A Filha Da Timidez
9 Capítulo 8 – A ilha Seychelles
Notas iniciais
Fiquei um longo tempo o encarando sem dizer absolutamente nada. Eu simplesmente não conseguia. Não saia nenhuma palavra de minha boca. O que eu iria dizer?
– Anda, responde! – me sacudiu.
– E-eu... Eu não sei. – gaguejei.
– Como assim não sabe?! Você quase enlouqueceu quando me viu pegando o bilhete.
– É que... – me calei. Estava tentando organizar meus pensamentos numa possibilidade de conseguir explicar alguma coisa.
– É que o quê? Anda, desembucha!
– Tudo bem. – encarei-o, dessa vez séria. Não conseguiria inventar qualquer desculpa, e, se conseguisse, seria uma tão estúpida que ele iria notar e iria rir da minha cara. – Eu não sei quem mandou esse bilhete...
– Como não? Alguém entrou aqui? Você viu? – ele me interrompeu.
– Me deixa terminar de falar! – dei uma bronca nele. – Bom, como eu dizia, eu não sei quem é que está fazendo essa gracinha comigo. Estou recebendo bilhetes anônimos desde o dia em que aquela foto vazou.
– A da banheira? – não pude evitar perceber um leve sorriso em seu rosto. Corei.
– Sim. E a propósito, a foto não foi coisa minha. Mas isso é outra história.
– Tudo bem, mas porque o meu nome ta aqui? E o do... – olhou o bilhete novamente – Bryan?! – ele estava confuso, pude notar.
– Aposto que é porque o Bryan conversa comigo de vez em quando. Mas eu sei o que ele está tentando fazer e eu não estou dando trela pra ele. Alguém deve estar achando isso muito engraçado e está fazendo piadinhas através desses bilhetes malditos. Quanto a você... Devem ter escrito o seu nome só porque vim dormir aqui, e não perderam a oportunidade de fazer piadinha.
– Porque você não contou isso pra ninguém? Sei lá, podia ter pedido ajuda...
– Como se alguém fosse acreditar. – ele ficou em silêncio. No fundo sabia que eu tinha razão. Ninguém acreditaria. – Posso sair agora, senhor? – ele ainda me prensava na porta, mas soltou assim que pedi.
Sentei na cama, apoiei meus cotovelos na coxa e levei as mãos à cabeça. Como eu vou sair daqui sem calça? Mal sei onde Babi pode estar, e ela está com a chave.
– Eu tinha voltado aqui pra te acordar... Ia te avisar que nós chegamos à ilha. Eu encontrei a Babi lá embaixo e ela mandou te entregar isso – tirou uma chave de dentro do bolso da calça e me entregou. Era a chave do quarto, graças a Deus! Sorri como forma de agradecimento. Peguei meu sapato e acessórios e fui correndo para o quarto.
Ao contrário do que eu esperava o quarto estava impecável. Tenho que confessar que fui dar uma conferida na minha cama. Nunca se sabe, não é?! Estava do jeitinho que eu a deixara. Sem mais delongas, comecei a me trocar.
Praia. Não era um ambiente que me agradava muito, mas também não odiava. Colocar biquíni é uma das coisas que eu mais detesto. Sinto-me muito... Nua. Mas eu estava lá para aproveitar. Além disso, eram só alguns dias. Colocar biquíni não iria me matar. Peguei-o de dentro do guarda roupa. Era azul, minha cor favorita. Em seguida peguei uma blusa qualquer. Era simples, cavada, na cor verde-água e tinha alguns botões. Na frente havia duas pontas, feitas para amarrar, dando um nó ou laço. Escolhi um short jeans bem curto, meio claro e um pouco rasgado na frente. No cabelo fiz duas tranças, uma de cada lado da cabeça. Ficou bem despojado, e eu gostava disso. Nos pés calcei um chinelo branco e no rosto coloquei um dos meus óculos favoritos.
Saí do quarto e fui em direção à saída do navio, para poder ir até a ilha. Aquilo estava parecendo um navio abandonado. Acho que todo mundo havia acordado cedo para ir à praia, menos eu. Andei por um tempo até encontrar a saída daquele navio. Era grande demais e eu me perdia fácil.
