A Fera

26 Violeta


Assim que acordou, Adélia se deparou com o vazio em seu quarto. Nem Jeniffer, nem Rafael estavam lá. Embora não estivesse tão aborrecida com a ausência dela, Adélia bufou quando percebeu que ele não estava.

Principalmente, porque prometera na noite passada que ficaria. Ou na madrugada daquele domingo. Era difícil dizer.

Adélia puxou os cobertores pesados de cima de seu corpo molenga e encarou seu pé enfaixado, suspirando. Ainda doía um pouco, mas ela já podia senti-lo bem menos inchado. Estava, com todo o esforço, se rastejando até o banheiro em seu quarto.

Encarou-se no espelho antes de adentrar no box para tomar um banho. Sem as roupas pesadas que a protegiam do frio daquela casa, Adélia percebeu algumas costelas à mostra. Estava mais magra que o normal, e pálida também. Aquela semana inteira doente havia tido o seu preço e agora ela percebia isso ao se olhar no espelho.

Não tinha mais febre; não sentia mais sua garganta pinicar dolorosamente. Apenas uma dor de cabeça e um pouco de enjoo. Emocionalmente, não estava mais um caco.

A revelação de Rafael fazia seu corpo estremecer de um jeito estranho. Não era o tremor medroso ou irritadiço; era como uma brisa gélida que provocava uma sensação vertiginosa, como se ela estivesse à beira de um precipício.

“O sacrifício que precisa fazer” ele dissera para ela, recluso, “é me amar”.

Ela não ficou surpresa com a revelação no momento porque não fazia a menor ideia do que aquilo significava. Adélia nunca tivera dificuldade para gostar das pessoas, na realidade; era sobre isso que ele estava falando? O que aquilo poderia significar?

Ela ficara em silencia quando ele dissera aquilo, sem reação alguma. Parecia que sua mente havia travado quando ele a encarou, provavelmente em busca de alguma reação. Mas Adélia ficou lá, parada de braços cruzados e encarando-o como se esperasse que ele explicasse melhor aquilo.

“Não consigo imaginar o quanto isso deve ser difícil para você”, ele completou enquanto disfarçava o olhar para longe dela. “Não há como conviver comigo e chegar a tal ponto. Não sou digno...”.

Adélia ainda permanecera em silêncio, vidrada em cada movimento dele. Quando o silêncio ficou estarrecedor e Rafael ameaçara ir embora, ela pediu o mais gentilmente que podia para que ele ficasse.

Não sabia exatamente o motivo que a levou a pedir aquilo, mas preferiu não questionar a si mesma na frente dele. Rafael ficou na poltrona, enrolado no cobertor que Adélia insistira que ele usasse para espantar o frio e ela se deitou em sua cama. Dormira com a luz acessa, virada em sua direção para encará-lo.

Ficaram se olhando até o cansaço abatê-la e ela ser obrigada a fechar os olhos. Quando acordou, naquela manhã fria, ele não estava mais lá.

A água morna escorria pelo corpo de Adélia como pequenas serpentes, rastejando por sua pele. Ela se deu ao luxo de demorar mais que o costume, sem se importar nem um pouco com seu pé enfaixado que latejava por estar apoiado totalmente no chão. Aproveitou o momento para massagear o couro cabeludo enquanto espalhava shampoo e toda a extensão de musculo tenso que conseguia alcançar.

O cheiro característico daqueles produtos a reconfortou, de certa forma. Era o cheiro dela agora, fazia parte dela. Adélia se perguntou, por um momento, se o fato dela gostar do cheiro cítrico do seu sabonete estaria ligado ao fato de que aquele odor era o mais próximo que conseguia do cheiro de Rafael. No entanto, dispensou aquele pensamento rapidamente, corando.

Deixou a toalha nos cabelos molhados enquanto escolhia uma roupa confortável para usar durante o dia. Depois de desembaraçar os fios molhados e vestir-se, ela voltou para seu quarto.

E se deparou com Fordy ali, no momento em que depositava uma bandeja com o que lhe parecia ser um lanche.

