A Fera
13 Correndo Contra Lobos
Notas iniciais
Havia começado a chover quando Rafael se deu conta de que já passavam das cinco horas da tarde. Estava concentrado apenas em Adélia, deitada de costas para ele e enrolada em seus cobertores. Seu corpo estava tranquilo, sem tremedeiras e confortável em sua cama, adormecido.
Tinha pegado no sono assim que se acalmou, deixando-o sozinho com a mulher inquieta, que agora concentrava sua atenção em um livro velho.
De vez em quando Rafael a flagrava olhando-o por cima do livro, de forma discreta e questionadora. Não parecia estar intimidada por ele; apenas curiosa. Receptiva, até.
—Não precisa ficar aqui durante o resto do dia – ela murmurou, quebrando o silêncio. Rafael estava confortável antes daquilo, e quase se irritou por ela partir sua paz. – Ela ficará bem, não se preocupe.
—Não me incomodo de permanecer – ele respondeu, seco. Estava desconfiado, e não achou uma boa ideia comentar que o pedido vinha da própria Adélia. – Sei que Adélia não se incomodará se eu ficar.
A mulher baixou o livro e o repousou sobre o colo delicadamente, encarando-o com um sorriso no olhar. Ela o investigou durante um momento, analisando-o minuciosamente. Parecia, como sempre, querer ver o que estava escondido por detrás daquilo em seu rosto.
—Ela lhe pediu isso?
Havia certo ceticismo em sua voz, o que deixou Rafael um tanto intrigado.
Por que ela não pediria? era o que queria saber. Mas ele resolveu não responder à pergunta, pois não saberia mentir se resolvesse negar.
—Vocês são muito amigos, devo imaginar. E ela deve confiar muito em você para pedir que fique, principalmente depois do que aconteceu – ela sorriu um pouco, voltando sua atenção para o livro em seu colo.
—O que aconteceu? – Rafael não resistiu a pergunta. Estava ficando louco por conta de todo aquele mistério, e só o fato de uma empregada saber sobre o que quer que houvesse acontecido e ele não, já era motivo suficiente para tirá-lo do sério.
Ele tinha que ter uma conversa com Fordy.
—Ele não lhe contou? – Ela vociferou, ficando séria de repente. Sua voz estava baixa e transmitia uma sensação de horror, como se estivesse em choque. – Ele ainda está aqui, não está? Oh, Deus...
Ela cobriu os lábios com os dedos trêmulos, desviando o olhar. Parecia desnorteada, como se houvesse acabado de receber uma notícia ruim.
—Ele? – Rafael estava ficando preocupado pela reação da mulher, e um calafrio percorreu seu corpo quando ela o encarou, tensa. – De quem está falando?
Ela vidrou seu olhar nele, em suas órbitas escuras, o instigando a ficar mais preocupado e assustado.
—Rafael? – A voz de Adélia os interrompeu. Estava ereta na cama, com as pernas balançando na beirada. Observava os dois com cautela.
Rafael ergueu-se e caminhou até ela, tenso. A mulher continuou onde estava, como se estivesse com receio de encarar Adélia também. Não se moveu nem mesmo quando a garota parou em sua frente, encarando-a.
—Como está se sentindo? – Jeniffer murmurou, com a voz adocicada. Estava plena, sentada com as costas eretas de forma quase mandona.
—Estou ótima – Adélia respondeu suavemente, muito menos doce do que queria.
Ela continuou encarando Jeniffer, procurando algo em sua mente para lhe dizer. Por um momento, ela quis comentar sobre a visão que tivera antes dela aparecer. Quis comentar sobre o que ela estava conversando com Rafael a poucos segundos atrás, mas algo a impedia.
Queria simplesmente provoca-la, mas sabia que não podia. Mesmo com Rafael ao seu lado – que lhe transmitia uma estranha sensação de proteção que só poderia ser fruto de confiança.
—Você quer alguma coisa, minha querida? – Jeniffer se remexeu, aparentemente desconfortável sob o olhar de Adélia.
Adélia negou rapidamente, ficando tensa a medida em que ela e Jeniffer trocavam olhares mais desconfiados.
—E quanto a você? – Ela girou em seu assento para encarar Rafael atrás de si.
