A Fera
23 Além da escuridão
Adélia acordou com um sobressalto violento quando sentiu algo pesar sobre seu tornozelo torcido, arrancando dela um gemido involuntário.
Parecia que seu rosto estava muito próximo do sol naquele momento, tirando pela queimação que sentia na pele e nos olhos. A primeira pessoa que viu foi Fordy, que ajeitava um travesseiro sob seu pé já enfaixado e protegido por uma compressa de gelo. Ela ergueu-se para, de uma forma impossível, se afastar do toque do velho, recuando até estar ereta.
A segunda pessoa foi Adam, que analisava curiosamente os movimentos desleixados da garota. Ele alternava seu olhar entre seu pé e seu rosto, coçando o lábio inferior com o polegar. Estava estranhamente pensativo, cauteloso até.
— Teve uma tarde longa, hein? – Fordy murmurou, jogando para ela uma cartela de comprimidos. – Tome. É para a dor.
Adélia puxou um dos comprimidos e o enfiou na boca, recusando o copo de água que o velho lhe ofereceu em seguida. O comprimido ficou entalado em sua garganta por um tempo, antes de descer de forma dolorosa.
— O que vocês querem? – Ela vociferou. Havia tomado um susto muito grande ao perceber a presença dos dois homens ali, e ficou instantaneamente irritada por isso. Não gostava da ideia de estar sozinha entre Adam e agora Fordy, principalmente enquanto dormia. – Por que estão aqui?
— Vá com calma, Adélia — o velho murmurou, repousando o copo que tinha em mão em sua cabeceira. Adélia sentiu seus lábios se umedecerem pelo desejo de molhar a garganta, tomando o copo do lugar quase ao mesmo tempo que Fordy o deixou.
O primeiro gole foi violentamente doloroso, obrigando-a a beber com muito mais calma. Cada molécula que descia por sua garganta lhe causava um incomodo prazeroso; ao mesmo tempo que queimava, aliviava.
— Eu não quero conversar – disse, quase engasgada. Ficou morrendo de vontade de pedir um pouco mais para Fordy, mas não. Não deveria pedir favores a alguém que a ofendera e magoara sua confiança. – Como você mesmo disse, tive uma tarde cheia. Tudo o que menos preciso agora é que vocês me infernizem um pouco mais.
Estava extremamente irritada com os dois homens que a encaravam de volta como se Adélia fosse uma maluca debatendo-se presa a uma camisa de força. Mas ela não estava nem aí. Havia aprendido sua lição e pretendia acabar em paz com aquilo.
— Adam – Fordy disse, ignorando completamente o discurso dela. – Não se esqueça que temos problemas maiores no momento.
Adam encarou o velho com raiva, mas não o contrariou. Se Adélia não estivesse tão cansada, confusa, magoada e dolorida, teria ficado surpresa com a falta de respeito nada mútuo de Fordy com seu patrão.
— Então vá cuidar do que tem para fazer – Adam anunciou, escondendo as mãos nos bolsos da calça. Ele encarava Adélia de forma fixa e assustadora. – Vá, e diga para Rafael que ainda estou aqui.
Rafael.
A simples menção ao nome dele fez o coração de Adélia palpitar de forma dolorosa. Sequer conseguia imaginar em como ele se sentiria quando descobrisse a verdade.
Fordy encarou o homem com desconfiança, mas não o contrapôs. Estava cansado demais para discutir ou defender-se.
— Bom, se assim desejar, então assim seja – murmurou, recolhendo consigo uma bolsa de couro marrom lotada de coisas que Adélia não pôde imaginar.
Antes de bater a porta atrás de si, ele encarou a ambos. Lançou a Adam um olhar vago, poupando para Adélia um olhar desconfiado que transmitia certa irritação com a sua presença. Ela não pode evitar se sentir ofendida com o súbito rancor que ele tinha por ela.
No entanto, tinha outra pessoa para se preocupar no momento.
— O que você quer? – Murmurou para Adam, sem deixar o medo transparecer em sua voz.
Adam não respondeu. Ele deu um passo a frente, até estar próximo de sua cama.
Adélia sentiu um calafrio congelar suas costelas, e ela se escondeu ainda mais sob seus cobertores pesados. Apesar da umidade de sua pele e da queimação causada pela febre, estava com frio. Talvez fosse só a presença de Adam, a amargura e o medo que sentia quando se via sozinha com ele.
— Você não abriu – ele comentou, segurando a caixa retangular que Rafael trouxera para ela na noite passada.
— Eu disse que não fazia questão de seus presentes, Adam – ela respondeu, seca. Encarava a embalagem para não precisar olhar para ele. – Inclusive, pode levar de volta. Não quero, seja o que for.
— Uma pena – ele disse, se afastando. Sentou-se na poltrona de costume de Jeniffer, concentrado em desembrulhar o presente. Adélia estava distraída com a ideia de que ele não fazia a menor noção do que aquilo significava quando Adam ergueu o objeto em mãos e o exibiu para ela. – Suzane adorou. Pensei que se empolgaria com a ideia também.
Adélia deu um sobressalto ao ouvir o nome de sua mãe, mas sua respiração travou mesmo quando encarou o aparelho celular que Adam estendia apontando para ela.
Ela ficou encarando o objeto com uma ardência incomoda nos olhos. Vários pensamentos se embaralhavam naquele momento, e ela mal conseguia organizar a própria respiração em expirar e inserir o ar para seus pulmões.