—- Fordy! – Ela exclamou, surpresa. Por um momento, se sentiu envergonhada, mas não sabia exatamente o motivo. Talvez fosse porque estava secando os cabelos com a toalha nas mãos, mancando atabalhoadamente de volta para lá. – Não o ouvi entrando.

Fordy não a encarou diretamente. Primeiro, lançou um olhar para seu pé já sem a faixa que ele colocara.

—- Por que tirou?

—- Molhei sem querer – ela confessou, esperando que ele reclamasse com ela. Porém, Fordy apenas se limitou a encará-la com desaprovação.

Ele entrou para Adélia um comprimido, alegando ser para a dor. Chegou até a pergunta-la se sentia sua garganta melhor, se estava menos enjoada e se ainda sentia febre, mesmo sem interesse algum nas respostas dela.

—- Onde está Rafael? – Ela perguntou, logo após ele terminar seu interrogatório sobre seu estado de saúde.

—- Virá logo – limitou-se a responder. Havia algo estranho nele; a forma como simplesmente respondia de forma curta e grossa, como evitava encará-la e a rapidez a qual enfaixou seu pé, como se quisesse evitar contato com ela, deixou-a receosa.

Será que Rafael havia contado para ele sobre a conversa que tiveram na madrugada? Adélia queria acreditar que não.

Estava comendo seu lanche, enquanto encarava Fordy de esguelha, quando algo passou pela sua mente como um relâmpago.

—- Fordy – começou chamando a atenção do velho. Adélia encarou as frutas em sua tigela para não o encarar, pegando um pedaço de morango com dedos frios. – Onde está Jeniffer?

—- Está de folga -- Fordy, que parecia ocupado olhando os itens em sua maleta média, não a encarou quando respondeu.

—- Por causa de Adam? – Ela tentou e desta vez conseguiu arrancar um olhar do velho.

—- Sim.

Adélia suspirou.

Depois de comer tudo o que havia na bandeja, correu para o banheiro para escovar os dentes e dar um jeito no cabelo que umedecia e frisava. Não passou nem dez minutos lá e, quando voltou para o quarto, Fordy havia desaparecido.

Rafael, no entanto, estava lá.

Adélia se assustou brevemente com a presença dele e engoliu em seco quando o encarou. As cortinas estavam abertas e toda a claridade do dia chuvoso e pesado adentrava em seu quarto de forma sombria, mas suficiente para iluminar e esclarecer todos os aspectos da figura que a encarava de volta.

Rafael estava vestido de preto, o que deu a Adélia a ideia de luto. Tinha as mãos nos bolsos, estava recostado em uma das portas que dava para a sacada e sem a máscara. Enquanto se aproximada, ela teve receio de nunca se acostumar com a aparência dele.

Não trocaram uma palavra, mesmo quando ela mancou e parou diante dele, se recostando na outra extremidade da porta. No entanto, se encaravam firmemente. Ela, de braços cruzado, abraçando a si mesma enquanto depositava todo o peso do corpo na perna boa e ele com as mãos escondidas nos bolsos, ereto de forma rígida.

Adélia sentiu uma vontade de olhar para ele como um todo; para as raízes que se espalhavam por seu rosto e pescoço brevemente exposto pela gola redonda do suéter que usava. Para suas roupas, pretas e imaculadas. Seus cabelos prateados e compridos até a altura dos ombros que, mesmo sem vento algum, balançavam ao redor do seu rosto com leveza.

No entanto, eram os olhos dele que a prendiam ali. Eram pratas também, mas, especialmente naquele momento, pareciam conter tons breves de violeta. Adélia se arriscou um pouco mais, se aproximando para encará-los melhor e descobrir se, de fato, Rafael tinha olhos violetas.

Porém, foi distraída pelo movimento tenso de seu maxilar cerrando com a proximidade dela e ela estancou, soltando um suspiro sem querer.

—- Não deveria estar deitada? – sua voz ressoou por todo o quarto espaçoso e quase vazio.

Adélia pareceu não entender no momento, mas Rafael lançou um breve olhar para seu pé.

—- Estou me sentindo melhor – disse, encarando brevemente o pé que latejava novamente, mas desta vez bem menos dolorido como ontem.

