A Fera
14 O Jogo
Notas iniciais
As coisas haviam terminado exatamente como ele temia.
Assim que lhe negou qualquer contato, Rafael observou Adélia murmurar um boa noite mal-humorado e praticamente correr até seu quarto. No fundo, ele torceu para que ela não estivesse realmente brava por aquilo.
Depois de passarem uma tarde inteira juntos, Rafael e Adélia quase estabeleceram um tipo de contato que ele jamais imaginou ser possível. Ela se abriu com ele, foi sincera sem ser rude e, de quebra, ainda o havia deixado abalado de todas as formas possíveis.
Haviam tantas perguntas em sua cabeça que ele mal conseguia processar uma por uma.
Quem a atacou?
Por que ele não soube daquilo imediatamente?
Por que Adélia parecia temer aquela mulher? Será que ela estava lhe fazendo algum mal?
Era confuso pensar naquela mulher causando mal a Adélia, principalmente depois da cena que Rafael presenciara mais cedo. Parecia que ela cuidava muito bem de Adélia, mas por que a mesma parecia desconfiar dela?
Ele precisava ter uma conversa séria com Fordy, sem rodeios e imediatamente.
Como era esperado, o velho já estava em seu quarto.
Fordy estava sentado tranquilamente em sua poltrona, bebericando em uma taça com vinho enquanto parecia ler uma revista sobre arquitetura.
—Fordy – Rafael vociferou, despindo a máscara assim que chegou ao conforto de seu quarto. Ele respirou fundo, aliviado por tirar aquela coisa pesada de seu rosto.
—Meu velho amigo – Fordy se levantou, cumprimentando Rafael quando o mesmo se aproximou. – Há quanto tempo. Parece que foi ontem que nos vimos pela última vez.
—Poupe-me – Rafael cuspiu. Como ficou furioso tão rápido?
Fordy o encarou de olhos franzidos e suspirou, cansado.
—O que foi desta vez?
O velho colocou as mãos na cintura, encarando Rafael de forma desdenhosa. Parecia irritado por ter sido tirado de seu sossego e o modo como agia – como se não soubesse de nada – só enfureceu ainda mais o coração de Rafael.
—O que aconteceu ontem à noite? – Rafael gralhou, perdendo o controle da própria respiração. Naquele momento, ele finalmente sentiu a liberdade para sua fúria. – Sei que Adélia foi atacada ontem, depois de receber uma visita.
Rafael ficou observando atentamente enquanto Fordy parecia desnorteado, como se também houvesse sido pego de surpresa com a notícia.
—Atacada? – murmurou, curioso. – Tudo o que soube foi que a mesma passava por um mal-estar por conta de uma gripe. Não sei nada sobre esse ataque. Quem lhe contou isso?
—Era por isso que estava tão nervoso hoje pela manhã? – Rafael indagou, aproximando-se furiosamente dele. Os olhos de Fordy garantiram um brilho extra, nem um pouco intimidados. – Por que eu não soube disso imediatamente?
—Eu não sei do que está falando, garoto – Fordy engoliu em seco, sentindo a proximidade de Rafael com um calafrio. – Até onde eu saiba, sua amiga estava gripada.
—Não minta para mim, seu velho – Rafael resistiu a vontade de quebrar algo, limitando-se apenas a vociferar. Sentia sua pele esquentar de fúria, e até seu coração palpitava acelerado demais.
—Não estou mentindo – Fordy rebateu, sem se abalar com a fúria crescente nos olhos de Rafael.
Ambos ficaram se encarando por um momento. Fordy estava em estado de alerta, enquanto Rafael tentava não pensar em medidas agressivas. Mas seu coração ardia em fúria – ele quase queria um culpado. Queria poder fazer tão mal a essa pessoa quanto ela fez a Adélia.
Você tem que me prometer que não fará nada, Rafael — a voz de Adélia ricocheteou em sua mente.
—Ela disse que não se lembra de nada – ele murmurou, enjoado. Toda aquela fúria o estava consumindo violentamente, sugando cada pedaço de energia que havia em seu corpo. – Não entendo o porquê algo assim aconteceria com ela.
Fordy apenas assentiu, compreensivo.
Não havia pensado muito acerca daquele assunto, mesmo depois que Rafael descobrisse tudo. Seu objetivo era mentir, apenas.
Rafael não poderia descobrir o que realmente acontecera sem enxerga-lo como culpado. E, se desconfiasse dele, Fordy não pensaria duas vezes antes de ir embora. Não seria apenas a fúria de Rafael que ele teria de enfrentar. Não podia se esquecer de Adam. E das próprias promessas, claro.
—E quanto aquela carta? – Rafael disparou, intrigando o velho. – Você me pareceu bem animado com ela.
Fordy não lembrava e foi totalmente pego de surpresa com a menção daquilo.
—Eu queria que vocês conversassem – admitiu, erguendo as mãos em sinal de rendição.
Rafael o encarou ainda mais furioso. Sua respiração parecia pesada toda vez que ele a expulsava de seu corpo.
Ele poderia perdoar Fordy, por enquanto. Não conseguia mais pensar naquilo da mesma forma que pensava no que aconteceu a Adélia. Naquele instante, não se importava com sua própria vida.
—Adélia me contou que a carta havia desaparecido de seu quarto – ele continuou, recuperando o fôlego. – Você a pegou?
Fordy desviou o olhar, remexendo-se.
—Não, Rafael. Eu não roubei a carta – explicou-se. Odiava ser questionado daquela forma. – E, antes que pergunte, ela apenas chegou até mim.
