A Fera
27 Finito Repouso
3 meses depois
Adélia havia almoçado sozinha naquele dia, embora tenha passado quase toda a manhã com Rafael para lhe fazer companhia. A parte mais assustadora daquilo tudo era seu recente medo de ficar sem ele por perto.
Mesmo que Jeniffer ainda não tivesse voltado do seu dia de “folga” — até onde ela sabia – Adélia ainda tremia quando imaginava como seria o reencontro entre elas duas depois de tudo o que havia dito para Rafael e descoberto sobre a mulher.
Será que Jeniffer conseguiria perceber ao vê-la tremendo em sua companhia que Adélia sabia de algo? Adélia rezava para que ela nunca mais voltasse.
Poucas coisas haviam mudado desde a última vez que vira a mulher. Ela e Rafael haviam se tornados mais próximos do que ela jamais pensara ser possível. Além disso, vinha conversando com Adam com mais frequência do que consideraria saudável a um tempo. E era Fordy quem a ajudava agora, ao invés de Jeniffer.
E, claro, finalmente havia conseguido conversar com seus pais. Rafael sempre ficava no canto de seu quarto, assistindo-a cair em lágrimas toda vez que desligava uma ligação, sempre às sete da noite, após um breve momento com seus pais. Depois ele a consolava da melhor forma que podia. E então eles conversavam sobre a vida dela – ou sobre a dele, na medida do possível.
Sua mãe uma vez perguntara para ela sobre o misterioso filho de Adam. Adélia ficara vermelha na mesma hora, mas Rafael desviou o olhar de seu rosto, o que a fez pensar que talvez ele desconfiasse sobre o rumo da conversa.
—- Ele é bom — ela murmurou, distraindo-se com um fio solto de sua meia. – E gentil. É meu amigo também.
Foi difícil dizer se Suzanne soou aliviada ou menos preocupada com a revelação. Ela quis mais detalhes, quis fazer um interrogatório, mas temeu desperdiçar o pouco tempo que tinham falando sobre outro alguém que não fosse sua própria filha. Queria só se certificar que Adélia estava bem e segura ali com aquele cara. Queria se assegurar que ele estava cuidando dela – e Adélia sempre respondia um “Ele é maravilhoso comigo o tempo todo, mamãe. Hoje fizemos algo extraordinário...” com veemência.
Adélia mal se preocupava mais em esconder o que sentia por Rafael. Ainda vivia sob cautela com ele, com medo que uma hora ou outra pudesse dizer algo que o magoasse; mas também não poupava mais esforços para estar com ele.
Era difícil, no entanto, esquecer todos os seus demônios. Ainda havia aquele enorme abismo entre eles dois, aquele medo que ambos sentiam – mais ele do que ela — em serem completamente honestos sobre isso. Rafael ainda temia sua maldição, as consequências que Adélia sofreria por causa dela. Ainda tentava poupá-la, escondendo-se ou recuando toda vez que ela tentava arrancar algo dele. E as coisas iam se tornando cada vez mais difíceis nesse aspecto para ele.
À medida que seu amor por Adélia ia tomando proporções astronômicas, ficava mais difícil para Rafael pensar de forma racional. No fim, ele sempre acabava cedendo uma parte de si para ela – não que ela não merecesse; pelo contrário. Rafael não tinha mais nada para dar a Adélia que ela já não possuísse: todas as flores do jardim, alguns dos seus segredos mais importantes, seu coração... Rafael nunca havia se sentido tão em casa como havia se sentido durante todo aquele tempo.
Exceto, talvez, por um detalhe minucioso.
Seu coração se tornava mais fraco a cada dia. Passara uma semana inteira sem visitar Adélia porque tivera um ataque. Nada grave, segundo Salvatore; mas era algo com que se preocupar. No fim da consulta naquele dia, o médico havia estendido sua vida de um mês para um mês e meio. Lembrou-se de Adam surtando naquele dia. Havia sido a coisa mais assustadora que já vira: ao invés de gritar com ele, seu pai apenas o encarava com certa fúria. Ao invés de fugir ou se embebedar, Adam ficara ao seu lado, pensando estrategicamente em como retardar o processo de morte o qual Rafael acreditava ser inevitável no momento.
Só que, ao invés de destruir a expectativa que Adam parecia guardar, Rafael apenas assentia em silêncio. Não era algo que teria de contar a Adélia, mas pensava em até quanto tempo ele conseguiria guardar aquele segredo. No fim, quando Adam, Fordy e o médico o deixaram sozinho, Rafael chorou. Primeiro porque a ideia de deixar Adélia o dilacerava; segundo porque não queria contar para ela, mas teria que contar. Não podia simplesmente morrer, ir embora e deixa-la sozinha ali. Queria lhe dar a garantia de que, pelo menos, ela conseguiria sua antiga vida de volta – Adam teria que lhe conceder aquele último desejo. Afinal, não haveria mais nada que eles pudessem fazer por ele.
Por isso que, durante os últimos três meses e dentro dos dias em que não estava queimando em febre, Rafael ficava ao lado dela. Todo dia eles se despediam – ele, com saudades, medo e urgência; e ela com carinho, gratidão. Rafael tinha medo de que todas as vezes que se despedissem fosse a última. Adélia era completamente alheia aos motivos dele, mas sempre agia como se tentasse aplacar sua dor.
Naquele domingo a tarde, estavam na biblioteca novamente. Passavam quase todas as tardes lá quando chovia; quando o sol aparecia e o dia esquentava um pouco, Adélia propunha que fossem ao jardim. Por isso que ele pedira a Fordy que o reformasse o máximo que podia. Não queria que Adélia passasse todos os dias de sol encarando coisas horríveis.
Adélia estava lendo, aninhada a si mesma e concentrada em um livro. Rafael estava ao piano, corrigindo notas de uma música que tentava compor para ela sem ao menos conseguir tirar os olhos de seu rosto focado. Parecia alheia a tudo o que a rodeava, inclusive do olhar que ele a lançava. Mesmo quieta, Adélia o fazia sorrir. Ela fazia seu coração bater perigosamente mais rápido, o deixava sem fôlego. Fazia Rafael pensar o quão doloroso seria viver em um mundo onde ela não existisse.
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