— O que isso significa? – gaguejou. Não queria parecer apeladora, mas uma pequena fagulha havia se ascendido no seu peito.
Adam se ergueu e ofereceu o objeto para ela pegar, mas Adélia não sabia muito bem como reagir àquilo. Ainda não queria nada que viesse de Adam.
— Pegue! – Adam a obrigou e, com dedos trêmulos, Adélia segurou o objeto. Era frio, fino e razoavelmente grande para a sua mão. Ela encarou a tela acesa de forma embaraçosa, mordendo o lábio com força. – Eu lhe dei a oportunidade de conversar com os seus pais. Se não fosse tão grosseira e arrogante, teria aproveitado a tempo.
Foi inevitável segurar a lágrima quente que molhou sua face quando Adam lhe disse aquilo. Não chorava pela forma rude como estava sendo tratada, mas pelo fio de esperança que nasceu e morreu naquele mesmo instante.
— Como eu poderia adivinhar? – Quis gritar, mas a dor em sua garganta não lhe permitiu. Ela encarou Adam, segurando o aparelho firmemente entre os dedos. – Por quê?
Adam suspirou. Havia pensado muito no assunto antes de tomar aquela difícil decisão, mas nunca imaginou que iria desejar tanto ensaiar algumas respostas e justificativas. Na verdade, nunca imaginou que sentiria a necessidade de se justificar para alguém – principalmente a Adélia.
Ele encarou o rosto dela, sentindo algo em seu peito palpitar. Nem toda a sua arrogância e grosseria seria capaz de arruinar aquela faísca admirável que incendiava toda a sua áurea. Mesmo com os olhos um pouco inchado pelas lágrimas, o lábio ferido e a pele avermelhada, Adélia lhe transmitia um sentimento inegável de paz.
Não era difícil imaginar o por quê seu filho se jogava de bandeja sob seus pés. De todas as garotas que Adam analisara em todos aqueles anos, Adélia foi quem mais lhe rendeu os resultados que esperava.
No fundo, ela era quem ele mais admirava. E temia.
— Você merecia – ele respondeu.
Adélia riu por trás das lágrimas, sem conseguir acreditar.
Estava chocada demais para falar. Esperançosa demais para recusar aquele presente. Seu peito doía de saudades de seus pais só com aquela recém expectativa de falar com eles novamente, mesmo que a distância.
— Adam... — Ela não sabia como agradecê-lo.
— Estou sem paciência para os detalhes, portanto, encontrará todas as instruções que precisa saber aqui – ele lhe entregou a caixa do aparelho de forma fria. – Mas há algo que terá que fazer por isso.
Adélia o encarou com expectativa, esperando por suas palavras.
— Não conte a ninguém sobre isso – ele completou, caminhando para a porta. – Nem mesmo a Rafael, muito menos a Fordy. Esconda, se possível, em um lugar seguro.
Adélia não conseguia acreditar que aquilo era real. Não conseguia acreditar que Adam, pela primeira vez na vida, estava sendo bom com ela. Estava pensando nela.
Você merece... era inacreditável!
— Adam? – Ela chamou, enquanto ele abria a porta.
— Eu disse sem detalhes agora, Adélia...
— Não – ela murmurou, acuada. Não sabia muito bem como reagir diante daquele gesto. Nunca imaginou que se sentiria tão agradecida por algo que ele tenha feito. – Bem, obrigada por isso.
Adélia esperou que ele zombasse ou fizesse algum comentário com tom desprezível, mas ele simplesmente deu de ombros e, suavemente, fechou a porta atrás de si e partiu.
Aquela atitude vinda de alguém como Adam a deixava tão confusa que a cabeça de Adélia doía. Estava tão acostumada a ser tratada de forma ruim por ele que, na menor atitude contrária, ela ficava desconfiada e atenta.
Mas não queria se preocupar com Adam naquele momento, embora sentisse que poderia agradecê-lo de novo se voltasse a vê-lo. Ao invés disso, ela procurou na caixa do aparelho pelas instruções mencionadas, puxando de lá um cartão dobrado três vezes com alguns tópicos.
Adélia estava tão eufórica que teve de ler cada tópico daquele mais de uma vez. Não era nada demais, claro. Mas não queria correr o risco de perder algum detalhe importante enquanto falava com seus pais.
Adam mencionava que, dentre as regras — as quais ele chamou de instruções – Adélia só poderia conversar com seus pais a partir das cinco da tarde. Era uma questão de segurança, segundo ele, por conta de algum detalhe técnico que ela estava pouco se lixando. A outra coisa era que o aparelho havia sido completamente reprogramado de forma totalmente limitada.
Se Adélia quisesse quebrar as regras e conversar com seus pais antes do horário, o aparelho bloquearia o contado denominado “Suzane&Thiago” por um longo período de tempo. A outra era que, caso se perdesse, ela jamais poderia contatar o GPS daquele troço.
Aparelho não-rastreável, Adam mencionara em seu bilhete.
Mas aqueles pequenos detalhes pouco importavam para Adélia. Ela já estava ligando para eles naquele exato momento, tremendo enquanto roía a unha de seu dedão em expectativa.
Passou alguns segundos angustiantes, mergulhada em agonia, esperando que aquele tum,tum, tum fosse interrompido pela voz de sua mãe pronunciando seu nome.
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