Adélia mal havia prestado atenção quando ele se aproximou dela e continuou parado onde estava. Ele tinha os ombros largos paralisados em uma postura rigidamente ereta e, se não fosse pela expressão vazia de sua máscara, ela poderia jurar que ele estava sério.
—Não, senhora – ele murmurou, imóvel.
De repente, Adélia se deu conta de algo.
Lá estava Jeniffer e Rafael, juntos, se encarando. Era difícil dizer o quanto a situação havia ficado mais estranha depois daquela noção.
Rafael ainda não fazia ideia de que Jeniffer era sua mãe, e por um momento aquilo fez algo dentro de Adélia vibrar – não de um jeito bom. Ela tinha o segredo de Jeniffer nas mãos, e certamente um pedaço do que Rafael era também.
Por Deus, ele não fazia ideia de que estava diante da própria mãe!
Adélia resistiu a vontade de exclamar, limitando-se apenas a soltar um suspiro afetado.
Como esquecera daquilo tão rápido?
Estava o tempo todo desconfiando de Jeniffer e irritada com ele para perceber um momento daqueles. Ela encarou Jeniffer com um olhar totalmente diferente agora.
Não com desconfiança, mas com um pouco de pena. Ela lembrou-se da emoção nos olhos da mulher quando a mesma lhe revelara aquele segredo há um tempo atrás. Se bem se lembrasse, a mulher repetiu a todo momento que havia cometido um erro terrível antes de realmente lhe confessar que era a mãe de Rafael.
Sua cabeça agora entrava em colapso. Estava nervosa diante daquela situação, como se estivesse segurando uma granada nas mãos prestes a explodir.
Adélia se aproximou ainda mais de Jeniffer, investigando seu rosto. Tinha um olhar ansioso, e os cantos de sua boca estavam retorcidos para cima. Parecia conter um sentimento próximo a alegria – e, certamente, aquilo deveria ser por conta da presença do próprio filho.
—Jeniffer? – Adélia a chamou, impulsiva. Queria desesperadamente jogar aquilo para fora, e mal conseguia conter o embrulho no estomago.
Jeniffer a observou por um momento antes de segui-la até o banheiro, onde fechou a porta e esperou que Adélia falasse algo.
Mas Adélia não sabia o que dizer. Ainda estava nervosa por ter aquele súbito ataque de euforia contida ao se dar conta do que estava, de fato, acontecendo.
—Você está bem? – ela perguntou a Jeniffer, que lhe encarou um olhar suspeito.
—Estou – a mulher respondeu, captando rapidamente o motivo da preocupação no olhar de Adélia. – Não se preocupe, Adélia. Lido com isso melhor do que pode imaginar.
Adélia não parecia acreditar no que disse, mas preferiu não contradizer Jeniffer. Se a mesma afirmou que estava bem, então ela não tinha com o que se preocupar.
—Pensei que... – Ela se calou, analisando a expressão suave de Jeniffer. – Apenas imaginei que estivesse desconfortável ou algo assim.
—Estou bem, de verdade – a mulher pegou uma das mãos de Adélia e apertou, transmitindo confiança. – Sempre fico um pouco desconcertada com os meus sentimentos quando o vejo, mas consigo lidar com isso muito bem.
Adélia assentiu, mostrando que tinha entendido. Sentia-se muito constrangida no momento, se perguntando se havia sido a melhor opção indagar a mulher sobre seus sentimentos diante dele.
—O que vão fazer agora? – Jeniffer mudou de assunto.
Adélia corou, sem saber o que dizer.
Simplesmente o forçou a ficar, pois estava se sentindo insegura e com medo no momento. Não pensou no que aconteceria depois, no que deveriam fazer. Certamente, Rafael ainda estaria lá esperando por ela.
—Vamos ao jardim – ela murmurou, embora não tivesse certeza de nada. – Eu acho.
Jeniffer sorriu um pouco para ela, dando-lhe as costas. Caminhou até uma portinhola embutida na parede do cômodo, voltando a se aproximar com um suéter cor-de-rosa e uma jaqueta jeans clara em mãos.
—Está esfriando lá fora – disse, jogando as vestes para Adélia. Deixou-a sozinha em seguida, para que se trocasse.