—- Está mesmo? – Rafael murmurou, mudando de posição. Ele saiu de sua postura rígida e se recostou na porta, voltando a encarar seu rosto.

Adélia assentiu.

—- Acho que estou melhor do que merecia – ela disse, passando por ele para chegar a sua cama. Ela sentiu seu rosto corar ao perceber a bagunça que estava, perguntando-se se Rafael percebeu.

—- Não diga isso – ele murmurou, virando-se imediatamente para ela. Seu movimento havia sido ágil e rápido, despertando a atenção dela pela urgência. – Você merece estar melhor que isso.

Adélia suspirou novamente, distraindo-se em deixar seu pé em uma posição confortável até que a perturbação local aliviasse um pouco.

—- E você? – Disse, puxando seus travesseiros para trás de suas costas, criando um apoio pouco confortável. – Como está?

Rafael não respondeu; ao invés disso, desviou seu olhar para a paisagem sombria que se estendia além da janela.

Adélia aproveitou o momento para encará-lo rapidamente. Encarou a pele dele, tão pálida quanto gélida. Tentou captar todos os minuciosos detalhes daquele rosto, desenhando com os olhos as linhas que cortavam seu rosto em diferentes direções. Começavam a partir da testa dele, se repartindo pelo seu rosto e escorrendo pelo pescoço até o restante do corpo.

Ela corou rapidamente, lembrando-se da imagem de Rafael parcialmente despido. E corou novamente quando ele voltou a encará-la.

—- Queria poder ir ao jardim – ela murmurou, abanando o rosto para disfarçar a vergonha.

—- Não pode – ele constatou o óbvio e Adélia sentiu um pequeno sorriso ao ouvir sua voz. – A propósito, como se machucou?

Adélia congelou instantaneamente.

O ardor em seu rosto era mais quente daquela vez e ela até sentiu seu estomago embrulhando. Como poderia explicar que havia torcido o tornozelo quando tentava fugir de Adam logo após conversar com ele sobre Celine Carson?

Ela engoliu em seco e, quando encarou a expressão de Rafael, também sentiu seu peito esfriar. Ele tinha uma expressão alarmada, como se esperasse ouvir que alguém causara aquilo a ela. Como se esperasse ouvir que havia sido atacada novamente.

Mas não era nada daquilo. Como explicaria?

—- Subi as escadas com um pouco de pressa e tropecei – murmurou, com a voz fraca.

—- Por quê? – ele incitou. – Estava fugindo de alguém?

A voz de Rafael saiu entrecortada, como ele se tentasse disfarçar a fúria que crescia em seu peito e tapava sua garganta. Adélia, no entanto, tentou manter-se firme.

—- Fiquei chateada com Adam – disse e, quando notou o olhar sombrio de Rafael recair sobre seu pé imobilizado, se apressou em continuar: -- Foi quanto tentei conversar com ele. Nada demais, Rafael.

Sua voz era um aviso, mas a firmeza que tentava manter era pouco convencional. Rafael inspirou vagarosamente, inflando.

—- O que ele lhe contou, Adélia?

Adélia sentiu seus pensamentos embolando em sua cabeça aos tropeções. Como explicaria?!

—- Rafael, eu... – murmurou. Deveria mentir? E se ele já soubesse de alguma coisa? E se ele desconfiasse e só estava ali para sanar suas dúvidas? Adélia relutou ainda mais, deixando-o impaciente. – Ele não me causou mal algum. Apenas... quis me explicar algumas coisas. Me aborreci um pouco e corri para cá.

Não estava exatamente mentindo. Mas, enquanto não tinha coragem de contar ela mesma a verdade – que andava xeretando sua vida com Adam – não podia se arriscar a instiga-lo a pressioná-la. Uma hora ou outra ele descobriria, e Adélia esperava que ele mesma estivesse pronta para contar.

Rafael, no entanto, parecia pouco convencido. Encarava seu pé ainda e Adélia percebeu seu peito subir e descer rapidamente. Ela podia sentir a raiva que emanava dele por aquilo e algo mais, mas não teve coragem de acrescentar nenhum outro comentário que o levasse a mais perguntas.

—- E quanto a nossa conversa – ele disse, sombrio e um pouco relutante. – Está magoada com isso também?

