusa com as mãos o máximo que conseguia para tampar o máximo que dava das minhas pernas. Acho que essa cena foi cômica. Seu olhar se desviou da TV até mim. Fiquei com vergonha e abaixei a cabeça, tentando ignorar. Segui até a cama e me cobri com o lençol.

– Quer assistir alguma coisa? – e estendeu o controle para eu pegar.

– Não, obrigada.

– Você não é de falar muito, não é? – Não respondi, apenas olhei para ele e sorri como se estivesse confirmando o que ele acabara de perguntar. Ele me retribuiu o sorriso. Logo virei para o lado da parece e adormeci.

De manhã, quando acordei, Wesley não estava mais no quarto. Vi um relógio sobre o criado-mudo e percebi que já era pouco mais de meio dia. Levantei as pressas e fui em direção ao banheiro para me vestir. Estava louca para voltar ao meu quarto e trocar de roupa. A calça? Não estava mais onde eu a deixara. No lugar dela? Um bilhete. Bufei e revirei os olhos. “Será que essa gracinha nunca vai acabar?”, pensei comigo.
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Amassei o papel e joguei em qualquer canto do quarto, com muita raiva. “Será que o “jogador” é o Wesley?” “Não, não pode ser. Além disso, esse quarto não tem chave, qualquer um pode ter entrado aqui.”. Fiquei andando pelo quarto e pensando em milhões de possibilidades enquanto olhava para o teto. Decidi tentar encontrar minha calça por ali mesmo. “Ela pode estar escondida aqui em algum canto.”, pensei. Não poderia tirar a possibilidade de ser o Wesley.

Revirei o criado-mudo, olhei em baixo das camas, dos travesseiros e lençóis, procurei em todos os cantos do banheiro e, por último, fui checar o guarda-roupa. Tirei todas as roupas de lá, mesmo sem saber se eram do Wesley ou do Rapha. Só de imaginar que cada uma das cuecas que eu tocava poderiam ser do Wes... Eu me arrepiava. Mas, ao mesmo tempo, poderiam ser do Rapha... Eca! Foquei-me em procurar a calça.

Depois de tanto revirar as coisas dos meninos e não encontrar absolutamente nada, me dei por vencida e sentei no chão, apoiando os cotovelos no joelho e levando as mãos à testa. O barulho da porta me assustou e eu dei um pulo, levantando no mesmo segundo.

– O que você ta fazendo? – era o Wes, quase gritando. Ele me olhava indignado com o que via. Acho que minha reação seria a mesma se eu o visse em meu quarto, revirando minhas roupas. Eu não conseguia responder. Meu corpo estremecia e aposto que meus olhos estavam arregalados por conta do susto.

– Anda, responde!

– Nada.

– Nada? Então porque você está revirando minhas roupas? – cruzou os braços e ergueu uma de suas sobrancelhas.

– É que... Eu só... Só tava... – parei assim que percebi que algo chamou a atenção dele. Ele olhou para o chão e esticou sua mão para pegar algo. Era o bilhete, que antes eu amassara.

– NÃO! – eu gritei por impulso. Ele me ignorou e pegou o bilhete do chão mesmo assim. Quando ia abrir para ler, corri até ele e o impedi, tentando pegar o papel de suas mãos. A timidez? Pela primeira vez na vida a deixei de lado. Aquilo era mais importante. Ele não podia ler. Eu não queria dar satisfações, fora que seu nome estava naquele bilhete.

Ele segurou firme o bilhete em uma de suas mãos e com a outra me empurrou para fora do quarto, mas não de uma forma bruta. Ele realmente era forte. Bateu a porta na minha cara. Tentei abri-la a todo custo, mas percebi que o peso de seu corpo empurrando a porta me impedia de fazer isso. Parei. De nada iria valer continuar batendo e empurrando a porta. Eu sou fraca perto dele. Olhei para o corredor e fiquei tranquila ao ver que não havia ninguém ali. Estar só de blusa e calcinha em um corredor onde qualquer aluno pode passar e me ver é realmente muito constrangedor. Seria mais uma gafe minha depois da foto na banheira.

Fiquei alguns segundos ali fora até que Wesley abriu a porta, agarrou meu braço e me deu um puxão, me fazendo entrar no quarto de novo – quase beijando o chão com o “quase tombo” que, por sorte, não levei. Em seguida fechou a porta e me prensou nela.

– De onde surgiu esse bilhete e porque ele está insinuando que nós transamos? – pronto! Tudo o que eu menos precisava aconteceu: Wesley descobriu o jogo. O meu segredo.



Notas finais
Não acontece quase nada nesse capítulo, mas ele realmente é necessário... Reviews, por favor!! =)