Adélia parou de frente para o espelho, analisando a própria imagem. Sentiu-se automaticamente constrangida ao pensar que estava com aquela aparência – camisa amassada, cabelo despenteado e rosto pálido – após acordar.
Com um muxoxo, jogou o suéter por cima da camisa e depois vestiu a jaqueta. Desamassou o cabelo o quanto pôde, mas sem resultados satisfatórios. No fim das contas, estava satisfeita com ele preso em um coque e suas roupas limpas e confortáveis.
Quando saiu do banheiro, encontrou Jeniffer sentada em sua poltrona com seu livro e Rafael observando a vista através da janela. O ambiente parecia silencioso demais, e Adélia conseguia ouvir a própria pulsação se acelerando.
—Querida – Jeniffer se levantou rapidamente, anunciando sua presença – quer que eu os acompanhe?
Adélia ainda se lembrava do pedido que fizera a Jeniffer para que a mesma não a deixasse sozinha, mas agora, depois de tantas coisas e tanta desconfiança, ela não tinha certeza se a queria por perto. E, por fim, ainda queria conversar com Rafael sobre coisas que não seria adequado conversar com ela.
—Eu vou ficar bem – ela disse, simpática. Rafael a observou por cima do ombro, seguindo-a até a porta.
Adélia mal pode decifrar o último olhar que Jeniffer a lançou, antes de Rafael fechar a porta atrás de si.
Ela ficou parada diante da porta, respirando fundo enquanto tentava conter a súbita tremedeira em seus membros. Por um momento, ela se permitiu respirar e se concentrar em algo que não fosse o medo, a preocupação, a raiva ou qualquer outro sentimento desconcertante que a tirou do sério apenas naquele dia.
Estava tentando se concentrar em suas próprias palavras, no que o seu coração queria que ele soubesse.
—Muito bem – ela disse, virando para encará-lo. Rafael estava parado ao seu lado, com o rosto virado em sua direção; parecia encará-la. – Podemos dar uma volta?
Ele hesitou, mas assentiu lentamente.
Mal se lembrava da última vez em que passaram tanto tempo juntos, e Adélia estava tão acostumada à sua presença que mal sentia o costumeiro embrulho no estômago quando o via.
—Quer ir ao jardim? – Ele perguntou, quando estavam descendo as escadas.
Adélia assentiu. Não havia se dado conta para onde estavam indo, inicialmente. Estava apenas o seguindo, na verdade.
Ela recebeu a brisa fria em sua pele com gratidão, sugando para dentro de si o máximo de ar puro que seu peito suportava. Estar do lado de fora era simplesmente revelador, e a sensação que sentiu era quase libertadora.
O céu estava salpicado de nuvens em diferentes tons, que oscilavam entre o rosa e o lilás, o laranja e o vermelho e até o azul natural. Mesmo escurecendo, ela conseguia ver tudo com mais clareza naquele momento do que vira durante o dia que passara com Jeniffer ali, no jardim dos fundos.
—Adélia – a voz de Rafael a acordou daquele transe maravilhado, trazendo-a como um empurrão para a realidade. – Eu queria lhe perguntar uma coisa, mas temo que não seja conveniente...
—Diga – ela o interrompeu, sem acidez. Quando Rafael não continuou, ela o lançou um olhar penetrante, instigando-o. – Me diga o que está pensando.
O barulho que ele emitiu se pareceu mais com um chiado triste do que com um suspiro.
—Por que me pediu para ficar?
Adélia ficou surpresa com a questão, pois esperava que ele lhe perguntasse sobre Jeniffer ou qualquer outra coisa. No entanto, ficou instantaneamente curiosa para saber a própria resposta.
—Bem... – seria certo comentar que não confiava em Jeniffer? Ou sobre a visão que teve antes dela chegar? — Não queria que fosse embora.
Ela quis falar, mas sua garganta estava se fechando. Aquele fio de tranquilidade que sentiu a poucos segundos atrás estava dando um nó em seu peito agora, sufocando-a.
Rafael ficou em silêncio por um momento, pensando na resposta que obteve. Adélia não parecia estar mentindo, mas também não parecia muito convencida da resposta.
—Quer ir embora agora? – Ela murmurou com a voz entrecortada.
—É o que você quer?