—Quem a entregou, então?
Fordy franziu os olhos, observando Rafael minuciosamente. O garoto parecia realmente interessado naquele assunto.
—Foi aquela mulher? – Ele indagou, desconfiado.
Então ele também desconfiava de Jeniffer?
Fordy precisava conversar com ela.
—Por que está perguntando por ela?
—Adélia não parece confiar nela. Foi a primeira pessoa que suspeitou depois desse desaparecimento – Rafael disse.
Fordy apenas o encarou, sentindo um arrepio percorrer sua nuca. Agora estava realmente preocupado com aquela história.
Como Jeniffer estava gerando tanta desconfiança sem nem mesmo saber? Ela não era tão estúpida aquele ponto.
Talvez seja um jogo, Fordy pensou, talvez ela esteja escolhendo suas próximas vítimas. Ele conseguia sentir o perigo daquilo mesmo sem ter certeza alguma. Parecia ser um jogo fácil demais para ele. Obvio, até.
—Talvez – respondeu, vago. Ele tinha que entender aquele jogo.
—Talvez o quê? — Rafael o encarou com expectativa, esperando que Fordy completasse sua conclusão.
—Talvez Adélia esteja certa em desconfiar – o velho continuou, voltando a si. Ele pegou sua taça e sua revista, bebericando o ultimo gole do liquido vermelho. – Ou talvez não.
—O que quer dizer com isso? – Rafael murmurou rapidamente, agitando-se. Foi completamente ignorado por Fordy, que já atravessava o quarto para chegar até a porta. – E quanto a carta?
Fordy parou onde estava e encarou Rafael por cima do ombro, sentindo a ansiedade para se livrar dele arrebata-lhe a pele.
—Aquela carta deve ser a última coisa com a qual deverá se preocupar, garoto – respondeu, voltando a andar rumo à porta.
—Fordy! – Rafael vociferou atrás dele. – Eu ainda não terminei!
Fordy, porém, tinha outros planos. Não poderia abrir o jogo mais do que aquilo e, se continuasse com Rafael ali e suas indagações, certamente cometeria o erro de lhe contar sobre tudo o que ele já deveria saber àquela altura.
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Nem a água quente do chuveiro parecia diminuir a sensação de sujeira que se impregnava em sua pele. Ele se sentia culpado demais.
Tinha esperança de que Fordy lhe contaria tudo, absolutamente tudo o que ele não sabia. Queria ajudar Adélia também. Queria vingar-se por ela.
Ele tocou o próprio peito, onde seu coração martelava dolorosamente. Sentia algo estranho ali, um calor que nada tinha a ver com a água.
Eu vejo seu coração, Adélia disse.
Rafael sentiu vontade de rir no momento, mas a angustia fez sua garganta se fechar.
Será que ela via o quão ele era podre por dentro? O quanto era feio, asqueroso, medonho e amaldiçoado?
É claro que não sabia, pois, se soubesse, certamente não teria pedido para que ficasse com ela naquela tarde, ou não teria sido gentil e sensível quando pediu para conhece-lo de verdade. No fundo, Rafael ainda queria aquilo. Queria que Adélia o visse, que olhasse para sua pele e realmente enxergasse o monstro que ele era.
Toda aquela situação o fazia se lembrar de Celine.
Não era mais Adélia, era tudo. Tudo estava acontecendo de novo.
Rafael sentiu sua pele queimar quando a água quente seguiu a linha gélida que se espalhava por seu tronco. Estava com medo.
Ele não conseguia simplesmente encarar a si mesmo depois de tudo o que causara, e saber que Adélia poderia ser sua próxima vítima o deixava tonto. Calafrios dançavam sobre seu estômago com a imagem dela na mesma situação que Celine – fria, imóvel e coberta de sangue.
Não era somente pelo respeito que tinha por Adélia, mas algo mais. Era maior que ele – aquele medo sufocante de perde-la.
Ele sabia que Celine não havia passado por nada daquilo. Seu tempo havia sido curto demais ali.
Rafael lembrava-se bem – os dias passavam voando desde que ela chegara. Ele ficava ansioso para vê-la e revê-la, ansioso para lhe mostrar as coisas bobas que escrevia para ela. Era tão estúpido na época que mal se dera conta do quanto a garota estava sempre mal, deprimida e irritadiça com ele.
Como se nutrisse aquele ódio durante muito tempo, como se Rafael já estivesse em sua lista negra antes mesmo de se conhecerem.
Toda aquela angustia que Celine sentia veio à tona quando ele se deparou com seu corpo sendo carregado por uma maca até a porta de entrada. Mal teve tempo de processar o que vira, apenas Adam puxando-o violentamente até estarem em seu quarto, quando o mesmo explodira de fúria.
Fordy tentou, durante aqueles cinco anos, consolá-lo e convencê-lo de que Celine se suicidara e que não havia sido ele a tê-la matado. Mas Rafael compreendia bem o que ele queria lhe dizer, o problema era que, de uma forma ou de outra, ele ainda era o culpado.
Se não fosse por ele, nem Adélia e nem Celine estariam ali.
Se não fosse por ele, Celine poderia estar viva, vivendo a própria vida alheia a tudo o que acontecera – assim como a própria Adélia.
A solidão doía em seu peito como facadas contínuas, e a tristeza já lhe era tão familiar quanto a felicidade, mas Rafael preferia mil vezes sofrer sozinho com tudo aquilo do que ter de fazer outras pessoas passar pelo o que ambas passavam estando junto com ele.
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