Adélia suspirou de alívio ao perceber que ele tinha outras prioridades para o rumo daquela conversa.

Ela pensou por um momento, fixando na última parte de sua confissão, quando logo depois nenhum dos dois soube muito bem o que dizer. Chegando um pouco mais para o lado, ela apalpou o espaço que se abriu ao seu lado, convidando-o. Rafael a encarou com um olhar suspeito, como se não houvesse entendido o recado.

—- Por favor – ela pediu, meio afetada pela recusa imediata dele.

Mas Rafael continuou hesitante. Não que quisesse evita-la ao máximo, era que...

Ele sentou-se vagarosamente ao lado dela. Adélia se inclinava um pouco em sua direção, colocando as mechas de cabelo atrás de suas orelhas de modo a evitar que uma cortina fosse criada entre eles. Rafael não fez o mesmo, deixando que os fios rasos dos seus cobrisse parcialmente seu rosto desprezível.

Mas, mesmo assim se sentou ali, pouco confortável.

—- Do que você tem tanto medo, Rafael? – sua voz soou doce a sussurrada, embora Adélia não o encarasse. Estava olhando suas mãos, concentrada na almofada que apertava com os dedos.

Rafael estancou por um momento. Pensou na pergunta dela enquanto um calor se espalhava por seu peito. Queria tocá-lo, para ter a certeza de que não estava entrando em combustão, mas não ousou se mexer.

—- Tenho medo de magoá-la outra vez, Adélia -- murmurou, meio nervoso. Adélia, no entanto, assentiu apenas. – E de perde-la, de certa forma.

—- Eu também tenho medo de magoá-lo, Rafael – ela continuou concentrada na almofada, beliscando-a.

—- É só isso? – ele murmurou, sem esconder a decepção em sua voz. – É o que tem a dizer sobre o que conversamos?

Adélia o encarou por tempo suficiente para enxergar a urgência em sua voz.

—- Não – ela se apressou em dizer. – Na verdade, não sabe o quanto me senti grata por você ter conversado sobre... tudo isso comigo. Sinto que pela primeira vez estou conectada com você, Rafael. Que compartilhamos algo juntos. Entende como isso é importante para mim? Entende o quanto preciso que... – ela parou, pensando por um momento antes de continuar: -- Preciso que converse comigo. Sobre qualquer coisa.

Ela queria dizer “que conte-me seus segredos”, mas aquilo poderia soar fatal. Adélia encarou os olhos dele, sentindo sua garganta travar e seu estomago embrulhar de um jeito peculiar. Ela não via Rafael na forma como ele era; via-o de outra maneira que não conseguia explicar no momento.

—- Seus olhos... – disse, surpresa. Rafael virou o rosto rapidamente quando se deu conta de que ela o encarava, sentindo-se envergonhado imediatamente. – Não, espera!

Impulsivamente, Adélia tocou seu rosto. Ela parou assim que seus dedos encostaram em sua bochecha, engolindo em seco quando Rafael travou ao seu lado de forma rígida. Estava prestes a pedir desculpas quando ele, muito lentamente e de olhos fechados, entregou seu rosto nas mãos dela.

Adélia ficou meio aturdida quando Rafael não fez nada para impedi-la, pensando se seria uma boa ideia continuar com aquilo. Ele, no entanto, esperou.

Muito lentamente, ela espalmou sua bochecha com delicadeza. Ela já o tocara uma vez, Rafael lembrou-se, na biblioteca. Estava mais nervoso naquele momento, sem saber o que esperar. Sabia, no fundo, que Adélia não o machucaria, mas não conseguia reprimir a vontade de recuar diante da incerteza de seus pensamentos.

Muito delicadamente, Adélia acariciou a pele dele, sentindo aquelas raízes pela primeira vez. Nunca se perguntara como eram ao toque, embora na primeira vez que tocou o rosto mal tivesse prestado atenção. Naquele momento, Adélia pôde senti-las pulsar na palma de sua mão de forma suave, o que não parecia ser compatível com a aparência grosseira que tinham.