Adélia engoliu em seco, muito desconfortável. Por que diabos ele estava lhe devolvendo a pergunta? Certamente não era ela quem deveria decidir aquilo.
—Não sei – sussurrou, encolhendo-se. – Não posso obriga-lo a ficar.
Rafael pensou por um momento, perguntando-se se aquela resposta vinha com a intenção de alfinetá-lo. Não era o que parecia, dada a expressão franzida de Adélia.
Estava com vontade de lhe fazer outras milhares de perguntas, mas se conteve. Não deveria bombardeá-la com sua infortuna e súbita curiosidade, mas estava remoendo-se por dentro.
—Eu quero poder ajuda-la – ele murmurou, aproximando-se dela. Adélia não se moveu, simplesmente continuou encarando-o. – Não quero ser seu inimigo, Adélia. Quero estar próximo a você para saber do que precisa, para protege-la. – Ele fez uma pausa, engolindo a própria ousadia. – Quero ser seu amigo, quando lhe for conveniente.
Adélia sentiu um fio gelado percorrer suas entranhas quando Rafael se aproximou demais, tocando em sua mão. Ficou nervosa imediatamente, quase sem voz.
Não sabia como responder aquele pedido, pois não o entendia.
Não conseguia imaginar uma figura como ele sendo tão empática, principalmente com ela. Talvez fosse uma questão de confiança, mas simplesmente não conseguiria confiar nele de olhos fechados.
—Eu ainda tenho medo de você – ela murmurou de volta, puxando sua mão e a retorcendo.
Rafael sentiu uma pontada em seu peito ao ouvir aquilo. Não podia culpa-la. Aquela pequena revelação o abalou no exato momento em que foi dita.
-Então por que me pediu para ficar? – Ele disse um pouco alto demais, sentindo seu peito arder.
—Porque eu precisava! – Adélia fechou os olhos e desviou-se dele, descendo um degrau da pequena escadaria. O céu já não estava tão atraente como antes, pois começava a escurecer de verdade. Ela engoliu em seco diversas vezes e respirou fundo, antes de tomar a coragem de encará-lo novamente.
—Me conte o que aconteceu – Rafael insistiu duro, mesmo sem querer força-la. – Isso está me matando, Adélia. Eu preciso saber.
Adélia o encarou com surpresa quando sentiu a ferocidade de suas palavras. Ela se sentiu intimidada por ele, durante poucos segundos. Sua máscara agora refletia uma luz fantasmagórica e sombria, arrepiando os pelos de sua nuca.
—Ultimamente, tem acontecido muitas coisas estranhas comigo – ela disse, tensa. O bolo em sua garganta chegava a doer de tão pesado. – Aquela carta que recebeu ontem, antes do nosso encontro.... Está lembrado? – Rafael assentiu lentamente, e o coração de Adélia disparou. – Bem, eu a escrevi há muito tempo atrás. Muito antes de... – me fazer uma promessa, quis dizer.
—Antes de quê?
Adélia suspirou e fechou os olhos durante um momento, sentindo o constrangimento mesclar-se ao tremor em suas pernas. Estava tão trêmula que teve de se recostar em uma das enormes pilastras para não tropeçar.
—Antes de toda aquela confusão – disse, na esperança de que aquilo lhe bastasse. – O caso é que não fui eu quem lhe enviou aquela carta. Na verdade, se bem lembro, ela sumiu pouco tempo depois de eu escrevê-la.
Rafael pensou por um momento, recordando-se da noite anterior.
—Eu também não lhe enviei bilhete algum – havia se esquecido completamente. Como havia se distraído tanto, ao ponto se esquecer-se daquilo? – Tenho em mente apenas uma pessoa.
—Eu também tenho, Rafael – Adélia sentiu seu estômago se contrair, e uma dor insuportável quase a fez lacrimejar. – Quando cheguei ao meu quarto ontem, estava cega de fúria. A primeira pessoa que me veio à mente foi Jeniffer, e eu não pude evitar ficar irritada com ela. – Pausa. Adélia respirou bem fundo antes de continuar: — Eu sabia que ela tinha algo a ver com isso desde o dia em que escrevi essa carta e ela sumiu, mas foi apenas ontem que me dei conta disso. Eu quis saber o porquê, e fui furiosamente atrás dela.
