A Filha Da Timidez

4 Capítulo 3 – Não minta para mim!


Notas iniciais
O capítulo está chatinho (demais), mas no próximo vai acontecer algo inusitado.

Fiquei trancada no quarto vendo TV o resto do dia, não sai nem para almoçar. A Babi só deu as caras bem mais tarde, quando estava começando a escurecer.

– Oi... – ela não sabia o que dizer.

– Oi. – respondi olhando para a TV.

– O que o Bryan queria com você hoje mais cedo?

– O que você acha? – silêncio se fez por um instante.

– Mas por que você chegou a empurrá-lo?

– Digamos que ele tem mão boba...

– Pelo menos acho que você gostou de ter trombado com o Wesley. – piadinha sem graça pra tentar quebrar o gelo. Apenas olhei séria para ela, que riu em seguida.

– Tá a fim de ir comigo no “The Cot Cat Club” daqui a pouco?

– The o quê?

– The Cot Cat Club. Você não foi lá ainda?

– Não, o único lugar que eu cheguei a ir foi na boate Disco. Depois me tranquei aqui.

– Então você vai comigo. E não discute! – dei de ombros e voltei a ver TV. Depois que Babi tomou banho, me obrigou a tomar também. Isso me rendeu um tombo e um hematoma na perna. Depois de tanto sacrifício por parte dela, cedi e fui tomar banho. Na hora de me arrumar coloquei uma roupa simples até. Uma legging com uns cortes na perna, um coturno preto surrado, uma blusa de uma banda que amo, umas pulseiras e um anel de cruz. No cabelo não fiz quase nada, apenas deixei ondulado com a ajuda do secador. Nos olhos só passei um lápis preto em cima, fazendo um “olho de gato” – que era a única coisa que eu sabia fazer. Maquiagem nunca fora minha especialidade. Na verdade eu nem ligo muito pra isso. Quanto menos, melhor.

Babi tinha um estilo bem diferente. Ela colocou uma roupa “meiga”, toda rosinha. Era um vestido tomara que caia bem curto. O sapato era de salto, e bem alto. Colocou algumas pulseiras e fez uma maquiagem bem mais elaborada que a minha. Eu não gostava das roupas dela. Quer dizer, não em mim. Mas eram bonitas. No cabelo ela fez um coque despojado, com vários fios soltos aqui e ali. Ficou muito bonito. Ela era ótima em fazer coques.

Saímos do quarto já eram quase 21h. Fomos em direção a tal boate de nome complicado, que também ficava no segundo andar, porém não ficava perto da boate Disco. Ao nos aproximarmos da porta pude escutar uma música bem alta, eletrônica. Eu amo música eletrônica. Meus olhos doeram de início, assim que entramos na boate. Tinha neon por todo lado ali! O bar ficava bem no centro e o balcão tinha o formato de um piano. Curiosamente havia um piano dentro do bar, mas era falso, era apenas uma geladeira com as bebidas dentro. Muito criativo, aliás. O teto era todo espelhado, e o chão coberto por um carpete cheio de palavras como “neon” e “bar”. De um lado tinham várias mesinhas e cadeiras, e do outro uma pista de dança bem grande.

Depois de observar o lugar inteiro percebi que a Babi já tinha me deixado sozinha, de novo. Estiquei o pescoço procurando-a e logo a encontrei mais adiante com o Rapha. Desta vez fui até eles. Conversamos bastante, e quando o assunto faltou, Rapha inventou e tocou naquele assunto...

– Por que você não vai falar com ele? – ele disse.

– Hã? – não entendi porra alguma. Ele apenas virou seu olhar e mexeu a cabeça, como se estivesse apontando para alguém. Olhei. Wesley, claro.

– O que você quer dizer? – me fiz de desentendida.

– A Babi me disse que você gosta dele...

– Desculpa Jullie. – ela interrompeu. Mostrei o dedo pra ela, brincando.

–... E eu contei pra ele.

– O quê? Porque você fez isso? Tem problemas? Vai se ferrar! – ninguém respondeu por um momento. – E o que ele disse? – continuei falando, dessa vez mais calma. Eles riram.

– Nada.

– Nada?

– Ele me olhou, e parecia estar surpreso quando eu disse, mas ele não falou nada. Eu perguntei se ele também estava interessado em você, mas...

– Ele disse que não, lógico. – interrompi. Ele fez um gesto com a cabeça, confirmando o que eu acabara de dizer. Não falaram mais nada. Anunciaram que iam dar uma volta e saíram. E mais uma vez lá estava eu, sozinha no bar de uma boate. Quão legal é a minha vida, não é?!

– Oi. – era Bryan, de novo. Levantei para me retirar, mas ele puxou o meu braço. – Espera, eu vim aqui pra pedir desculpas. – Fiquei em silêncio. – Me desculpe pelo que fiz mais cedo. Você é diferente do que pensei e quero que saiba que respeito isso. – Aquilo me soou um pouco falso, mas apenas dei de ombros. Não queria papo, então sai dali, assim, sem mais nem menos e sem falar uma única palavra.

Fui em direção à pista de dança. “Eu vim aqui pra me divertir, então que assim seja!”, pensei comigo. Todos estavam dançando com seus respectivos amigos. “Foda-se – pensei – vou dançar sozinha mesmo.” Dito e feito. A única coisa que eu precisava era de diversão. Bryan chegou um pouco depois dançando ao meu lado, mas não tentou me agarrar e nem nada do tipo. Ele só me olhou e sorriu. Correspondi o sorriso, não sei por quê. Alguns que estavam ao redor começaram a fumar e beber escondido – afinal, eram todos menores. Conforme as horas foram passando, a coisa foi “ficando preta”. Já estavam ficando alterados, fora de si mesmos, bêbados. Uns dois ou três vomitaram na pista enquanto o resto se agarrava. Não sei o que era mais nojento, vômito ou casais se pegando. Olhei pro relógio e já eram quase 4 da manhã. Caralho, o tempo passou rápido. Wesley ainda estava lá. Estava sóbrio, pelo que dava pra notar. Conversava com alguns amigos e ria. Rapha havia voltado e também estava na roda.

Sem sono, resolvi dar uma volta. Fui para a parte exterior do navio. Não tinha ninguém lá fora, e isso era bom. Andei até uma das extremidades e fiquei lá, observando o mar e aproveitando a brisa. Minha paz logo acabou, quando Bryan chegou ao meu lado. Após um tempo em silêncio, começou a falar.

– É bonito aqui... – tentou puxar papo. Não respondi. – Qual é, você não vai falar comigo mesmo? Estou tentando ser legal, porra. Além disso, eu já pedi desculpas.

– E daí? Eu não tenho motivos pra falar com você.

– Tudo bem então, mas ao menos você deveria ser educada com quem está tentando ser legal com você. – ficamos em silêncio por um tempo.

– Sim, é bonito aqui. – respondi. Ele me olhou e sorriu. Olhei de volta, mas não sorri.

– Já passou pela sua cabeça que... – parou alguns segundos –... Que eu posso estar gostando de você? – Fiquei tensa. Não respondi, apenas continuei olhando para o mar. Não sabia o que fazer, ou falar. Quando senti sua mão tocar a minha, tive uma reação instantânea.

– Eu... Eu tenho que ir. Estou com sono. – Falei tão rápido quanto tirei minha mão de lá. Sai andando – quase correndo – e ele não veio atrás.

Não porra, não pode ser verdade!


Notas finais
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