A pele dele era fria, quase gélida. Talvez por isso ela se lembrou da neve, pela cor e pelo toque frio que se chocava contra sua palma quente. Mas era estranhamente macia a medida em que ela acariciava. Depois de percorrer com os olhos o contorno do rosto dele, Adélia murmurou timidamente:

—- Deixe-me ver seus olhos, Rafael – ela pediu de mansinho, quieta e delicada.

Rafael abriu os olhos e a encarou, sem esperar algo significante. Não queria olhar nos olhos dela e ver o que ela estava pensando porque tinha medo de se deparar com algo ruim. Mas, mesmo assim, abriu bem os olhos e deixou que Adélia o enxergasse.

E viu que os olhos dela brilhavam.

Adélia observou os olhos de Rafael com certo fascínio, seus lábios entreabertos deixando um suspiro escapar.

Eles eram cinza. E violetas.

Ambas as cores criavam um contraste sombrio e estarrecedor ao mesmo tempo, algo que manteve a mente de Adélia presa por um momento. O cinza de seus olhos estava próximo ao cinza das nuvens lá fora, ela percebeu. Cinza como os de Adam. O violeta, que aparecia em manchas, era de um tom que ela nunca vira antes. Ela nem tinha certeza se eram mesmo violetas, mas a cor era tão próxima que foi o que logo deduziu.

—- São tão lindos — ela deduziu, ainda estarrecida. – Nunca vi olhos tão bonitos assim em toda a minha vida.

Rafael se esquivou delicadamente, abaixando a cabeça. Se sentiu um pouco intimidado, envergonhado e desengonçado. Então Adélia achava seus olhos lindos?

—- Sempre achei que fossem verdes – ela disse, meio que para si mesma. Rafael nunca pensara na cor dos seus olhos; faziam anos desde a ultima vez que se olhara no espelho. – Mas agora vejo que era o cinza. Parece que...

Ela se interrompeu e afastou a mão dele. Rafael a encarou rapidamente, esperando ver uma expressão de nojo estampada, mas Adélia estava corada. Como se tivesse pensado em algo vergonhoso.

—- Diga – ele pediu, parcialmente curioso. – Diga o que pensa, Adélia.

Adélia suspirou e escondeu o rosto na cortina formada por seu cabelo quando escapuliu de detrás de sua orelha.

Foi a vez de Rafael toca-la. Muito sutilmente, ele estendeu a mão até o rosto dela e a deixou suspensa em seu campo de visão, na esperança de que ela o rejeitasse. Mas, Adélia não o rejeitou e, quando percebeu, Rafael tocou-a.

Teve medo de não ser delicado como ela; ficou receoso de que despertasse nela algum sentimento de aversão. Não sabia se reagiria bem se ela se afastasse obviamente enojada. Mesmo assim tentou, tenso, porém suave. Devolveu a mecha fujona pela detrás de sua orelha, expondo seu belo rosto em seu campo de visão.

Adélia o encarou de olhos arregalados, e Rafael aproveitou para observá-la também.

—- Eu ia dizer que.. – Ela engoliu. – Parece que os seus olhos são como espelhos. – Adélia esperou que ele risse ou algo do tipo, mas ele estava concentrado nela. – Estão refletindo as cores ao nosso redor.

Ela percebeu que ele deu um sorrisinho de canto.

—- Isso foi criativo, Adélia -- ele elogiou. Seus olhos deram uma volta pelo rosto dela lentamente, parecendo captar cada detalhe. Rafael esperou um momento antes de dizer o que estava pensando, distraído com a maciez de sua pele: -- Você é linda, Adélia.

Adélia sentiu seu rosto arder violentamente, perdendo o fôlego. Sentiu vontade de enfiar a cara na almofada que beliscava com mais força, um tanto sem jeito pelo elogio.

—- Bem, eu me esforço às vezes – ironizou, sorrindo sem graça. Se distraiu quando um único cacho escapuliu novamente e Rafael o capturou com uma delicadeza que ela achou impossível, brincando com ele entre os dedos. Adélia percebeu o brilho sutil que emanou de seus olhos quando ela sorriu de verdade para ele. – Obrigada, Rafael.