Rafael ouvia atentamente cada palavra que saía da boca de Adélia, sentindo a adrenalina incendiar suas veias. Estava pronto para dar o troco naquela mulher quando Adélia continuou, com voz triste.
—Nós não chegamos a discutir antes disso, pois fiquei com um pouco de medo. – Adélia sentiu um arrepio encrustar sua pele quando uma série de imagens apagadas e sem sentido invadiram sua cabeça, deixando-a tonta. – Eu recebi uma visita ontem, também. Queria saber sobre você.
Adélia respirou fundo, contou até três e foi até Rafael. Ela segurou suas mãos enluvadas com firmeza, apertando-a contra suas palmas frias e suadas. Estava olhando para as órbitas da máscara agora, encarando seus olhos.
—Preciso que me ouça, Rafael. Me ouça com muita atenção agora – ela apelou, segurando suas mãos. Rafael se sentiu completamente desarmado naquele instante, sob o olhar intenso de Adélia. – Eu fui atacada após, aparentemente, negar uma proposta que me foi feita.
Os olhos de Adélia lacrimejaram rapidamente com a dolorosa lembrança que não tinha do ocorrido. Tinha apenas o que Jeniffer havia lhe dito que acontecera, e as imagens vazias e sem sentido que rondavam sua cabeça.
Mas a dor era real e intensa, o que a deixava tão perturbada quando as lembranças.
—Quem fez isso com você? – Rafael murmurou, contendo a raiva.
—Espere. Agora vem a parte mais difícil de explicar. – Ela disse, antes de engolir um soluço.
— Não! – Rafael vociferou, deixando a fúria escapar. – Me diga apenas quem a machucou, Adélia. Não quero que sofra me contando os detalhes!
—Eu não sei! – Adélia estremeceu, remexendo-se para se desvencilhar do aperto constante de Rafael. – Eu não me lembro de nada, Rafael. Não me lembro quem me atacou e não me lembro o porquê. Não sei como tudo aconteceu, e isso está me deixando perturbada.
Rafael ficou em silêncio por um momento, sem saber o que dizer. Estava furioso!
Seu peito ardia de raiva só com a lembrança do fatídico dia em que seu pai resolvera visita-la, e imaginar que aquilo havia acontecido de novo...
—Adélia – ele murmurou, mortalmente calmo. Estava lutando para esconder a fúria que se transformava em ódio, sem querer assustá-la. – Me diga quem a visitou ontem a noite.
—Você tem que me prometer que não fará nada – ela murmurou, com a voz entrecortada. – Me prometa, Rafael!
Ele estaria louco se o fizesse!
Estava cego de raiva agora; como poderia prometer algo do tipo?
—Rafael... — Adélia apertou ainda mais suas mãos, chamando-lhe atenção. – Por favor...
—Não posso, Adélia. – Finalmente respondeu, seco. Adélia o encarou com um olhar triste e decepcionado. – Como pode me pedir para prometer algo assim? Alguém a machucou, e eu não posso deixar isso para lá.
—Não estou pedindo que deixe, Rafael – ela parecia ferida com a revelação dele.
—E o que devo fazer? – Rafael se exaltou, sacudindo as mãos. Estava frio, irritado e completamente dividido. Quando Adélia não lhe respondeu nada, ele continuou: — Não quero que a machuquem de novo. Deixe-me protege-la, Adélia.
—Você me protege, Rafael – ela finalmente falou, com a voz embargada. – Ninguém me machucará se você estiver por perto.
Rafael resistiu a vontade de rir, apenas a encarando em silêncio.
—Por que sou um monstro? – Murmurou, enfezado.
Adélia o lançou um olhar surpreso antes de revirar os olhos, bufando.
-Não foi o que eu quis dizer – respondeu, voltando a encará-lo.
Rafael resistiu a vontade de perguntar o que diabos ela quis dizer, preferindo encerrar aquele sub-assunto com um suspiro pesado e enfurecido.
—O que eu tenho que fazer para que confie em mim? – Ele disse, depois de um tempo. Adélia o encarava com uma expressão preocupada, e Rafael teve de resistir a vontade de tocar seu cenho franzido.
—Deixe-me saber quem você é de verdade – ela respondeu, surpreendendo-o. – Eu quero conhecer você, Rafael.