Como previsto, todos já estavam lá. Fui andando entre as pessoas sentadas na areia, procurando pela Babi ou alguém conhecido. Não encontrei ninguém. Pedi um guarda-sol e uma cadeira em um quiosque ali próximo e me acomodei em um canto da praia. Fiquei observando o mar. Por mais que eu não goste tanto de praia, a vista era linda. Poderia ficar a tarde inteira ali, pensando em milhões de coisas e tomando essa brisa fresca. Avistei Babi e Rapha no mar abanando a mão para mim. Estavam fazendo gestos, me chamando para ir até eles. Respondi, também com gestos, tentando dizer que não iria. Acho que eles entenderam, mas não gostaram da resposta.
– Você é rápida. – soou uma voz ao meu lado.
– Por quê?
– Chegou aqui primeiro que eu. – Wesley sentou ao meu lado, na areia mesmo. Estava com uma camiseta branca, uma bermuda preta, chinelo e um boné de aba reta. Não disse nada, apenas sentou e ficou em silêncio.
– Não vai nadar? – tentei puxar papo.
– Você não vai?
– Eu perguntei primeiro.
– Minha resposta depende da sua.
– Ahn? – não estava entendendo. Ele riu.
– Não quero ser vela dos dois lá. Não sozinho, pelo menos.
– Mas você tem outros amigos.
– Sim, tenho você. – arrepiei. Então agora eu era amiga do Wes? Ok.
– Eu não vou nadar Wes. – quando percebi, já tinha dito o nome “carinhoso” que o chamavam.
– Porque não?
– Não estou com vontade. – menti.
– Duvido! Pela sua cara, acho que você está escondendo algo.
– Ok, é porque eu tenho vergonha.
– De que?
– Eu não gosto muito de praia, biquíni... Essas coisas.
– Tudo bem, eu já entendi. – ele bufou – Eu vou mesmo ter que te arrastar?
– Porque quer tanto que eu vá contigo? Nade sozinho! – eu estou mesmo dando um fora no garoto que eu gosto? Sim, eu estou.
– Eu estou me desafiando a levar você comigo.
– Então desista, pois não vai conseguir. – voltei a observar o mar.
– Ah é?! – ele levantou e fingiu que ia me pegar no colo.
– TUDO BEM! – gritei por impulso. Todos que estavam envolta olharam e fizeram caretas. – Eu vou contigo. – Tirei o óculos e o chinelo e deixei-os ali mesmo. Fui de roupa.
Andava em direção ao mar um pouco a frente do Wesley. Estranhei por ele não estar andando do meu lado e parei, olhando para trás em seguida. Fui surpreendida. Em um instante ele me pegou no colo e começou a correr. Quando alcançamos o mar, ele me arremessou, literalmente. Babi e Rapha se aproximaram e começaram a jogar água. Depois fomos mais para o fundo, onde as ondas eram maiores.
Mesmo não gostando de mar tenho que admitir: estava bom demais! Não é só por causa do Wesley – claro, ele era sim um dos motivos – mas, estar ali com os três me divertindo me trouxera uma alegria que há tanto tempo eu não sentia. Eu finalmente me sentia parte de algo.
Ficamos a tarde inteira na praia. Nadamos por algumas horas, saímos e fomos almoçar em um quiosque ali na praia mesmo e depois ficamos conversando, sentados na areia. No final da tarde, pouco antes de anoitecer, ainda demos um último mergulho e depois retornamos ao navio. Os meninos foram para o quarto deles, e eu e Babi para o nosso.
– Agora que estamos sozinhas me conte o que aconteceu ontem. Como foi? – eu disse, me referindo à “noitada”.
– Não aconteceu nada.
– Não entendi.
– Você é boba. Eu e o Rapha não fizemos nada além de beijos e amassos. Aquilo foi só pra você e o Wesley se aproximarem, e acho que deu muito certo!
– O quê? Porque vocês fizeram isso? O Rapha mesmo disse que ele nem gosta de mim. Pare de me fazer ficar ainda mais iludida por esse garoto! – eu realmente fiquei irritada com isso.
– Eu sei que você gostou.
– Não, não gostei!
– Rapha achou que seria uma boa ideia porque ele disse que o Wes estava estranho. Perguntava muito sobre você, mas dizia que era só “pra saber”. Só que a gente não é idiota... Aí tem!
– Realmente, foi muito estranho o que rolou na praia. Ele me pegou no colo...
– Eu vi. Vocês estavam tão fofos!
– Não, Babi. – nós rimos. Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que me lembrei do óculos e do chinelo que eu havia deixado lá na praia. Como sou estúpida. Como consigo voltar sem minhas coisas e não perceber? – Babi, vou voltar lá na praia. É rapidinho.