Rafael se afastou dela, mas não de forma abrupta. Se sentou na mesma poltrona da noite passada, mas deixou seu olhar preso a janela. Adélia sentiu seu coração apertar diante da atitude dele e sentiu vontade de segui-lo, mas seu pé latejou com força.

—- O que houve? – questionou, preocupada. Rafael não a encarou de imediato, apenas de relance e uma vez.

—- Só estou pensando sobre... os últimos dias – murmurou.

Adélia engoliu em seco, sentindo uma ponta de exaustão se alastrar por seu ânimo. Havia acordado se sentindo relativamente bem naquela manhã, melhor do que todos os dias que passou. Por que Rafael queria resgatar tudo aquilo?

—- Quer conversar sobre isso? – ela murmurou com quietude. A verdade era que não queria voltar para aqueles dias sufocantes que se passaram, não queria relembrar das coisas horríveis que aconteceram.

—- Quero fazer algumas perguntas, se não se incomodar.

Adélia engoliu em seco, mas assentiu.

—- Se eu puder responder...

—- Você não me disse quem a atacou – Rafael havia soado cauteloso, embora Adélia estivesse presa nos próprios tremores para perceber.

—- Ainda não tenho muita certeza... – seu rosto estava escondido detrás da cascata de seus cabelos e ela beliscava com mais força a almofada.

—- E quanto aquela mulher? – Rafael continuou, observando cada detalhe das reações dela.

Adélia parecia nervosa, inquieta e receosa. Por um instante, Rafael se preguntou se queria continuar com aquilo porque não queria pressioná-la.

Adélia apenas deu de ombros em resposta, antes de acrescentar:

—- Ainda me sinto insegura. Não tenho muitas certezas a respeito dela.

—- Você ainda a quer por perto? – ele indagou, virando o rosto lentamente em direção a luz da janela, mas observando-a pelo canto do olho. – Ainda confia nela?

—- Rafael, não tenho certeza... – Adélia passou a mão pelos cabelos, levando-os para trás como uma onda. Parecia tensa. – Ela me intimida, às vezes. Mas, não tenho certeza se está tentando me fazer mal ou só me assustar. Ela é meio imprevisível.

Adélia tremia. Estava com medo de que Jeniffer aparecesse a qualquer momento e a ouvisse falar aquelas coisas para Rafael. Temia também deixar escapar sobre os segredos que havia descoberto com Fordy. Temia acabar dizendo coisas que não devia.

—- Então por que não me deixa expulsá-la?

Ele a pegou de surpresa e Adélia sustentou seu olhar por longos segundos antes de dar de ombros, sem responde-lo definitivamente.

—- Não quero que a causem mal, Adélia. Não quero que te machuquem, te intimidem, que encostem um dedo em você – ele murmurou com ferocidade, arrancando um arrepio gélido dela. – Não vou deixar que ela volte aqui nunca mais, se assim desejar. E vou protegê-la, custe o que custar.

Adélia engoliu em seco, sem palavras. Rafael quase parecia ter noção de quem Jeniffer era, do papel que ela estava representando. Ficou grata por ele querer protege-la, por ele querer mantê-la segura custasse o que for. Mas temia Jeniffer, ou Marion; temia aquela mulher, temia que ela causasse mal para os dois, embora acreditasse que ela realmente jamais faria algo de ruim com Rafael agora...

Não. Não podia defende-la.

Jeniffer a havia machucado, humilhado e roubado algumas de suas memoria para se inocentar. Manipulou Adélia, enganou-a e brincou com seus sentimentos quando Adélia mais precisou de sua ajuda. Como ainda pensava em mantê-la por perto? Como ainda pensava que, apesar de todos os avisos que Fordy lhe dera para ter cuidado, sobre ela ser uma mulher perigosa, tinha que tê-la ali?

Talvez porque, apesar de tudo, Jeniffer era mãe de Rafael. Talvez porque, no fundo, Adélia acreditasse que a mulher estava, de certa forma, tentando se redimir com ele e protegendo-o de algo que ela nem compreendia. Tinha medo dela, claro; mas mantê-la por perto significaria mantê-la perto de Rafael. E, embora não conseguisse imaginar a reação de Rafael se descobrisse aquele segredo, Adélia não podia ter certeza se deveria ou não provocar a separação dele com ela.