—Adélia... – toda a fúria que sentiu a poucos segundos atrás agora dava espaço para o desconforto e a vergonha. – Não me peça isso. Sabe que não é uma boa ideia. – Ele engoliu em seco, fechando os olhos quando uma série de lembranças dolorosas voltaram à tona. — Nós já conversamos sobre isso, está lembrada? E as coisas não acabaram muito bem.
—Se bem me lembro, você praticamente me expulsou — um esboço de sorriso surgiu em seu rosto, desarmando Rafael antes mesmo que ele pensasse em ficar irritado com a lembrança. – Eu ainda não me importo com o que há por trás disto.
Ela ergueu uma de suas mãos para tocar o objeto, mas Rafael a interrompeu a tempo.
Ele encarou seus olhos se entristecerem instantaneamente, enquanto suas bochechas ficavam rubras.
—Não posso repetir o mesmo erro, Adélia – ele murmurou, sentindo seu peito se apertar brutalmente. Rafael perdeu completamente o fôlego quando os olhos curiosos de Celine invadiram sua mente.
—Erro? Que erro, Rafael? – Adélia gralhou, chamando sua atenção de volta. Seus olhos estavam arregalados. Um segundo mais tarde, ela relaxou. – Acha que me esqueci de tudo o que me disse naquele dia? Ou de tudo o que eu disse?
—Acha que eu esqueci? – Ele a acusou, cheio de remorso. Estava entrando no mesmo beco sem saída daquele dia e, se não escapasse a tempo, tudo aconteceria de novo. – Não sabe o quanto me senti culpado por aquilo, Adélia. Fiquei atormentado e preocupado com você.
Adélia tentou permanecer tranquila diante de tal confissão, mas era impossível quando Rafael perdia o controle e se mostrava de tal forma. Era assustador, até.
—Do que você tem tanto medo, Rafael? – Adélia inclinou a mão para tocá-lo novamente, mas não o fez. – Não me diga que é de me machucar, pois sabemos que isso não acontecerá.
Rafael engoliu em seco, pensando na pergunta. Deveria responde-la? Ou simplesmente ignorá-la?
Em ambas as opções, ele parecia um tolo. Em qualquer momento, qualquer coisa que dissesse, Rafael sempre seria o infortuno.
—Rafael...
—Não quero que me odeie – ele confessou, engolindo em seco. – Não quero que saiba como sou horrível e como essa maldição me afeta de verdade, Adélia.
Adélia sentiu seu peito se apertar diante de tal confissão.
Mal se lembrava do que vira quando ele tirou aquela coisa em sua frente e realmente mostrou quem era. Não havia esquecido completamente, claro; ainda tinha uma vaga lembrança do pânico que sentiu e que mal conseguiu conter em sua expressão.
Mas agora era diferente.
Nem mesmo depois de todas aquelas discussões e decepções ela conseguira odiá-lo. Nem mesmo quando estava profundamente magoada, enfurecida... como poderia odiá-lo por conta de sua aparência?
Já lhe parecia muito errado odiar alguém – mesmo se essa pessoa for Adam – por qualquer motivo. Agora, odiá-la por sua aparência?
Era simplesmente desumano.
—Não pode se esconder de mim para sempre – ela respondeu, firme. Estava tentando parecer corajosa de repente, para impressioná-lo. – E não me venha com essa de te odiar. Depois de tudo o que já aprontou, acha mesmo que sua aparência irá me fazer odiá-lo?
—Você não entende – Rafael rebateu, mostrando os primeiros sinais de irritação na voz. – Eu sou um monstro, Adélia.
Adélia se assustou com aquela definição, mas preferiu respirar fundo e esconder aquilo até de si mesma.
—Existem pessoas muito piores do que você por aí, Rafael – ela resistiu a vontade de mencionar Adam, que tinha uma ótima aparência e, no fundo, era vazio. – O que define quem nós somos de verdade é o que vem de dentro. Não importa o que você é por fora se você tem um bom coração.
Rafael balançou a cabeça, contradizendo-a. Estava prestes a lhe dizer que pensava o contrário quando Adélia o interrompeu.
—Eu vejo isso em você agora, Rafael – ela murmurou, espalmando uma de suas mãos em seu peito. – Eu vejo o seu coração.
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