– Pra quê? – só ouvia sua voz, que vinha de dentro do banheiro.
– Eu deixei meu óculos e meu chinelo lá na praia.
– Deixa lá, amanhã você procura. Já está tarde, não é uma boa ideia ir lá sozinha.
– Tolice. Ainda deve ter alguém lá. Não vou estar sozinha.
– Jullie, to falando sério! – a deixei falando sozinha e sai do quarto, rumo à praia.
Não estava um breu total como imaginei. Havia algumas tochas acesas ao longo da praia, mas nada que iluminasse tanto. Também havia um casal. Um único casal. Eles estavam se pegando embaixo de uma das tochas. Mas estavam longe da onde eu deixara minhas coisas. Não me importei. As cadeiras e guarda-sóis já haviam sido recolhidos e os quiosques já estavam fechados. Mesmo assim fui à procura de minhas coisas. Aquele óculos não era barato e era um dos meus favoritos. Acha mesmo que vale a pena deixar pra lá?! Não mesmo!
Dei diversas voltas naquela praia e nada. Resolvi olhar perto dos quiosques. Vi algumas cadeiras amontoadas e foi lá mesmo que fui bisbilhotar. E não é que eu encontrei?! Estavam no chão, quase cobertos pela areia, e havia uma pilha de cadeira sobre eles. Quem colocou ali deve ter tentado escondê-los. Abaixei para pega-los e quando me virei, pronta para voltar ao navio, trombei com alguém. Estava bem perto, a poucos centímetros. Pedi desculpas e tentei sair dali, mas sua mão fria segurou o meu braço.
Eu não sei quem era. Sua roupa era toda preta, e estava usando um capuz na cabeça. As tochas não estavam muito perto dos quiosques, então quase não havia luz ali. Além disso, seu rosto estava contra a pouca luz que as tochas faziam. Conclusão: não consegui ver uma partezinha sequer de seu rosto. Mal pude ver se era homem ou mulher, mas pelo toque de sua mão eu tive um palpite.
– Quem é você? – esperei por uma resposta, mas não a tive. Ainda segurando o meu braço me estendeu um bilhete com a outra mão. Peguei-o e consegui ler, com muita dificuldade.
Olhei indignada para seu rosto – ou melhor, para o preto que tomava seu rosto.
– Quem diabos é você? Seu filho de uma puta! – aquele bilhete me deu raiva e nojo. Mal consigo explicar. Sentia meu corpo ficando quente, e me batia uma vontade louca de descontar toda a raiva que o bilhete me passara. Não só o bilhete. Aquela pessoa era o jogador cheio de gracinhas. Minha vontade era de pular em seu pescoço. E não é que foi isso mesmo que eu fiz?!
Eu pulei em cima daquela pessoa, literalmente, e nós caímos na areia. Comecei a dar socos e tapas em seu rosto e corpo. Na verdade eu estava batendo em todo lugar. Eu estava em pânico! Parecia que eu estava em uma briga de garotas, daquelas que se pegam de jeito em frente à escola e quase se matam. Mas minha alegria durou pouco. Fui imobilizada em apenas alguns minutos. Eu, deitada na areia com as mãos acima da cabeça, e essa pessoa, em cima de mim, segurando minhas mãos. Eu não gritei e nem esperneei. Apenas fiquei em silêncio, com a respiração ofegante. Seu rosto? Não consegui o ver durante a briga, foi tudo muito rápido. E agora seu rosto está virado para mim. Mas ainda vejo apenas a escuridão dentro daquele capuz, que impede a luz de revelá-lo.
Seu rosto começou a se aproximar do meu, bem devagar. Aquilo era bizarro. Estava tudo tão escuro e uma pessoa que eu nem sei quem é estava prestes a... Me beijar? Entortei minha cabeça para um dos lados, com repúdio, e fechei os olhos, apertando-os. Pude sentir sua respiração em minha bochecha, até que tudo foi interrompido.
– Sai de cima dela, caralho! – soou a voz de alguém, que pulou sobre o jogador logo em seguida, fazendo-o sair de cima de mim. Era a voz do Wesley. Eu reconheceria de longe!
Levantei-me rápido e pude ver Wesley sobre a pessoa, dando vários socos. Hesitei em ficar lá, mas decidi dar o fora e trazer ajuda.
Notas finais
Próximo capítulo só depois do natal, então Feliz Natal pra vocês! =)
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