—- Ela não me causará mal algum se você estiver por perto, Rafael – ela deduziu. Sua voz soava firme, embora sentisse sua garganta se fechando pelo pavor ao criar aquela ideia em sua mente. – Ninguém me causará mal.

Muito lentamente, ele se ergueu da poltrona e voltou para Adélia. Se aproximou até a cama, mas não se sentou ali de novo. Apenas ficou de pé, encarando-a.

—- E seu eu falhar com você outra vez? – Ele disse; sua voz assumiu um tom sombrio que fez os pelos de Adélia se arrepiarem. – E se eu não estiver mais aqui para protege-la? E se eu for a ameaça?

Adélia engoliu em seco.

—- Se tem tanto medo dela, porque está tentando protege-la?

Adélia negou rapidamente com um movimento de cabeça para ele, sentindo sua expressão congelar em surpresa.

—- Não quero protege-la, Rafael! – ela se inclinou um pouco na cama, como se tentasse se aproximar ainda mais dele. – É só que...

Por que não conseguia explicar?

Ela se recostou na cama novamente, sentindo-se cansada demais para continuar aquela discussão. Tentou pensar rápido em uma maneira de lhe explicar que queria Jeniffer por perto por causa dele, mas sem ter que contar que ela era sua mãe. A mulher que, segundo ele, havia o amaldiçoado.

—- Por favor, Adélia -- ele pediu e não havia mais aquela ferocidade sombria em sua voz. Rafael havia soado delicado, temeroso e um tanto desesperado pela afirmação dela. – Não a quero de volta. Não quero que essa mulher lhe cause mal nenhum, nunca mais. Me livrarei dela e prometo que ela não saberá de nada desta conversa.

Adélia o encarou de olhos arregalados de susto e, muito suavemente, maneou com a cabeça em tom afirmativo. Rafael sentou-se ao seu lado na cama outra vez, tocando suas mãos quentes sem pudor algum. O gelo de sua pele percorreu o braço de Adélia como o sangue que passeava em suas veias e ela suspirou.

—- Nunca mais terá que vê-la – ele disse, deixando que seus dedos se encostassem. Encarava os olhos dela com determinação. – Ela não voltará mais aqui. Não a perturbará mais.

—- E se ela voltar? – Adélia soltou quando um gelo atingiu seu coração.

—- Estarei aqui para garantir o contrário – ele murmurou.

O coração dela se comprimiu em seu peito de forma dolorosamente esperançosa. Adélia conhecia Jeniffer de uma maneira que Rafael não conhecia.

Para ele, Jeniffer não passava de uma empregada má. Mas, para Adélia, Jeniffer era Marion, era perigosa, imprevisível, mãe de Rafael e uma espécie humana que ela nem conseguia imaginar que existia. Diante de tudo isso, era difícil acreditar que ela iria aceitar aquele fim normalmente.

Ambos ficaram em silêncio enquanto Adélia tentava voltar para seu estado de plenitude antes de Rafael tocar naquele assunto. Mas, quando Adélia achou que ele já havia terminado, Rafael continuou:

—- E quanto a Adam?

Adélia empertigou a coluna rapidamente, sentindo-a dolorida. Ela percebeu pelo tom fraco da voz dele que Adam era um caso muito mais difícil de se resolver.

—- Não é com Adam que me preocupo agora, para ser sincera – e era verdade. Adélia acreditava que Adam era um monstro ainda, mas, novamente o comparando a Jeniffer, sentia muito mais medo dela do que dele.

Rafael a encarou com certa suspeita no olhar, temeroso.

—- E Fordy? – ele continuou, ainda preocupado com a afirmação dela sobre Adam. – Acha que pode confiar nele?

Adélia se sentiu mal.

Rafael estava ali, prestativo enquanto fazia uma lista das pessoas que poderia eliminar por ela e sem parecer ter o mínimo de noção que Adélia já confiava, em certa medida, no velho Fordy. Aquilo a fez se sentir mal porque Rafael não fazia ideia que os dois conspiravam pelas costas dele, enquanto ele, alheio aquilo tudo, estava preocupado em mantê-la segura.

