A Filha Da Timidez

3 Capítulo 2 – Dia Vergonhoso


Notas iniciais
Este capítulo contém alguns links com fotos pra ajudar na imaginação de vocês =)

Eu não prestei atenção no que o cara havia dito, estava ocupada demais observando o cruzeiro e imaginando cada lugar que tinha lá dentro. Além disso, os professores – que eram os responsáveis que iriam conosco – já tinham dado algumas instruções enquanto estávamos no ônibus. Coisas do tipo “Cabem apenas duas pessoas em cada quarto” e ”seu companheiro de quarto deve ser do mesmo sexo, meninas com meninas e meninos com meninos.”. Acho que já imagino o porquê dessa divisão de sexos. Também falaram que qualquer ato imprudente de qualquer aluno teria suas consequências.

Babi subiu aquela rampa como se estivesse com diarréia ou algo do tipo. Subiu a todo vapor. Paramos de correr assim que vimos uma piscina e um escorregador gigante atrás dela – e confesso que, mesmo sendo velha pra essas coisas, eu amava tobogãs. Mas afinal, quem não ama?! São divertidos! – e ficamos boquiabertas. Enquanto eu observava o quão foda era aquele lugar, Babi me interrompeu.

– Voltamos aqui depois, vamos correr pra tentar pegar um dos melhores quartos. – Apenas assenti e então ela começou a me puxar novamente.

Andamos um tanto, subimos algumas escadas, até que encontramos o Lobby do navio. Apenas digo uma coisa: FODA! Isso porque não era um dos lugares mais legais. O Lobby era todo rústico, com algumas escadas ali e aqui, alguns elevadores também e um bar bem no centro. O lugar tinha três andares.

– Com licença, poderia me dizer em qual andar ficam os quartos? – Babi já foi perguntando para um cara que estava por ali.

– No último andar, mocinha.

– Obrigada. – e voltou a me puxar.

Entramos em um dos elevadores e subimos até o terceiro andar. Eram vários corredores. Arrisco dizer que dá pra se perder ali, se bobear. Escolhemos um quarto que ficava no final do último corredor, pois parecia ser um lugar bem tranquilo. Era o quarto de número 42. Na porta havia um cartãozinho daqueles que se pendura na maçaneta. De um lado dizia “Quarto vazio” e do outro “Quarto ocupado”. Era inútil. Entramos. O quarto era... Fofo. Confesso que rosa não era uma cor que me agradava – o carpete e os lençóis eram rosa – mas o quarto tinha uma aparência aconchegante. Babi apenas jogou suas coisas em uma das camas e saiu sem dizer nada. Eu fiquei por ali e comecei a desfazer a mala e arrumar minhas coisas, desta forma ficaria livre disso logo. Assim que terminei fui andar por aí.

Os corredores já estavam cheios de gente, todas procurando por um quarto. De certo modo foi bom chegar ali antes. Os elevadores estavam cheios, então desci até o segundo andar pelas escadas mesmo. Não era como no último andar – cheio de corredores estreitos com diversas portas. Havia corredores sim, mas eram bem mais largos. O primeiro lugar que avistei era um restaurante que, pelo nome na entrada, se chamava “Maxim’s Restaurante” – não havia porta, era aberto. Era um restaurante extremamente grande e refinado – pelo menos a meu ver. Deve ser um lugar ótimo para jantar.

Ouvi uma música e fui em direção à próxima sala, que era um pouco afastada do restaurante. Na porta havia uma placa com as palavras “Teen Disco Club”. Coloquei a cabeça pra dentro e, mais uma vez, fiquei boquiaberta. Era uma boate com um estilo “Disco”, algo dos anos 70 ou 80. Era tudo muito colorido, algo diferente. As músicas que tocavam também eram antigas. Era um lugar interessante. Tinham algumas pessoas ali, então decidi entrar. Para minha surpresa Babi estava lá, sentada em um canto junto com o Rapha. Não me aproximei. Ser vela não era legal. Sentei em um dos banquinhos envolta do bar e fiquei ali, observando a movimentação. O lugar era legal e a música era boa. Não havia motivos pra querer sair dali tão depressa.

– Oi princesa! – Bryan sentou no banquinho ao lado.

Bryan. Como eu odiava esse garoto. Loiro, olhos verdes, convencido e metidinho. Era o “galinha” da minha turma. Todas suspiravam por ele e caíam aos seus pés. Era só ele estalar os dedos e vinham como cachorras. Tenha dó! Ele sempre conseguia o que queria. Tipo, talvez Deus não conseguisse, mas ele conseguia.

– Então – continuou falando quando percebeu que eu não responderia – tudo bem? – fiquei em silêncio novamente. No fundo eu sabia as intenções dele, e isso me deixava nervosa e com vergonha ao mesmo tempo. Meninos não são meu forte. Nunca havia conversado com um sequer – só com o Rapha, mas era diferente.

– A princesa não sabe falar? – insistia.

– Não. – a única coisa que saiu da minha boca. Foi uma tentativa de acabar com o papo, mas não deu. Eu não havia olhado para ele ainda, não conseguia. A timidez era grande. Pelo menos isso eu havia herdado da minha mãe. Ela também era muito tímida quando adolescente – ela que dizia.

– Opa, mas acabou de falar. – Caralho, que menino chato. Apenas fiquei em silêncio. Era melhor do que dar trela.

– Bom, já que você não é de falar muito a gente podia, sei lá, dar uma volta. Quem sabe procurar um lugar mais calmo pra conversar a sós... – pra conversar, é?! Fiquei um pouco irritada – coisa que também herdei de minha mãe – e tive que dar uma resposta curta e grossa.

– Eu sei o que você quer e não vai conseguir. – dessa vez olhei pra ele.

– Tem certeza? Eu acho que você iria gostar... – colocou a mão em minha coxa – na verdade a mão boba estava quase em lugares indevidos. Não disse nada, apenas dei um empurrão nele, fazendo-o cair do banco. Todo mundo parou e ficou olhando pra mim. Acho que fiquei vermelha como um pimentão nessa hora.

– Tá loca garota?! – ele disse ainda no chão. Ignorei.

Fui correr para sair o mais rápido dali e acabei trombando com alguém. Me virei para pedir desculpas e...

– Desc... – congelei. Era o Wes. Fitei seus olhos por um momento e acho que de vermelha passei a ficar roxa de tanta vergonha. Ele também me fitava sério. Nem um sorriso, nem uma palavra. Sai do “transe” e corri o mais rápido que pude. Eu queria sumir. Enterrar minha cabeça em qualquer buraco poderia ser a melhor solução, mas me contentei em ir para o quarto.

– Eu só faço merda, eu só faço merda! – repetia para mim mesma.


Notas finais
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