—- Você confia nele? – ela observou Rafael assentir com avidez. – Então também confio.

Aquilo pareceu relaxar Rafael, mas era difícil ter certeza baseando na expressão impassível que ele assumiu imediatamente.

—- Me preocupo com Adam – Rafael confessou, agora encarando seus dedos se tocando quase imperceptíveis. – Não posso controla-lo. Não posso expulsá-lo.

Adélia concordou disfarçadamente, pensando na última conversa que tiveram e no presente que ele lhe dera. Ainda não tinha tido a oportunidade de usá-lo de fato e aquela leve lembrança fez seu coração acelerar. Podia falar com seus pais agora.

—- Não se preocupe com ele, Rafael. Apesar de... tudo, sinto que ele está do nosso lado também. – O coração de Adélia ainda estava aquecido por conta da presença do presente, agora escondido em uma das gavetas na cabeceira. Tão perto...

Rafael a encarou com certa amargura no olhar, como se estivesse triste com o que ela havia acabado de dizer.

—- Adam sempre quis se livrar de mim – disse, envergonhado de si mesmo e deu seu pai. – Não me surpreende que ele queira tanto que tudo isso acabe logo.

Adélia estancou, encarando o rosto de Rafael. Toda a gratidão que sentira por Adam ia se esvaindo aos poucos.

—- O que quer dizer com isso?

—- Acha que sou a pessoa preferida dele no mundo? – Rafael continuou, incerto se deveria contar todos os podres que envolviam os dois. – Adam sempre me odiou, Adélia. Sempre odiou minha forma, essa situação. Por que acha que contratou Fordy para cuidar de mim durante toda a minha vida? – Adélia deu de ombros, sentindo as maçãs do rosto queimarem. – Nunca suportou olhar para mim. Por isso que...

Rafael se interrompeu, quebrando bruscamente o contato entre suas mãos para se afastar um pouco dela. Não havia levantado da cama, apenas lhe dado as costas para fechar os olhos e respirar fundo, sentindo-se claustrofóbico.

—- Ele te obrigou a usar a máscara?

Ela não entendeu a surpresa na própria voz, mas foi inevitável. O coração de Adélia estava pequeno agora, dolorido.

Desejou poder gritar com Adam depois que Rafael assentiu afirmativo, ainda sem encará-lo. Aquilo era cruel, desumano até para os padrões de Adam. Quis gritar feito uma louca com ele, porque era simplesmente...

—- Por quê? – ela murmurou, arfando de raiva. Rafael a encarou por cima do ombro naquele momento, tenso. – Por que ele é tão cruel? Por que faz essas coisas?

Estava furiosa consigo mesma por ter se sentido grata pelo presente. Parecia podre agora, tão sujo.

—- A ideia foi dele, Adélia -- Rafael disse como se aquilo fosse obvio. – Mas eu usava porquê... – Ele suspirou, esquivando-se. – Também sentia nojo de mim mesmo.

Adélia engoliu a bile que se formou em sua garganta.

—- Há quanto tempo... – ela travou, reorganizando os pensamentos. – Desde quando você usava?

Adélia percebeu quando Rafael segurou a beira da cama com dedos rígidos. Todo o seu corpo havia ficado tenso e até sua respiração soava pesada.

—- Há dois anos, mais ou menos – confessou, mas havia algo revelador em sua voz.

Dois anos.

Muito vagamente, Adélia ouviu a voz de Adam murmurar o nome de Celine Carson e toda a conversa que tiveram naquele dia veio à tona.

Com o peito apertado, ela se aproximou de Rafael. Queria lhe perguntar o porquê ele havia se escondido por tanto tempo de ninguém em particular, mas não o fez. Teve medo de dar brecha para ele adivinhar que ela sabia sobre Celine.

Adélia tocou seu ombro com uma mão, pressionando o mais suave que podia. Queria tranquiliza-lo, mas estava travada.

—- Não precisa se esconder de mim – ela murmurou fraca.

Rafael não precisou se virar para encará-la.

—- Não preciso me esconder de você— ele também murmurou, mas com suavidade. – Você me liberta, Adélia.